segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Dian Kuang - 癫狂

As noções de desvio de comportamento e contato com a realidade, que definem a loucura (psicose), estão presentes em todos os povos. Entre os chineses os conceitos de sábio e "tonto" (愚人, yu ren, fool) podem ser identificados nos provérbios de Confúcio (Analectos) ou textos de Chuang Tse e Lao Tse, a exemplo de "O velho tonto que removeu montanhas" e o "Confúcio e o louco".

Na primeira fábula valoriza-se a persistência e vontade abnegada de um homem que parecia tolo por não desejar recompensas e, sobretudo por entregar-se a uma tarefa que parecia impossível (remover montanhas para encurtar uma estrada), por sinal acaba conseguindo com ajuda divina e de uma geração de seguidores. A segunda história, também recontada por Chuang Tsé cita um episódio vivido por Confúcio. Relativiza o comentário de um louco, que afirma que a sabedoria só faz sentido num mundo onde seja valorizada, de certo modo reafirmado a máxima de Lao Tsé que diz: os homens rudes riem do Tao como se fosse tolice e os homens sábios o reconhecem.

A MTC – Medicina Tradicional Chinesa, também aborda os Distúrbios Mentais como sofrimento e dano emocional. Atribuem, sobretudo uma agressão a função do Shen (coração) geralmente causada pelo fogo, flegma ou vento. Os textos modernos, como o livro dos Quatro Institutos produzido pelo governo revolucionário para divulgar a acupuntura, já utilizam, porém aproximações aos conceitos ocidentais de psicose, depressão, mania e histeria. Conceitos, diga-se de passagem, ainda sem consenso no âmbito da própria psiquiatria / psicologia deste nosso lado poente do hemisfério.

A "Histeria", no referido Livro dos quatro institutos, é descrita como um ataque repentino, sensação de sufocamento, afonia, convulsão, síncope, um típico distúrbio mental provocado pelo fogo, repressão de emoções, distingue-se da mania Kuang que é uma doença do vento com fígado e rins deficientes, ou seja que requer sedação - tonificação de seus respectivos meridianos.

Observe-se que a MTC assinala a relação da Mania, como da depressão (retraimento - desorientação/loucura) num quadro denominado Dian Kuang (癫狂), agitar-se de modo selvagem e permanecer calmo, Dian (癲). Esse termo corresponde à ideogramas associados a confusão, colisão, erro, embotamento e "divinação", ao que vem da divindade oráculo. Observe-se essa mesma expressão de relação com o sagrado estava também presente entre os gregos, igualmente identificada à Epilepsia – Dian Xian (癲癇) ou Yang Dian Feng (羊癫风) que poderia ser traduzida literalmente por "vento - cabra - louco". (Scott)

Na análise dos referidos caracteres feita por Maciocia o ideograma “dian” é composto por “zhen” corresponde ao ideal taoísta de homem gentil; “ye” ou alto da cabeça, através do qual a alma do homem amável sai e “bing” o caractere para doença representando em síntese a doença, onde “perde-se” a alma através da cabeça (perder a cabeça) e Kuang, incoerências de cachorro louco. (Maciocia).


Assim como na psiquiatria moderna (para alguns), supõe-se controlar as depressões, (melancolia) e manias ou mesmo a psicose maníaco depressiva apenas com psicofármacos, há quem acredite que somente o tratamento através com as agulhas da acupuntura, pode-se controlar o(s) processo(s) patológico(s) denominados por eles como “Dian Kuang” que também correspondente à concepção moderna de transtorno bipolar.

O antigo "Ling Shu", apresenta uma série de pontos à ser utilizados por acupuntura e moxabustão, recomenda também a sangria (dispersão) em casos de agitação. Nos comentários de Ming Wong à esse livro há também a recomendação ao entendimento do Dian Kuang no universo mental de outrora. Segundo ele a “loucura” é um termo vago que evoca o “vento” e a concepção chinesa não escapa a essa regra. O termo “feng” (vento - 风) significa loucura (envolvido pelo caractere “bing”. O doente está dominado pelo vento que suscita as perturbações mentais é preciso então extirpar essa energia perversa. (Ming Wong).

Naturalmente considero que são preciosos os critérios de diferenciação das diversas causas e promissores o tratamento através da acupuntura, fitoterapia e moxabustão da medicina chinesa, contudo como ocidental e profissional de saúde mental não é possível ignorar as descrições das alterações de comportamento da psicopatologia e pensar em formas de psicoterapia (cognitivas, comportamentais ou psicanalíticas) ou mesmo nas formas de aconselhamento (prescrição comportamental incluindo os familiares), quando se lê por exemplo no Nan Ching, o clássico das dificuldades:

...na “loucura” a pessoa raramente descansa ou não sente fome. Ela falará de si mesma como ocupando uma posição elevada e exemplar. Ela mostrará sua sabedoria especial e terá um comportamento arrogante e insolente. Ela rirá – e terá prazer em cantar e fazer música – sem razão, andará sem rumo sem descansar...

ou: na “epilepsia” (Dian) os pensamentos da pessoa são tristes. Ela se deita e olha diretamente para frente...

Um bom acupunturista deve não só dominar o processo de diagnóstico para distinguir as diferentes formas de intervenção com agulhas nos pontos apropriados ou demais técnicas na MTC, mas também, com já havíamos dito antes aqui nesse blog, buscar na meditação, estudo de sí e conhecimento filosofia oriental, a atitude reflexiva correta para um aconselhamento para o desenvolvimento progressivo de uma modificação de estilo de vida ou o aprendizado de hábitos saudáveis.

Lhes deixo essa reflexão do Tao Te Ching:











Um verdadeiro homem de bem (o Te / A virtude) não é “consciente” da sua bondade; por isso mesmo é bom (É isso que o Te é)

A virtude que se afasta da humildade (Ao Te humilde não falta o Te) não é a virtude (É o que o Te não é).

Um verdadeiro homem bom não faz nada para ser;
não obstante não deixa nada sem fazer.

Um homem tolo (os mais desprovidos de Te) está sempre fazendo, (sonhando/ planejando); não obstante muito fica sem fazer

Quando um verdadeiro homem amável faz algo,
não deixa nada sem fazer

Quando um homem das duras penas da lei faz algo, deixa muito sem fazer.

Quando um homem das aparências faz algo, exige que lhe respondam.

Portanto quando se perde do Tao, vem a virtude
Depois da perda da virtude, vem a bondade
Depois da perda da bondade, vem a justiça.
Depois da perda da justiça, vem o rito.

O rito é a aparência da fidelidade e da confiança (a casca da fé e lealdade) mas é também a fonte da desordem. (o começo da confusão).

A inteligência previdente (o poder preditivo da ciência) é a flor do Tao, mas é também o começo da estupidez (o princípio do desatino).

Assim o grande homem interessa-se pelo fundo e não pela superfície.

Pelo fruto, mais que pela flor.

Certamente prefere o interior, ao exterior.


XXXXXXXXX Bibliografia XXXXXXXXX

REPÚBLICA POPULAR DA CHINA - MINISTÉRIO DA SAÚDE/ QUATRO INSTITUTOS (Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa). Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

MACIOCIA, GIOVANNI The Psyche in Chinese Medicine,Treatment of Emotional and Mental Disharmonies with Acupuncture and Chinese Herbs. UK, Hardbound, Elsevier, 2009

MERTON, THOMAS. Via de Chuang Tzu.RJ, Petrópolis: Vozes. 1978

SCOTT, JULIAN. Acupuntura no tratamento da criança. SP, Roca, 1997

XXXXXXX Clássicos XXXXXXXX

CONFÚCIO. Diálogos. Tradução Anne Cheng / Alcione Soares Ferreira. SP, Ibrasa, 1983.

LING-SHU, Base da acupuntura tradicional chinesa. Tradução e comentários de MING WONG. SP, Andrei, 1995

NAN CHING. O clássico das dificuldades. Tradução do chinês e notas de Paul U. Unschuld. SP Roca, 2003

LAO TSE (LAO TZU) Tao Te Ching. Tradução de António Melo. Lisboa, Estampa, 1977 / Tradução (pt) de Waldéa Barcellos a partir da tradução americana. SP, Martins Fontes, 2002 / Edição bilíngue, tradução de Maria Lucia Acaccio. SP, Isis, 2003

Desenhos de:

Vincent Van Gogh (1853-1890) - Sorrow, 1882

Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828), Frick Collection

Ver também:

Acupuntura e psicologia

Dian Kuang - Giovanni Maciocia

Acupuncture for schizophrenia (Cochrane Library)

...neste blog

- Plantas calmantes história e composição

- Cinnabaris 朱砂 (Zhusha)


quinta-feira, 10 de março de 2011

O movimento das cinco estações



Cada dia com sua glória, cada dia com sua dor... bem que esse adágio pode ser chinês e expressar a dinâmica dos cinco movimentos ou elementos: madeira () e/ou, ar (), fogo (), terra (), metal (),  e água (水) ao longo do dia ou durante as estações do ano.

Na medicina tradicional chinesa, com se lê no “Livro dos Quatro Institutos”, compilado pelo Ministério da Saúde chinês reunindo as principais escolas de acupuntura do país, a teoria dos cinco elementos explica a relação de estímulo recíproco, interação, exagero e neutralização entre eles, a madeira (木),  o fogo (火), o metal (金), o ar (上) e a água (水)  e os meridianos ou canais de energia  (经络 - Jīng Luò). Sua aplicação, segundo essa ciência tradicional, consiste em classificar nestas cinco categorias distintas todos os fenômenos naturais, além dos tecidos, órgãos do corpo humano, respectivos meridianos e as emoções humanas. Interpreta-se também a relação entre a fisiologia e a patologia do corpo humano e o ambiente natural com as leis do estímulo recíproco, da interação, do exagero e da neutralização deduzidas da relação entre os citados cinco elementos.

Contudo para um ocidental entender como esta metáfora ou "teoria analógica" é utilizada como guia na prática médica, nada como a antropologia estrutural, a ciência que nos possibilita o devido distanciamento do outro e de si mesmo para permitir o seu entendimento. Somente o entendimento da relação entre o símbolo e a coisa referida, enquanto instrumentos conceituais, nos permitem o constante deslocamento de planos de comparação e explicação para entrever o sentido seu lógico. Esse é o método mito-poético proposto por Levi-Strauss que decifra a analogia presente dos mitos. A projeção do eixo paradigmático sobre o sintagmático como num poema que lida com a sonoridade das palavras, sua natureza, grafia e significado, foi como ele descreveu.

Na proposição do citado antropólogo todo mito coloca um problema e o trata mostrando que é análogo a outro problema ou símbolo, tipo fogo, água, vento, etc.. Sua característica é esse jogo de espelhos e reflexos que se remetem mutuamente, sem nunca corresponder um objeto real (exatamente), para ser mais preciso, o objeto tira sua substância das propriedades invariantes que o pensamento mítico consegue extrair, quando coloca em paralelo uma pluralidade de enunciados" (Levi Strauss, 1976). Em nosso caso, dos 5 elementos, lidamos com uma série de comparações, às vezes apresentadas como matrizes circulares articulando emoções à estações do ano e fatores ambientais. Outras séries de categorias podem ser incluídas tais como sabores, cores e principalmente, pois trata-se de uma tecnologia médica, patologias e a dinâmica da energia nos meridianos ou nos conjuntos de pontos selecionados por essa "regra" de sua mútua inter-relação e efeitos específicos. Nesse proposição consideramos essencial analisar as relações entre:

Emoções: Raiva (agressividade / 怒 nù) ; Alegria (喜 xǐ ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si / xiǎng); Tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Medo (恐 kǒng) / Apreensão/ ansiedade (忧 yōu).

Estações: Primavera (春 chūn); Verão (夏 xià); Final do verão (Canícula, calor do cão / 天狼星); Outono (秋 qiū) ; Inverno (冬 dōng ).

Fatores ambientais: Vento (风 fēng); Calor (热 rè); Secura (燥 zào); Frio (冷 lěng); Umidade (潮 cháo).

Naturalmente o conhecimento acumulado na tradição empírica de milhares de anos, modelou os conjuntos de pontos selecionados e sua correlação com alimentos, sabores, emoções, nas distintas patologias e estações do ano. Algumas correlações das doenças e estações do ano são bem conhecidas por nós ocidentais a exemplo das gripes e meningites no inverno, as depressões cíclicas (sazonais), diarreias e patologias transmitidas por mosquitos no verão, alergias e o pólen das flores primavera, outras são próprias da medicina tradicional chinesa e ainda estão sendo apreendidas.

A grande fonte desse conhecimento na tradição chinesa, como reconhecido por todos, é o Nei Ching, Livro do Imperador Amarelo, acrescentei a estes alguns poetas orientais, porque nada como a poesia para expressar as emoções.

Lê-se no Nei Ching:
“O céu se situa acima, é o acúmulo do Yang luzidio acima; a terra situa-se abaixo é o acúmulo do Yin turvo abaixo. O Yin associa-se à calma, e o Yang se associa ao movimento impetuoso. O yang se associa ao nascimento (como na primavera) e o Yin se associa ao crescimento (como no verão); o Yang se associa ao desenvolvimento (como no outono) e o Yin se associa ao ocultar (como no inverno). O yang tem a função de ativar a energia vital e o Yin tem a função de dar forma corporal a todas as coisas”...

“Na natureza há o lapso das quatro estações e as alterações dos cinco elementos produzem as cinco energias, isto é, frio, calor, secura, umidade e vento, e assim por diante a fim de promover o nascimento, o crescimento, a colheita e o armazenamento de todas as coisas. Já que a natureza e homem se combinam numa só, há como correspondência cinco vísceras para o homem. As cinco vísceras do homem produzem as cinco energias que surgem respectivamente como excesso de alegria, raiva, melancolia, ansiedade e terror.

“A excitação dos humores como alegria excessiva raiva, etc., pode danificar as vísceras, então, fere a energia vital do homem. A súbita alteração de diversos climas, tais como frio, calor, etc. Pode invadir os músculos e a pele ferindo conseqüentemente o físico do homem.

“A raiva violenta faz com que a energia vital flua em contracorrente e force o sangue correr para cima causando estagnação na parte superior e com resultante deixando o Yin ferido. O excesso violento de alegria faz com que a energia vital se infiltre em sentido descendente e como resultado o Yang será ferido.

“Quando o corpo for afetado pelo calor perverso do verão, no verão e a doença não ocorrer imediatamente o calor de verão ficará retido no interior, e quando o corpo for invadido pelo vento perverso no outono, a contenção de frio e calor, um contra o outro, irá causar malária (doença febril) no outono. Quando o corpo ficar afetado pela umidade perversa no outono, está irá subir em contracorrente para atacar o pulmão e irá ocorrer tosse no inverno quando o frio começar a se evadir.”

Muitas vezes o próprio nome da patologia já expressa a correlação entre um elemento interno (emoção) e externo como nas doenças reumáticas conhecidas como doenças do frio-vento, tristeza e umidade ou na sua denominação se acentua o elemento exógeno tipo: a invasão de vento (golpe de vento) causando o acidente vascular cerebral; a “invasão do calor no verão” provocando a insolação; “labaredas de fogo no coração devido a insuficiência da água (rins)” causando a insônia ou distúrbios da ejaculação (se causados por desregramento sexual); a “invasão do pulmão causada por vento-calor exógeno causando paralisias entre outras. O próprio Nei Ching relaciona os principais danos associados à emoção como veremos a seguir nesse exemplo da relação entre a madeira e o elemento ar e seu correspondente metal descrito pelo “Imperador Amarelo”:
“... a emoção do fígado é a raiva, a raiva excessiva pode lesar o fígado, mas a tristeza pode sobrepujar a raiva (a tristeza é a emoção dos pulmões, e o metal (ar) pode dominar a madeira). O vento em excesso irá lesar os tendões, mas secura pode prejudicar o vento (a secura corresponde ao metal (ar) e o metal pode dominar a madeira); o excesso de ingestão de alimento ácido poderá lesar os tendões, mas o picante pode dominar a acidez (o picante pode dominar o metal e o metal pode dominar a madeira).”

E como já referido nada como a bricolagem poética para decifrar e explicar as emoções humanas que não seguem exatamente os típicos comportamentos animais relacionados à sazonalidade. Lutas por hierarquia e disputa de fêmeas entre machos e nascimento e cuidados com as crias entre fêmeas na primavera; cópula e crescimento / socialização de filhotes no verão; engorda e apreensão no outono; migração, hibernação ou morte no inverno. Assim sendo lhes deixo com alguns poetas orientais e seus escritos sobre as estações do ano.

Estações do ano
Matsuó Bashô (1 e 2), Rihaku (Li Po / Li Bai - 3, 4 e 8) e outros poetas

Primavera
No Japão vai de março a maio
cereja em flor
vermelha, vermelha, vermelha
vermelha flor
1
chuva de primavera
a água escorre do teto
pelo ninho de vespas
1
rio ôi
sopre pra longe
nuvens das chuvas de maio
1
adeus primavera
chora o pássaro num canto
lágrimas nos olhos de peixe
2
o rio Mogami
junta as chuvas de maio
ao mar
2
pertinaz esplendor
eleva-se ante a chuva
o templo de luz
2
Kisagata
a beleza dorme na chuva
mimosas úmidas
2


Verão
No Japão vai de junho a agosto
o dia em chamas
joga no mar
o rio mogâmi
1
relva de verão
guarda dos guerreiros
o sonho
2
As borboletas, aos pares,
ficam já amarelas com o Agosto
Sobre a erva no jardim de oeste;
E magoam-me. Envelheço.
Se desceres pelos estreitos do rio Kiang,
Por favor manda-mo dizer com tempo,
Para que eu possa ir ao seu encontro
em Cho-fu-Sa
3

No Japão os tufões são comuns entre o fim do verão e o início do outono.

o mar escurece
a voz das gaivotas
quase branca
1
relampagueia
através das trevas
a garça ecoa
1

Outono
No Japão vai de setembro a novembro
conversa noturna
o vento de outono
e a montanha
2
melancolia
mais lancinante que Suma
praia de outono
2
movam-se túmulos
ouvi meu pranto
vento de outono
2
arde o sol
mas o vento
é outono
2
mas branco que as pedras
da montanha de pedra
o vento de outono
2
vento amotina ondas
pinheiros gotejam
úmida luz da lua
2

Os degraus no orvalho são diamantes branco - brilhantes
Esse orvalho ensopando meus sapatos de pano
caindo feito uma cortina de cristal
faz a lua clara do outono
4

Inverno
No Japão vai de dezembro a fevereiro
aguaceiro de inverno
incapaz de esconder a lua
deixa-a escapar de seu pulso
5
caminho de gelo
piso relâmpagos
luz de minha lanterna
6
a geada queimou tudo
até o cachorro
vaga a esmo
7
montanha de inverno
o menino adotivo do bar
é filho do sol nascente
7

Balada das quatro estações: Inverno
O mensageiro partirá no dia seguinte, disse ela.
Que costurou por toda noite as fardas de guerra
Com seus dedos sentindo o frio da agulha.
Mas como ela pode segurar firme uma tesoura?
Seu trabalho foi feito, e vai ser entregue bem longe dela
E quando ele chegar à cidade onde os guerreiros estão?
8

Acredita-se ser fundamental, como referido a tentativa de apreensão do sistema em si (uma abordagem êmica) contrapondo-se à uma descrição étnica (do sistema em relação a outros) e grandiosa é a contribuição da poesia para traduzir, nesse caso os sentimentos e emoções relativos ao clima e estações do ano. Observe-se contudo que as comparações com outros sistemas são importantes, sobretudo na antropologia médica, que pretende revelar as normas culturais ou regras ocultas em termos sociais. Segundo Laplantine esta inter-disciplina ..."não pode dispor-se a abandonar a reflexão sobre a doença aos cuidados das pretensões da filosofia, das ideologias, das religiões, nem sequer do discurso oficial da (bio)medicina." (Laplantine,1991, p.34).

Uma outra possibilidade de interpretação que se elaborou além dessa tentativa de apreender as concepções de emoção, estações do ano e fatores patogênicos/ patologias na percepção oriental (chinesa) acima esboçada, foi a comparação desta concepção chinesa de emoções e patologias com as nossas, ocidentais e antigas concepções, expressas na conceito de energia vital, plenamente utilizado na (bio)medicina ocidental ou medicina cosmopolita até finais do séc. XIX, como podem ser lidos nos aforismos médicos (medievais - renascentistas) e nos antigos provérbios de origem grego-judaica. ver: "Energia vital, vida e saúde em aforismos e antigos provérbios médicos da tradição oriental e ocidental".

Primeira parte: A tradição judaico-semítica: Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina semítica.

Bibliografia

CHINA, Gov. Ministério da Saúde / Quatro Institutos – Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjng; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

LAPLANTINE, François. Antropologia da doença. SP, Martins Fontes, 1991

LEMINSKI, Paulo. Matsuó Bashô. São Paulo, Brasiliense, 1983.

LEVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem São Paulo, Companhia Ed Nacional, 1976

NEI CHING, (Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo). Compilação de Bing Wang (dinastia Tang). SP, Ícone, 2001

VERÇOSA, Carlos. Oku: viajando com Bashô. Salvador, Secretaria de Cultura e Turismo do Governo da Bahia, 1996.

Notas bibliográficas

1 trad. P. Leminsky
2 trad. C. Verçosa
3 Rihaku/ Ezra Pound, Cathay , trad. G. Cunha Lisboa, Relógio d’água, 1995
4 Rihaku / Ezra Pound, Cathay / Costa PPPR
5 Tokoku/ trad. C Verçosa
6 Jugo/ trad. C Verçosa
7 Nenpuku Sato. Trilha forrada de folhas. SP, Acidente, 1999
8 Folk-song-styled-verse / Li Bai
Tang Shi San Bai Shou / 300 Tang Poems - Heng-t'ang-t'ui-Shih, 618-907 Electronic version

domingo, 22 de agosto de 2010

Aprendendo acupuntura no ocidente

Um dos dilemas do médico ou profissional de saúde ocidental, interessado na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), é saber o quanto da cultura oriental precisa ser assimilado para que se possa entender e praticar acupuntura, por exemplo, com a mesma perícia de um oriental. 

Por outro lado a própria escolha do estudo e prática da acupuntura ou medicina tradicional chinesa parece ser um processo contínuo de (aculturação inversa) de encantamento pelo saber oriental. O desafio entretanto permanece: para aprender acupuntura há de se vencer a barreira das culturas (étnicas), a multiplicidade de idiomas e estudar de si mesmo, para que se possa entender outra forma de ver e sentir o que em chinês significa Chi (Qi - 氣) ou Shén (神 - e/ou mente, espírito ??). Decerto que a formação do acupunturista, não é extatamente análoga a formação de um psicanalista, do qual se exige a análise pessoal (auto-conhecimento) com o mesmo peso dos estudos teóricos e supervisão clínica, ou estágios, contudo a ênfase dada a importância e valor das práticas de meditação (taoístas ou mesmo budistas) nos bons centros de formação em medicina chinesa, evidencia esta exigência. No mínimo as fontes tradicionais do taoismo (o Tao Te King) e da própria medicina tradicional (O livro do Imperador Amarelo) são constantemente mencionados.

O idioma (língua) segundo Matoso Camara Jr. apresenta-se como um microcosmo da cultura. Tudo que a cultura possui se expressa através da língua; e esta é em si mesma um produto cultural. Sem resolver tal paradoxo não há de se ter uma perfeita compreensão da cultura chinesa e de suas tradições. Há que se buscar uma cooperação entre essas ciências. Como disse o mestre Lévi-Strauss, se houvesse uma correspondência absoluta entre a língua e a cultura, os antropólogos e linguistas já teriam se dado conta disso.

O idioma chinês se destaca por sua particular utilização de "ideogramas", que por sinal não correspondem necessariamente a ideias, como interpretou Bertrand Russel no seu livro "O problema da China" (1922). Segundo Fischer (2009) os caracteres da escrita logográfica chinesa representam palavras - morfemas (o fragmento mínimo capaz de expressar significado) monosilábicos únicos ou combinados. Alleton (2010) calcula que um dicionário usual comporta de 3.000 a 9.000 caracteres (sinogramas) para essa escrita morfo silábica ou logo-gráfica escrita, com cerca de 1.250 sílabas diferentes - o fonema equivalente a cada sílaba e o contexto da fala é o que orienta a escolha dos "ideogramas". Ressalta que o grandes dicionários (enciclopédicos) podem chegar a 45.000 formas gráficas diferentes. 

Contudo, de qualquer sorte, um dos méritos notáveis da escrita chinesa é a manutenção de sua relativa uniformidade ao longo da história, além da possibilidade de comunicação que criou entre as dezenas de etnias que convivem em um mesmo território, com distintos idiomas e dialetos, transcritos da mesma forma. Decerto pode se perguntar se o domínio destes mesmos signos podem contribuir para compreensão integração da acupuntura nas distintas vertentes da ciência e cultura ocidental? Hipótese esta que poderá ser respondida por pesquisa empírica da ampla difusão da prática da acupuntura no ocidente. Segundo o Instituto Confúcio da UNESP, considera-se que alguém que domine a língua chinesa escrita, conheça em tono de 2.000 "ideogramas" Um especialista em Medicina Tradicional Chinesa, que reconheça o nome original dos pontos e meridianos da acupuntura, o nome das principais sídromes de acordo com os pricípios do Yin/Yang e Cinco Elementos (ou movimentos) e pelo menos o nome de uma centena de plantas, ervas e formulações chinesas deve reconhecer uma média de 500 "ideogramas"

Yu-Kuang Chu observou que, por não ter como predominante na estrutura da sentença a relação sujeito - predicado o chinês não desenvolveu a noção de lei da identidade na lógica nem o conceito de substância em filosofia, essenciais para refletir sobre as noções de causalidade e ciência (no paradigma ocidental). O chinês desenvolve, em lugar disso, segundo esse autor, uma lógica correlacional, um pensamento analógico e um raciocínio relacional extremamente úteis em teoria sociopolítica, ética e filosofia da vida.

Outra relação entre linguagem chinesa e pensamento pode ser estabelecida por correlações entre os hemisférios cerebrais, como assinala Carneiro: o lado esquerdo do cérebro reconhece letras e palavras, enquanto o lado direito reconhece faces e padrões geométricos. O nosso alfabeto, por ser silábico, estimula o lobo esquerdo; os ideogramas dos orientais, utilizando símbolos, desenvolvem o lobo direito. Uma ciência baseada do sentimento e intuição pode advir das características linguísticas referidas.

A antropologia, por sua vez, permite-nos uma abordagem êmica (do sistema em si) e étnica (do sistema em relação a outros) de sua prática, ou seja, é preciso compreender o que são tais fatos sociais: o "ritual" clínico, processo diagnóstico - terapêutico, para aqueles que os vivenciam, bem como quem são esses pacientes e principalmente quem são esses aprendizes, mestres e naturalmente o que eles aprendem e praticam. Poderá responder algumas perguntas mas, diz-se em acupuntura, que somente com a prática e a observação do paciente e de suas reações se aprende a sentir o Chi, o que é uma conquista individual.

Pode se dizer que autoconhecimento resultante da meditação ou introversão, capaz mesmo de alterar a personalidade (Jung, 2022) e produzir calma é tão relevante para MTC como o bem estar resultante nas alterações da sensibilidade resultantes da ação da acupuntura nesse princípio imaterial do chi em seu fluxo nos meridianos enquanto trajetos, ciclos e pontos, aqui mostrados nos vídeos do Dr. Wolfgang J. Schneider (expostos abaixo). Requer a auto-análise, como referido, e a reflexão que os orientais e os xamans buscam por meio da meditação (deslocamento da consciencia do mundo externo para o mundo interno (Menezes e Dell'Aglio, 2009). De certo modo a formação de profissionais desta prática deveria se aproximar da proposição de aprendizado da psicanálise no ocidente, priorizando a observação da relação médico - paciente, onde, como dito, a saúde mental e a análise do analista são pré-requisitos do futuro analista.

A relação mestre discípulo onde um mestre auxilia e acompanha seu discípulo em dificuldades, que não são apenas a memorização de regras e regiões anatômicas, aproxima-se da análise didática da psicanálise porque é nessa relação supervisionada de curador - cliente, médico - paciente ou analista - analisado que sente a própria energia (traduzível como calma, vitalidade, odor, etc.) e a energia do outro no qual pretende intervir descobrindo o local exato do ponto de acupuntura, cuja apresentação em diferentes corpos ele aprende a identificar pela medida "cun" ou "medida do polegar" do paciente, e a profundidade de inserção da agulha, que varia com o giro feito por seus dedos em movimentos de sedação ou tonificação enquanto observa a "chegada do Chi", algo que os manuais não podem ensinar.






Fontes:

Alleton, Viviane. Escrita chinesa. RGS: L&PM, 2010

Carneiro, Celeste. Lateralidade, Percepção e Cognição. Revista Cérebro & Mente(Nucleo de Informática Biomédica da Universidade Estadual de Campinas) Junho de 2002
Disponívem em: http://www.cerebromente.org.br/n15/mente/lateralidade.html - Consultado em Outubro de 2010.

Chu, Yu-Kuang. Interação entre linguagem e pensamento chinês. in: Campos, Haroldo. Ideograma, lógica, poesia, linguagem. SP: Cultrix - Ed USP, 1977

Fischer, Steven Roger. História da escrita. SP: Ed. UNESP, 2009

Frietzen, Priscila História da Acupuntura Clássica Chinesa http://www.priscilafrietzen.com.br/2009/07/01/acupuntura-classica-chinesa/, 2010

Jung, Carl G. A psicologia da Yoga kundalini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022

Levi-Strauss, Claude. Língüística e antropologia. in: Levi-Strauss, C. Antropologia estrutural. SP: Cosac Naify, 2008

Matoso Camara Jr., J. Introdução à línguas indígenas brasileiras. RJ: Museu Nacional, 1965

Menezes C.B.; Dell'Aglio, D.D. Os efeitos da meditação à luz da investigação científica da psicologia: revisão de literatura. Psicologia, Ciência e Profissão, v.29, n2, p. 276-289, 2009

Nan-Ching, o clássico das dificuldades, Tradução do chinês e notas de Paul U. Unschuld. SP: Roca, 2003

Qi Meridiane -- Einführung von Dr. Wolfgang J. Schneider 1/2

Qi Meridiane -- Einführung von Dr. Wolfgang J. Schneider 2/2

Acupuncture Products http://www.acupunctureproducts.com/acupuncture_meridians.html

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O SISTEMA ETNOMÉDICO CHINÊS

Medicina tradicional X Ciência moderna

A especificidade da medicina tradicional chinesa não torna essa prática essencialmente distinta de outros sistemas etno - médicos, exceto, porém, por sua notável semelhança com a medicina hipocrática - a quem se atribui a origem da moderna medicina cosmopolita. O estudo de sua história revela seu rompimento com algumas tradições "mágicas" e incorporação do conhecimento empírico proveniente de cuidadosas observações que se consolidaram no que vem sendo chamado de paradigma do Yin - Yang e dos Cinco Elementos, descrito em livros clássicos, para os orientais, a exemplo do livro do Imperador Amarelo, documentos etnológicos brutos para o ocidental que utiliza as ferramentas conceituais da antropologia estrutural na proposição de Levi Strauss.

A presente proposição é, tomando como referência as concepções da MTC sobre o cérebro, mar de medula (suǐ hǎi) ou mar de dentro, analisar as características míticas e empíricas do sistema etnomédico chinês, na busca de identificar a lógica de construção do raciocínio clínico inerente a essa prática cultural, analisando simultaneamente as atuais perspectivas de integração da acupuntura ao sistema de saúde mental com suas diversas profissões, saberes e especificidades de sua utilização profissional.

Suǐ Hǎi


O texto acima é o resumo (abstract) da monografia de especialização do autor na Clínica Escola Científica de Acupuntura - CLIMA vinculada à ABA Associação Brasileira de Acupuntura – Seção da Bahia intitulada : O "mar de dentro" um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês que teve como orientador: Jurecê Jorge Machado (Fevereiro de 2003).


Ver também textos proposições na Wikipédia:

Acupuntura e psicologia

Médicos de pés descalços

Profissões da área da saúde

sábado, 5 de setembro de 2009

Ásia 亞洲

A medicina tradicional chinesa (em chinês 中醫, zhōngyī xué, ou 中藥學, zhōngyaò xué), é a denominação usualmente dada ao conjunto de práticas de medicina tradicional em uso na China, desenvolvidas ao longo dos milhares de anos de sua história.

Paradoxalmente subdivide-se em escolas e especificidades de experiências ou tradições que ainda podem ser constatadas quando se estuda diferentes autores, segundo suas origens ou formação. O Ministério da Saúde Pública da República Popular da China contornou essa pluralidade de concepções, quanto a detalhes da aplicação de agulhas, diagnóstico de patologias das distintas concepções etno-regionais, etc., estabelecendo uma nova base de pesquisa empírica a partir do treinamento dos "médicos de pés descalços", (atualmente “médicos rurais”) e da publicação do Livro dos Quatro Institutos que reuniu as experiências e tradições da Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjing e Academia de Medicina Tradicional Chinesa, um livro amplamente divulgado na China e em todo o mundo.

Não poderíamos fugir dessa complexidade pois a China é a mais antiga das grandes Nações, as dimensões de sua tradição são mais de 5000 anos de historia, é o terceiro maior país da terra em extensão territorial (9,56 milhões de Km2) e a mais povoada nação do mundo (1,3 bilhões de habitantes) subdivididas em 56 Etnias, 55 destas (com 60 milhões de pessoas) reconhecidas oficialmente com seus costumes e estilos de vida, cercadas pela população majoritária (93%) que se considera chinesa e se auto denomina Han (originária de um grupo do norte que dominou a China por 400 anos). Apesar de possuir distintos idiomas do ramo ramo sino-tibetano e dialetos, a comunicação entre eles tornou-se possível pela utilização de uma mesma escrita, que, como se sabe foi e é um poderoso fator da unidade cultural e política, introduzido oficialmente durante o breve governo da dinastia Qin 秦朝 por volta de 200 a.C. seguido e mantido pela dinastia Han 漢朝 (206 a.C. até 220 d.C) sendo esse possivelmente um fator de sua hegemonia

Por outro lado o entendimento da da medicina tradicional chinesa (MTC) também se insere no conjunto asiático (grego asiático) – Medicinas Antigas bem como os sistemas médicos tradicionais do Japão, da Coreia, da Índia e Tibete que formam a nossa concepção ocidental de "Medicina Oriental". Observe-se também, como assinala Corral, a Medicina Tradicional Oriental não é somente uma medicina e sim uma tradição minuciosamente transmitida através de conceitos universais do lugar existencial do homem. Suas remotas origens de mais de 5.000 anos, antecedem a concepção de “China” (中国)e podem ser consideradas pertencentes a todo oriente. Apesar da complexidade de se analisar o maior dos continentes, que conta atualmente com cerca de 50 países e cerca 2.000 línguas, estes possuem uma origem e muitos costumes semelhantes, possivelmente induzidos pelas grandes religiões (islamismo, hinduísmo, budismo, taoismo, xintoísmo etc.) e formações imperiais que dominaram aquelas populações. Observe-se também que algumas técnicas tipo os usos específicos de plantas medicinais e a própria acupuntura, foram mantidos ou reintroduzidos recentemente.

Alguns autores, por sua vez, exploram as possíveis conexões entre a China antiga e o Ocidente enquanto uma possibilidade de comparação a exemplo do sinólogo Joseph Needham (1900-1995) que a compara a MTC à medicina hipocrática inclusive como estratégia de tornar seus conceito mais acessíveis aos ocidentais. Merecem ser citados também os trabalhos de Madel Luz e Svoboda & Lade, entre outros, que reconhecem na MTC e na medicina ayurvédica o paradigma da energia vital.


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Referências

China, Ministério da Saúde. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa (Livro dos Quatro Institutos) – Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

Corral, José Luis Padilla. Fundamentos da medicina tradicional oriental: Curso de acupuntura. SP, Roca, 2006

Gabriela Torres. Descifrando la medicina ancestral asiática. BBC Mundo Salud Martes, 19 de marzo de 2013 http://www.bbc.co.uk

Gwei-Djen Lu; Needham, Joseph. Celestial Lancets: A History and Rationale of Acupuncture and Moxa. UK, Cambridge U. Press, 1980. Disponível no Google Books

Haesbaert, Rogério. China, entre o ocidente e o oriente.SP, Ática, 1994

Luz, Madel T. Natural, Racional, Social ; Razão Médica e Racionalidade Científica Moderna, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988

Svoboda, Robert; Lade, Arnie. Tao e Dharma, medicina chinesa e ayurveda. SP, Pensamento, 1998


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China & Índia



É notável a semelhança entre a medicina tradicional chinesa e ayurveda. Logo de início se vê a semelhança entre os cinco elementos e a equivalência da circulação vaso governador - vaso concepção (Du mai – Ren mai) e os canais ida e pingala. A semelhança com a medicina dos humores grega, especialmente os 4 elementos e as duas forças Kaos & Kosmos) também não é fruto do acaso.

Muitas outras semelhanças ou aproximações como os conceitos de Nadis e Marmas, respectivamente comparáveis à pontos e canais ou meridianos podem ser registradas. A primeira vista, na perspectiva desse recorte artificial que a antropologia médica faz do real isso se deve (com exceção dos achados referentes à Grécia) à unidade da Ásia.




Uma das descrições mais conhecidas entre nós é a dos chakras ou cakras melhor descrito no ocidente segundo Eliade, 1972 na tradução do Sat-cakra-nirûpana de Arthur Avalon em 1919 (Avalon, A. The serpent power. Londres-Madras, 1919). Descrições e ilustrações criadas a partir de antigas gravuras indianas dos chakras de diversas procedências são também muito conhecidas (pouco estudadas) e amplamente divulgadas. Aqui no ocidente se associaram aos estudos e concepções religiosas do espiritismo, o que pretendemos abordar em outra ocasião. Na concepção indiana, segundo Svoboda & Lade o corpo físico a energia e fluidos caminham através de canis visíveis (como nervos e vasos sanguíneos), enquanto o "prana" corporal vital (outro conceito sobre o qual se estabelecem paralelos ao Chi (Qi - "氣") da medicina tradicional chinesa) caminha através de condutos e plexos sutis chamados de Nadis e Chakras respectivamente (p.94). Marma é o nome dado ao ponto do corpo humano sob o qual os canais vitais se interceptam. (p.96)

Em seu Livro Tao e Dharma de Robert Svoboda e Arnie Lade (ed. Pensamento, SP, 1998) exploram as semelhanças e diferenças desses dois sistemas etnomédicos, seus autores comentam a acupuntura dos médicos tradicionais e tratadores de elefantes dessa ilha, quase indiana, que é o Sri Lanka (Ceilão), com influência chinesa, mas ressaltam que, embora as doutrinas chinesas e indianas partilhem temas comuns (destaca as semelhanças entre Chi e Prana), são essencialmente únicas, e seus conceitos não podem ser intercambiados na totalidade.

A pratica clínica e a experiência do médico ou terapeuta tem sido o método sob o qual se construiu até meados do século XX a ciência médica ocidental, possivelmente ainda temos muito a aprender com tais experimentos e registros médicos. Gabriel Stux, em artigo publicado no Medical Acupuncture, 1994, estende a aplicação tradicional de acupuntura por incluir o sistema indiano de chakra para diagnose como também tratamento. Em acupuntura de chakra, aparte dos pontos de acupuntura selecionados conforme a tradição chinesa, pontos de chakra adicionais são agulhados na área dos sete centros de energia. Assim o chakras são ativados e o fluxo de energia é estimulado.


Segundo ele essa técnica é uma expansão como também uma complementação da prática de acupuntura chinesa tradicional. Tem a possibilidade de aprofundar acupuntura clássica incluindo o sistema indiano de chakra, que na medicina indiana são centros de energia. Sete principais centros de energia se localizam na linha média do corpo, do perineum para o crânio. Além destes, há algumas dúzias de centros de energia menores de importância secundários que na maioria dos casos também correspondem com o local de pontos de acupuntura. Os chakras, porém, de modo semelhante aos Órgãos Chineses, possuem funções específicas cujas alterações podem ser diagnosticadas e tratadas através dessa técnica.

ver:
CHAKRA ACUPUNCTURE
Medical Acupuncture, 1994 Volume6/ Nº1 http://www.medicalacupuncture.org

e tradução, pelo presente autor: ACUPUNTURA DE CHAKRA

Eliade, Mircea. Yoga, imortalidade e liberdade, 1972. SP, Palas Athena, 1996