quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Fitoterapia & Etnofarmacologia

No Brasil, a fitoterapia não é uma profissão isolada, mas sim uma especialização clínica reconhecida para profissionais de saúde de nível superior, adquirida através do cursos de Pós-graduação ou exercidas por representantes dos sistemas etnomédicos tradicionais de origem africana ou indígena.

De acordo com a Associação Brasileira de Fitoterapia (ABFIT) as profissões de nível superior cujos  Conselhos de Classe considera aptos para  atuar, após  formação reconhecida, como Fitoterapeutas incluem: Médicos Nutricionistas Farmacêuticos Enfermeiros Fisioterapeutas e Dentistas.

Por outro lado sabemos que nosso país abriga uma grande diversidade de culturas originárias e em sua formação sócio-histórica incorporou diversos sistemas etnomédicos africanos europeus e orientais com indicações fitoterápicas, sistemas de classificação de plantas  ou mesmo importação de espécimes, algumas aclimatadas e outras ainda adquiridas no comércio internacional.  

No Brasil há 359 fitoterápicos registrados na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) , sendo 27 compostos (quando o ativo é proveniente de mais de uma espécie vegetal) e 332 simples. A despeito da nossa enorme biodiversidade, a maioria dos fitoterápicos registrados no país são à base de espécies importadas. Das 101 espécies vegetais aprovadas como insumo farmacêutico ativo pela ANVISA, 8 delas são nativas endêmicas, 19 são nativas não endêmicas, 6 são naturalizadas, 6 são cultivadas, e 62 não são originárias do Brasil. Portanto, apenas 38,6% do total dessas espécies vegetais pode ser obtida do solo brasileiro, e desse percentual, 26,7% são nativas. [Carvalho et al] 

Segundo curso organizado pela Fiocruz Brasília com vistas ao fortalecimento e ampliação do uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos por profissionais do SUS (Sistema Único de Saúde) atendendo a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) no Brasil  identifica-se a presença de pelo menos seis paradigmas farmacológicos, a saber: Xamanismo (medicina indígena, ou tribal); Ayurveda, o sistema etnomédico yogue - indiano; a Medicina Tradicional Chinesa; Unani, ou a medicina grego-árabe que de certo modo deu origem a medicina européia antiga; e a Medicina Antroposófica, que no Brasil se confunde com a a medicina natural ou naturopatia por sua origem europeia, nos séculos XIX e XX, e ampla difusão para Américas. 

Etnofarmacologia é a ciência que estuda o conhecimento popular sobre fármacos, (do grego phármakon, que  significa tanto remédio quanto veneno) portanto, uma substância mais ou menos tóxica com efeito transformador no processo saúde doença, utilizada por um determinado grupo étnico o social, em seu sistema tradicionais de medicina.

Mesmo quando formulações tradicionais – e não apenas espécies vegetais – são levadas em consideração, os sistemas médicos tradicionais e/ou a etnofarmacologia não são vistos como fontes potenciais de novos paradigmas para o uso de medicamentos pela medicina hegemônica ocidental.

Entre as possíveis causas desta resistência estão o elevado custo de pesquisas, "pressão" da indústria farmacêutica, e a disponibilidade de recursos humanos capacitados para pesquisa e exercício profissional. Além das razões de ordem étnica quanto a natureza em que tais formas de conhecimento se inserem nos distintos paradigmas farmacológicos ou que se distinguem entre si.

Elisabetsky (2002),  assinala que a atividade farmacológica incomum observada com formulações vegetais pode resultar dos efeitos de mais de um ingrediente ativo, de interações medicamentosas entre ingredientes, de ingredientes ativos que possuem múltiplos mecanismos de ação ou mesmo da interferência com alvos ainda não reconhecidos pela compreensão biomédica atual da modulação da biologia celular. 

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), por exemplo as fórmulas fitoterápicas são construídas combinando ervas com funções específicas, classificadas em quatro categorias hierárquicas: Imperador (Erva-Mestre), Ministro (Auxiliar), Assistente e Mensageiro (Guia). Em geral formuladas com 50% da erva "imperador";  30% da "erva ministro" e 15% de cada uma das restantes (erva "assistente" e erva "guia").

De acordo com Gusmão a fitoterapia chinesa data de tempos remotos, há registros desde o século XXVIII a.C., destacando-se o Clássico da Medicina Herbal de Shénnóng (100-200 d.C.) Shénnóng běncǎo jīng 神農本草經 que lista 365 medicamentos e descreve os princípios de combinações de ervas.

Na Fitoterapia Chinesa e Dietoterapia, os Cinco Sabores (azedo, amargo, doce, picante e salgado) não são apenas gustativos, mas indicam a ação terapêutica segundo a concepção dos cinco elementos associados e/ou propriedades Yin/Yang da síndrome de excesso e deficiência e características da formulação. Observe-se a complexidade da concepção etnofamacológica.

Outro exemplo é o citado por Prinz (1971) de que os povos indígenas não apenas utilizam plantas medicinais, mas estabelecem relações com elas, Etkin e Ross (1982) sugeriram que essas relações entre pessoas e plantas possuem, de fato, implicações fisiológicas.

Segundo Lévi-Strauss, as classificações indígenas não são apenas metódicas e baseadas num saber teórico solidamente constituído, segundo esse autor são comparáveis sob um ponto de vista formal àquelas que a zoologia e botânica continuam a usar. Permitem diferenciar gêneros, as espécies e as variedades.

Observe-se também que o reconhecimento do uso tradicional como parte da comprovação da eficácia e segurança de produtos naturais é possível em algumas legislações internacionais (Ex. Canadá, Comunidade Europeia e México) e recomendado pela OMS desde a conferência de Alma Ata em 1978. No Brasil a Resolução-RDC Nº 48, de 2004 estabelece parâmetros para segurança de uso e a(s) indicação(ões) terapêutica(s) incluindo o levantamento bibliográfico (etnofarmacológico e de utilização, documentações técnico ­ científicas ou publicações) e pelo menos comprovação de uso seguro por um período igual ou superior a 20 anos entre outros critérios.

Estima-se que cerca de 82% da população utilize plantas medicinais na medicina popular brasileira (folk) esses recursos, repassados oralmente de geração em geração. Tal conhecimento, como referido, integra culturas tradicionais, indígenas e quilombolas com a medicina homeopática, a medicina contemporânea e o recente apoio do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos.

A presença e uso da homeopatia, introduzida no Brasil nos finais do séc. XIX envolve a mesma natureza de conflitos da prática fitoterápica. Enquanto comunidades científicas e médicas a classificam como pseudociência por falta de plausibilidade biológica, defensores propõem uma epistemologia baseada na complexidade e em ensaios clínicos integrativos. O paradigma científico hegemônico da medicina baseada em evidências dito medicina alopática contrapõe-se ao modelo terapêutico da homeopatia descrito como holístico ou vitalista.

Numa pesquisa que investigou características do movimento de aproximação e afastamento desta escola médica, entrevistou-se 48 homeopatas e médicos da biomedicina, quanto a opinião formada sobre tal prática. Entre os gestores proponentes da sua institucionalização estavam os que defendem, para garantir a eficácia de suas ações, uma anamnese extensa acompanhada de um exame detalhado de cada paciente, diga-se que esta é uma prática médica que resgata a dimensão humanista da medicina, embora não seja a única escola médica a fazer esta proposição. Entre os que não advogam a homeopatia ou sentem-se inseguros à sua utilização, a consideram como uma "medicina suave", que lentamente poderia promover a melhora dos sintomas e referem-se a poucas as publicações de resultados de pesquisas com a utilização da homeopatia em situações agudas. [Salles, Schraiber]

À guisa de conclusão vale recordar que Thomas Kuhn (1922-1996), físico célebre por suas contribuições à história e filosofia da ciência, em especial do processo que leva à evolução do desenvolvimento científico, em seu livro a Estrutura das Revoluções Científicas (1962)  apresentou a concepção de que "um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em pessoas que partilham um paradigma" e define "o estudo dos paradigmas como o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde".

Sem esquecer das contribuições de Claude Lévi-Strauss (1908 - 2009), sua demonstrável constatação de que os chamados primitivos não são atrasados, "menos evoluídos", selvagens, a lógica de sua medicina e sistemas de classificação opera de modo distinto da nossa civilização ocidental, 

O que a antropologia convencionou denominar pensamento mítico-religioso primitivo ou magia, em termos de operações mentais é comparável ao pensamento científico, diferindo quanto à questões do determinismo causal, global e holístico,  operando em níveis ou aspectos distintos da realidade. (Lévi-Strauss,  1976)

Privilegiando a intuição sensível e "multicausalidade cósmica" no pensamento dito selvagem (em seu estado natural/originário) e a percepção e propriedades organolépticas da matéria no pensamento científico.

Referências

ANVISA Resolução-RDC Nº 48, de 2004 - DOU 18 de março de 2004. Revista Fitos Vol.1 Nº02 novembro/2005. https://crfce.org.br/wp-content/uploads/2018/09/RDC-n.%C2%B0-48-de-16032004.-.pdf

Botsaris, Alexandros S. Fitoterapia chinesa plantas brasileiras. SP: Ícone Editora, 2012

Carvalho ACB, Lana TN, Perfeito JPS, Silveira D. The Brazilian market of herbal medicinal products and the impacts of the new legislation on traditional medicines. J Ethnopharmacol. 2018 Feb 15;212:29-35. doi: 10.1016/j.jep.2017.09.040. Epub 2017 Oct 4. PMID: 28987598. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28987598/

Fiocruz Brasilia. Atualização em Fitoterapia: Harmonizando Conceitos – 10ª Oferta. https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/atualizacao-em-fitoterapia-harmonizando-conceitos-10a-oferta/

Gusmão, Wendel. Noções de Fitoterapia Chinesa. ABA - Associação Brasiileira de Acupuntura (apostila curso de formação , 2006.

Kuhn, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978

Lévi-Strauss, Claude. O pensamento selvagem. SP: Ed. Nacional, 1976 . (p.65, 67)

Luz, Hylton S.. (2002). Homeopatia: história e fundamentos epistemológicos. História, Ciências, Saúde-manguinhos, 9(2), 437–441. https://doi.org/10.1590/S0104-59702002000200012 https://www.scielo.br/j/hcsm/a/ffhJTb43LHykSCpsP8Rdtdm/?format=html&lang=pt

Prinz (1971) et Etkin e Ross (1982) apud: Elisabetsky, Elaine (2002). [Advances in Phytomedicine] Ethnomedicine and Drug Discovery Volume 1 || Chapter 11 Traditional medicines and the new paradigm of psychotropic drug action. , (), 133–144. doi:10.1016/S1572-557X(02)80020-4

Salles, S. A. C., & Schraiber, L. B.. (2009). Gestores do SUS: apoio e resistências à Homeopatia. Cadernos De Saúde Pública, 25(1), 195–202. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2009000100021

Woodlock , Catherine. Traditional Chinese Herbs – How They Work Whole Family Health Edmonton, Canada:  https://www.wholefamilyhealth.ca/traditional-chinese-herbs-how-they-work/

Iconografia

Collection of homeopathic substances in Samuel Hahnemann's apothecary, now a pharmacy museum in Sibiu, Romania. BARRY EVANS. The Roots of Homeopathy https://www.northcoastjournal.com/humboldt/the-roots-of-homeopathy/Content?oid=10147222

Árvore símbolo do “assentamento” de Ossain (Igbá Òsanyìn) em loja de plantas e artigos religiosos de candomblé na Boca do Rio (Salvador Bahia). Foto: Paulo Pedro in: Ervanários & Raizeiros, uma coletânea de artigos e fotos sobre vendedores de ervas, fitoterapeutas e homeopatas https://costapppr.wixsite.com/fotos/raizeiros3 

Ideogramas:

Qi (ou Chi, grafado tradicionalmente como e de forma simplificada como )

/   - Pinyin:  Yào;  Chin. Trad.e simplificado. Medicine; drug; substance used for a specific purpose (e.g. poisoning, explosion, fermenting) https://chinese.yabla.com/chinese-english-pinyin-dictionary.php

 

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