segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Aprender e conhecer

 



Espírito (神 shen), estilos de conhecimento e autoridade na medicina chinesa contemporânea

Elisabeth Hsu *

Resumo
Estudos sobre a terminologia do conhecimento especializado tendem a negligenciar a relevância de dados sociológicos, apesar da aceitação geral de que conhecimento e prática social são interdependentes. Este artigo explora o conhecimento e a prática especializada examinando os "estilos de conhecimento" e como eles diferem de acordo com as maneiras pelas quais os especialistas estabelecem sua autoridade.

Para avaliar a autoridade médica em contextos microsociais, o autor recorre aos três tipos ideais de Weber. O estudo mostra que, para um curandeiro carismático que busca alcançar consenso mútuo com sua clientela, a vagueza na terminologia pode ser útil. Quando, no entanto, a autoridade médica depende do reconhecimento por superiores e pares em instituições burocráticas modernas, termos vagos tendem a ser evitados.

Assim, o mesmo termo que um curandeiro carismático pode usar de forma vaga torna-se mais explicitamente definido no contexto burocrático. Seu sentido é mais claramente delimitado e as qualidades denotativas são enfatizadas. Em instituições onde a autoridade tradicional prevalece, como as da elite letrada em sociedades tradicionais altamente estratificadas, a terminologia técnica não é apenas vaga, mas notoriamente polissêmica.

Este artigo baseia-se em dados etnográficos da medicina chinesa e da terapia qigong praticadas no final da década de 1980 na cidade de Kunming, capital da província de Yunnan, na República Popular da China, mas pretende contribuir de forma mais geral para uma exploração das maneiras pelas quais as reivindicações de autoridade médica se inter-relacionam com o significado das palavras, o uso da linguagem e os "estilos de conhecimento". O termo investigado, shen, refere-se ao espiritual, um domínio da experiência humana amplamente reconhecido pelos praticantes da medicina tradicional, mas difícil de avaliar por meio de análises sociológicas.

Hsu E. Spirit (shen), styles of knowing, and authority in contemporary Chinese medicine. Cult Med Psychiatry. 2000 Jun;24(2):197-229. doi: 10.1023/a:1005529514427. PMID: 10885787.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10885787/

excertos

O *Shen* (espírito), conceito fundamental da medicina chinesa, é notoriamente elusivo e difícil de definir com precisão, especialmente para cientistas sociais que operam sob paradigmas de uma visão de mundo "desencantada".

Na Medicina Tradicional Chinesa — assim como em muitas outras práticas médicas tradicionais incorporadas às instituições de um Estado-nação moderno —, frequentemente surge o desafio de lidar com noções de natureza espiritual. No processo de secularização, corre-se o risco de que as práticas tradicionais sejam privadas de seu próprio fundamento.

O uso da mesma terminologia na prática médica não implica, necessariamente, que a terapia seja idêntica à de outrora. A conotação de uma palavra pode variar conforme o contexto social; o sentido em que ela é empregada pode sofrer alterações. ...

Este artigo explora o “significado performativo” de *shen* — aqui aproximado de “espírito” ou “espiritual”2 — em diferentes contextos de prática médica. Demonstrar-se-á que o significado de *shen* varia de acordo com as formas pelas quais médicos de diferentes estilos médicos estabelecem sua autoridade; a reivindicação de autoridade por parte dos médicos é um dos aspectos mais marcantes da prática social que se altera à medida que as medicinas tradicionais se profissionalizam. Embora o artigo se concentre em um termo médico chinês específico, ele trata, em última análise, da inter-relação entre o significado das palavras, o uso da linguagem e as relações de poder na interação social, em termos mais gerais.

*Shen* possui significados distintos e bastante específicos nos contextos chineses em análise, mas é um termo de difícil tradução; alternativas são apresentadas abaixo. Para enfatizar que *shen* se refere a certos aspectos da prática médica não mencionados em contextos secularizados, traduzo-o, para os fins deste artigo, como algo referente ao “espiritual”; contudo, é importante distinguir a noção chinesa de *shen* — aproximada na tradução de “espiritual” — das concepções de espiritualidade de origem cristã e/ou associadas à *New Age* (Nova Era).

Vale ressaltar que *shen* não é necessariamente imaterial (ao contrário do “espiritual” e do “divino” nas culturas ocidentais, que tendem a se opor ao “terreno” e ao “material”); o termo pode referir-se a uma "agente" que assume forma e constitui matéria. ...

Na filosofia, esse aspecto do *shen* (espírito) como uma força cósmica expansiva foi enfatizado por Zhu Xi (1130–1200), um dos principais arquitetos da doutrina neoconfucionista. Em um capítulo sobre "seres espirituais" (*guishen*), no qual tenta tornar tais seres compreensíveis ... Zhu Xi afirma: "*Shen* expande-se, *gui* contrai-se".

Nesses escritos filosóficos, o *shen* é apresentado como uma força cósmica *yang* e o *gui* como uma força cósmica *yin*, sendo ambos mencionados lado a lado com *guishen*, fantasmas, monstros, divindades, espíritos ancestrais e afins. ... e soa familiar aos antropólogos. ...

Para compreender o *shen* na medicina chinesa, sua interpretação no contexto taoista é provavelmente mais importante.

No taoismo primitivo, o *shen* é aproximado do conceito de "númen" (ou nume, plural numina, um termo em latim que significa divindade, presença divina ou o poder e a vontade de um deus) e definido como "o agente ou poder consciente fundamental nos seres humanos... Ele faz a ponte entre as noções habituais de mente e corpo de maneira análoga à forma como o termo *qi* conecta as ideias de energia e matéria", sendo o *qi* a "substância básica" que constitui e permeia o universo.

No contexto taoista primitivo, o *shen* é frequentemente visto em contraposição ao *jing* (essência) e, posteriormente, passa a integrar a tríade *jing*, *qi*, *shen*.

O *shen* é frequentemente mencionado na obra clássica de medicina *Cânone Interno do Imperador Amarelo* (*Huangdi Neijing*) e figurou entre os primeiros termos médicos chineses estudados por pesquisadores ocidentais.

A OBSERVAÇÃO DA PRÁTICA SOCIAL

O trabalho de campo para este estudo foi realizado entre setembro de 1988 e
dezembro de 1989 em Kunming, capital da província de Yunnan, na República Popular da China.

...Em vez de buscar conhecimento médico especializado em um dos grandes
centros de ensino, eu queria aprender sobre a medicina chinesa tal como ela era praticada no cotidiano das províncias. Matriculei-me como estudante em uma instituição de ensino onde a
Medicina Tradicional Chinesa (MTC) estava institucionalizada. ...paralelamente visitava hospitais clinicas e ouvia colegas ...

Os profissionais dos três contextos utilizavam praticamente a mesma terminologia ao comentar suas intervenções médicas. Todos falavam em *qi* (sopro/energia vital), *xue* (sangue), *jing* (esperma ou essência), *shen* (espírito), *yin-yang* e *han-re* (frio e calor). Todos faziam referência a qualidades do pulso, nomes de doenças e "padrões de diferenciação" (*bianzheng*) expressos em quatro sílabas. No entanto, um conhecimento mais aprofundado de cada um desses contextos sociais revelava que o significado de um mesmo termo médico variava entre eles. A palavra permanecia idêntica, mas seu significado se alterava, assim como o próprio modo de conhecimento. ....

TIPOS DE AUTORIDADE E ESTILOS DE CONHECIMENTO

As formas pelas quais os praticantes reivindicavam autoridade nos três contextos sociais mencionados acima guardavam afinidade com os três tipos ideais de autoridade de Max Weber ([1921] 1980: 122–176).

[ Para Max Weber, a autoridade legítima (ou dominação) divide-se em três tipos ideais puros: Racional-Legal, Tradicional e Carismática. O conceito de "tipo ideal" é uma ferramenta teórica de análise, pois na realidade histórica essas formas costumam aparecer misturadas. ]

Na faculdade, esperava-se que a prática médica estivesse impregnada de princípios de "autoridade legal"; na prática coletiva do médico sênior, prevaleciam formas "tradicionais" — ou, mais precisamente, "patriarcais" — de autoridade; ao passo que, no empreendimento familiar do curador, a personalidade e o "carisma" deste desempenhavam um papel importante.

Dito isso, é importante lembrar que tais categorias são fluidas nos escritos teóricos de Weber, e que as sobreposições nessas categorizações tornam-se ainda mais evidentes quando aplicadas à análise da "vida real".

Nos três contextos, o conhecimento do *shen* era crucial para a reivindicação de autoridade por parte do médico...

A natureza elusiva de conceitos como shen sempre atraiu a atenção de antropólogos e tem sido discutida sob várias perspectivas.

A abordagem funcionalista de Raymond Firth (1940) para explorar o muito discutido conceito de mana em Tikopia estabeleceu um exemplo para investigar os “usos particulares” de tais conceitos em diferentes contextos sociais. ...

Mesmo que o termo médico para o espiritual tenha sido reproduzido nas instituições seculares do moderno Estado-nação, sua importância na interação social era insignificante. Shen era discutido em textos e salas de aula, em seu sentido amplo e restrito, mas, na prática, era reduzido principalmente a uma função do cérebro. Médicos, pacientes e recrutas podem ter adquirido conhecimento de shen, mas não pareciam "conhecer shen".

Pode-se questionar quais são as consequências de não haver mais necessidade de conhecer o espiritual. Claramente, o temor pelo espiritual provoca incerteza.

Vimos como o curador carismático e o médico patriarcal exploraram essa incerteza cognitiva para estabelecer sua autoridade. Quanto ao seu modo de conhecer, observamos que o curador buscava o consenso com outros para decidir se o paciente estava possuído por um espírito ou não, e que o médico sênior reconhecia que seu conhecimento se limitava à sua experiência pessoal. Ambos estavam dispostos a aventurar-se na análise do que era cognitivamente incerto — o espiritual —, mas tiveram de fazer concessões quanto à validade de seu conhecimento.

Ao evitar a análise do que é cognitivamente incerto, o conhecimento dos especialistas no contexto burocrático torna-se mais autoconfiante, com uma pretensão maior à "verdade intersubjetiva". Ou, colocando de outra forma, corre-se o risco de incorrer em uma postura de autossuficiência moral.

Especialistas da área médica podem submeter a controle mútuo o conhecimento produzido com autonomia e confiança, mas, dada a tendência institucional inerente a especialistas em organizações burocráticas de se desconectarem das necessidades e demandas de seu meio social, esse processo não apenas retira o poder de sua clientela: pode, em última análise, resultar na produção de um conhecimento irrelevante para os clientes e para o processo de cura.

Algumas referências

Weber, M. (1921) 1980
Wirtschaft und Gesellschaft. Grundriss der verstehenden Soziologie. Fünfte revidierte Ausgabe. Tübingen: Mohr. / Weber, Max, 1864-1920. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. DF : Editora Universidade de Brasília: São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999. https://www.academia.edu/30447030/Max_Weber_ECONOMIA_E_SOCIEDADE_Fundamentos_da_sociologia_compreensiva_E_jEJ

Firth, R. (1940) 1967. An Analysis of Mana: An Empirical Approach. In R. Firth (ed.) Tikopia and Ritual Belief. London: Allen & Unwin, pp. 174–194 https://archive.org/details/tikopiaritualbel0000firt_t3f1/page/n5/mode/2up

* Elisabeth Hsu
https://www.anthro.ox.ac.uk/people/professor-elisabeth-hsu

https://www.anthro.ox.ac.uk/sites/g/files/vzsiac756/files/anthro/documents/media/elisabeth_hsu_-_chronolgical_publication_list.pdf

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Sobre o conceito de Médico 医生 (Trad. 醫生) yī shēng
doutor (médico) na medicina tradicional chinesa

Costa, Paulo Pedro P. R.
Acupuntura, ciência e profissão, 2011
https://etnomedicina.blogspot.com/2011/10/medico.html

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Ideograma

神 shen
divindade; alma; espírito; incomum; misterioso; animado; expressivo; olhar; CL:個|个 (gíria) incrível maravilhoso


Shén
Deus abr. para 神舟[Shen zhou]

yabla chinese dictionary

神 shén
deity ;soul; spirit; unusual; mysterious; lively;
expressive; expression; look
CL:個|个 (slang) awesome, amazing

神 Shén, God
abbr. for 神舟 [Shen zhou]

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FOTO

Fulintang (福林堂), localizada no nº 31 da Rua Guanghua, Distrito de Wuhua, Cidade de Kunming, Província de Yunnan, é uma das farmácias mais antigas ainda em funcionamento em Yunnan, fundada originalmente em 1857. Com uma área de aproximadamente 210,4 metros quadrados e uma área construída de cerca de 464,3 metros quadrados, a Fulintang é composta por uma loja, escadaria e consultórios médicos. A farmácia, marcada por sua singular arte farmacêutica, representa um importante exemplo da cultura da medicina tradicional chinesa em Yunnan.

Em 1990, a antiga loja da Fulintang na Rua Guanghua foi designada como uma “Unidade Chave de Proteção de Relíquias Culturais” pelo Governo Popular do Distrito de Panlong, na cidade de Kunming. Em maio de 2003, a mesma loja foi declarada como uma unidade de proteção de relíquias culturais de quarta categoria em nível municipal pelo Governo Popular da cidade de Kunming. Em 5 de março de 2013, o Conselho de Estado da República Popular da China listou a Fulintang como uma unidade chave nacional de proteção de relíquias culturais.

https://www.yunnanexploration.com/attractions/kunming-fulintang-pharmaceutical-industry-co-ltd 


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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Fitoterapia & Etnofarmacologia

No Brasil, a fitoterapia não é uma profissão isolada, mas sim uma especialização clínica reconhecida para profissionais de saúde de nível superior, adquirida através do cursos de Pós-graduação ou exercidas por representantes dos sistemas etnomédicos tradicionais de origem africana ou indígena.

De acordo com a Associação Brasileira de Fitoterapia (ABFIT) as profissões de nível superior cujos  Conselhos de Classe considera aptos para  atuar, após  formação reconhecida, como Fitoterapeutas incluem: Médicos Nutricionistas Farmacêuticos Enfermeiros Fisioterapeutas e Dentistas.

Por outro lado sabemos que nosso país abriga uma grande diversidade de culturas originárias e em sua formação sócio-histórica incorporou diversos sistemas etnomédicos africanos europeus e orientais com indicações fitoterápicas, sistemas de classificação de plantas  ou mesmo importação de espécimes, algumas aclimatadas e outras ainda adquiridas no comércio internacional.  

No Brasil há 359 fitoterápicos registrados na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) , sendo 27 compostos (quando o ativo é proveniente de mais de uma espécie vegetal) e 332 simples. A despeito da nossa enorme biodiversidade, a maioria dos fitoterápicos registrados no país são à base de espécies importadas. Das 101 espécies vegetais aprovadas como insumo farmacêutico ativo pela ANVISA, 8 delas são nativas endêmicas, 19 são nativas não endêmicas, 6 são naturalizadas, 6 são cultivadas, e 62 não são originárias do Brasil. Portanto, apenas 38,6% do total dessas espécies vegetais pode ser obtida do solo brasileiro, e desse percentual, 26,7% são nativas. [Carvalho et al] 

Segundo curso organizado pela Fiocruz Brasília com vistas ao fortalecimento e ampliação do uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos por profissionais do SUS (Sistema Único de Saúde) atendendo a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) no Brasil  identifica-se a presença de pelo menos seis paradigmas farmacológicos, a saber: Xamanismo (medicina indígena, ou tribal); Ayurveda, o sistema etnomédico yogue - indiano; a Medicina Tradicional Chinesa; Unani, ou a medicina grego-árabe que de certo modo deu origem a medicina européia antiga; e a Medicina Antroposófica, que no Brasil se confunde com a a medicina natural ou naturopatia por sua origem europeia, nos séculos XIX e XX, e ampla difusão para Américas. 

Etnofarmacologia é a ciência que estuda o conhecimento popular sobre fármacos, (do grego phármakon, que  significa tanto remédio quanto veneno) portanto, uma substância mais ou menos tóxica com efeito transformador no processo saúde doença, utilizada por um determinado grupo étnico o social, em seu sistema tradicionais de medicina.

Mesmo quando formulações tradicionais – e não apenas espécies vegetais – são levadas em consideração, os sistemas médicos tradicionais e/ou a etnofarmacologia não são vistos como fontes potenciais de novos paradigmas para o uso de medicamentos pela medicina hegemônica ocidental.

Entre as possíveis causas desta resistência estão o elevado custo de pesquisas, "pressão" da indústria farmacêutica, e a disponibilidade de recursos humanos capacitados para pesquisa e exercício profissional. Além das razões de ordem étnica quanto a natureza em que tais formas de conhecimento se inserem nos distintos paradigmas farmacológicos ou que se distinguem entre si.

Elisabetsky (2002),  assinala que a atividade farmacológica incomum observada com formulações vegetais pode resultar dos efeitos de mais de um ingrediente ativo, de interações medicamentosas entre ingredientes, de ingredientes ativos que possuem múltiplos mecanismos de ação ou mesmo da interferência com alvos ainda não reconhecidos pela compreensão biomédica atual da modulação da biologia celular. 

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), por exemplo as fórmulas fitoterápicas são construídas combinando ervas com funções específicas, classificadas em quatro categorias hierárquicas: Imperador (Erva-Mestre), Ministro (Auxiliar), Assistente e Mensageiro (Guia). Em geral formuladas com 50% da erva "imperador";  30% da "erva ministro" e 15% de cada uma das restantes (erva "assistente" e erva "guia").

De acordo com Gusmão a fitoterapia chinesa data de tempos remotos, há registros desde o século XXVIII a.C., destacando-se o Clássico da Medicina Herbal de Shénnóng (100-200 d.C.) Shénnóng běncǎo jīng 神農本草經 que lista 365 medicamentos e descreve os princípios de combinações de ervas.

Na Fitoterapia Chinesa e Dietoterapia, os Cinco Sabores (azedo, amargo, doce, picante e salgado) não são apenas gustativos, mas indicam a ação terapêutica segundo a concepção dos cinco elementos associados e/ou propriedades Yin/Yang da síndrome de excesso e deficiência e características da formulação. Observe-se a complexidade da concepção etnofamacológica.

Outro exemplo é o citado por Prinz (1971) de que os povos indígenas não apenas utilizam plantas medicinais, mas estabelecem relações com elas, Etkin e Ross (1982) sugeriram que essas relações entre pessoas e plantas possuem, de fato, implicações fisiológicas.

Segundo Lévi-Strauss, as classificações indígenas não são apenas metódicas e baseadas num saber teórico solidamente constituído, segundo esse autor são comparáveis sob um ponto de vista formal àquelas que a zoologia e botânica continuam a usar. Permitem diferenciar gêneros, as espécies e as variedades.

Observe-se também que o reconhecimento do uso tradicional como parte da comprovação da eficácia e segurança de produtos naturais é possível em algumas legislações internacionais (Ex. Canadá, Comunidade Europeia e México) e recomendado pela OMS desde a conferência de Alma Ata em 1978. No Brasil a Resolução-RDC Nº 48, de 2004 estabelece parâmetros para segurança de uso e a(s) indicação(ões) terapêutica(s) incluindo o levantamento bibliográfico (etnofarmacológico e de utilização, documentações técnico ­ científicas ou publicações) e pelo menos comprovação de uso seguro por um período igual ou superior a 20 anos entre outros critérios.

Estima-se que cerca de 82% da população utilize plantas medicinais na medicina popular brasileira (folk) esses recursos, repassados oralmente de geração em geração. Tal conhecimento, como referido, integra culturas tradicionais, indígenas e quilombolas com a medicina homeopática, a medicina contemporânea e o recente apoio do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos.

A presença e uso da homeopatia, introduzida no Brasil nos finais do séc. XIX envolve a mesma natureza de conflitos da prática fitoterápica. Enquanto comunidades científicas e médicas a classificam como pseudociência por falta de plausibilidade biológica, defensores propõem uma epistemologia baseada na complexidade e em ensaios clínicos integrativos. O paradigma científico hegemônico da medicina baseada em evidências dito medicina alopática contrapõe-se ao modelo terapêutico da homeopatia descrito como holístico ou vitalista.

Numa pesquisa que investigou características do movimento de aproximação e afastamento desta escola médica, entrevistou-se 48 homeopatas e médicos da biomedicina, quanto a opinião formada sobre tal prática. Entre os gestores proponentes da sua institucionalização estavam os que defendem, para garantir a eficácia de suas ações, uma anamnese extensa acompanhada de um exame detalhado de cada paciente, diga-se que esta é uma prática médica que resgata a dimensão humanista da medicina, embora não seja a única escola médica a fazer esta proposição. Entre os que não advogam a homeopatia ou sentem-se inseguros à sua utilização, a consideram como uma "medicina suave", que lentamente poderia promover a melhora dos sintomas e referem-se a poucas as publicações de resultados de pesquisas com a utilização da homeopatia em situações agudas. [Salles, Schraiber]

À guisa de conclusão vale recordar que Thomas Kuhn (1922-1996), físico célebre por suas contribuições à história e filosofia da ciência, em especial do processo que leva à evolução do desenvolvimento científico, em seu livro a Estrutura das Revoluções Científicas (1962)  apresentou a concepção de que "um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em pessoas que partilham um paradigma" e define "o estudo dos paradigmas como o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde".

Sem esquecer das contribuições de Claude Lévi-Strauss (1908 - 2009), sua demonstrável constatação de que os chamados primitivos não são atrasados, "menos evoluídos", selvagens, a lógica de sua medicina e sistemas de classificação opera de modo distinto da nossa civilização ocidental, 

O que a antropologia convencionou denominar pensamento mítico-religioso primitivo ou magia, em termos de operações mentais é comparável ao pensamento científico, diferindo quanto à questões do determinismo causal, global e holístico,  operando em níveis ou aspectos distintos da realidade. (Lévi-Strauss,  1976)

Privilegiando a intuição sensível e "multicausalidade cósmica" no pensamento dito selvagem (em seu estado natural/originário) e a percepção e propriedades organolépticas da matéria no pensamento científico.

Referências

ANVISA Resolução-RDC Nº 48, de 2004 - DOU 18 de março de 2004. Revista Fitos Vol.1 Nº02 novembro/2005. https://crfce.org.br/wp-content/uploads/2018/09/RDC-n.%C2%B0-48-de-16032004.-.pdf

Botsaris, Alexandros S. Fitoterapia chinesa plantas brasileiras. SP: Ícone Editora, 2012

Carvalho ACB, Lana TN, Perfeito JPS, Silveira D. The Brazilian market of herbal medicinal products and the impacts of the new legislation on traditional medicines. J Ethnopharmacol. 2018 Feb 15;212:29-35. doi: 10.1016/j.jep.2017.09.040. Epub 2017 Oct 4. PMID: 28987598. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28987598/

Fiocruz Brasilia. Atualização em Fitoterapia: Harmonizando Conceitos – 10ª Oferta. https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/atualizacao-em-fitoterapia-harmonizando-conceitos-10a-oferta/

Gusmão, Wendel. Noções de Fitoterapia Chinesa. ABA - Associação Brasiileira de Acupuntura (apostila curso de formação , 2006.

Kuhn, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978

Lévi-Strauss, Claude. O pensamento selvagem. SP: Ed. Nacional, 1976 . (p.65, 67)

Luz, Hylton S.. (2002). Homeopatia: história e fundamentos epistemológicos. História, Ciências, Saúde-manguinhos, 9(2), 437–441. https://doi.org/10.1590/S0104-59702002000200012 https://www.scielo.br/j/hcsm/a/ffhJTb43LHykSCpsP8Rdtdm/?format=html&lang=pt

Prinz (1971) et Etkin e Ross (1982) apud: Elisabetsky, Elaine (2002). [Advances in Phytomedicine] Ethnomedicine and Drug Discovery Volume 1 || Chapter 11 Traditional medicines and the new paradigm of psychotropic drug action. , (), 133–144. doi:10.1016/S1572-557X(02)80020-4

Salles, S. A. C., & Schraiber, L. B.. (2009). Gestores do SUS: apoio e resistências à Homeopatia. Cadernos De Saúde Pública, 25(1), 195–202. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2009000100021

Woodlock , Catherine. Traditional Chinese Herbs – How They Work Whole Family Health Edmonton, Canada:  https://www.wholefamilyhealth.ca/traditional-chinese-herbs-how-they-work/

Iconografia

Collection of homeopathic substances in Samuel Hahnemann's apothecary, now a pharmacy museum in Sibiu, Romania. BARRY EVANS. The Roots of Homeopathy https://www.northcoastjournal.com/humboldt/the-roots-of-homeopathy/Content?oid=10147222

Árvore símbolo do “assentamento” de Ossain (Igbá Òsanyìn) em loja de plantas e artigos religiosos de candomblé na Boca do Rio (Salvador Bahia). Foto: Paulo Pedro in: Ervanários & Raizeiros, uma coletânea de artigos e fotos sobre vendedores de ervas, fitoterapeutas e homeopatas https://costapppr.wixsite.com/fotos/raizeiros3 

Ideogramas:

Qi (ou Chi, grafado tradicionalmente como e de forma simplificada como )

/   - Pinyin:  Yào;  Chin. Trad.e simplificado. Medicine; drug; substance used for a specific purpose (e.g. poisoning, explosion, fermenting) https://chinese.yabla.com/chinese-english-pinyin-dictionary.php

 

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