No Brasil, a fitoterapia não é uma profissão isolada, mas sim uma especialização clínica reconhecida para profissionais de saúde de nível superior, adquirida através do cursos de Pós-graduação ou exercidas por representantes dos sistemas etnomédicos tradicionais de origem africana ou indígena.
De acordo com a Associação
Brasileira de Fitoterapia (ABFIT) as profissões de nível superior cujos Conselhos de Classe considera aptos para atuar, após
formação reconhecida, como Fitoterapeutas incluem: Médicos
Nutricionistas Farmacêuticos Enfermeiros Fisioterapeutas e Dentistas.
Por outro lado sabemos que nosso
país abriga uma grande diversidade de culturas originárias e em sua formação
sócio-histórica incorporou diversos sistemas etnomédicos africanos europeus e
orientais com indicações fitoterápicas, sistemas de classificação de
plantas ou mesmo importação de
espécimes, algumas aclimatadas e outras ainda adquiridas no comércio
internacional.
No Brasil há 359 fitoterápicos
registrados na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) , sendo 27
compostos (quando o ativo é proveniente de mais de uma espécie vegetal) e 332
simples. A despeito da nossa enorme biodiversidade, a maioria dos fitoterápicos
registrados no país são à base de espécies importadas. Das 101 espécies
vegetais aprovadas como insumo farmacêutico ativo pela ANVISA, 8 delas são
nativas endêmicas, 19 são nativas não endêmicas, 6 são naturalizadas, 6 são
cultivadas, e 62 não são originárias do Brasil. Portanto, apenas 38,6% do total
dessas espécies vegetais pode ser obtida do solo brasileiro, e desse
percentual, 26,7% são nativas. [Carvalho et al]
Segundo curso organizado pela
Fiocruz Brasília com vistas ao fortalecimento e ampliação do uso racional de
plantas medicinais e fitoterápicos por profissionais do SUS (Sistema Único de
Saúde) atendendo a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos
(PNPMF) no Brasil identifica-se a presença
de pelo menos seis paradigmas farmacológicos, a saber: Xamanismo (medicina
indígena, ou tribal); Ayurveda, o sistema etnomédico yogue - indiano; a
Medicina Tradicional Chinesa; Unani, ou a medicina grego-árabe que de certo
modo deu origem a medicina européia antiga; e a Medicina Antroposófica, que no
Brasil se confunde com a a medicina natural ou naturopatia por sua origem europeia,
nos séculos XIX e XX, e ampla difusão para Américas.
Etnofarmacologia é a ciência que
estuda o conhecimento popular sobre fármacos, (do grego phármakon, que significa
tanto remédio quanto veneno) portanto, uma substância mais ou menos tóxica com
efeito transformador no processo saúde doença, utilizada por um determinado
grupo étnico o social, em seu sistema tradicionais de medicina.
Mesmo quando formulações
tradicionais – e não apenas espécies vegetais – são levadas em consideração, os
sistemas médicos tradicionais e/ou a etnofarmacologia não são vistos como
fontes potenciais de novos paradigmas para o uso de medicamentos pela medicina
hegemônica ocidental.
Entre as possíveis causas desta
resistência estão o elevado custo de pesquisas, "pressão" da
indústria farmacêutica, e a disponibilidade de recursos humanos capacitados
para pesquisa e exercício profissional. Além das razões de ordem étnica quanto
a natureza em que tais formas de conhecimento se inserem nos distintos
paradigmas farmacológicos ou que se distinguem entre si.
Elisabetsky (2002), assinala que a atividade farmacológica
incomum observada com formulações vegetais pode resultar dos efeitos de mais de
um ingrediente ativo, de interações medicamentosas entre ingredientes, de
ingredientes ativos que possuem múltiplos mecanismos de ação ou mesmo da
interferência com alvos ainda não reconhecidos pela compreensão biomédica atual
da modulação da biologia celular.
Na Medicina Tradicional Chinesa
(MTC), por exemplo as fórmulas fitoterápicas são construídas combinando ervas
com funções específicas, classificadas em quatro categorias hierárquicas:
Imperador (Erva-Mestre), Ministro (Auxiliar), Assistente e Mensageiro (Guia).
Em geral formuladas com 50% da erva "imperador"; 30% da "erva ministro" e 15% de
cada uma das restantes (erva "assistente" e erva "guia").
De acordo com Gusmão a
fitoterapia chinesa data de tempos remotos, há registros desde o século XXVIII
a.C., destacando-se o Clássico da Medicina Herbal de Shénnóng (100-200 d.C.) Shénnóng
běncǎo jīng 神農本草經 que lista 365 medicamentos e descreve os princípios
de combinações de ervas.
Na Fitoterapia Chinesa e
Dietoterapia, os Cinco Sabores (azedo, amargo, doce, picante e salgado) não são
apenas gustativos, mas indicam a ação terapêutica segundo a concepção dos cinco
elementos associados e/ou propriedades Yin/Yang da síndrome de excesso e
deficiência e características da formulação. Observe-se a complexidade da
concepção etnofamacológica.
Outro exemplo é o citado por
Prinz (1971) de que os povos indígenas não apenas utilizam plantas medicinais,
mas estabelecem relações com elas, Etkin e Ross (1982) sugeriram que essas
relações entre pessoas e plantas possuem, de fato, implicações fisiológicas.
Segundo Lévi-Strauss, as
classificações indígenas não são apenas metódicas e baseadas num saber teórico
solidamente constituído, segundo esse autor são comparáveis sob um ponto de
vista formal àquelas que a zoologia e botânica continuam a usar. Permitem
diferenciar gêneros, as espécies e as variedades.
Observe-se também que o
reconhecimento do uso tradicional como parte da comprovação da eficácia e
segurança de produtos naturais é possível em algumas legislações internacionais
(Ex. Canadá, Comunidade Europeia e México) e recomendado pela OMS desde a
conferência de Alma Ata em 1978. No Brasil a Resolução-RDC Nº 48, de 2004
estabelece parâmetros para segurança de uso e a(s) indicação(ões)
terapêutica(s) incluindo o levantamento bibliográfico (etnofarmacológico e de
utilização, documentações técnico científicas ou publicações) e pelo menos
comprovação de uso seguro por um período igual ou superior a 20 anos entre
outros critérios.
Estima-se que cerca de 82% da
população utilize plantas medicinais na medicina popular brasileira (folk)
esses recursos, repassados oralmente de geração em geração. Tal conhecimento,
como referido, integra culturas tradicionais, indígenas e quilombolas com a
medicina homeopática, a medicina contemporânea e o recente apoio do Programa
Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos.
A presença e uso da homeopatia,
introduzida no Brasil nos finais do séc. XIX envolve a mesma natureza de
conflitos da prática fitoterápica. Enquanto comunidades científicas e médicas a
classificam como pseudociência por falta de plausibilidade biológica, defensores
propõem uma epistemologia baseada na complexidade e em ensaios clínicos
integrativos. O paradigma científico hegemônico da medicina baseada em
evidências dito medicina alopática contrapõe-se ao modelo terapêutico da
homeopatia descrito como holístico ou vitalista.
Numa pesquisa que investigou
características do movimento de aproximação e afastamento desta escola médica,
entrevistou-se 48 homeopatas e médicos da biomedicina, quanto a opinião formada
sobre tal prática. Entre os gestores proponentes da sua institucionalização
estavam os que defendem, para garantir a eficácia de suas ações, uma anamnese
extensa acompanhada de um exame detalhado de cada paciente, diga-se que esta é
uma prática médica que resgata a dimensão humanista da medicina, embora não
seja a única escola médica a fazer esta proposição. Entre os que não advogam a
homeopatia ou sentem-se inseguros à sua utilização, a consideram como uma
"medicina suave", que lentamente poderia promover a melhora dos
sintomas e referem-se a poucas as publicações de resultados de pesquisas com a
utilização da homeopatia em situações agudas. [Salles, Schraiber]
À guisa de conclusão vale
recordar que Thomas Kuhn (1922-1996), físico célebre por suas contribuições à
história e filosofia da ciência, em especial do processo que leva à evolução do
desenvolvimento científico, em seu livro a Estrutura das Revoluções Científicas
(1962) apresentou a concepção de que
"um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e,
inversamente, uma comunidade científica consiste em pessoas que partilham um
paradigma" e define "o estudo dos paradigmas como o que prepara
basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará
mais tarde".
Sem esquecer das contribuições de
Claude Lévi-Strauss (1908 - 2009), sua demonstrável constatação de que os
chamados primitivos não são atrasados, "menos evoluídos", selvagens,
a lógica de sua medicina e sistemas de classificação opera de modo distinto da
nossa civilização ocidental,
O que a antropologia convencionou
denominar pensamento mítico-religioso primitivo ou magia, em termos de
operações mentais é comparável ao pensamento científico, diferindo quanto à
questões do determinismo causal, global e holístico, operando em níveis ou aspectos distintos da realidade.
(Lévi-Strauss, 1976)
Privilegiando a intuição sensível
e "multicausalidade cósmica" no pensamento dito selvagem (em seu
estado natural/originário) e a percepção e propriedades organolépticas da
matéria no pensamento científico.
Referências
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Nº 48, de 2004 - DOU 18 de março de 2004. Revista Fitos Vol.1 Nº02
novembro/2005.
https://crfce.org.br/wp-content/uploads/2018/09/RDC-n.%C2%B0-48-de-16032004.-.pdf
Botsaris, Alexandros
S. Fitoterapia chinesa plantas brasileiras. SP: Ícone Editora, 2012
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TN, Perfeito JPS, Silveira D. The Brazilian market of herbal medicinal
products and the impacts of the new legislation on traditional medicines. J
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Volume 1 || Chapter 11 Traditional medicines and the new paradigm of
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Woodlock , Catherine.
Traditional Chinese Herbs – How They Work Whole Family Health Edmonton, Canada: https://www.wholefamilyhealth.ca/traditional-chinese-herbs-how-they-work/
Iconografia
Collection of homeopathic substances in Samuel Hahnemann's
apothecary, now a pharmacy museum in Sibiu, Romania. BARRY EVANS. The Roots of
Homeopathy https://www.northcoastjournal.com/humboldt/the-roots-of-homeopathy/Content?oid=10147222
Árvore símbolo do “assentamento” de Ossain (Igbá Òsanyìn) em
loja de plantas e artigos religiosos de candomblé na Boca do Rio (Salvador
Bahia). Foto: Paulo Pedro in: Ervanários & Raizeiros, uma coletânea de
artigos e fotos sobre vendedores de ervas, fitoterapeutas e homeopatas https://costapppr.wixsite.com/fotos/raizeiros3
Ideogramas:
Qi (ou Chi, grafado tradicionalmente como 氣 e de forma simplificada como 气)
藥 / 药 - Pinyin: Yào; Chin.
Trad.e simplificado. Medicine; drug; substance used for a specific purpose
(e.g. poisoning, explosion, fermenting) https://chinese.yabla.com/chinese-english-pinyin-dictionary.php
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