segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Aprender e conhecer

 



Espírito (神 shen), estilos de conhecimento e autoridade na medicina chinesa contemporânea

Elisabeth Hsu *

Resumo
Estudos sobre a terminologia do conhecimento especializado tendem a negligenciar a relevância de dados sociológicos, apesar da aceitação geral de que conhecimento e prática social são interdependentes. Este artigo explora o conhecimento e a prática especializada examinando os "estilos de conhecimento" e como eles diferem de acordo com as maneiras pelas quais os especialistas estabelecem sua autoridade.

Para avaliar a autoridade médica em contextos microsociais, o autor recorre aos três tipos ideais de Weber. O estudo mostra que, para um curandeiro carismático que busca alcançar consenso mútuo com sua clientela, a vagueza na terminologia pode ser útil. Quando, no entanto, a autoridade médica depende do reconhecimento por superiores e pares em instituições burocráticas modernas, termos vagos tendem a ser evitados.

Assim, o mesmo termo que um curandeiro carismático pode usar de forma vaga torna-se mais explicitamente definido no contexto burocrático. Seu sentido é mais claramente delimitado e as qualidades denotativas são enfatizadas. Em instituições onde a autoridade tradicional prevalece, como as da elite letrada em sociedades tradicionais altamente estratificadas, a terminologia técnica não é apenas vaga, mas notoriamente polissêmica.

Este artigo baseia-se em dados etnográficos da medicina chinesa e da terapia qigong praticadas no final da década de 1980 na cidade de Kunming, capital da província de Yunnan, na República Popular da China, mas pretende contribuir de forma mais geral para uma exploração das maneiras pelas quais as reivindicações de autoridade médica se inter-relacionam com o significado das palavras, o uso da linguagem e os "estilos de conhecimento". O termo investigado, shen, refere-se ao espiritual, um domínio da experiência humana amplamente reconhecido pelos praticantes da medicina tradicional, mas difícil de avaliar por meio de análises sociológicas.

Hsu E. Spirit (shen), styles of knowing, and authority in contemporary Chinese medicine. Cult Med Psychiatry. 2000 Jun;24(2):197-229. doi: 10.1023/a:1005529514427. PMID: 10885787.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10885787/

excertos

O *Shen* (espírito), conceito fundamental da medicina chinesa, é notoriamente elusivo e difícil de definir com precisão, especialmente para cientistas sociais que operam sob paradigmas de uma visão de mundo "desencantada".

Na Medicina Tradicional Chinesa — assim como em muitas outras práticas médicas tradicionais incorporadas às instituições de um Estado-nação moderno —, frequentemente surge o desafio de lidar com noções de natureza espiritual. No processo de secularização, corre-se o risco de que as práticas tradicionais sejam privadas de seu próprio fundamento.

O uso da mesma terminologia na prática médica não implica, necessariamente, que a terapia seja idêntica à de outrora. A conotação de uma palavra pode variar conforme o contexto social; o sentido em que ela é empregada pode sofrer alterações. ...

Este artigo explora o “significado performativo” de *shen* — aqui aproximado de “espírito” ou “espiritual”2 — em diferentes contextos de prática médica. Demonstrar-se-á que o significado de *shen* varia de acordo com as formas pelas quais médicos de diferentes estilos médicos estabelecem sua autoridade; a reivindicação de autoridade por parte dos médicos é um dos aspectos mais marcantes da prática social que se altera à medida que as medicinas tradicionais se profissionalizam. Embora o artigo se concentre em um termo médico chinês específico, ele trata, em última análise, da inter-relação entre o significado das palavras, o uso da linguagem e as relações de poder na interação social, em termos mais gerais.

*Shen* possui significados distintos e bastante específicos nos contextos chineses em análise, mas é um termo de difícil tradução; alternativas são apresentadas abaixo. Para enfatizar que *shen* se refere a certos aspectos da prática médica não mencionados em contextos secularizados, traduzo-o, para os fins deste artigo, como algo referente ao “espiritual”; contudo, é importante distinguir a noção chinesa de *shen* — aproximada na tradução de “espiritual” — das concepções de espiritualidade de origem cristã e/ou associadas à *New Age* (Nova Era).

Vale ressaltar que *shen* não é necessariamente imaterial (ao contrário do “espiritual” e do “divino” nas culturas ocidentais, que tendem a se opor ao “terreno” e ao “material”); o termo pode referir-se a uma "agente" que assume forma e constitui matéria. ...

Na filosofia, esse aspecto do *shen* (espírito) como uma força cósmica expansiva foi enfatizado por Zhu Xi (1130–1200), um dos principais arquitetos da doutrina neoconfucionista. Em um capítulo sobre "seres espirituais" (*guishen*), no qual tenta tornar tais seres compreensíveis ... Zhu Xi afirma: "*Shen* expande-se, *gui* contrai-se".

Nesses escritos filosóficos, o *shen* é apresentado como uma força cósmica *yang* e o *gui* como uma força cósmica *yin*, sendo ambos mencionados lado a lado com *guishen*, fantasmas, monstros, divindades, espíritos ancestrais e afins. ... e soa familiar aos antropólogos. ...

Para compreender o *shen* na medicina chinesa, sua interpretação no contexto taoista é provavelmente mais importante.

No taoismo primitivo, o *shen* é aproximado do conceito de "númen" (ou nume, plural numina, um termo em latim que significa divindade, presença divina ou o poder e a vontade de um deus) e definido como "o agente ou poder consciente fundamental nos seres humanos... Ele faz a ponte entre as noções habituais de mente e corpo de maneira análoga à forma como o termo *qi* conecta as ideias de energia e matéria", sendo o *qi* a "substância básica" que constitui e permeia o universo.

No contexto taoista primitivo, o *shen* é frequentemente visto em contraposição ao *jing* (essência) e, posteriormente, passa a integrar a tríade *jing*, *qi*, *shen*.

O *shen* é frequentemente mencionado na obra clássica de medicina *Cânone Interno do Imperador Amarelo* (*Huangdi Neijing*) e figurou entre os primeiros termos médicos chineses estudados por pesquisadores ocidentais.

A OBSERVAÇÃO DA PRÁTICA SOCIAL

O trabalho de campo para este estudo foi realizado entre setembro de 1988 e
dezembro de 1989 em Kunming, capital da província de Yunnan, na República Popular da China.

...Em vez de buscar conhecimento médico especializado em um dos grandes
centros de ensino, eu queria aprender sobre a medicina chinesa tal como ela era praticada no cotidiano das províncias. Matriculei-me como estudante em uma instituição de ensino onde a
Medicina Tradicional Chinesa (MTC) estava institucionalizada. ...paralelamente visitava hospitais clinicas e ouvia colegas ...

Os profissionais dos três contextos utilizavam praticamente a mesma terminologia ao comentar suas intervenções médicas. Todos falavam em *qi* (sopro/energia vital), *xue* (sangue), *jing* (esperma ou essência), *shen* (espírito), *yin-yang* e *han-re* (frio e calor). Todos faziam referência a qualidades do pulso, nomes de doenças e "padrões de diferenciação" (*bianzheng*) expressos em quatro sílabas. No entanto, um conhecimento mais aprofundado de cada um desses contextos sociais revelava que o significado de um mesmo termo médico variava entre eles. A palavra permanecia idêntica, mas seu significado se alterava, assim como o próprio modo de conhecimento. ....

TIPOS DE AUTORIDADE E ESTILOS DE CONHECIMENTO

As formas pelas quais os praticantes reivindicavam autoridade nos três contextos sociais mencionados acima guardavam afinidade com os três tipos ideais de autoridade de Max Weber ([1921] 1980: 122–176).

[ Para Max Weber, a autoridade legítima (ou dominação) divide-se em três tipos ideais puros: Racional-Legal, Tradicional e Carismática. O conceito de "tipo ideal" é uma ferramenta teórica de análise, pois na realidade histórica essas formas costumam aparecer misturadas. ]

Na faculdade, esperava-se que a prática médica estivesse impregnada de princípios de "autoridade legal"; na prática coletiva do médico sênior, prevaleciam formas "tradicionais" — ou, mais precisamente, "patriarcais" — de autoridade; ao passo que, no empreendimento familiar do curador, a personalidade e o "carisma" deste desempenhavam um papel importante.

Dito isso, é importante lembrar que tais categorias são fluidas nos escritos teóricos de Weber, e que as sobreposições nessas categorizações tornam-se ainda mais evidentes quando aplicadas à análise da "vida real".

Nos três contextos, o conhecimento do *shen* era crucial para a reivindicação de autoridade por parte do médico...

A natureza elusiva de conceitos como shen sempre atraiu a atenção de antropólogos e tem sido discutida sob várias perspectivas.

A abordagem funcionalista de Raymond Firth (1940) para explorar o muito discutido conceito de mana em Tikopia estabeleceu um exemplo para investigar os “usos particulares” de tais conceitos em diferentes contextos sociais. ...

Mesmo que o termo médico para o espiritual tenha sido reproduzido nas instituições seculares do moderno Estado-nação, sua importância na interação social era insignificante. Shen era discutido em textos e salas de aula, em seu sentido amplo e restrito, mas, na prática, era reduzido principalmente a uma função do cérebro. Médicos, pacientes e recrutas podem ter adquirido conhecimento de shen, mas não pareciam "conhecer shen".

Pode-se questionar quais são as consequências de não haver mais necessidade de conhecer o espiritual. Claramente, o temor pelo espiritual provoca incerteza.

Vimos como o curador carismático e o médico patriarcal exploraram essa incerteza cognitiva para estabelecer sua autoridade. Quanto ao seu modo de conhecer, observamos que o curador buscava o consenso com outros para decidir se o paciente estava possuído por um espírito ou não, e que o médico sênior reconhecia que seu conhecimento se limitava à sua experiência pessoal. Ambos estavam dispostos a aventurar-se na análise do que era cognitivamente incerto — o espiritual —, mas tiveram de fazer concessões quanto à validade de seu conhecimento.

Ao evitar a análise do que é cognitivamente incerto, o conhecimento dos especialistas no contexto burocrático torna-se mais autoconfiante, com uma pretensão maior à "verdade intersubjetiva". Ou, colocando de outra forma, corre-se o risco de incorrer em uma postura de autossuficiência moral.

Especialistas da área médica podem submeter a controle mútuo o conhecimento produzido com autonomia e confiança, mas, dada a tendência institucional inerente a especialistas em organizações burocráticas de se desconectarem das necessidades e demandas de seu meio social, esse processo não apenas retira o poder de sua clientela: pode, em última análise, resultar na produção de um conhecimento irrelevante para os clientes e para o processo de cura.

Algumas referências

Weber, M. (1921) 1980
Wirtschaft und Gesellschaft. Grundriss der verstehenden Soziologie. Fünfte revidierte Ausgabe. Tübingen: Mohr. / Weber, Max, 1864-1920. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. DF : Editora Universidade de Brasília: São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999. https://www.academia.edu/30447030/Max_Weber_ECONOMIA_E_SOCIEDADE_Fundamentos_da_sociologia_compreensiva_E_jEJ

Firth, R. (1940) 1967. An Analysis of Mana: An Empirical Approach. In R. Firth (ed.) Tikopia and Ritual Belief. London: Allen & Unwin, pp. 174–194 https://archive.org/details/tikopiaritualbel0000firt_t3f1/page/n5/mode/2up

* Elisabeth Hsu
https://www.anthro.ox.ac.uk/people/professor-elisabeth-hsu

https://www.anthro.ox.ac.uk/sites/g/files/vzsiac756/files/anthro/documents/media/elisabeth_hsu_-_chronolgical_publication_list.pdf

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Sobre o conceito de Médico 医生 (Trad. 醫生) yī shēng
doutor (médico) na medicina tradicional chinesa

Costa, Paulo Pedro P. R.
Acupuntura, ciência e profissão, 2011
https://etnomedicina.blogspot.com/2011/10/medico.html

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Ideograma

神 shen
divindade; alma; espírito; incomum; misterioso; animado; expressivo; olhar; CL:個|个 (gíria) incrível maravilhoso


Shén
Deus abr. para 神舟[Shen zhou]

yabla chinese dictionary

神 shén
deity ;soul; spirit; unusual; mysterious; lively;
expressive; expression; look
CL:個|个 (slang) awesome, amazing

神 Shén, God
abbr. for 神舟 [Shen zhou]

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FOTO

Fulintang (福林堂), localizada no nº 31 da Rua Guanghua, Distrito de Wuhua, Cidade de Kunming, Província de Yunnan, é uma das farmácias mais antigas ainda em funcionamento em Yunnan, fundada originalmente em 1857. Com uma área de aproximadamente 210,4 metros quadrados e uma área construída de cerca de 464,3 metros quadrados, a Fulintang é composta por uma loja, escadaria e consultórios médicos. A farmácia, marcada por sua singular arte farmacêutica, representa um importante exemplo da cultura da medicina tradicional chinesa em Yunnan.

Em 1990, a antiga loja da Fulintang na Rua Guanghua foi designada como uma “Unidade Chave de Proteção de Relíquias Culturais” pelo Governo Popular do Distrito de Panlong, na cidade de Kunming. Em maio de 2003, a mesma loja foi declarada como uma unidade de proteção de relíquias culturais de quarta categoria em nível municipal pelo Governo Popular da cidade de Kunming. Em 5 de março de 2013, o Conselho de Estado da República Popular da China listou a Fulintang como uma unidade chave nacional de proteção de relíquias culturais.

https://www.yunnanexploration.com/attractions/kunming-fulintang-pharmaceutical-industry-co-ltd 


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