segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Aprender e conhecer

 



Espírito (神 shen), estilos de conhecimento e autoridade na medicina chinesa contemporânea

Elisabeth Hsu *

Resumo
Estudos sobre a terminologia do conhecimento especializado tendem a negligenciar a relevância de dados sociológicos, apesar da aceitação geral de que conhecimento e prática social são interdependentes. Este artigo explora o conhecimento e a prática especializada examinando os "estilos de conhecimento" e como eles diferem de acordo com as maneiras pelas quais os especialistas estabelecem sua autoridade.

Para avaliar a autoridade médica em contextos microsociais, o autor recorre aos três tipos ideais de Weber. O estudo mostra que, para um curandeiro carismático que busca alcançar consenso mútuo com sua clientela, a vagueza na terminologia pode ser útil. Quando, no entanto, a autoridade médica depende do reconhecimento por superiores e pares em instituições burocráticas modernas, termos vagos tendem a ser evitados.

Assim, o mesmo termo que um curandeiro carismático pode usar de forma vaga torna-se mais explicitamente definido no contexto burocrático. Seu sentido é mais claramente delimitado e as qualidades denotativas são enfatizadas. Em instituições onde a autoridade tradicional prevalece, como as da elite letrada em sociedades tradicionais altamente estratificadas, a terminologia técnica não é apenas vaga, mas notoriamente polissêmica.

Este artigo baseia-se em dados etnográficos da medicina chinesa e da terapia qigong praticadas no final da década de 1980 na cidade de Kunming, capital da província de Yunnan, na República Popular da China, mas pretende contribuir de forma mais geral para uma exploração das maneiras pelas quais as reivindicações de autoridade médica se inter-relacionam com o significado das palavras, o uso da linguagem e os "estilos de conhecimento". O termo investigado, shen, refere-se ao espiritual, um domínio da experiência humana amplamente reconhecido pelos praticantes da medicina tradicional, mas difícil de avaliar por meio de análises sociológicas.

Hsu E. Spirit (shen), styles of knowing, and authority in contemporary Chinese medicine. Cult Med Psychiatry. 2000 Jun;24(2):197-229. doi: 10.1023/a:1005529514427. PMID: 10885787.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/10885787/

excertos

O *Shen* (espírito), conceito fundamental da medicina chinesa, é notoriamente elusivo e difícil de definir com precisão, especialmente para cientistas sociais que operam sob paradigmas de uma visão de mundo "desencantada".

Na Medicina Tradicional Chinesa — assim como em muitas outras práticas médicas tradicionais incorporadas às instituições de um Estado-nação moderno —, frequentemente surge o desafio de lidar com noções de natureza espiritual. No processo de secularização, corre-se o risco de que as práticas tradicionais sejam privadas de seu próprio fundamento.

O uso da mesma terminologia na prática médica não implica, necessariamente, que a terapia seja idêntica à de outrora. A conotação de uma palavra pode variar conforme o contexto social; o sentido em que ela é empregada pode sofrer alterações. ...

Este artigo explora o “significado performativo” de *shen* — aqui aproximado de “espírito” ou “espiritual”2 — em diferentes contextos de prática médica. Demonstrar-se-á que o significado de *shen* varia de acordo com as formas pelas quais médicos de diferentes estilos médicos estabelecem sua autoridade; a reivindicação de autoridade por parte dos médicos é um dos aspectos mais marcantes da prática social que se altera à medida que as medicinas tradicionais se profissionalizam. Embora o artigo se concentre em um termo médico chinês específico, ele trata, em última análise, da inter-relação entre o significado das palavras, o uso da linguagem e as relações de poder na interação social, em termos mais gerais.

*Shen* possui significados distintos e bastante específicos nos contextos chineses em análise, mas é um termo de difícil tradução; alternativas são apresentadas abaixo. Para enfatizar que *shen* se refere a certos aspectos da prática médica não mencionados em contextos secularizados, traduzo-o, para os fins deste artigo, como algo referente ao “espiritual”; contudo, é importante distinguir a noção chinesa de *shen* — aproximada na tradução de “espiritual” — das concepções de espiritualidade de origem cristã e/ou associadas à *New Age* (Nova Era).

Vale ressaltar que *shen* não é necessariamente imaterial (ao contrário do “espiritual” e do “divino” nas culturas ocidentais, que tendem a se opor ao “terreno” e ao “material”); o termo pode referir-se a uma "agente" que assume forma e constitui matéria. ...

Na filosofia, esse aspecto do *shen* (espírito) como uma força cósmica expansiva foi enfatizado por Zhu Xi (1130–1200), um dos principais arquitetos da doutrina neoconfucionista. Em um capítulo sobre "seres espirituais" (*guishen*), no qual tenta tornar tais seres compreensíveis ... Zhu Xi afirma: "*Shen* expande-se, *gui* contrai-se".

Nesses escritos filosóficos, o *shen* é apresentado como uma força cósmica *yang* e o *gui* como uma força cósmica *yin*, sendo ambos mencionados lado a lado com *guishen*, fantasmas, monstros, divindades, espíritos ancestrais e afins. ... e soa familiar aos antropólogos. ...

Para compreender o *shen* na medicina chinesa, sua interpretação no contexto taoista é provavelmente mais importante.

No taoismo primitivo, o *shen* é aproximado do conceito de "númen" (ou nume, plural numina, um termo em latim que significa divindade, presença divina ou o poder e a vontade de um deus) e definido como "o agente ou poder consciente fundamental nos seres humanos... Ele faz a ponte entre as noções habituais de mente e corpo de maneira análoga à forma como o termo *qi* conecta as ideias de energia e matéria", sendo o *qi* a "substância básica" que constitui e permeia o universo.

No contexto taoista primitivo, o *shen* é frequentemente visto em contraposição ao *jing* (essência) e, posteriormente, passa a integrar a tríade *jing*, *qi*, *shen*.

O *shen* é frequentemente mencionado na obra clássica de medicina *Cânone Interno do Imperador Amarelo* (*Huangdi Neijing*) e figurou entre os primeiros termos médicos chineses estudados por pesquisadores ocidentais.

A OBSERVAÇÃO DA PRÁTICA SOCIAL

O trabalho de campo para este estudo foi realizado entre setembro de 1988 e
dezembro de 1989 em Kunming, capital da província de Yunnan, na República Popular da China.

...Em vez de buscar conhecimento médico especializado em um dos grandes
centros de ensino, eu queria aprender sobre a medicina chinesa tal como ela era praticada no cotidiano das províncias. Matriculei-me como estudante em uma instituição de ensino onde a
Medicina Tradicional Chinesa (MTC) estava institucionalizada. ...paralelamente visitava hospitais clinicas e ouvia colegas ...

Os profissionais dos três contextos utilizavam praticamente a mesma terminologia ao comentar suas intervenções médicas. Todos falavam em *qi* (sopro/energia vital), *xue* (sangue), *jing* (esperma ou essência), *shen* (espírito), *yin-yang* e *han-re* (frio e calor). Todos faziam referência a qualidades do pulso, nomes de doenças e "padrões de diferenciação" (*bianzheng*) expressos em quatro sílabas. No entanto, um conhecimento mais aprofundado de cada um desses contextos sociais revelava que o significado de um mesmo termo médico variava entre eles. A palavra permanecia idêntica, mas seu significado se alterava, assim como o próprio modo de conhecimento. ....

TIPOS DE AUTORIDADE E ESTILOS DE CONHECIMENTO

As formas pelas quais os praticantes reivindicavam autoridade nos três contextos sociais mencionados acima guardavam afinidade com os três tipos ideais de autoridade de Max Weber ([1921] 1980: 122–176).

[ Para Max Weber, a autoridade legítima (ou dominação) divide-se em três tipos ideais puros: Racional-Legal, Tradicional e Carismática. O conceito de "tipo ideal" é uma ferramenta teórica de análise, pois na realidade histórica essas formas costumam aparecer misturadas. ]

Na faculdade, esperava-se que a prática médica estivesse impregnada de princípios de "autoridade legal"; na prática coletiva do médico sênior, prevaleciam formas "tradicionais" — ou, mais precisamente, "patriarcais" — de autoridade; ao passo que, no empreendimento familiar do curador, a personalidade e o "carisma" deste desempenhavam um papel importante.

Dito isso, é importante lembrar que tais categorias são fluidas nos escritos teóricos de Weber, e que as sobreposições nessas categorizações tornam-se ainda mais evidentes quando aplicadas à análise da "vida real".

Nos três contextos, o conhecimento do *shen* era crucial para a reivindicação de autoridade por parte do médico...

A natureza elusiva de conceitos como shen sempre atraiu a atenção de antropólogos e tem sido discutida sob várias perspectivas.

A abordagem funcionalista de Raymond Firth (1940) para explorar o muito discutido conceito de mana em Tikopia estabeleceu um exemplo para investigar os “usos particulares” de tais conceitos em diferentes contextos sociais. ...

Mesmo que o termo médico para o espiritual tenha sido reproduzido nas instituições seculares do moderno Estado-nação, sua importância na interação social era insignificante. Shen era discutido em textos e salas de aula, em seu sentido amplo e restrito, mas, na prática, era reduzido principalmente a uma função do cérebro. Médicos, pacientes e recrutas podem ter adquirido conhecimento de shen, mas não pareciam "conhecer shen".

Pode-se questionar quais são as consequências de não haver mais necessidade de conhecer o espiritual. Claramente, o temor pelo espiritual provoca incerteza.

Vimos como o curador carismático e o médico patriarcal exploraram essa incerteza cognitiva para estabelecer sua autoridade. Quanto ao seu modo de conhecer, observamos que o curador buscava o consenso com outros para decidir se o paciente estava possuído por um espírito ou não, e que o médico sênior reconhecia que seu conhecimento se limitava à sua experiência pessoal. Ambos estavam dispostos a aventurar-se na análise do que era cognitivamente incerto — o espiritual —, mas tiveram de fazer concessões quanto à validade de seu conhecimento.

Ao evitar a análise do que é cognitivamente incerto, o conhecimento dos especialistas no contexto burocrático torna-se mais autoconfiante, com uma pretensão maior à "verdade intersubjetiva". Ou, colocando de outra forma, corre-se o risco de incorrer em uma postura de autossuficiência moral.

Especialistas da área médica podem submeter a controle mútuo o conhecimento produzido com autonomia e confiança, mas, dada a tendência institucional inerente a especialistas em organizações burocráticas de se desconectarem das necessidades e demandas de seu meio social, esse processo não apenas retira o poder de sua clientela: pode, em última análise, resultar na produção de um conhecimento irrelevante para os clientes e para o processo de cura.

Algumas referências

Weber, M. (1921) 1980
Wirtschaft und Gesellschaft. Grundriss der verstehenden Soziologie. Fünfte revidierte Ausgabe. Tübingen: Mohr. / Weber, Max, 1864-1920. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. DF : Editora Universidade de Brasília: São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999. https://www.academia.edu/30447030/Max_Weber_ECONOMIA_E_SOCIEDADE_Fundamentos_da_sociologia_compreensiva_E_jEJ

Firth, R. (1940) 1967. An Analysis of Mana: An Empirical Approach. In R. Firth (ed.) Tikopia and Ritual Belief. London: Allen & Unwin, pp. 174–194 https://archive.org/details/tikopiaritualbel0000firt_t3f1/page/n5/mode/2up

* Elisabeth Hsu
https://www.anthro.ox.ac.uk/people/professor-elisabeth-hsu

https://www.anthro.ox.ac.uk/sites/g/files/vzsiac756/files/anthro/documents/media/elisabeth_hsu_-_chronolgical_publication_list.pdf

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Sobre o conceito de Médico 医生 (Trad. 醫生) yī shēng
doutor (médico) na medicina tradicional chinesa

Costa, Paulo Pedro P. R.
Acupuntura, ciência e profissão, 2011
https://etnomedicina.blogspot.com/2011/10/medico.html

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Ideograma

神 shen
divindade; alma; espírito; incomum; misterioso; animado; expressivo; olhar; CL:個|个 (gíria) incrível maravilhoso


Shén
Deus abr. para 神舟[Shen zhou]

yabla chinese dictionary

神 shén
deity ;soul; spirit; unusual; mysterious; lively;
expressive; expression; look
CL:個|个 (slang) awesome, amazing

神 Shén, God
abbr. for 神舟 [Shen zhou]

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FOTO

Fulintang (福林堂), localizada no nº 31 da Rua Guanghua, Distrito de Wuhua, Cidade de Kunming, Província de Yunnan, é uma das farmácias mais antigas ainda em funcionamento em Yunnan, fundada originalmente em 1857. Com uma área de aproximadamente 210,4 metros quadrados e uma área construída de cerca de 464,3 metros quadrados, a Fulintang é composta por uma loja, escadaria e consultórios médicos. A farmácia, marcada por sua singular arte farmacêutica, representa um importante exemplo da cultura da medicina tradicional chinesa em Yunnan.

Em 1990, a antiga loja da Fulintang na Rua Guanghua foi designada como uma “Unidade Chave de Proteção de Relíquias Culturais” pelo Governo Popular do Distrito de Panlong, na cidade de Kunming. Em maio de 2003, a mesma loja foi declarada como uma unidade de proteção de relíquias culturais de quarta categoria em nível municipal pelo Governo Popular da cidade de Kunming. Em 5 de março de 2013, o Conselho de Estado da República Popular da China listou a Fulintang como uma unidade chave nacional de proteção de relíquias culturais.

https://www.yunnanexploration.com/attractions/kunming-fulintang-pharmaceutical-industry-co-ltd 


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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Fitoterapia & Etnofarmacologia

No Brasil, a fitoterapia não é uma profissão isolada, mas sim uma especialização clínica reconhecida para profissionais de saúde de nível superior, adquirida através do cursos de Pós-graduação ou exercidas por representantes dos sistemas etnomédicos tradicionais de origem africana ou indígena.

De acordo com a Associação Brasileira de Fitoterapia (ABFIT) as profissões de nível superior cujos  Conselhos de Classe considera aptos para  atuar, após  formação reconhecida, como Fitoterapeutas incluem: Médicos Nutricionistas Farmacêuticos Enfermeiros Fisioterapeutas e Dentistas.

Por outro lado sabemos que nosso país abriga uma grande diversidade de culturas originárias e em sua formação sócio-histórica incorporou diversos sistemas etnomédicos africanos europeus e orientais com indicações fitoterápicas, sistemas de classificação de plantas  ou mesmo importação de espécimes, algumas aclimatadas e outras ainda adquiridas no comércio internacional.  

No Brasil há 359 fitoterápicos registrados na ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) , sendo 27 compostos (quando o ativo é proveniente de mais de uma espécie vegetal) e 332 simples. A despeito da nossa enorme biodiversidade, a maioria dos fitoterápicos registrados no país são à base de espécies importadas. Das 101 espécies vegetais aprovadas como insumo farmacêutico ativo pela ANVISA, 8 delas são nativas endêmicas, 19 são nativas não endêmicas, 6 são naturalizadas, 6 são cultivadas, e 62 não são originárias do Brasil. Portanto, apenas 38,6% do total dessas espécies vegetais pode ser obtida do solo brasileiro, e desse percentual, 26,7% são nativas. [Carvalho et al] 

Segundo curso organizado pela Fiocruz Brasília com vistas ao fortalecimento e ampliação do uso racional de plantas medicinais e fitoterápicos por profissionais do SUS (Sistema Único de Saúde) atendendo a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) no Brasil  identifica-se a presença de pelo menos seis paradigmas farmacológicos, a saber: Xamanismo (medicina indígena, ou tribal); Ayurveda, o sistema etnomédico yogue - indiano; a Medicina Tradicional Chinesa; Unani, ou a medicina grego-árabe que de certo modo deu origem a medicina européia antiga; e a Medicina Antroposófica, que no Brasil se confunde com a a medicina natural ou naturopatia por sua origem europeia, nos séculos XIX e XX, e ampla difusão para Américas. 

Etnofarmacologia é a ciência que estuda o conhecimento popular sobre fármacos, (do grego phármakon, que  significa tanto remédio quanto veneno) portanto, uma substância mais ou menos tóxica com efeito transformador no processo saúde doença, utilizada por um determinado grupo étnico o social, em seu sistema tradicionais de medicina.

Mesmo quando formulações tradicionais – e não apenas espécies vegetais – são levadas em consideração, os sistemas médicos tradicionais e/ou a etnofarmacologia não são vistos como fontes potenciais de novos paradigmas para o uso de medicamentos pela medicina hegemônica ocidental.

Entre as possíveis causas desta resistência estão o elevado custo de pesquisas, "pressão" da indústria farmacêutica, e a disponibilidade de recursos humanos capacitados para pesquisa e exercício profissional. Além das razões de ordem étnica quanto a natureza em que tais formas de conhecimento se inserem nos distintos paradigmas farmacológicos ou que se distinguem entre si.

Elisabetsky (2002),  assinala que a atividade farmacológica incomum observada com formulações vegetais pode resultar dos efeitos de mais de um ingrediente ativo, de interações medicamentosas entre ingredientes, de ingredientes ativos que possuem múltiplos mecanismos de ação ou mesmo da interferência com alvos ainda não reconhecidos pela compreensão biomédica atual da modulação da biologia celular. 

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), por exemplo as fórmulas fitoterápicas são construídas combinando ervas com funções específicas, classificadas em quatro categorias hierárquicas: Imperador (Erva-Mestre), Ministro (Auxiliar), Assistente e Mensageiro (Guia). Em geral formuladas com 50% da erva "imperador";  30% da "erva ministro" e 15% de cada uma das restantes (erva "assistente" e erva "guia").

De acordo com Gusmão a fitoterapia chinesa data de tempos remotos, há registros desde o século XXVIII a.C., destacando-se o Clássico da Medicina Herbal de Shénnóng (100-200 d.C.) Shénnóng běncǎo jīng 神農本草經 que lista 365 medicamentos e descreve os princípios de combinações de ervas.

Na Fitoterapia Chinesa e Dietoterapia, os Cinco Sabores (azedo, amargo, doce, picante e salgado) não são apenas gustativos, mas indicam a ação terapêutica segundo a concepção dos cinco elementos associados e/ou propriedades Yin/Yang da síndrome de excesso e deficiência e características da formulação. Observe-se a complexidade da concepção etnofamacológica.

Outro exemplo é o citado por Prinz (1971) de que os povos indígenas não apenas utilizam plantas medicinais, mas estabelecem relações com elas, Etkin e Ross (1982) sugeriram que essas relações entre pessoas e plantas possuem, de fato, implicações fisiológicas.

Segundo Lévi-Strauss, as classificações indígenas não são apenas metódicas e baseadas num saber teórico solidamente constituído, segundo esse autor são comparáveis sob um ponto de vista formal àquelas que a zoologia e botânica continuam a usar. Permitem diferenciar gêneros, as espécies e as variedades.

Observe-se também que o reconhecimento do uso tradicional como parte da comprovação da eficácia e segurança de produtos naturais é possível em algumas legislações internacionais (Ex. Canadá, Comunidade Europeia e México) e recomendado pela OMS desde a conferência de Alma Ata em 1978. No Brasil a Resolução-RDC Nº 48, de 2004 estabelece parâmetros para segurança de uso e a(s) indicação(ões) terapêutica(s) incluindo o levantamento bibliográfico (etnofarmacológico e de utilização, documentações técnico ­ científicas ou publicações) e pelo menos comprovação de uso seguro por um período igual ou superior a 20 anos entre outros critérios.

Estima-se que cerca de 82% da população utilize plantas medicinais na medicina popular brasileira (folk) esses recursos, repassados oralmente de geração em geração. Tal conhecimento, como referido, integra culturas tradicionais, indígenas e quilombolas com a medicina homeopática, a medicina contemporânea e o recente apoio do Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos.

A presença e uso da homeopatia, introduzida no Brasil nos finais do séc. XIX envolve a mesma natureza de conflitos da prática fitoterápica. Enquanto comunidades científicas e médicas a classificam como pseudociência por falta de plausibilidade biológica, defensores propõem uma epistemologia baseada na complexidade e em ensaios clínicos integrativos. O paradigma científico hegemônico da medicina baseada em evidências dito medicina alopática contrapõe-se ao modelo terapêutico da homeopatia descrito como holístico ou vitalista.

Numa pesquisa que investigou características do movimento de aproximação e afastamento desta escola médica, entrevistou-se 48 homeopatas e médicos da biomedicina, quanto a opinião formada sobre tal prática. Entre os gestores proponentes da sua institucionalização estavam os que defendem, para garantir a eficácia de suas ações, uma anamnese extensa acompanhada de um exame detalhado de cada paciente, diga-se que esta é uma prática médica que resgata a dimensão humanista da medicina, embora não seja a única escola médica a fazer esta proposição. Entre os que não advogam a homeopatia ou sentem-se inseguros à sua utilização, a consideram como uma "medicina suave", que lentamente poderia promover a melhora dos sintomas e referem-se a poucas as publicações de resultados de pesquisas com a utilização da homeopatia em situações agudas. [Salles, Schraiber]

À guisa de conclusão vale recordar que Thomas Kuhn (1922-1996), físico célebre por suas contribuições à história e filosofia da ciência, em especial do processo que leva à evolução do desenvolvimento científico, em seu livro a Estrutura das Revoluções Científicas (1962)  apresentou a concepção de que "um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em pessoas que partilham um paradigma" e define "o estudo dos paradigmas como o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde".

Sem esquecer das contribuições de Claude Lévi-Strauss (1908 - 2009), sua demonstrável constatação de que os chamados primitivos não são atrasados, "menos evoluídos", selvagens, a lógica de sua medicina e sistemas de classificação opera de modo distinto da nossa civilização ocidental, 

O que a antropologia convencionou denominar pensamento mítico-religioso primitivo ou magia, em termos de operações mentais é comparável ao pensamento científico, diferindo quanto à questões do determinismo causal, global e holístico,  operando em níveis ou aspectos distintos da realidade. (Lévi-Strauss,  1976)

Privilegiando a intuição sensível e "multicausalidade cósmica" no pensamento dito selvagem (em seu estado natural/originário) e a percepção e propriedades organolépticas da matéria no pensamento científico.

Referências

ANVISA Resolução-RDC Nº 48, de 2004 - DOU 18 de março de 2004. Revista Fitos Vol.1 Nº02 novembro/2005. https://crfce.org.br/wp-content/uploads/2018/09/RDC-n.%C2%B0-48-de-16032004.-.pdf

Botsaris, Alexandros S. Fitoterapia chinesa plantas brasileiras. SP: Ícone Editora, 2012

Carvalho ACB, Lana TN, Perfeito JPS, Silveira D. The Brazilian market of herbal medicinal products and the impacts of the new legislation on traditional medicines. J Ethnopharmacol. 2018 Feb 15;212:29-35. doi: 10.1016/j.jep.2017.09.040. Epub 2017 Oct 4. PMID: 28987598. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28987598/

Fiocruz Brasilia. Atualização em Fitoterapia: Harmonizando Conceitos – 10ª Oferta. https://www.fiocruzbrasilia.fiocruz.br/atualizacao-em-fitoterapia-harmonizando-conceitos-10a-oferta/

Gusmão, Wendel. Noções de Fitoterapia Chinesa. ABA - Associação Brasiileira de Acupuntura (apostila curso de formação , 2006.

Kuhn, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978

Lévi-Strauss, Claude. O pensamento selvagem. SP: Ed. Nacional, 1976 . (p.65, 67)

Luz, Hylton S.. (2002). Homeopatia: história e fundamentos epistemológicos. História, Ciências, Saúde-manguinhos, 9(2), 437–441. https://doi.org/10.1590/S0104-59702002000200012 https://www.scielo.br/j/hcsm/a/ffhJTb43LHykSCpsP8Rdtdm/?format=html&lang=pt

Prinz (1971) et Etkin e Ross (1982) apud: Elisabetsky, Elaine (2002). [Advances in Phytomedicine] Ethnomedicine and Drug Discovery Volume 1 || Chapter 11 Traditional medicines and the new paradigm of psychotropic drug action. , (), 133–144. doi:10.1016/S1572-557X(02)80020-4

Salles, S. A. C., & Schraiber, L. B.. (2009). Gestores do SUS: apoio e resistências à Homeopatia. Cadernos De Saúde Pública, 25(1), 195–202. https://doi.org/10.1590/S0102-311X2009000100021

Woodlock , Catherine. Traditional Chinese Herbs – How They Work Whole Family Health Edmonton, Canada:  https://www.wholefamilyhealth.ca/traditional-chinese-herbs-how-they-work/

Iconografia

Collection of homeopathic substances in Samuel Hahnemann's apothecary, now a pharmacy museum in Sibiu, Romania. BARRY EVANS. The Roots of Homeopathy https://www.northcoastjournal.com/humboldt/the-roots-of-homeopathy/Content?oid=10147222

Árvore símbolo do “assentamento” de Ossain (Igbá Òsanyìn) em loja de plantas e artigos religiosos de candomblé na Boca do Rio (Salvador Bahia). Foto: Paulo Pedro in: Ervanários & Raizeiros, uma coletânea de artigos e fotos sobre vendedores de ervas, fitoterapeutas e homeopatas https://costapppr.wixsite.com/fotos/raizeiros3 

Ideogramas:

Qi (ou Chi, grafado tradicionalmente como e de forma simplificada como )

/   - Pinyin:  Yào;  Chin. Trad.e simplificado. Medicine; drug; substance used for a specific purpose (e.g. poisoning, explosion, fermenting) https://chinese.yabla.com/chinese-english-pinyin-dictionary.php

 

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quinta-feira, 5 de março de 2026

Um breve ensaio para interpretação dos “ideogramas” cérebro e mar de medula na Medicina Tradicional Chinesa

 


Paulo Pedro P. R Costa,

um texto ainda preliminar destinado a um estudo monográfico

Resumo

Considerando a relação entre a cultura e a linguagem explora-se a concepção de cérebro na medicina tradicional chinesa a partir de uma revisão de alguns artigos principalmente do livro da Professora Elisabeth Rochat de la Vallée. Discute-se a dificuldade de integração com a neurociência e vantagens da utilização das ferramentas da etnomedicina e antropologia estrutural que toma como referência os caracteres chineses enquanto conceitos dos textos clássicos da medicina chinesa. Advoga-se a utilização das ferramentas da antropologia/ etnologia como estratégia orientadora da pesquisa e articulação com a neurociência.

Palavras chave: acupuntura, cérebro, mar de medula, etnomedicina 

Introdução

É comum entre nós baianos a atribuição ao "vento" a causa de enfermidades em especial o "acidente vascular encefálico" e a paralisia facial periférica (ou de Bell).

Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), assim denominada por distinção das práticas hegemônicas cosmopolitas, também praticadas na China atual,  o Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou Acidente Vascular Encefálico (AVE) é, também frequentemente interpretado como um dos distúrbios causados pelo "Vento" (
Fēng). Distingue-se ainda, entre outras síndromes, a paralisia facial após um AVC como causada por Vento Interior, e a paralisia de Bell é atribuída a Vento Externo. (Dashtdar et al, 2016; Gomes Neto)

Numa investigação superficial, anedótica, poderia passar como mais uma coincidência de uso de metáforas entre a medicina de matriz afro-indígena ou a medicina de origem grego/europeia-jesuítica e a medicina tradicional chinesa. Contudo uma perspectiva de estudo etnológico revela a especificidade do uso deste símbolo, distinto em cada contexto cultural, apesar da notável “coincidência”.

O estudo da MTC por ideogramas, caracteres chineses ou sinogramas, para utilizar uma terminologia mais adequada (Alleton, 2010), provenientes de antigos textos, numa investigação sistemática comparativa destes, com o que vem diversamente sendo indicado na prática clínica da acupuntura, pode constituir-se ainda numa possibilidade de evidenciar um melhor uso, e/ou facilitar encontrar a comprovação empírica (experimental), do que já vem sendo dito e praticado a milhares de anos.

Usualmente, dezenas de estudos clínicos e anatômicos ocidentais tem evidenciado efeitos específicos estudando ponto por ponto. Por exemplo uma busca rápida pelo ponto (E36) “St36 ZuSanLi, Zusanli” no PubMed encontrou 1.260 resultados.

Para Yousef (2024) poucos trabalhos, ou nenhum, tentaram compilar ou avaliar representações históricas do cérebro fora do mundo ocidental, portanto, mais investigações históricas são necessárias para equilibrar essas perspectivas e obter uma visão histórica completa da neuroanatomia e/ou uma compreensão mais profunda do surgimento histórico da neurociência. Ao que podemos acrescentar, utilizando uma metodologia etno-histórica poderemos obter maior resolutividade ou eficiência clínica nos tratamentos.

Nesse ensaio nos limitaremos a descrição da concepção do cérebro e suas funções a partir do livro de Elisabeth Rochat de la Vallée, “Fu Extraordinários” publicado em 2024 com o subtítulo “o cérebro e outras funções essenciais na medicina chinesa” e alguns outros textos auxiliares.

Compreendendo o sistema nervoso (patologias)

Observe-se entretendo que o estudo transcultural do encéfalo, cérebro ou sistema nervoso acrescenta uma dificuldade a mais, face a diversidade de teorias e práticas da medicina hegemônica ocidental para interpretação intervenção nas patologias deste órgão, basta citar para verificação desta afirmação, a multiplicidade de especialidades médicas e paramédicas destinadas aos seu tratamento (anestesiologia, neuropsicologia, neurologia, psiquiatria, fisioterapia fonoaudiologia etc.) além da já citada diversidade teórica, a exemplo da neuropsicanálise, psicofarmacologia, reflexologia soviética, etc. muitas em vias de integração à neurociência.

O capítulo de citado livro de Vallée intitulado “patologias do cérebro” (p.107-111) reúne estudos e citações de textos antigos descrevendo os mesmos sinais e sintomas tratados por nossos especialistas em neurociência, como dito, neurologistas, psiquiatras fisioterapeutas entre outros. Há de se refletir se estamos diante de outra notável “coincidência” (?) ou melhor diante da invariância biológica ou, de uma caraterística cultural universal (Royaumont, 1978) de compreensão deste órgão. Um elemento natural-cultural responsável talvez pelos símbolos descritivos dele, o cérebro, presentes em todas as culturas, 

São estes os sinais e sintomas ou patologias, aqui descritas por ordem de citação no referido texto: (1) febres (processo em que o cérebro e as medulas são cozidos - referido no Suwen (cap.35), além das febres intermitentes (encefalites, febre de origem central?) essa patologia está associada segundo esta referência, a problemas nos orifícios (incontinências, distúrbios da visão audição ou deglutição?); (2) os diversos problemas causados por “vento” já referidos; (3) dor de cabeça, dor nos dentes nas bochechas (trigeminalgia?); (4) vertigens com e sem liquido nasal  transparente e com coriza ou com líquidos amarelos cheirando mal (rino-sinusites?); (5)  fraqueza, adinamia, exaustão por ”vazio de essências ao nível do cérebro” (típico sintoma de diversas patologias inclusive neuropsiquiátrica); (6) ataque fulminante associado à dor no coração atingindo pés e mãos; (7) dor de cabeça constante (enxaquecas?). Os termos entre parêntesis com interrogação são interpretações do presenta autor.

No capítulo que analisa “textos médicos da dinastia Qing”, Vallée refere que as essências dentro da cabeça permitem o bom funcionamento do mental e da consciência ...”penetradas de Luz (Jing Ming) permitem a verdadeira inteligência e aos “Espíritos” iluminar os órgãos dos sentidos e o pensamento. Adiante explica: “o cérebro desenvolve as atividades psíquicas e mentais em função do bom estado do Coração, Fígado e Rins. (p.120-121) Neste mesmo capítulo menciona ainda a célebre “amnésia da infância” (descrita detalhadamente por S. Freud ao longo de sua obra) e os casos de agenesia cerebral (malformações do tubo neural?), e retardos do desenvolvimento mental. (p.121).

 Nessa última categoria é bem divulgado, o texto do “livro do imperador amarelo” que relaciona a idade dos pais à vitalidade dos filhos. O que na medicina hegemônica cosmopolita é um fator reconhecido tanto por obstetras como por geneticistas. (Martins, 2022)

Este capítulo sobre patologias do cérebro poderá ser expandido reconsiderando a proposição do estudo do efeito de pontos específicos por associações clínicas e anatômicas a partir de artigos específicos e/ou recomendações de apostilas didáticas e manuais para formação de acupunturistas. Contudo, numa perspectiva etnológica pode ser bem mais compreendido e com resultados clínicos mais eficazes se identificarmos as patologias aqui descritas, na ótica chinesa, ou seja, de quem as descreveu, naturalmente superando a barreira dos idiomas e culturas. 

Questões metodológicas

Em outro texto analisando as dificuldades do ensino – aprendizagem da acupuntura no ocidente transcrevi: o idioma (língua) segundo Matoso Camara Jr. apresenta-se como um microcosmo da cultura ...”tudo que a cultura possui se expressa através da língua; e esta é em si mesma um produto cultural”. Sem resolver tal paradoxo não há de se ter uma perfeita compreensão da cultura chinesa e de suas tradições. Há que se buscar uma cooperação entre essas ciências. Como disse o mestre Lévi-Strauss, se houvesse uma correspondência absoluta entre a língua e a cultura, os antropólogos e linguistas já teriam se dado conta disso. (apud: Costa, 2010)

Diante de tais dificuldades e inquietações, o aforismo hipocrático nos traz certa conformação: “a arte é longa e a vida breve”...Porque etnologia e linguística? Por que se trata da tradição ou de uma outra cultura e outro idioma. Porque, antropologia e história?, por que, diga-se de passagem, um ditado chinês “o passado é um país que não mais existe”. Estudamos a China Imperial e distintas dinastias, além de ser uma arte médica feita e refeita nos quatro cantos do mundo. Esta, a meu ver, é a razão para privilegiarmos a antropologia médica (estrutural, etno-linguística, antropologia da saúde etc.), Etnologia para melhor compreender a MTC e a acupuntura, sobretudo as razões desta arte - técnica pouco se transformar ao longo de milênios.

Assim sendo recomendo-me, contemplo, e admiro o trabalho da Professora Elisabeth Rochat de la Vallée, que nos proporcionou a principal fonte deste estudo, embora saiba que somente a prática clínica (o que se aprende com cada paciente) traz o sentido. Mas reafirmo a suposição de que uma teoria etnomédica (sino-antropológica) associada, pode nos auxiliar a melhor compreender e organizar os 101 caracteres da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que ela propõe como conceitos-chave. (Vallée, 2019)

Certa feita calculei que um especialista em MTC, que reconheça o nome original dos pontos e meridianos da acupuntura, o nome das principais síndromes de acordo com os princípios do Yin/Yang e Cinco Elementos (ou movimentos - 五行wǔxíng) e pelo menos o nome de uma centena de plantas, ervas e formulações chinesas deve reconhecer uma média de 500 "ideogramas". Por outro lado, segundo o Instituto Confúcio da UNESP, considera-se que alguém que domine a língua chinesa escrita, conheça em torno de 2.000 "ideogramas" (Costa, 2010)

A Consciência e o Coração

Apesar da importância de abordarmos o tema da consciência e percepção, num estudo sobre o cérebro e sistema nervoso, por hora deixo apenas anotado a importância que ela evidenciou da percepção interpretando o “valor” do olho (orifício yang), o olhar como porta de entrada do cérebro e do coração. O olho enquanto lugar de acumulação dos "Mai” (caminhos) ancestrais – convergentes, juntamente como a luz do ouvido - palavra sem som, mencionada por C. G. Jung (1875 – 1961) no livro “O Segredo da Flor de Ouro", a porta de entrada ou, o acesso à essência da psique. Uma análise desta concepção do modo ocidental implicaria em toda uma revisão da concepção de consciência, percepção e emoção na ótica ocidental-psicanalítica, o que, por sua complexidade, merece um estudo específico.

Transcrevendo literalmente o parágrafo do citado livro comentado por Jung, apenas para destacar a importância da relação percepção / e órgãos dos sentidos:

Há uma luz do olho e uma luz do ouvido. A luz do olho é a luz unificada do sol e da lua, fora. A luz do ouvido é a semente unificada do sol e da lua, dentro.... Ambas têm a mesma origem e apenas se diferenciam pelo nome. Por isso a compreensão (ouvido) e a clareza (olho) são, ambas, uma e a mesma luz atuante. Do Tai I Gin Hua Dsung Dschi, Jung, 1992 p.112

Para entender a relação mente- coração ou transtornos mentais e emoções, atente-se para o aviso de Vallée para acupunturistas, de que o pensamento claro e a cólera ou violência da ira/irritabilidade não correspondem exatamente ao Fígado ( gan) e ao Baço-Pâncreas ( pí). Se assim entendermos (apressadamente) estaremos seguindo o caminho da medicina ocidental, analítica especializada em órgãos e segmentos metabólicos. Na Medicina Tradicional Chinesa quando se se fala do Coração, se fala da pessoa ou tudo que compõe o Ser. (Vallée oc. p. 127)

A MTC trabalha com "sopros" ( Qi), não é o Fígado que está com raiva, é a pessoa. O equilíbrio deve ser reconquistado pela análise da relação entre os elementos. No caso o sopro da madeira em relação ao fogo...etc. E especialmente quanto, a categoria nossa conhecida na Bahia, (Br), o "vento” no cérebro, ou outros fatores perversos (patogênicos), temos que: segundo Valllée, os fatores patogênicos residem (invadem) "lugares" pelo fato de lá haver uma insuficiência: ...”quando os "sopros" que sobem estão em insuficiência, o cérebro não está impregnado daquilo que faz sua plenitude”.

Para compreender "insuficiências" ou fluxos de ascendentes ou descendentes temos que recorrer a textos básicos de acupuntura tipo o "livro dos 4 institutos" elaborado pelo Ministério da Saúde da China, ou dezenas de outros bons manuais que pelo menos trazem os nomes originais dos jīng Canais (Meridianos), pois comoveremos a lógica de seus nomes, corresponde a lógica da relação entre eles.

Somente para ilustrar e dimensionar a complexidade dessa tarefa (aprendida normalmente em cursos de um a dois anos) e deixar claro que na MTC, não há como separar a mente do corpo com todos os seus órgãos e vísceras. Elaboramos as gravuras (aqui mostradas) com cerca de meia centena dos ideogramas essenciais a compreensão das relações mente – corpo ou mente-cérebro-espírito.

O nome dos canais e a direção (ascendente ou descendente) são indicados pelas setas e os seus nomes-ideogramas compõe-se do nome dos órgãos e a circulação do Qi “energia” ou sopros que circula sequencialmente. Tài - Maior ; Shǎo - Menor ; Jué – Atenuado ou Terminal;  e míng – brilhante ou pleno. (ver ilustração)

Lembrado ainda da observação de Vallée, de que os sopros Yang que sobem a partir do tronco e vem até a cabeça, e os sopros Yin ao subir vem a ser, de certo modo um Sopro Yang, por assumir características Yang de “energizar” ao conduzir os necessários líquidos nutritivos (Yin).

O que no ocidente denominamos como emoção, para cujo estudo inclusive há vários modelos teóricos conflitantes, na MTC corresponde a atividade de órgãos específicos em relação a totalidade do organismo, ou melhor da pessoa, como dito antes por Vallée, reagindo simultaneamente a fatores externos, tipo estações do ano ou momentos do dia-noite, como forma de adaptação.   

Da mesma forma a psique, espírito ou shén; (abrigado pelo Coração / "Espírito Supremo") é traduzível por atividade de pensamento, consciência, auto - percepção, sentimentos, tudo o que depende do coração (no sentido poético e popular deste), sem estar, entretanto, dissociado dos demais órgãos. Por esta relação também são denominados como Cinco Espíritos (五神 wu shen), organizados conforme o referido ciclo yin/yang e/ou dos 5 movimentos (五行 wǔ xíng) do pentagrama. Sendo hún – alma etérea pertencente ao fígado; Yi intelecto, foco, processamento de informações associado ao Baço Pí; Pó, a "Alma Corpórea" associado ao pulmão (Fèi) ligada aos instintos de sobrevivência, sensações físicas, ansiedade, calma; Zhì força de vontade, determinação de metas planejamento associado ao rimShèn. (Maciocia, 2015)

Portando o "Shén" () indica também, como diz Maciocia, o complexo de todos os cinco aspectos mentais e espirituais de um ser humano, ou seja: o próprio Shén, o Hun, o Po, o Yi e o Zhi. Sua relação é o que se traduz como "Espírito". (Maciocia, 2015)

Interessante registrar, sendo válida ou não a hipótese da existência de um contato entre médicos ou da medicina da Grécia com China (Needham; Gwei-Djen). Que também na Grécia antiga a compreensão que se tinha do cérebro, não explicava o fenômeno dos sentimentos e emoções.  Hipócrates (460 - 370 a.C) e Aristóteles (384 - 322 a.C.) divergiam quanto ao papel central do Cérebro vs. Coração. Para Hipócrates o cérebro era a sede da inteligência, da consciência e das emoções. Para ele, o coração era um órgão importante, mas secundário no processamento mental. Aristóteles, por sua vez, defendia que o coração era o órgão mestre. Como o coração é central, move-se e é quente, Aristóteles concluiu que ele deveria ser a sede da alma (psique), dos sentidos e do intelecto. O cérebro, para ele, servia apenas para resfriar o sangue.

A concepção aristotélica foi tão forte que só começou a ser derrubada de fato no Renascimento, especialmente quando William Harvey provou a circulação sanguínea em 1628.

Naturalmente há muito ainda há muito ainda a se dissertar sobre a dinâmica dos sentimentos e os meridianos, inclusive equacionando a forma de intervenções do que consideramos transtornos mentais, e o potencial terapêutico da acupuntura e MTC. Apesar da ampla produção de artigos relacionado tratamento sintomas como ansiedade, insônia, depressão, dependência química à drogas, alguns manuais de acupuntura a exemplo do livro dos quatros institutos adotam a terminologia psiquiátrica tradicional, com termos como histeria, mania, psicose entre outros. Possivelmente a inclusão do sistema da classificação de patologias na concepção da MTC a ser incluída no CID-11 (Classificação Internacional de Doenças - 11ª Revisão) nos auxilie a elucidar tal questão. (Reddy; Fan, 2022)

Aguardando: “Elisabeth Rochat de la Vallée. Duplo Aspecto do Coração e as Emoções na Medicina Chinesa. SP: Editora Inserir,2020” p rever 


(nao) encéfalo, cérebro (o sistema nervoso central)

Segundo Vallée, neste livro que estamos estudando para este ensaio, o ideograma de cérebro ( Nao) na sua constituição está relacionado a cabeça (crânio) e corpo. Numa perspectiva da filologia, ou de evolução da linguagem, corresponde mais a descrição de partes do corpo que das idéias médicas, de modo que associações à forma e função do órgão foram desenvolvidas posteriormente. Inclusive é possível assim se constatar historicamente, de forma análoga o que ocorreu com o vocábulo grego encéfalo ou enkephalos (ἐγκέφαλος), que significa literalmente "o que está dentro da cabeça". Assim como com a palavra cérebro, que vem do latim cerebrum, com o mesmo significado de conteúdo ou parte da cabeça, teria surgido a partir da partícula Indo-Europeia “ker”, que pode ser traduzida por “o alto da cabeça” somada ao sufixo – brum ou -bhero significa “levar”.

O Cérebro compreendido como "mar de medula" 髓海 - suǐ hǎi na Medicina Tradicional Chinesa, por sua vez já expressa, características fisiológicas ou funcionais do órgão e relação como os outros órgãos e sistemas do corpo, pois é compreendido como um dos quatro mares, como veremos.

 

No “Livro do Imperador Amarelo”,- o “Huang Di” (黃帝) “Nei Jing” (内經) – Ling Shu - Capítulo 33 Hai Lun. Lê-se sobre os Quatro Mares:

 

O Imperador Amarelo perguntou a Qibo: "Ouvi teu discurso a respeito da terapia de puntura, e o que disseste não discordava das energias dos canais Ying e Wei. Já que os doze canais se conectam internamente com os cinco órgãos sólidos e com os seis órgãos ocos, no exterior com a ligação das quatro extremidades e das juntas, podes coordenai-as com os quatro mares?"

 

Qibo respondeu: "No corpo humano, existem quatro mares e doze canais. Os doze canais fluem em todas as direções, mas finalmente convergem aos quatro mares; existe o mar do leste, o do oeste, o do sul e o do norte, por isso se chamam quatro mares".  Bing Wang. p.654-655

 Em outros capítulos do Huang Di Nei Jing Ling Shu, o Cânone Espiritual da Medicina Interna do Imperador Amarelo, os quatro mares são listados da seguinte forma: Mar de Qi; Mar de Grãos e Fluidos; Mar de Sangue e Mar de Medula. Segundo McAlister, esses “mares” ainda permanecem um tanto enigmáticos no campo da medicina oriental, pela simples razão de que são descritos no texto original nos termos mais minimalistas possíveis e quase exclusivamente em termos de sua patologia. (McAlister, 2014)

Um conhecido site de difusão e cursos de acupuntura, o “Yin Yang House” assinala que esta classificação se integra a outras teorias que agrupam pontos de acupuntura com base em suas funções e/ou outras relações com ênfase prática clínica e informações diagnósticas, portanto são usadas, juntamente com outras teorias e não mencionadas (Yin Yang House, 2026)

No caso do mar de medula, como vimos em Vallée os sintomas que se manifestam em caso de depleção, correspondem de certa forma à descrição geral dos sinais e sintomas de problemas neurológicos e como observa McAlister, típicos também do envelhecimento tais como: tontura, zumbido nos ouvidos, perda de visão, sensação de vertigem, dor nas pernas, letargia e sonolência.

Segundo a Yin Yang House e o Livro dos Quatros Institutos os pontos do Mar da Medula são (VG 20 百會 Bai Hui, e VG 16 風府 Feng Fu).

Sendo o VG20 indicado para distúrbios mentais, apoplexia, dores de cabeça, tontura, vertigem visual, obscurecimento da visão, zumbido no ouvido, obstrução nasal, dor no vértice, insolação, convulsões entre outras indicações. Sendo o VG16 風府 cujo ideograma-nome significa porta ou palácio do vento, é o ponto principal para o vento, seja externo ou interno, afetando particularmente a cabeça e o pescoço. Indicado para cefaleia por vento-frio, rigidez na nuca, aversão ao vento; bem como tontura, vertigem, dormência, espasmos e tremores segundo a Yin Yang House. O livro dos 4 institutos apresenta para este as mesmas indicações que o VG 20.

Maciocia, ao descrever o “mar de medula” no capítulo “Função dos órgãos yang extraordinários (os quatro mares) ”, explica que cada um deles é ativado por pontos específicos superiores e inferiores. (Maciocia 2015 p.185). Poderíamos ainda incluir, de outros manuais, informações mais ou menos coerentes com estas, contudo não podemos esquecer da particularidade de cada diagnóstico, a especificidade de cada pessoa. A MTC assim como outros sistemas das medicinas orientais (a exemplo da Ayurveda) e antigas, feito a Homeopatia e Naturismo trata doentes e não doenças. 

Outra questão relevante, a ser melhor compreendida por estudo dos caracteres chineses é o sentido e uso do “ideograma” mar ( - Hé) nos pontos Shu Antigos (输穴 - shū xué). Apesar de usualmente ser traduzido por mar seguindo a metáfora ( Jǐng / Poço); Yíng (Manancial/Nascente): - Shū Riacho/ Transporte). Alguns dicionários (a exemplo do  Yabla Dictionary) o traduzem por reunir, ser igual a, unir, o todo (whole) distinto portanto de Mar Hǎi (oceano)

Como pode se constatar é esclarecedor a distinção por fontes originais os 5 pontos mar dos 12 meridianos principais; os pontos dos 4 mares e as próprias patologias associadas ao mar de medula, que como já explicado não corresponde exatamente ao que consideramos na medicina ocidental doenças neurológicas e psiquiátricas.

Observe-se também que a meta deste ensaio é a proposição de conhecer os clássicos da MTC destacando a importância dos caracteres chineses ou sinogramas, (embora aqui utilizamos indistintamente também o termo ideograma face a sua ampla divulgação). Tal conhecimento, supomos, aliado a uma investigação sistemática de resultados clínicos da acupuntura, pode constituir-se como uma forma de aperfeiçoamento e compreensão do que se classifica como patologia nos sistemas de classificação ocidental (CID).

Um mérito inquestionável do livro texto de Vallée é deixar bem claro que não podemos analisar o cérebro isolado dos demais órgãos fu extraordinários. A teoria da medicina tradicional chinesa utiliza esta categoria para classificação dos órgãos e vísceras do corpo humano, ou melhor utiliza dois caracteres zang e fu (fou), em chinês simplificado, e ; e em chinês tradicional: ; em pinyin : zang fǔ.

Órgãos Fu extraordinários por que apesar de possuir características comum aos Yin são destinados ao transporte a transformação, são extraordinários porque guardam, tesaurizam (cang ) as essências e as "reenviam sem jamais deixarem escorrer para o lado de fora (xie ), na concepção chinesa (entesouram). Sendo os seis órgãos yang extraordinários (ou 4 mares) o cérebro, a medula, ossos, "mai" (vasos da circulação vital), vesícula biliar e útero. Caracterizam-se como uma matriz (mares?), sua função constitutiva, reapresentações, manutenção da organização intrínseca da vida, a água e líquidos vitais (sangue, esperma) segundo Suwen 11 Vallée o.c. p. 47)

Maciocia descreve os seis órgãos yang extraordinários, (Útero; Cérebro; Medula; Ossos; Vasos Sanguíneos; Vesícula Biliar) como assim chamados porque funcionam como órgão Yin, ou seja, armazenam a essência Yin e não a excretam, armazenam algum tipo refinado de essência, tais como medula, bile ou sangue e, estão todos direta ou indiretamente relacionados com o rim,

Outro mérito notável é o destaque que apresenta sobre a natureza das essências Jing e a própria natureza da medula que se “acumula” no cérebro. A relação excesso (numa correta interpretação) e depleção.

Analisando o caractere medula ela demonstra a relação deste com a algo que flui, o que explica a relação com o “mar” e também com osso. A medula os ossos que também representam a capacidade de locomoção e postura Vallée assinala que o caractere osso inclui o ideograma carne (oc.p165). O que nos permite associar com sistema musculo esquelético, e alterações de postura e movimento cujas alterações são também típicas do envelhecimento e neuropatologias ou mesmo em em situações de vida e morte como observa McAlister. (oc.2014)  

Para concluir

O estudo do Cérebro nǎo, este misterioso órgão que é o encéfalo, um quase desconhecido também para nós ocidentais, compreendido como "mar de medula" 髓海 - suǐ hǎi na Medicina Tradicional Chinesa revela-se com essencial para o entendimento das evidentes relações na acupuntura com a neurociência. Não somente por contrapor-se a tendência de superespecializações tanto na medicina ocidental, decerto influenciando a formação de fisio-acupunturistas acupunturistas-psicólogos, dermato-esteticistas etc. evidenciando a demanda de compreender o ponto de vista, holístico, humanizado, (que vê doentes e não doenças) e próprio da medicina chinesa. Por isso mesmo requer um estudo indissociável de uma leitura linguística antropológica. A leitura do livro que tomamos como referência e motivo deste ensaio, sem trocadilhos, é um livro extraordinário, um texto guia para aventura transcultural de compreender antigos textos da medicina tradicional chinesa e atual pois não há retorno para difusão da acupuntura, resta a nós ocidentais e orientais desenvolver sua melhor utilização.    

Elisabeth Rochat de la Vallée. Fu Extraórdinários, o cérebro e outras funções essenciais na medicina chinesa - Qi Heng Zhi Fu 奇恆之腑 SP: Inserir, 2024

OUTRAS REFERÊNCIAS

Elisabeth Rochat de la Vallée. Os Fu Extraórdinários - Qi Heng Zhi Fu 奇恆之腑
http://www.elisabeth-rochat.com/docs/37_fu_extraordinarios_port.pdf

Elisabeth Rochat de la Vallée
Artigos, textos, imagens, divulgação de eventos, publicações, informações e links. Estudos dos textos clássicos chineses
https://elisabethrochat.blogspot.com/

Elisabeth Rochat De La Vallée
101 Conceitos-Chave da Medicina Chinesa
SP: Inserir, 2019

Alleton, Viviane. Escrita chinesa.RS: L&PM, 2010

China, Ministério da Saúde (Livro dos 4 Institutos, 1964) Fundamentos Essenciais da Acupuntura Chinesa SP: Icone, 1995

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https://theory.yinyanghouse.com/acupuncturepoints/theory_fourseas Acesso em Janeiro de 2026

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Ilustrações

髓海 Mar de Medula
ou das essências (
精神 Jing Shén)

- Nome dos jīng Canais (Meridianos) com setas indicando a direção do fluxo em relação a cabeça.

- Cinco aspectos (Cinco Espíritos) da Psique ligados aos órgãos Zang, psique (Shén, Po, Hun, Yi, Zhi)

- Ciclo das emoções associadas aos cinco elementos ou movimentos. (
五神 - Wǔ Shén)

Ideogramas dos 5 elementos e sentimentos/ emoções