domingo, 30 de janeiro de 2022

Neurobiologia do sistema nervoso autônomo e suas conexões com o ouvido externo na auriculoacupuntura

 


RESUMO
Este texto inicialmente foi apresentado como anexo ou artigo complementar da monografia “O mar de dentro, um estudo da concepção de cérebro, e mente no sistema etnomédico chinês” apresentada em 2003 no curso de especialização em Acupuntura Sistêmica e Auriculoacupuntura, ministrado pelo Prof. Jurecê J. Machado na Clínica Escola Científica de Acupuntura - CLIMA na época filiada à ABA Associação Brasileira de Acupuntura por organização do Dr. Haeckel Meyer um dos fundadores da acupuntura na Bahia. Discorre sobre a relação entre as possíveis conexões do sistema nervoso cental, mais especificamente do tronco cerebral, com o conjunto de nervos presentes no pavilhão auricular, explorando sua forma, função e potencial utilização clínica na medicina tradicional chinesa e ocidental.

Auriculoacupuntura (耳針 Ěr zhēn )

Entre antigas obras da medicina chinesa existem diversas referências a estimulação de pontos na orelha entre os métodos de tratamento. Muitas livros e artigos inclusive citam que o próprio Nei Jing (内經) em suas notas que tratam das estreitas relações entre a orelha e outros órgãos indicando que alterações fisiológicas e patológicas do coração, rins, cérebro, fígado, baço, intestino grosso e delgado se refletem na orelha (Weikang, p.30-31; Dulcettti Jr., p.8-9; Chan, p.14)  

A prática médica resultante destas observações sobreviveu até os nossos dias e tem sido denominada aurícula acupuntura, do in auricular ou medicina auricular sempre se referindo a métodos de observação e estimulação de cada região ou ponto do pavilhão do ouvido externo com fins profiláticos ou terapêuticos.

No sistema chinês de explicação tal possibilidade de diagnóstico e/ou de eficácia terapêutica se deve a conexão do pavilhão da orelha com "canais colaterais" feito o Yang Wei que entra na orelha após circundar a cabeça e/ou com seis (6) entre os doze (12) meridianos ordinários Yang que entram e passam em torno da orelha. Os meridianos Yang (Tai yang da mão (ID); Yang ming da mão (IG); Shao yang da mão (san jiao (SJ) ou tríplice aquecedor (TA) e Shao yang do pé (VB) entram na orelha e os meridianos do estômago (E) e bexiga (B) atingem a região periauricular. Os meridianos Yin conectam-se indiretamente através dos canais colaterais. (Weikang, o.c.; Machado, Quatro institutos, p.401-402)

Segundo o Nei Jing (内經), o sangue de todos os 12 meridianos sobe até a face e o cérebro, seus ramos atingem a orelha para tornar a audição normal. Alguns exemplos do Nei Jing (内經) compilado por Bing Wang durante a dinastia Tang 唐朝 (618-906):

... os cinco canais, Shaoyin da Mão (Coração), Shaoyin do Pé (Rim), Taiyin da Mão (Pulmão), Taiyin do Pé (Baço-pâncreas) e Yangming do Pé (Estômago) se reúnem no ouvido, e ascendem para circundar o ângulo frontal acima do ouvido esquerdo, se a energia do canal do cinco tipos de colaterais estiver esgotada, quando a energia perversa invadir, isso fará com que se perca a consciência; ao contrário de quando o funcionamento dos canais no corpo todo está normal, o paciente se assemelhará a um cadáver, e a isso se chama síncope. p.312

Inclusive, nesse capítulo sobre a punção contralateral, recomenda para síncope ... se a picada for ineficaz, soprar as duas orelhas do paciente com um tubo de bambu e haverá recuperação imediata... p.312

Sobre as doenças febris: ... "No terceiro dia, o mal é transmitido ao Shaoyang (SanJiao/ tríplice Aquecedor -?). O Canal Shaoyang se encarrega dos ossos e corre junto às duas partes laterais do tórax, circundando as duas orelhas, por isso o [calor] perverso irá causar dor no peito e no hipocôndrio, e ensurdecimento nos ouvidos. p. 175

Além da descrição de diversos pontos tomando como referência as orelhas, destaca especialmente a conexão como o meridiano dos rins (Shao yin do pé), no capítulo onde relaciona os órgãos internos às doenças, a saber:

..."Quando a pele for escura e de textura fina, os rins serão pequenos; quando a textura for espessa, os rins serão grandes. Quando as duas orelhas estiverem em posição elevada, os rins estarão em posição alta; quando as orelhas estiverem voltadas para trás, os rins estarão em posição baixa; quando a pele e os músculo da orelha da pessoa forem substanciais, os rins estarão firmes; quando a pele e os músculos forem finos e não estiverem firmes, os rins serão frágeis. Quando as duas orelhas forem arredondadas e se situarem em frente dos dois ângulos das têmporas, os rins estarão em posição correta; quando uma orelha for mais alta do que a outra, os rins estarão enviesados. Para a condição das cinco variações acima, se for mantida corretamente nas condições específicas ele pode ser estável; se estiverem mal adaptadas causando lesão, ocorrerá a doença”... p.696

Segundo Dulcetti Jr., além do Nei Jing (内經), encontramos referências à estimulação de pontos auriculares em textos ou tratados de medicina das dinastias: Iuan ( 元朝, yuán chäo entre 1271 – 1368) com indicação para epilepsia infantil; Tsin (400 d.C.); Tang (táng) entre  618 – 907 inclusive com aplicação de substancias irritantes ou causticas sobre a orelha; Sung (900 d.C.); e Ming ( míng) entre 1368 e 1644. Refere também à utilização de moxibustão ( Kyū - em japonês) ou mogusa (モグサ) nos pontos auriculares pelos japoneses e em outras regiões do Oriente (Egito, Índia (medicina Ayurvédica), Sri Lanka, Turquia). 

Para Wirz-Ridolfi o primeiro mapa auricular foi publicado em 1888 por Zhenjun Zhang em seu livro Essential Techniques for Massage (Lizheng Anmo Yaosu) Este mapa era um desenho da face posterior da orelha mostrando áreas dos cinco órgãos Zang : Coração; Fígado; Baço; Rim; e Pulmão.

Meditação, audição na cultura chinesa

Na década dos anos trinta, o psiquiatra e psicoterapeuta suíço que fundou a psicologia analítica, a partir da psicanálise, Carl Gustav Jung (1875-1961) e publicou diversos artigos e livros sobre a sabedoria oriental, analisou um texto chinês esotérico, do século XVIII “O Segredo da Flor de Ouro”, que reúne instruções budistas e taoístas sobre meditação. Na análise desse livro traduzido Richard Wilhelm, (1873-1930) observa que chineses (representados por essa tradição), distinguem “a luz do olho” da “luz do ouvido” como focos de excitação para vencer os equívocos da distração e das fantasias que ofuscam a clareza ou a compreensão.

Observa que tais focos de estimulação/são uma mesma “luz”, ou característica da consciência humana, apesar dos dois nomes manifestam-se como imagens ou uma palavra sem som, que se ouve em silêncio, enquanto as imagens se assemelham as do sonho e imaginação. Estende ainda esta interpretação a outros aspectos da concepção chinesa dos aspectos Yin, Yang na energia vital e sua analogia com os aspectos Po e Hun do espírito humano equivalente ao que ele denominou anima e animus. Anima ou princípio feminino (Yin, na concepção chinesa) preso à terra e aos processos corporais e plexos nervosos enquanto o Animus (princípio masculino) corresponderia ao Hun (Yang) associado à visão e sistema cerebral a alma luminosa que se desvanece no ar e o Po a alma sombra que se dissolve na terra depois do corpo morto. (Jung, O Segredo da Flor de Ouro, p.94)      

Há ainda na tradição oriental, diversas técnicas de meditação e transe induzidos pela música ou auxiliados pela música, contudo deve-se observar que a audição apesar de neurobiologicamente não estar dissociada do pavilhão externo da orelha, é uma propriedade do ouvido médio.

Como se sabe o ouvido é um órgão multifacetado que conecta o sistema nervoso central à parte externa da cabeça e do pescoço. Essa estrutura como um todo pode ser considerada como composta por três órgãos separados, que atuam em um coletivo para coordenar certas funções, como audição, equilíbrio e movimentos da cabeça e/ou das orelhas em muitos animais. Agressões microbianas ou traumáticas podem afetar qualquer uma das suas funções apesar das suas evidentes e/ou ainda desconhecidas interconexões.

A conexão neurobiológica mais evidente do pavilhão auricular ou orelha são as conexões associadas ao controle da cabeça e dada a importância, da comunicação sonora (que deu origem à nossa linguagem), para localização dos sons e, especialmente os “gritos” ou sinais de alarme e perigo associados às reações de fuga e luta e funções do sistema nervoso autônomo.

O pavilhão da orelha e conexões autonômicas

O ouvido externo é constituído por uma porção laminar expandida - o pavilhão da orelha, e pelo meato acústico externo. Sua principal função é captar as vibrações do ar, pelas quais os sons são produzidos e conduzi-las até a cavidade timpânica no ouvido médio (Gray). Ao contrário de muitos mamíferos a orelha externa do homem é relativamente pequena, rasa e praticamente imóvel - com raras exceções de indivíduos que voluntariamente realizam alguns movimentos rudimentares para cima, adiante ou atrás (Testut; Latarjet). A maneira como localizamos os sons depende basicamente das ligeiras diferenças de tempo na chegada do estímulo sonoro a cada um dos ouvidos, cooperamos ativamente com esse processo nervo-sistemático, voltando a cabeça e avaliando o efeito desse movimento por retroalimentação.

Sabe-se que a compreensão do funcionamento de um órgão não pode separar-se facilmente da compreensão de seu objetivo biológico. O que também pode ser dito de um conjunto de nervos de qualquer órgão ou região do corpo. Ao se analisar, portanto a origem, função e interconexões dos nervos do ouvido externo, como no caso, temos que situar sua função de captar sons dentro do conjunto orgânico que compõe o aparelho auditivo, incluindo os sistemas cocleares de identificar vibrações para alimentar as informações que coordenam os reflexos posturais.

Sem pretender discutir etapas evolutivas ou variantes de ecolocação dos squalos, répteis, quirópteros e cetáceos não é por acaso que o grupo de nervos conectados na orelha externa humana são também responsáveis por equilíbrio postural, movimentos direcionais da cabeça, mímica facial, movimentos da língua e de regulação de órgãos internos via sistema nervosos autônomo.

A existência de mecanismos biológicos que envolvem as respostas de fuga - luta, quase como uma cadeia de reflexos eliciada a partir de "gritos de alarme" em inúmeras espécies de animais (Eibl - Eibesfeldt) A explicação de tal rede de conexão nervosa deve considerar a preparação do organismo em tais pautas de comportamento que tem sido classificados como apetitivos (busca) e consumatórios de defesa ou ergotrópicos e de repouso e conservação de energia ou trofotrópicos (Engel), envolvendo ainda mecanismos de regulação das funções viscerais e metabólicas em concordância com a estimulação que traduz as contingências ambientais incluindo os gatilhos biológicos do clima e estações do ano.

Entre as pautas de comportamento atribuídas ao sistema parassimpático integrado ao sistema trofotrópicos estão em diferentes espécies comportamento relacionados a criação de filhotes, comportamento cooperativo de sobrevivência compartilhada, transmissão da cultura (ou memes da protocultura) estão comportamentos apetitivos e consumatórios de prazer, sedução, êxtase formação de par e vínculo social. A resposta de medo é modificada na escala evolutiva a partir da inibição de resposta de imobilização réptil para desenvolver o mecanismo de fuga - luta ou inibição de comportamentos por vínculos de identidade grupal e hierárquicos típicos dos humanos como o amor. (Porges)

Os mecanismos de controle de nervo vago por associação com os pares cranianos responsáveis por nervos faciais de mímica e vocalizações (social engagement) é exclusivo dos plexos mielinizados dos mamíferos. (Porges)

A intervenção sobre tônus parassimpático tem sido obtida par fins terapêuticos através de aparelhos de biofeedback, condicionadores de ondas cerebral, de eletro-sono e de auto hipnose com estímulos luminosos - dream machine. (Ter Meulen et al; Blase et al) Aparelhos de estimulação elétrica do nervo vago (no ramo cardíaco cervical superior) semelhantes a próteses neuro-cibernéticas para auto-controle de convulsão tem sido indicada para depressão. Cirurgia para corte do nervo vago ao nível do estômago (vagotomia super-seletiva) ainda são indicadas para alguns casos de úlcera duodenal crônica intratável (Wippel). Cirurgias de inibição cirúrgica ou corte seletivo de nervos do sistema simpático também são indicadas para alivio dos sintomas de hiperidrose congênita.

Naturalmente que análise neurobiológica da importância do padrão de regulação autonômica na evolução das espécies não se esgota nas constatações da neuroetologia, e estudo das aferências e eferencias do conjunto de nervos sensoriais e motores) envolvidos com o sistema nervoso central. No mínimo estas conexões com o pavilhão auricular ainda precisam ser melhor estudadas do ponto de vista da neuroanatomia e fisiologia.

A saber, conexões do ramo auricular do nervo vago, e anastomoses em nível cervical com gânglio jugular ou superior do vago e conexões com o sistema nervoso simpático: gânglio cervical superior (C1 - C4); nervo occipital menor (C2) e Nervo auricular magno (C2 - C3) ambos com conexão com gânglio simpático cervical superior e anastomoses com N. vago, acessório, hipoglosso e frênico.

A auriculoacupuntura e auriculoterapia sem dúvida trouxeram nova compreensão à moderna neurociência por sua notável exploração das possibilidades clínicas da estimulação clínica do pavilhão auricular tanto numa perspectiva metodológica dos estudos dos reflexos como da etnomedicina e história da ciência.  

Esboço de hipótese

Sabe-se que não cabe no escopo de uma monografia a elaboração e teste de hipóteses, contudo a apresentação desse esboço hipótese ou problemas a investigar, nos foi útil na orientação tanto da elaboração inicial e agora, desta presente revisão. Assim sendo consideramos:

O sistema nervoso autônomo possui distintas conexões anatômicas com diversas regiões o ouvido externo que podem ser utilizadas como pontos de estimulação para tratamento de um amplo espectro de patologias

Essa hipótese pode ser evidenciada:

1. através da metodologia clínica e experimentações conduzidas pelos princípios da acupuntura explorando as possibilidades terapêuticas por intervenções com sucesso na regulação orgânica, sobre as quais já se possui razoável registro e número de publicações sobre auriculoterapia e auriculoacupuntura.    

2. através de observações e análises conduzidas a partir de uma perspectiva etnográfica e histórica da auriculoacupuntura ou acupuntura auricular que reforçam a explicação da proposição anterior e apontam novas direções de pesquisa orientada pelos fundamentos da medicina tradicional chinesa

(1) Auriculoterapia/ auriculoacupuntura

 Apesar da diferença entre as proposições teórico clínicas da auriculoacupuntura e auriculoterapia, são maiores as suas semelhanças. A auriculoterapia ou aurículo medicina integra a concepção de reflexologia e reflexoterapia, com a brilhante proposição de Paul F. M. Nogier (1908-1996), também conhecida como “escola francesa”, de auriculoterapia, contudo não se pode negar a origem e influência da própria acupuntura auricular, integrante como vimos da medicina chinesa, de origem da China antiga com ampla difusão, inclusive na Europa antiga.

No campo da reflexoterapia um estímulo em um conjunto de pontos pode ser considerado um programa operando sobre a tela de um ordenador (o pavilhão da orelha) nos quais vêm se inscrever as mesmas formações patológicas (os pontos correspondentes aos órgãos doentes) enquanto pontos de projeção (Kovacs, p.180). A tradição chinesa nos ensina que pontos de acupuntura são as regiões de acesso a intervenções no “Qi” ou “Xue” dos sistemas orgânicos como suas características Zang Fu de organização fisiológica, os pontos auriculares não fogem à esta regra, inclusive como já referidos nos antigos textos chineses (Machado; Wirz-Ridolfi).

Segundo Machado (anotações e textos de aula) a evidenciação dos pontos de acupuntura (pontos ativos) da pele constitui não somente a confirmação das observações milenares, mas também nos revela particularidades funcionais ainda desconhecidas sobre o nosso envelope cutâneo, com implicações importantes na economia energética e informática (ou cibernética) no organismo vivo.

A possibilidade de intervenção no campo termo-eletromagnético do corpo humano associado a um segmento específico tem sido a proposição das diversas formas de reflexoterapia, assim lidamos com o potencial das conexões nervosas e vasculares que possui o pavilhão auricular. Por outro lado, uma possibilidade de intervenção direta nas conexões do tronco cerebral também vem sendo tentada, via estimulação elétrica sobretudo sobre o nervo vago e bioquímica para controle do apetite, da febre, da agressividade e tratamento da ansiedade nos distúrbios mentais.

A reflexoterapia parte do princípio de que algumas regiões do corpo possuem conexões com o sistema nervoso e vascular, como citado acima, e se constituem como zonas e áreas reflexas que supostamente refletem uma imagem do restante do corpo, enquanto um padrão de nervos e vasos que se repetem. Além do pavilhão auricular são, praticamente tradicionais as estimulações dos pés (podoreflexoterapia); nas mãos incluindo as concepções orientais de origem coreana (Korio Soo-Ji-Chim), com a premissa de que tal trabalho nos pés e nas mãos provoca uma alteração física nas áreas supostamente relacionadas de o corpo. (Kunz; Kunz; Lin)

O termo reflexo, possui uma longa história de aplicações na história da ciência, entre estas a teoria do "ato reflexo” de René Descartes, [1596-1650] (Murta; Falabretti). Este conceito possui ampla aplicação no exame neurológico e intervenções terapêuticas, a exemplo da fisioterapia pediátrica (Grave; Sartori) e psicologia, contudo não deve ser confundido com os diversos empregos que o termo possui na atualidade como se fosse uma disciplina científica independente.

Observe-se que a utilização do termo "reflexo" possui vários significados e diferentes usos na história da medicina, além da clássica e conhecida reflexologia pavloviana ou de origem russa. Ivan Pavlov (1849-1936), recebeu o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1904, sendo notabilizado pela teoria do reflexo condicionado e por ter evidenciado o padrão básico na regulação reflexa da atividade dos órgãos digestivos. (Nobel Prize Outreach)

Sobretudo para uma melhor compreensão da auriculoterapia e acupuntura auricular é que examinaremos sua história e desenvolvimento a partir de dessas duas perspectivas diferentes o Sistema chinês de Acupuntura Auricular e o Sistema europeu de Acupuntura Auricular, que posteriormente evoluiu para Auriculoterapia e Medicina Auricular.

Conforme proposição de Raspa e Belasco Jr. E outros autores podemos identificar dois períodos em sua história:

1. Acupuntura Auricular antiga, referente ao período anterior ao século XX e até os anos 50.

2. Acupuntura Auricular Moderna referente ao tempo desde quando Paul Nogier redescobriu e aperfeiçoou o método de cura pela aurícula, passando pelo desenvolvimento dos mapas chineses com a incorporação do homúnculo invertido no pavilhão auricular publicado em 1958: a revista de Medicina Tradicional de Shangai

Destaca as contribuições da Dra. Huang.

Em 1960, pesquisadores de Nanking concluíram o estudo que verificou a exatidão clínica do homúnculo auricular de Nogier em 2 mil pacientes clínicos.

1972: a China apresenta o mapa estandardizado dos pontos auriculares. Devido à grande diversidade de trabalhos publicados por vários centros de estudos e atendimentos em Auriculoterapia, havia surgido algumas diferenças entre os mapas que eram publicados na época. Por esse motivo, teve a necessidade de se unifcar a nomenclatura e a localização dos pontos de Auriculoterapia chinesa.

1990 - A OMS (organização mundial da saúde) reconhece a Auriculoterapia.

(2) Auriculoterapia origens

Apesar da citação quase consensual de que provavelmente a primeira referência europeia à auriculoterapia venha do médico português Zacatus Lusitanus, em 1637, para tratamento da ciática, não se pode ignorar a representação iconográfica do pintor holandês Hieronymus Bosch (1450-1516), entre 1490 e 1510. 

Dulcetti Jr, ressalta ainda que no citado tríptico do mestre holandês Hieronymus Bosch, conhecido como como “O Jardim das Delícias Terrenas”, em exposição no Museu do Prado, encontra-se um símbolo que em detalhes constitui-se de duas aurículas unidas pelas faces posteriores, tendo entre ambas a lâmina de uma faca. Observando ainda que na região superior da concha inferior da orelha um “diabrete” enceta uma lança no ponto utilizado na terapia auricular para disfunções da libido, enquanto que acima, no centro da fossa triangular se vê outra lança penetrada no ponto já conhecido e usado para cura de ciática, desde essa época (?). 


Na composição tríptica, esse ícone fálico se integra a parte que representa o inferno, uma faca que do ponto de vista psicanalítico pode representar a castração ou os genitais masculinos, em seu aspecto agressivo e penetrante. Não se pode ignorar, também que a referência ao ponto da aurícula estimulado pelo homúnculo encapuzado (um diabrete) era possivelmente utilizado para o tratamento de disfunções da libido na medicina hipocrática. Hipócrates, o pai da medicina grega, relatou que os médicos faziam pequenas aberturas nas veias situadas atrás da orelha para facilitar a ejaculação e reduzir os problemas de impotência.

Comentando a importância de Hieronymus Bosch e as questões relativas à agressividade/sexualidade nesse quadro, Jacques Lacan nos legou o seguinte texto

.... Esses fenômenos mentais a que chamamos imagens, termo cujo valor expressivo é confirmado por todas as acepções semânticas, após os perpétuos fracassos registrados pela psicologia de tradição clássica na tarefa de dar conta deles, a psicanálise foi a primeira a se revelar à altura da realidade concreta que eles representam. É que ela partiu da função formadora das imagens no sujeito e revelou que, se as imagens atuais determinam tais ou quais inflexões individuais das tendências, é na condição de variações das matrizes que constituem, para os próprios" instintos", esses outros específicos que fazemos corresponder à antiga denominação de imago.

 Entre estes últimos, há os que representam os vetores eletivos das intenções agressivas, que elas dotam de uma eficácia que podemos chamar de mágica. São as imagens de castração, [éviration, melhor traduzido por eviração] emasculação, mutilação, desmembramento, desagregação, eventração, devoração, explosão do corpo, em suma, as imagos que agrupei pessoalmente sob a rubrica, que de fato parece estrutural, de imagos do corpo despedaçado. ... 

.... Há que folhear um álbum que reproduza o conjunto e os detalhes da obra de Hieronymus Bosch, para ali reconhecer o atlas de todas as imagens agressivas que atormentam os homens. A prevalência dentre elas, descoberta pela análise, das imagens de uma autoscopia primitiva dos órgãos orais e derivados da cloaca gerou, ali, formas de demônios. Não faltam nem mesmo a ogiva das angustiae do nascimento, que encontramos na porta dos precipícios para onde eles empurram os condenados, nem a estrutura narcísica, que podemos evocar nas esferas de vidro em que se acham aprisionados os parceiros exaustos do jardim das delícias. ... (Lacan p.107-108)

Observe-se que além das associações relacionadas à agressividade evidenciadas por Lacan na interpretação dos quadros de Bosch, não podemos esquecer (na perspectiva do nosso esboço de hipótese) que tanto a agressividade como a sexualidade possuem intrínseca relação com o sistema nervoso autônomo e que para muitos indivíduos o pavilhão auricular é uma importante zona erógena, com suas caraterísticas específicas simbólicas e nervosas (ver Freud, 1905 e Winkelmann, 1959)

Um outro interessante aspecto, ainda a destacar nas contribuições da psicanálise e semelhanças metodológicas de análise simbólica são as avaliações das representações da medicina tradicional chinesa (leia-se dos sistemas etnomédicos) quanto a representação dos desejos (enquanto imagens) indefectivelmente ligados aos órgãos do corpo, associados às suas demandas de necessidade biológicas é a seleção de um grupo de cinco emoções (surpresa/alegria; medo; tristeza/melancolia; ira; preocupação) associadas, aos cinco elementos da natureza, estações do ano, e sistemas orgânicos zàng /fǔ 腑, segundo a concepção chinesa (coração/intestino delgado; rim/ bexiga; pulmão/ intestino grosso; fígado/ vesícula biliar; baço-pâncreas/ estômago).

O mesmo poderia ser dito quanto a concepção indiana de “chakra” e as funções orgânicas, aproximadamente descritas como: reprodutivas, (Swadhistana  Chakra) excretoras (Muladhara Chakra), socioafetivas (Anahata Chakra) e de comunicação (Visuddha Chakra) etc. mas esse tema merece um análise à parte.   

Observe-se também que tanto a psicanálise com a acupuntura, e por extensão a aurículo acupuntura, fundamentam seus recursos de aperfeiçoamento técnico-científico no que pode ser denominado como metodologia clínico-qualitativa (Turato), ou seja, ambas as técnicas se valem da análise da história clínica (antecedentes, início, manifestação, intervenção, resultados) mais recentemente potencializada pela metodologia estatística e metodologias qualitativas.

Sendo que a psicanálise recorre a uma etnometodologia de dados genético-biográficos e a acupuntura recorre à etnologia clássica ou identificação do contexto etno-histórico da medicina tradicional chinesa.  Embora ambas tenham em seu horizonte ou marco teórico a neurociência, a linguística e a antropologia cultural.

A via de mão dupla

Entre as técnicas que estimulam o sistema nervoso autônomo, como dito anteriormente, não se pode deixar de incluir a aurículo acupuntura.

A possibilidade de comunicação anatômica da estrutura nervosa da orelha externa, tradicionalmente estimulada na auriculoacupuntura, com os centros vitais do tronco cerebral, onde se destacam as conexões com o sistema nervoso autônomo, contudo ainda é hipótese, apesar das evidencias clínicas vindas tanto da auriculoterapia como acupuntura auricular.

No caso da auriculoterapia, de modo distinto da tradição chinesa, há considerável avanço das correlações com a neurobiologia, iniciada com a proposta de Paul Nogier (1908-1996) em 1951, pesquisando o reflexo aurículo cardíaco (RAC), inaugurando auriculoterapia francesa ou medicina auricular, identificando a correlação (mnemônica ou neuroembriológica) da imagem do feto na posição invertida intra-útero e o pavilhão da orelha numa verdadeira cartografia orgânica.

Numa perspectiva histórica, o desenvolvimento dos estudos de Paul Nogier e fundação da escola Nogier, de certa forma influenciaram o desenvolvimento da auriculoterapia como da própria acupuntura.

Em 1956 o Dr. Paul Nogier apresentou o cartograma auricular resultante (já incluindo a relação com a representação do feto invertido) no Primeiro Congresso da Sociedade Mediterrânea de Acupuntura (Premier Congrès de la Société Mediterranéenne d'Acupuncture), Marselha, França, 1956, onde Gerhard Bachmann, MD, editor do Jornal Alemão de Acupuntura (Deutsche Zeitschrift für Akupunktur ) também participou e publicou a apresentação do Dr. Paul Nogier, nesse periódico de ampla circulação, inclusive (e principalmente) na China intitulado (em francês) “A aurícula: pontos reflexos e áreas” - Bull Société d'Acupunct. 1956:20 (Wirz-Ridolfi)

Tal publicação, como dizemos hoje, teve considerável impacto, influenciando pesquisadores do Japão à China (inicialmente). Entre essas publicações resultantes pode-se destacar a publicação da Equipe de Pesquisa do Exército de Nanjing iniciou um ensaio clínico com mais de 2.000 pacientes e documentou a eficácia do método Nogier. Sendo esta foi a origem do Gráfico de Acupuntura da Orelha Chinesa que foi e é reconhecido e aprovado pela Organização Mundial da Saúde - OMS. (Wirz-Ridolfi)

Em 1987 a OMS, adotou a padronização e nomenclatura de 43 pontos da orelha em uma reunião em Seul seguida por outra reunião em Genebra (1989) e em 1990, em Lyon. O padrão até hoje utilizado inclusive como declarado em entrevista pelo Raphaël Nogier – (Lyon, 01/12/2014) (ver site: Escola Nogier)

Raphaël Nogier, é um médico, filho de Paul Nogier, pesquisador e escritor, exerce a medicina em Lyon (França). Há mais de 30 anos trabalhando com auriculoterapia, método de tratamento desenvolvido pelo Dr. Paul Nogier, denominado por ele de auriculoterapia clínica.

Essa metodologia segundo ele, e reforçado pela representante da Escola Nogier no Brasil a fisioterapeuta Dra. Larissa A. Bachir Polloni que inclusive desenvolve um moderno canal de divulgação desta tecnologia no youtube, por diversas vezes consultado para esta revisão. Segundo essa escola a aurículo terapia clínica fundamenta-se, portanto em três pilares:

1 Diagnóstico – detecção de pontos

2 Sinal vascular (RAC – Reflexo Auricular Cardíaco ?)

3 Frequências de estimulação (frequência de Nogier) 8 áreas

O diagnóstico por detecção de pontos configura-se pela identificação de dois tipos de pontos: (1) Pontos reflexos, pontos reflexos detectáveis por pressão/ palpação; (2) pontos equivalentes a complexos neuro-vasculares identificados por detecção elétrica, no Brasil, desde 2017, está certificado e vem sendo utilizado EL30 Finder

Assim sendo, verifica-se que a orelha apresenta pontos que “aparecem” numa condição disfuncional, ou seja, tornam detectáveis ​​em caso de dor em distintas regiões do corpo ou perturbação patológica funcional, através da pesquisa (de dor no pavilhão auricular) por pressão/ palpação ou utilizando detectores elétricos de pontos. Hoje sabemos que aparecem, na superfície da orelha, áreas com menor resistência elétrica cutânea, quando há uma presença de distúrbios funcionais, e que essas áreas têm características embriológicas distintas e respondem a estimulação com frequências elétricas (Hertz) também distintas (conhecidas frequência de Nogier) situadas entre padrões entre 5 e 160 hz .Cada ponto da orelha corresponde à uma parte do corpo específica, ou seja, existe um mapeamento real, baseado numa somatotopia, como referido (Escola Raphaël Nogier – site e canal)

Em tese, como descrito por representantes dessa escola a auriculoterapia francesa, ou auriculoterapia clínica, tem seus resultados, tal como afirmam os integrantes dessa escola, por estudar e conhecer... adequadamente a fisiologia do Sistema Nervoso Central e sabendo executar estes dois métodos de detecção: a detecção de pontos dolorosos e a detecção de pontos de menor resistência eléctrica cutânea, donde é possível em primeiro lugar efetuar uma análise precisa da orelha para o diagnóstico, e, posteriormente escolher adequadamente os estímulos corretos para o tratamento, estimulando os pontos da orelha seja através de agulhas, cauterização, massagem ou ondas eletromagnética, (Escola Raphaël Nogier – site e canal)

Conexão autonômica

1.Perspectiva anatômica

 As conexões do X par craniano ou Nervo Vago com o pavilhão auricular se realiza pelo ramo auricular do nervo vago, e anastomoses em nível cervical com gânglio jugular ou superior do vago. Sabemos também que o Nervo Vago faz conexões com a medula oblonga (sulco entre a oliva e o pedúnculo cerebelar); Núcleo solitário; Núcleo da asa cinérea (N. dorsal); Núcleo ambíguo.

Estimulações com eletrodos no hipotálamo conduzidas por Hess W. R. (1954) demostraram que o diencéfalo, particularmente o hipotálamo, controla e integra a função autonômica. Ele demonstrou isso eletricamente, estimulando áreas específicas e pequenas do hipotálamo. Dependendo da área estimulada, a frequência cardíaca, a pressão arterial e a frequência respiratória do animal aumentavam, como no medo (uma reação simpática). A estimulação de outro local produziu uma diminuição na frequência cardíaca, pressão arterial e respiração e um aumento na motilidade gastrointestinal - uma reação parassimpática. (Shampo et al.)

O pavilhão auricular além do Nervo Vago possui conexões com o sistema nervoso simpático - Gânglio cervical superior (C1 - C4), Nervo occipital menor (C2) e Nervo auricular magno (C2 - C3) ambos com conexão com o gânglio simpático cervical superior e ainda anastomoses com nervo  acessório, hipoglosso e frênico além do nervo vago, como referido.

2. A perspectiva clínica

Uma leitura dos pontos de acupuntura relacionados a estimulação para sedação ou tonificação dos pontos relacionados ao sistema nervoso autônomo e funções orgânicas controladas por estes ainda está para ser realizada.  As dificuldades de trabalhar-se diretamente com medidas hipotalâmica podem ser contornadas por avaliação clínica para redução de sinais e sintomas de controle autonômico como taquicardia, níveis de tensão arterial, estase gástrica, constipação, gastroparesia, diarreia noturna, retenção ou incontinência urinária, impotência sexual incluindo-se naturalmente tristeza, medo e descontrole de emoções (sintais e sintomas, como se sabe intermediados por alterações do sistema nervoso autônomo).

É possível inclusive encontrar-se correlação entre diagnósticos feitos por padrões registrados de variação em níveis de energia elétrica detectada pelo toposcópio (impedância elétrica - condutividade elétrica da pele) na superfície do pavilhão auditivo e realizados através dos métodos de íris diagnóstico e outros sistemas de reflexoterapia segmentar (mãos, pés, etc.), considerando-se a hipótese que ambos os sistemas dependem dos níveis de estimulação e regulação dos analisadores do sistema autonômico.

3. A perspectiva experimental e clínica

Talvez seja a auriculoterapia francesa quem melhor conduziu estudos que evidencies a perspectiva experimental e clínica a partir da hipótese das conexões do sistema nervoso e pavilhão auricular.

Segundo Paul Nogier o lóbulo da orelha prolonga a cauda da hélice, estas duas regiões auriculares têm origem ectodérmica e são controlados pelas partes do pavilhão que não são inervadas nem pelo pneumogástrico nem pelo trigêmeo, são carnudas e não apresentam nenhuma formação cartilaginosa interna.

Na perspectiva clínica, que inclusive deu origem a representação do feto invertido, o lóbulo e a cauda da hélice representavam, por si sós, parte do sistema nervoso central e periférico juntamente com a região do antítrago associada à funções da região do tronco cerebral.

A perspectiva clínica da auriculoacupuntura

Uma das maiores evidências clínicas das conexões entre a estimulação do pavilhão auricular e intervenções no SNA são as indicações e possibilidades terapêuticas das chamadas disfunções autonômicas ou doenças psicossomáticas diagnosticadas e tratadas a partir dos mapas adotadas e incorporadas à medicina tradicional chinesa. Como por exemplo o que aqui ilustra, com 78 pontos, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisas sobre Meridianos e Acupuntura Internacional de Shangai, China ou os selecionados no “Livro dos Quatro Institutos”

O “Livro dos Quatro Institutos” refere-se à utilização da acupuntura na orelha para prevenção e tratamento de doenças e para anestesia com acupuntura. Na tabela de localização e indicação dos pontos auriculares utilizados como mais frequência inclui diversos pontos indicados para doenças neurológicas, nervosas ou psicossomáticas a exemplo de: Constipação, diarreia; urgência de micção e retenção da urina; Impotência; Enurese; Dores (efeito analgésico), Cefaleia; Insônia; Asma; Disfagia; Náusea; Vômito; Gastralgia; Paralisia facial; Zumbido no ouvido; Lombalgia; Hipertensão; Hipotensão. Observe-se a importância da regulação autonômica para cada uma destas disfunções

Importante, porém, é atentarmos que apesar da semelhança de utilização de pontos e zonas específicas do pavilhão auditivo é a diferença na interpretação dos resultados obtidos ou na ótica das hipóteses neurofisiológicas ocidentais, exploradas na auriculoterapia francesa, ou na ótica da medicina tradicional chinesa (MTC).

Uma hipótese e tentativa de interpretação considerando ambas as perspectivas (chinesa e francesa) foi realizada por Frank R. Bahr na década de 90 identificando simultaneamente os pontos relacionados aos órgãos na perspectiva ocidental e um possível trajeto dos meridianos entre eles (Strittmatter), contudo há poucas publicações sobre seus resultados clínicos.

Machado, destaca que a MTC, moldada por sua própria “filosofia” ou sistema de crenças da cultura chinesa, e limitada pelas circunstâncias históricas das ciências naturais, difere em muito da Medicina Moderna Ocidental, sobretudo na sua concepção da estrutura do corpo humano. O sistema etnomédico implícito na cultura chinesa desenvolveu uma forma própria de descrição e intervenções do corpo, não apenas fundamentado na anatomia e sim em resultados obtidos por seus métodos terapêuticos próprios.     

Entre os métodos terapêuticos empregados da MTC, como se sabe, estão a fitoterapia e acupuntura. Como foi visto as técnicas da acupuntura nunca excluíram intervenções sobre o pavilhão auricular e enquanto uma racionalidade médica, apesar de manter alguns “marcos teóricos” desenvolvidos ao longo de sua história milenar, a exemplo das concepções de yin/yang e cinco elementos, não é uma concepção estática, vem evoluindo continuamente e pode-se afirmar que que vem incorporando as contribuições da auriculoterapia francesa.

Para Weikang, a acupuntura tem origens na era paleolítica (anterior a 10.000 a.C.) são clássicas as referências as lascas de pedra para punção «bian shi» e as posteriores agulhas de pedra «zhen shi», de osso, lascas de bambu e cerâmica, antes das presumidas agulhas de metal das dinastias Shang e Chou (séculos XVI a VIII a.C. quando se iniciou a metalurgia), até as primeiras nove agulhas encontradas no tumulo Liu Sheng, da dinastia Han ocidental, do século II a.C.

Colin A. Ronan, em sua "História ilustrada da ciência da Universidade de Cambridge", assinala o período histórico de surgimento/consolidação de algumas das ideias básicas da ciência chinesa que eventualmente levaram ao desenvolvimento da técnica da acupuntura, como a concepção de Yin / Yang (陰陽) no princípio do século IV a.C. e a teoria dos Cinco elementos Wu Xing (五行), entre 370 e 250 a.C. por Tsou Yen (Zou Yan), o membro mais destacado da Academia Chi-Hsia (Zhi-Xia) do príncipe Hsuan (Xuan). Contudo foge do escopo desse texto monográfico a longa história de conquistas médicas desse sistema etnomédico chinês (a MTC), com incontestável evolução e ampla difusão mundial, até a incorporação em muitos sistemas públicos e atenção médica e vir ser reconhecida como Patrimônio Cultural Intangível da Humanidade pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como aconteceu em 2010.       

Para concluir

Segundo Machado (o.c.) acupunturista e biofísico a melhor estratégia, que inclusive vem aperfeiçoando nos seus, quase, meio século de prática e pesquisa é a utilização de aparelho eletroestimulador e localizador (tipo os desenvolvidos pela Escola Nogier) com circuito toposcópio para eletro diagnóstico dos pontos sensíveis ou de frequência específica. Alterações na sensibilidade a dor e/ou frequências discrepantes ao esperado para cada região são os elementos do diagnóstico. A estimulação imediata com agulhas e posteriormente por sementes reforçam o critério diagnostico estabelecido pela anamnese e exame segundo as regras chinesas do yin/yang e cinco movimentos, identificando as distintas síndromes e seu tratamento por estimulação dos meridianos identificados no que alguns denominam acupuntura sistêmica nesse caso complementado pela acupuntura auricular.

Estudos posteriores podem e deverão ser realizados tanto explorando as possibilidades de experimentação e análise anatômico fisiológica com os recursos da moderna neurociência (que abrange a neurobiologia e a neuropsicologia), como através da metodologia clínica, que deverá incorporar, o sistema de revisões sistemáticas a exemplo dos trabalhos já publicados pela fundação Cochrane, ou revisão das revisões, respeitando o limite das dificuldades de interpretação antropológica dos sistemas etnomédicos e concepções espiritualistas, mítico-religiosas.

Referências

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Notas

Algumas citações e estudos foram contribuições do presente autor aos verbetes sobre o tema na Wikipédia (pt.) sobreviventes à guerra que alguns editores declararam contra o que imaginam ser a pseudociência. 

Originalmente esse texto deveria ser citado como:

Costa, Paulo Pedro P. R. Aurículo acupuntura, sistema nervoso autônomo, sistema nervoso central.  In: Costa, Paulo Pedro P. R. O "mar de dentro" um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês. Anexo da monografia de especialização em acupuntura. Orientador: Jurecê Jorge Machado. Clínica Escola Científica de Acupuntura - CLIMA / ABA Associação Brasileira de Acupuntura – Seção da Bahia. Salvador, fevereiro de 2003.


Mapa de acupuntura auricular – Auriculoterapia /
Instituto Shangai foto: CostaPPPR
https://commons.wikimedia.org/wiki/File:EarModelDSC_7928.jpg

 

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 VER TAMBÉM

 O Sistema Etnomédico Chinês
http://etnomedicina.blogspot.com/2009/09/o-sistema-etnomedico-chines.html

Cérebro o mar de dentro 髓海
http://etnomedicina.blogspot.com/2014/03/cerebro-o-mar-de-dentro.html


Disponível em PDF em:
https://pt.scribd.com/document/558252977/NeurobiologiaAuriculoacupuntura


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quinta-feira, 4 de novembro de 2021

A energia psíquica, em um ponto de vista quase chinês.

 

aspectos qualitativos e quantitativos da libido (energia)

Esse texto parte do princípio de que “tudo que a cultura possui se expressa através da língua; e esta é em si mesma um produto cultural”, sem resolver esse paradoxo analisamos a concepção de Chi – energia (?) enquanto elemento fundamental do sistema etnomédico chinês, que explica e permite intervenções sobre diversas condições psíquicas e neurofisiológicas. É um texto que faz parte de um conjunto de ensaios da tese ou proposição de que a acupuntura chinesa, engendra em si, uma teoria que explica o que compreendemos como o órgão cérebro, para os chineses “mar de medula”, e possibilita a intervenção em diversas patologias e manifestações clínicas do sistema nervoso tais como dor, depressão e outras doenças mentais, doenças psicossomáticas e neurológicas.

Observe-se, como ressalta Jung, que não se trata de uma comparação de conceitos, parafraseando Lovejoy, em “A concept of primitive philosophy” [um conceito de filosofia primitiva], citado no seu livro “A energia psíquica”: o que entendemos por “conceito” - uma idéia nascida naturalmente de nossa própria mentalidade – é para o “primitivo” um fenômeno psíquico, que é percebido em íntima ligação com o objeto, não podendo ser considerados ideias abstratas nem mesmo conceitos concretos simples, mas tão-somente representações. Não havendo, portanto, uma idéia abstrata entre os primitivos, nem mesmo conceitos concretos simples, mas tão-somente representações.

Segundo os citados autores na linguagem dita “primitiva” só se indica o fato da relação e da experiência que ela provoca, o que não quer dizer entretanto que nesse pensamento em estado “selvagem” não há uma elaboração abstrata, enquanto faculdade mental, e/ou um reflexão sobre suas próprias crenças. Para Levi-Strauss, o criador da antropologia estrutural, teoria onde o estudo da linguagem é uma fonte privilegiada para conhecimento de uma cultura, os textos escritos ou conjuntos de narrativas, elaborados por cada etnia, corresponderia a um "documento bruto” o que segundo ele equivale a uma etnografia, elaborada por representantes da própria etnia. No caso do sistema etnomédico chinês contamos principalmente com “o livro do Imperador Amarelo”, extraído e compilado das tradições orais na dinastia Han (200 a.C. a 200 de nossa era). 

Antes de nos determos na concepção chinesa sobre a energia Chi , sobretudo sobre sua forma de essência ancestral ou pré natal, relacionada ao meridiano do rim e ao cérebro, como veremos, vale destacar a, no mínimo intrigante, coincidência com o conceito de libido. Segundo o dicionário de psicanálise de Roudinesco: Libido é um termo latino (vontade, desejo), inicialmente utilizado pelos fundadores da sexologia para designar uma energia própria do instinto sexual, retomado por Sigmund Freud numa acepção inteiramente distinta, inclusive da a antiga terminologia filosófica, baseada no Eros (amor) platônico, da qual, ainda segundo Roudinesco,  foram conservados apenas um adjetivo — erógeno —, para designar uma zona do corpo ou uma atividade ligada à excitação sexual.

Coube a C.G. Jung a proposição do conceito de energia, embora também utilize o termo "libido", segundo ele apesar de não ser ideal, sob certos aspectos, mas por razões de justiça histórica à proposição de Freud, com seu ponto de partida que era o da sexualidade e "instinto" ("instinto do eu") e "energia psíquica", uma força instintiva que não deve ser confundida como um retorno a uma espécie concepção vitalista. Segundo Jung e também Freud, lidamos com fenômenos físicos, que podem ser considerados sob dois pontos de vista distintos, a saber: do ponto de vista mecanicista e do ponto de vista energético, a energia psíquica pode ser compreendida no seu aspecto quantitativo como qualitativo.

Para Jung, tal como explica na introdução do seu livro “A energia psíquica” a concepção mecanicista é meramente causal, e compreende o fenômeno como sendo o efeito resultante de uma causa, no sentido de que as substâncias imutáveis alteram as relações de umas para com as outras segundo determinadas leis fixas e a consideração energética é essencialmente de caráter finalista, e entende os fenômenos, partindo do efeito para a causa.

Na concepção freudiana, tal como enunciado no seu projeto de uma psicologia para neurologistas tais dimensões corresponderiam aos aspectos quantitativos (Q - imediatamente mensuráveis em termos de carga e descarga, elétrica segundo Pribran) e qualitativos correspondente nossa psique e transformações simbólicas da libido.

O esquema gráfico acima apresentado resume a concepção freudiana das relações entre a energia psíquica e os processos elétricos e neuroquímicos cerebrais inter-relacionados, como se fosse o que modernamente compreendemos como um sistema operacional (software) ou interface amigável para controle do processos elétricos da máquina (hardware). Freud escolheu a metáfora de “aparelho psíquico” enquanto analogia aos telescópios e microscópios, utilizados para examinar e compreender fenômenos de outra dimensão, micro ou macro cósmica, uma analogia, nesse caso, sobre a relação da psique com o sistema nervoso e demandas orgânico-corporais.

As questões sobre pseudociência e/ou a cientificidade da psicanálise, sem dúvida decorrem das limitações da metodologia experimental para aplicação nas suas principais hipóteses. Por questões, sobretudo éticas, é praticamente impossível estabelecer uma pesquisa com a metodologia de caso – controle e ou duplo cego, muito menos desenhos experimentais com variáveis dependentes e intervenientes.

Para Turato pode deve-se utilizar paralelamente, além dos recursos dos testes e estatística já consolidados pela psicologia clínica, a metodologia qualitativa das ciência humanas como recurso a confirmação independente dos achados clínicos, estimulando o debate substantivo sobre as evidências de notórios pontos de vista. Retomando, de certo modo a proposição do próprio Freud de recorrer à antropologia, à arte (ou estética) e à teoria literária e linguística como fundamentação. Um recurso também utilizado por Jacques Lacan ao aproximar a psicanálise da antropologia estrutural de Claude Lévi-Strauss e linguística de Ferdinand Saussure.

Antropologia médica

Interessante observarmos que a acupuntura e a medicina tradicional chinesa (MTC) no ocidente e também em alguns momentos (e setores) na própria China já sofreu a pecha de pseudociência. Tal como escrevi na wikipédia, uma das grandes disseminadoras da identificação dessa prática como uma forma de pseudociência, esta proposição provém do desenvolvimento da medicina baseada em evidências ao que se somou, no Brasil, o movimento jurídico-político conhecido como” ato médico”. Tal rotulação como dito na wikipédia, advém dos estudos intensificados a partir da década de 90 publicados pela Organização Cochrane e especialmente de estudos desenvolvidos pelo médico e pesquisador, especializado em combater as medicinas alternativas, Edzard Ernst, referendados por um grupo de pesquisadores ingleses, inclusive da tradicional (fundada em 1869) revista Nature.

Observe-se porém que em termos de história e metodologia científica a MTC e acupuntura seguiu um caminho inverso, incialmente descrita por religiosos (jesuítas) e viajantes e paulatinamente aproximando-se da metodologia clínica. Mais recentemente com recursos da antropologia, saúde pública e finalmente com diversas hipóteses e desenhos experimentais.

Para Laplantine, o autor de Antropologia da doença e saúde, a aplicação da antropologia à medicina, estuda a percepção e resposta de um grupo social à patologia; elabora e analisa modelos etiológicos e terapêuticos. Um modelo é: uma construção teórica, caráter operatório (hipótese) e também uma construção metacultural ou seja que visa fazer surgir e analisar as formas elementares da “concepção” da doença e da cura - sua estrutura seus invariantes tornando-o comparável a outros sistemas (Laplantine, 1991)

O trabalho de construir modelos operatórios, que não substituem a realidade empírica, ajuda a pensá-la e põe em evidência o que ela não diz. É curioso como alguns autores insistem na pesquisa da anatomia dos canais e pontos de acupuntura, ou medidas biofísicas do Chi, não que estas não sejam possíveis, mas ignorando completamente o fato de lidarmos com um modelo, metafórico, abstrato, um “documento etnográfico bruto” consolidado por uma tradição empírica ou milhares de anos de tentativas erro e acerto. 

Analisando os diversos sistemas terapêuticos com que convivemos no mundo atual, Laplantine identifica na Acupuntura um modelo etiológico do tipo Exógeno/Endógeno comparável à Endocrinologia, Neuropsiquiatria e um modelo terapêutico distinto da alopatia e homeopatia, classificado num grupo tipo Sedativo/ Excitativo comparável à medicina experimental / Fisiologia Médica (utilizou como exemplo a regulação de função no rim artificial) e proposições terapêuticas da imunologia, "Treinamento Autógeno" de Schultz e Bioenergética de W. Reich (Laplantine, 1991)

Segundo o médico e professor de acupuntura da Universidade de Granada (Es), José Luis Padilla Corral ao estudarmos a Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a consideraremos, como ele, uma Medicina Tradicional Oriental (MTO), face a sua ampla difusão asiática com datação incerta (entre 5.000 e 2500 anos) e considerando que não é exatamente uma medicina. Na sua origem é uma tradição de costumes e conceitos referentes à relação do homem com seu universo. É praticamente um consenso que os conceitos médicos foram compilados pelo lendário “imperador Amarelo” Huang Di da dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C) na obra hoje conhecida como Nei Jing (内經) - "O Livro do Imperador Amarelo". Essa obra é considerada um dos clássicos fundamentais da medicina tradicional chinesa. (Padilla Corral; Needham, Gwei-Djen; White, Ernst) 

Anotações sobre o Jīng, a essência

O ideograma Jing é um dos conceitos fundamentais para compreensão da acupuntura do ponto de vista energético ou finalístico, ou seja tenta-se entende-lo como causa de um fenômeno ou manifestações de demanda de tonificação ou sedação da energia Yin ou Yang. A tonificação e sedação, como se sabe, são procedimentos técnicos da acupuntura e/ou características de produtos farmacológicos, aplicados à reversão ou prevenção de condições clínicas ou doenças.

Utilizando-se os métodos de “diagnósticos” da MTC identificam-se síndromes de deficiência (xū ) e excesso, (shí ) de Chi (Qi) para as quais utiliza-se os recursos da tonificação e sedação para restaurar o estado de equilíbrio. Yin / Yang são os dois princípios básicos para classificar e intervir dos diversos fenômenos corporais, sejam fisiológicos ou patológicos na concepção ocidental. Observe-se que nessa perspectiva lidamos com um modelo (hidráulico) “quantitativo”. São comuns as metáforas que descrevem os canais ou meridianos como regatos, rios e mares. Contudo são mais complexos os “conceitos” e narrativas voltadas para descrever os aspectos “qualitativos” dessa energia    

Além do Nei Jing (内經) a “teoria” da acupuntura herdou do Taoísmo (Tao Te Ching, cap. 67) a concepção de três tesouros 三寶 (SānBǎo) que adaptados à prática “médica” são os nosso conhecidos Jing : a essência, a herança dos pais; o Qi : a vitalidade, energia, (parcimônia/ suficiência) e o Shen " espírito; alma, consciência (humildade/ contato com a divindade).  A natureza, o bem estar e a adaptação do indivíduo ou o processo saúde doença, depende da relação entre esses elementos.

Em algumas traduções a mente (psique) é descrita como JīngShén 精神. Observe-se como uma narrativa “médica” voltada para aplicações terapêuticas teve sua origem em um texto clássico chinês tradicionalmente creditado ao sábio Lao Tsé pelo menos 4 séculos antes da compilação do “Livro do Imperador Amarelo)

Na concepção “médico / terapêutica” da MTC o   Jing é o princípio essencial, a essência da vida. Constitui-se na substância pura fundamental, a base material com a qual é construída a estrutura física do corpo e montam suas diversas atividades funcionais. 

A Essência (Jīng) é formada por duas partes: a inicial (先天之 – Xian Tian Zhi Jing), pré-natal também chamada yuán chi (qì) e a posterior (后天之 – Hou Tian Zhi Jing), pós-natal ou zòng qì a essência congênita propriamente dita (energia cromossômica), também traduzida por essência adquirida.

O ideograma Jing está presente nas designações de esperma 精子Jīngzǐ ( Zi Filho) e 精液 Jīngyè - Sêmem) Yè Líquido). É como se fosse inevitável associar a energia psíquica ou bioenergia à libido e demandas de reprodução dos seres vivos.

Analisando o ideograma Tiān (t'ien / céu), princípio cósmico imaterial, quando associado ao Jīng – designa a energia ancestral que se conserva no meridiano dos rins ou campo de cinábrio inferior nas concepções da alquimia taoísta e/ou às regiões “anatômicas” dos campos de transformação da energia os 3 (san) jiao: shang Jiao (alto - suspender); zhong Jiao (meio) e  Xia Jiao (baixo inferior). Em muitos textos sobretudo posteriores ao Neijing, exclusivamente, Taoístas ou Budistas predomina a interpretação dessas joias ou tesouros como qualidades morais ou vitudes, tal como visto acima.    

O diagrama que aqui segue, mostra a relação ente o Shen (shén), o Jing e órgãos responsáveis pela assimilação e distribuição da energia Qi (Chi) do ar e alimentos, onde:  Tien (Tiān ) o princípio cósmico imaterial é equivalente ao Shen e ao Jing sem distinguir o inicial (先天之 – Xian Tian Zhi Jing) do posterior (后天之 – Hou Tian Zhi Jing) representando a energia ancestral que se conserva, como dito, no meridiano dos rins ou campo de cinábrio inferior nas concepções da alquimia taoísta. A relação entre esses dois princípios ou momentos é feita no que constitui o Chi - “a raiz do homem”.


O Chi (Qi) circula em um fluxo interno, transforma a essência do alento e a energia espiritual (shen). Atravessa os campos de transformação da energia dos alimentos e da respiração nos 3 (san) jiao conforme a Doutrina Médica Chinesa, segundo o Huangdi Neijing obedecendo as leis as leis do  Yin/Yang e dos 5 elementos.

Como referido a psique é à vezes descrita como JīngShén 精神. Numa concepção ampla a expressão Shen (às vezes traduzido por espírito e às vezes por sentimento) designa a manifestação exterior da vitalidade do corpo (a totalidade da psique) e em um sentido estrito representa a consciência que comanda o Coração e atividade mental.  Ao Jing corresponde o órgão, funções do rim que governa a medula e o cérebro (mar de medula). Na acupuntura e de certo modo no oriente, seria o que os indianos conhecem como "karma" e nós como determinação genética (de certo modo genoma). O Qi, na acupuntura assume muitas formas ou significados condizentes com a função que exerce em cada momento, circulando nos meridianos e/ou associado as funções nutritivas e defensivas: 正氣 (zhèng-qì / vital chi);  衛氣 (wèi-qì / chi defensivo); (jing qi / chi nutritivo)

O capítulo 1, do Su Wen, mostra claramente a importância do rim. (“Medula” ou “Emanação renal”) no crescimento, desenvolvimento, reprodução e envelhecimento e demarca cada período do ciclo vital em sete anos para mulher e oito para o homem. Observe-se que esta é um outro aspecto da energia compreendida na MTC como uma espécie de energia potencial e no ocidente como a programação genética (redução telomérica?) que explica o envelhecimento. Essa descrição pode ser resumida da seguinte forma:

- Infância (sete e oito anos); a emanação renal é abundante; a dentição muda e os cabelos se alongam; mudanças na pele e pelo; adolescência (14 e 16 anos); a emanação renal flui (ren mai) e floresce (chong mai); início da menstruação; início da emissão seminal; amadurecimento das funções sexuais e reprodutoras.

- 21 e 24 anos; a emanação renal está parada; desenvolvimento dos últimos dentes; no homem, os músculos são potentes e os ossos vigorosos;

- 28 e 32 anos; na mulher os músculos e ossos estão consolidados, os cabelos atingem seu maior tamanho e o corpo em pleno vigor; no homem os músculos estão salientes, as carnes viçosas e vigorosas.

35 e 40 anos: na mulher, o canal yang ming declina, o rosto começa a murchar e os cabelos a cair; no homem a respiração do rim enfraquece os cabelos os dentes começam a cair.

- 42 e 48 anos: na mulher, os três canais shou yang declinam, todo o rosto resseca-se e os cabelos começam a “esbranquiçar”; no homem, o yang na região superior está esgotado. O rosto se resseca e as têmporas ficam grisalhas.

- 49 e 56 anos: na mulher, o qi do Vaso Concepção declina, o qi do chong mai começa a enfraquecer e escassear, a energia sexual inicia a exaustão e a menstruação para, então seu corpo começa a envelhecer e ela não pode mais engravidar; no homem, a energia sexual começa a declinar, sêmen começa a escassear e os rins ficam fracos e todas as partes do corpo começam a envelhecer;

Aos 64 anos, no homem, os dentes e cabelos caem.

A energia psiquica

Quanto ao enigmático Shen

"O shen não pode ser escutado com o ouvido, o olho deve ser brilhante de percepção e o coração deve ser aberto e atento para que o espírito se revele subitamente através da própria consciência de cada um. Não se pode exprimir pela boca; só o coração sabe exprimir tudo quanto pode ser observado. Se presta muita atenção, pode-se ficar a saber subitamente, mas também pode-se perder de repente esse saber. Mas shen, o espírito, torna-se claro par o homem como se o vento tivesse varrido as nuvens. Por isso se fala dele como do espírito."  Nei Ching

Apesar da distinção entre mito e ciência feita pela antropologia estrutural, que identifica a ciência como construída a partir da observação e a mitologia pela introspeção (Levi Strauss - Pensamento Selvagem), nesse caso, não há discordância quanto a importância da observação. Na medicina tradicional chinesa descrita no Nei Ching, o livro do imperador amarelo, encontra-se esse interessante reforço à descrição de método para "observar-se" e conhecer a mente ou shèn o espírito que comanda o hsing / corpo ( xíng - forma) como pose ser constatado no parágrafo acima transcrito do Nei Ching, livro do imperador amarelo utilizado durante a dinastia Tang (唐朝), 618-906.

Alguns autores descrevem a mente como Xīn (sentimento) ou XīnShén 心神 (mente) talvez herdado ou contagiado pela concepção grega (e talvez universal) de ser o coração o órgão responsável pelos sentimentos e identificam o espírito Shén como o responsável pela percepção e consciência. Contudo a concepção de JīngShén 精神 nos remete a uma concepção mais ampla da totalidade da psique tal como compreendida por Sigmund Freud, integrando o “inconsciente” (id) à linguagem e às demandas instintivas das funções corporais. Em suas palavras...” o ego é, primeiro e acima de tudo, um ego corporal; não é simplesmente uma entidade de superfície, mas é, ele próprio, a projeção de uma superfície.” (Freud, 1923). Por isso, é preciso apreendê-lo como uma projeção mental da superfície do corpo.

Nesse sistema etnomédico cujo referencial básico é o NeiChing ou livro do imperador amarelo o coração, fígado e rim têm maior importância; O Coração é o mestre dos cinco órgãos Zang e das cinco vísceras Fu; o fígado dirige a regulação dos sentimentos e os Rins encerram o Jing que é a base material e ancestral de tudo. As emoções e/ou os padrões de desarmonia também estão previstas, o que em linhas gerais pode ser descrito como:

- O Coração encerra o Shèn e governa a alegria

- O Pulmão encerra o Pò e governa a tristeza

- O Baço-pâncreas encerra o Yì e governa a reflexão

- O Fígado encerra o Hún e governa a raiva

- O Rim encerra o Zhì e governa o medo

Alguns autores como Zhang.e Chi, Martins Zafarini Neto enfatizam a possibilidade de interpretação das concepções da MTC à luz da psicanálise. O dois primeiros ressaltam que muito trabalho ainda precisa ser feito, na construção de um paradigma metodológico, para um diálogo mais amplo entre a MTC e a psicoterapia psicanalítica. Análoga possivelmente a uma espécie de “Acupuntura Falada” utilizando o poder da palavra como recurso de estimulação e inibição (Reinforcing and Reducing). A psicoterapia, segundo eles, em seu sentido restrito pode ser vista como a solidificação do qi defensivo wèi-qì , como uma categoria de apoio mais ampla, onde seu antagonismo e unificação coexistem em tensões dialéticas e dinâmicas próprias da psique.

Os autores Martins Zafarini Neto que também propõe uma aproximação /interpretação psicanalítica das MTC, como referido, destacam que no Nei Jing, a palavra shèn é utilizada com vários significados diferentes. Os dois principais que interessam ao tratamento das doenças mentais são: 1. Shen indicando a atividade do pensamento, consciência, autoidentidade, insight e memória, tal como Soulié de Morant, o interpreta; e 2. O Shèn que abrange o complexo de todos os cinco aspectos mentais e espirituais de um ser humano, isto é, a mente propriamente dita: o coração (shèn), a alma etérea (hun) o fígado, a alma corpórea (po) do pulmão, o intelecto (yi) do baço e a força de vontade (zhi) do rim.

É terrível que muitos detratores da acupuntura, supostamente baseados na comparação aos conceitos da anatomia e fisiologia experimental ocidental, continuem a tentar reduzir meridianos e energia aos componentes orgânicos (fígado, pulmão baço- pâncreas, rim etc.) e medidas físicas, classificando a MTC como uma pseudociência, (sabe Deus com quais intenções?) ignorando as contribuições da antropologia médica  que não só possibilitariam desenvolver um método de pesquisa eficiente, como  permitem uma compreensão mais exata dos procedimentos e intervenções da acupuntura e MTC enquanto uma pratica humana e biopsicossocial e, porque não dizer, espiritual?

Principais ideogramas incluídos no texto

Jing essência; Chi ou Qi / vitalidade, energia;   Shén espírito;

正氣 (zhèng-qì / vital chi);  衛氣 (wèi-qì / chi defensivo); (jing qi / chi nutritivo)

精子 (jīngzǐ /esperma);  Zi Filho;  精液 (Jīngyè - Sêmem) 陰道 (yindào /vagina)

精神 JīngShén / Psique;  xū / deficiência; shí / excesso.

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Ilustrações

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Diagrama do Aparelho Psíquico - Sigmund Freud (1923) sobre anotações do "Projeto de uma psicologia para neurologistas" Sigmund Freud (1950 [1895])

Diagrama da relação Jīng /Chi /Shén - Costa, Paulo Pedro P. R. O Mar de dentro Monografia especialização na Clínica Escola CLIMA orient. Jurecê J. Machado, 2001