segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Quatro ou cinco elementos

 

de Empédocles à Freud via China


Na medicina tradicional chinesa, a teoria dos cinco elementos (五行, wŭ xíng), afirma que o fogo (), a água (), a madeira (), o metal () e a terra (), são os elementos básicos que formam o mundo material. Observe-se que com exceção da “madeira” essa concepção de elementos componentes está presente na antiga Grécia, tal como veremos, e na antiga Índia, sobre a qual comentaremos em outra oportunidade. A questão abordada no presente texto é a discutir a possibilidade de entender e comparar esta(s) distintas concepção(ões), aparentemente semelhantes, superando as barreiras da diferença entre linguagem, etnia e história. 

Segundo a tradição chinesa, compilada no “Livro dos 4 Institutos” existiria uma interação e controle recíproco entre esses elementos o que determinaria seu estado de constante movimento e mudança. Nessa teoria que estabelece um conjunto de matrizes, todas as coisas podem ser classificadas de acordo, ou melhor, em analogia, com estes elementos ou relações entre eles.

De acordo com Ronan, historiador da ciência da Universidade de Cambridge, a teoria dos cinco elementos foi estabelecida e sistematizada pelo naturalista Tsou Yen (Zou Yan) entre 350 e 270 a.C. Ele era o mais destacado membro da Academia Chin Hsia (Zhi-Xia) do príncipe Hsuan (Xuan), e por vezes chamado "fundador do pensamento científico chinês".

A medicina tradicional chinesa pode e deve ser considerada como um complexo sistema etnomédico com milhares de anos de experiências práticas, com uma descrição narrativa própria (a exemplo do "Livro do Imperador Amarelo") organizada em escolas com relações mestre - discípulo instituídas formalmente. Observe-se também como propôs o antropólogo Claude Lévi-Strauss (1908-2009), que o conhecimento mítico/empírico diverge das teorias científicas ocidentais por privilegiar a analogia em vez da identificação de contradições como na lógica formal, privilegiando os sentimentos e intuições enquanto a ciência fundamenta-se na senso-percepção (as propriedades organolépticas da matéria).

As explicações mítico religiosas por sua vez, identificadas nas cosmogonias míticas e sistemas de crenças religiosas, além da pretensão de explicar as origens do universo, classificar plantas e animais, realizar complexas obras engenharia, agricultura, também se organizam como sistemas de intervenção, cura, ou prevenção de doenças.  

Como bem assinala Souza Martins e Zafarini Neto a medicina tradicional chinesa considera o princípio da vida dinâmico. Tudo o que existe no universo está em constante transformação. O ser humano também obedece à mesma lógica. Existe adaptabilidade do indivíduo ao meio, ao seu psiquismo e ao seu estilo de vida. No Ling Shu (靈樞) (a segunda parte do “Livro do Imperador Amarelo” (黃帝) transcrito da tradução oral entre 200 aC. e 200) se lê: "As cem doenças, na origem, decorrem necessariamente da secura ou da umidade, do frio ou do calor, dos "ventos" ou da chuva, do yin ou do yang (陰陽), da alegria ou da cólera, das bebidas e da alimentação, ou das moradias (insalubres)".

Grécia - China

A história grega iniciou-se oficialmente com o período homérico, por volta de 1100 a.C. e estendeu-se até a transformação da Grécia em protetorado romano, em 146 a.C. É notável a coincidência do desenvolvimento da teoria dos cinco elementos na China com o “período helenístico” (338-136 a.C.) ou de difusão da cultura grega pelo Oriente após a ser conquistada pela Macedônia.

Ainda sem querer buscar rotas demográficas ou equacionar possíveis fontes históricas e/ou diferenças etno-linguísticas, interessa-nos explorar a possível aplicação desta forma de conhecimento mítico religiosa à interpretação da fisiologia normal ou patológica do corpo humano, com as intervenções da fitoterapia e acupuntura, os dois expoente principais da medicina tradicional chinesa. Observe-se que ainda hoje os praticantes da acupuntura e medicina tradicional chinesa utilizam a teoria dos cinco elementos (五行 wŭ xíng).

Sem querer também entrar no mérito do que é ou não é o conhecimento científico e constatando as possibilidades práticas de aplicação dessa analogia enquanto uma ferramenta conceitual, é que trago esta recuperação do entendimento e aplicação dessa teoria chinesa, equivalente à do mundo grego feita por Sigmund Freud (1856 -1939), em 1937.      

Segundo ele ...”Empédocles de Acragas (Agrigento, Sicília), nascido por volta de 495 a.C., é uma das maiores e mais notáveis figuras da história da civilização grega. As atividades de sua personalidade multifacetada seguiram as mais variadas direções. Ele foi investigador e pensador, profeta e mágico, político, filantropo e médico com conhecimentos de ciências naturais. Diz-se que libertou a cidade de Selinunte da malária e seus contemporâneos o reverenciavam como a um deus. Sua mente parece ter unido os mais agudos contrastes. Era exato e sóbrio em suas pesquisas físicas e fisiológicas; contudo, não se retraiu ante as obscuridades do misticismo e construiu especulações cósmicas de audácia espantosamente imaginativa”... 

Destaca ainda que a teoria de Empédocles que merece especialmente interesse da teoria psicanalítica por sua semelhança à teoria dos instintos que vem sendo desenvolvida e testada através da metodologia clínica, não como uma especulação mítica “uma fantasia cósmica” mas por sua possível validade biológica. 

Melhor que reescrever, as palavras de Freud com o inevitável plágio autoral de suas brilhantes observações, é transcrever os parágrafos onde comenta a semelhança da teoria psicanalítica com os enunciados de Empédocles, que segundo ele foi um dos maiores pensadores da antiga Grécia, considerando ainda que a teoria psicanalítica o tem como influência por suas leituras nos primeiros anos de pesquisa, (um efeito da criptoamnésia). 

Empédocles, segundo Capelle (apud Freud, 1937), é comparável ao Dr. Fausto, ‘a quem muitos segredos foram revelados’. Nascido, como foi, numa época em que o reino da ciência ainda não estava dividido em tantas províncias, algumas de suas teorias permaneceram por séculos, o que se deve à sua aplicabilidade, inevitavelmente aplicadas ao mundo físico (coisas) e espiritual (mental) explicando sempre pela mistura dos quatros elementos, a terra  (γῆ gê), o ar (ἀήρ aḗr), o fogo (πῦρ pŷr) e a água (ὕδωρ hýdōr), gerando os humores corporais (khymós, em grego), a saber: o sangue, a fleuma, a bile amarela e a bile negra, e emoções ou afetos, a saber: a ira relacionada ao ar e ao sangue (quente e úmido); a tristeza relacionada ao frio, a água fria e úmida (fleugma/pituíta); a cólera equivalente ao fogo (quente e seco) e a melancolia (melancholia) termo até hoje utilizado do grego Melan (Negro) e Cholis (Bílis). 

Essa teoria sobreviveu praticamente até o século XX, no mínimo enquanto metáfora, assim como fez Ivan Pavlov (1849-1936) ao relacionar os tipos de personalidade ou temperamento aos tipos de sistema nervoso classificados a partir dos processos de excitação e inibição, a saber os tipos fracos a quanto a excitação – os melancólicos e quanto a inibição – os coléricos, ambos considerados desequilibrados face ao predomínio de um dos processos (inibição ou excitação). Os tipos considerados equilibrados quanto à reversibilidade dos processos de excitação e inibição seriam os sanguíneos e fleumáticos, sendo a mobilidade típica dos sanguíneos enquanto nos fleumáticos, mais inerte. 

Nas palavras de Freud: 

Empédocles sustentava que toda a natureza era animada, e acreditava na transmigração das almas. Mas também incluiu no corpo teórico do conhecimento ideias modernas, como a evolução gradual das criaturas vivas, a sobrevivência dos mais aptos e o reconhecimento do papel desempenhado pelo acaso (τυχαίος / tychaíos) nessa evolução.

Mas a teoria de Empédocles que merece especialmente nosso interesse é uma que se aproxima tanto da teoria psicanalítica dos instintos, que ficaríamos tentados a sustentar que as duas são idênticas, não fosse pela diferença de a teoria do filósofo grego ser uma fantasia cósmica, ao passo que a nossa se contenta em reivindicar validade biológica. Ao mesmo tempo, o ato de Empédocles atribuir ao universo a mesma natureza animada que aos organismos individuais despoja essa diferença de grande parte de sua importância. 

O filósofo ensinou que dois princípios dirigem os eventos na vida do universo e na vida da mente, e que esses princípios estão perenemente em guerra um com o outro. Chamou-os de amor (philia - Φιλιά) e discórdia (neikos - νεικος). Desses dois princípios - que ele concebeu como sendo, no fundo, ‘forças naturais a operar como instintos, e de maneira alguma inteligências com um intuito consciente’ -, um deles se esforça por aglomerar as partículas primevas dos quatro elementos numa só unidade, ao passo que o outro, ao contrário, procura desfazer todas essas fusões e separar umas das outras as partículas primevas dos elementos. 

Empédocles imaginou o processo do universo como uma alternação contínua e incessante de períodos, nos quais uma ou outra das duas forças fundamentais leva a melhor, de maneira que em determinada ocasião o amor e noutra a discórdia realizam completamente seu intuito e dominam o universo, após o que o outro lado, vencido, se afirma e, por sua voz, derrota seu parceiro. 

Os dois princípios fundamentais de Empédocles - (Philotes Φιλότης e Neikos Νεῖκος) - são, tanto em nome quanto em função, os mesmos que nossos dois instintos primevos, Eros e Destrutividade, dos quais o primeiro se esforça por combinar o que existe em unidades cada vez maiores, ao passo que o segundo se esforça por dissolver essas combinações e destruir as estruturas a que elas deram origem. Não ficaremos surpresos, contudo, em descobrir que, em seu ressurgimento após dois milênios e meio, essa teoria se alterou em algumas de suas características. À parte a restrição ao campo biofísico que se nos impõe, não mais temos como substâncias básicas os quatro elementos de Empédocles: o que é vivo foi nitidamente diferenciado do que é inanimado, e não mais pensamos em mistura e separação de partículas de substância, mas na solda e na defusão/ disjunção dos componentes instintuais. 

Ademais, fornecemos um certo tipo de fundamento ao princípio de ‘discórdia’, fazendo nosso instinto de destruição remontar ao instinto de morte, ao impulso que tem o que é vivo a retornar a um estado inanimado. Isso não se destina a negar que um instinto análogo já existiu anteriormente, nem, é natural, a asseverar que um instinto desse tipo só passou a existir com o surgimento da vida. E ninguém pode prever sob que disfarce o núcleo de verdade contidana teoria de Empédocles se apresentará à compreensão posteriorSigmund Freud (1856 -1939), 1937

Segundo seu editor James Strachey (1887-1967) esse artigo de Freud (1937) explora as questões eficácia terapêutica da psicanálise, suas limitações e dificuldades em questões relativas à alta ou término da análise e porque não dize-lo as questões metodológicas, onde recorre mais uma vez aos recursos da antropologia para referendar achados da metodologia clínica.

Nesse caso específico desse texto, retoma as questões da dualidade e energia psíquica, compreendidas em seus aspectos quantitativos (análogos aos princípios físicos da entropia/ neguentropia) e qualitativos simbólicos que lhe valeram a acusação de retomar os valores judaico cristãos de Bem e Mal como científicos.    

Segundo ele...no decurso do desenvolvimento do homem de um estado primitivo para um civilizado, sua agressividade experimenta um grau bastante considerável de internalização ou volta para o interior; se assim for, seus conflitos internos certamente seriam o equivalente apropriado para as lutas internas que então cessaram. Estou bem cônscio de que a teoria dualista, segundo a qual um instinto de morte ou de destruição ou agressão reivindica iguais direitos como sócio de Eros, tal como este se manifesta na libido, encontrou pouca simpatia e na realidade não foi aceita, mesmo entre psicanalistas. Isso me deixou ainda mais satisfeito quando, não muito tempo atrás, me deparei com essa teoria de minha autoria nos escritos de um dos maiores pensadores da antiga Grécia”. Sigmund Freud (1856 -1939), 1937

Observe-se também que esta interpretação dos princípio dualísticos da medicina grega também são comparáveis aos conceitos Yin e Yang (陰陽) presentes no mito de criação da terra e humanidade de um grade número de etnias da China antiga, contudo por ora por questões de tempo e espaço nos limitaremos, por ora, a este esboço de comparação da teoria dos cinco ou quatro elementos, mas para finalizar lhes deixo esse fragmento do texto de Empédocles, possivelmente componente da gênese, como ele mesmo supôs, da teoria freudiana dos instintos também conhecida como relacionados à Eros e Tanatos.

...”duplas (coisas) direi: pois ora um foi crescido a ser só de muitos, ora de novo, partiu-se a ser muitos de um só. Dupla é a gênese das (coisas) mortais, dupla a desistência. Pois uma a convergência de todos engendra e destrói, e a outra, de novo (as coisas) partindo-se, cresce e dissipa. E estas (coisas) mudando constantemente jamais cessam, ora por Amizade convertidas em um todas elas, ora de novo divergidas em cada por ódio de Neikos. Assim, por onde um de muitos aprenderam a formar-se, e de novo partido o múltiplos se tornaram, por ai é que nascem e não lhes é estável a vida; mas por onde mudando constantemente jamais cessam, por aí é que sempre são imóveis segundo o ciclo”. ... Empédocles Ἐμπεδοκλῆς (495 a.C. - 430 a.C.), Fragmento 17

Referências

BRASIL ESCOLA. Grécia Antiga. https://brasilescola.uol.com.br/historiag/grecia-antiga.htm Acesso em outubro de 2021

CHINA. Livro dos 4 Institutos – Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa. Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

CABRAL, Izabela Silva. As noções de amor (philia) e discórdia (neikos) nos fragmentos de Empédocles  (Relatório Final) Universidade Federal do Amazonas

Instituto de Ciências Humanas e Letras Programa Interinstitucional de bolsas de iniciação científica Orientadora: Profa.Dra. Maria do Socorro da Silva Jatobá, Manaus, 2010 http://riu.ufam.edu.br/handle/prefix/1826

FREUD, S. – Análise terminável e interminável (1937) Obras Completas de Psicanálise - volume XXIII. Rio de Janeiro, Imago-1996.

LEVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem São Paulo, Companhia Ed Nacional, 1976

PAVLOV, Ivan P. Reflexos condicionados e inibições. RJ: Zahar, 1972

REBOLLO, Regina Andrés. O legado hipocrático e sua fortuna no período greco-romano: de Cós a Galeno. scientiæ zudia, São Paulo, v. 4, n. 1, p. 45-82, 2006 Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S1678-31662006000100003>. Epub 11 Maio 2010. ISSN 2316-8994. https://www.scielo.br/j/ss/a/V5trSkVBrfFGRMWq7QLRKpb/abstract/?lang=pt

RODRIGUES, Claudia. Vida e Morte é um ciclo - Freud e Empédocles de Acragas 2017 https://caminhosdapsiq.blogspot.com/2017/06/vida-e-morte-e-um-ciclo-freud-e.html acesso 19 de junho de 2021

RONAN, Colin A. História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge (4vol.) vol 2 - Oriente, Roma Idade Média RJ, Zahar Ed, 1987

SOUZA MARTINS, Ednéia Iara;  ZAFARINI NETO, Vicente. A histeria de Katharina de Freud tratada com acupuntura. SP: Roca, 2010

WIKIPEDIA. Wu Xing ‎ CostaPPPR (14 de setembro de 2021) https://pt.wikipedia.org/wiki/Wu_Xing 


oxxxxxxxxxxxxxxxxxxx-------------------------------


Ilustração: Greek Philosophy: matter consists of four "elements" earth, air, water, & fire "elements" combine to form matter "elements" are unchangeable upon death matter is converted back into basic "elements" http://faculty.collin.edu/ Greek Philosophy

...........................................

VER TAMBÉM O movimento das cinco estações, 2011 http://etnomedicina.blogspot.com/2011/03/o-movimento-das-cinco-estacoes.html Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina semítica. 2014 http://medicinacomportamental.blogspot.com/2014/02/aforismos-antigos-proverbios-e.html Aforismos antigos, provérbios e conselhos para controle das emoções e manutenção da saúde nas tradições das medicinas chinesa, grega e semítica. 2015 http://etnomedicina.blogspot.com/2015/05/aforismos-antigos-proverbios-e.html Aforismos antigos, provérbios e conselhos para manutenção da saúde na tradição e medicina hipocrática. Abril de 2015 http://medicinacomportamental.blogspot.com/2015/04/aforismos-antigos-proverbios-e.html Resenha: A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura. Fevereiro de 2017 http://etnomedicina.blogspot.com/2017/02/resenha-histeria-de-katharina-de-freud.html



sábado, 11 de setembro de 2021

A Psicose ou Essência de Deus Doente (god damn)

 

Esse texto explora um dos múltiplos sentidos dos ideogramas de psicose ou doença mental (精神病) na cultura chinesa que envolvem as concepções divindade e maldição (god damn?) procurando entender simultaneamente o desenvolvimento dessa concepção no ocidente a partir da medicina hipocrática e psicanálise.  

Não sou o primeiro a procurar uma interpretação dos conceitos da cultura e medicina chinesa na psicologia. C. G Jung (1875-1961) na década de 30, escreveu um dos primeiros textos que aproximam as técnicas ocidentais de psicoterapia às práticas orientais de meditação (e libertação como destaca Alan Watts): "O segredo da flor do ouro, um livro de vida chinês".  Mais recentemente interpretando sintomas descritos como histeria à luz da acupuntura, Martins e Zaffarani, Neto (o.c. p.198) concluem constatando a real possibilidade de considerar a psicologia como a ciência que começou a fazer a união do oriente como o ocidente. Esquisito, porém, é a afirmação de médicos e parlamentares envolvidos no processo de regulamentação da acupuntura afirmarem que acupuntura “é matéria não prevista na Lei que definiu a profissão de psicólogo” no Brasil. (Costa, 2018, 2020)

Em 1924 Freud escreveu um artigo incisivo “A perda da realidade na neurose e psicose” no qual chamou atenção para o fato de que o problema não é o da perda de realidade, mas o expediente daquilo que vem substituí-la. (Lacan, o.c. p.549)

Entende-se que no referido texto de Freud fica demostrado que tanto na neurose como na psicose há uma incapacidade - a adaptar-se às exigências da realidade, à ‘Ανγχη‘ ‘‘Necessidade”. Destacando ele, porém, que essa diferença se evidencia constatando que na neurose há um afastamento (amnesia) ou negação de uma dada característica ou ocorrência da realidade (negando esse fato), enquanto que em uma psicose o ego, a serviço do id, se afasta de um fato ou ocorrência da realidade, negando a realidade. Segundo ele no citado artigo ...para uma neurose o fator decisivo seria a predominância da influência da realidade, enquanto para uma psicose esse fator seria a predominância do id...(Freud, 1924)

Na psicose, portanto, há a tarefa ou processo psicológico de conseguir para si própria percepções de um tipo que corresponda à nova realidade, e isso muito radicalmente se efetua mediante a alucinação como bem define Freud e destaca Lacan no texto citado.

Mas por que trazer essa discussão para interpretação do conceito chinês de psicose 精神病 (精 Jīng,神 Shén, 病 Bìng) traduzível por Essência do Espírito Doente [em falta] ou Loucura 疯狂 ( fēng 狂 kuáng)?

Escrevi em outro texto de revisão de literatura, que na MTC – Medicina Tradicional Chinesa assinala-se a relação da Mania, como da depressão (retraimento - desorientação/loucura) num quadro denominado Dian Kuang (癫狂), agitar-se de modo selvagem e permanecer calmo, Dian (). Esse termo corresponde à ideogramas associados a confusão, colisão, erro, embotamento e "divinação", ao que vem da divindade oráculo. Observe-se essa mesma expressão de relação com o sagrado estava também presente entre os gregos, igualmente identificada à Epilepsia – em chinês: Dian Xian (癲癇) ou Yang Dian Feng (羊癫风) que poderia ser traduzida literalmente por "vento - cabra - louco". (Costa, 2011)

Contudo a interpretação da evolução do conceito chinês de psicose / doença mental se revela mais próxima ao conceito psiquiátrico de demência precoce e também da concepção grego hipocrática de paranoia a (παράνοια), (Oda) como deduzível de seus ideogramas, o que nos possibilita a compor um paralelo com a “doença sagrada”. 

Apesar do seu título, o texto de Hipócrates (460-377 aC) sobre a “doença sagrada” descreve a epilepsia como resultante de uma causa natural, rompendo com antigas tradições mágico religiosas, e desenvolvendo a teoria humoral que explicava o processo saúde doença e é notavelmente semelhante à concepções chinesas descritas com referência ao período da dinastia Han (202 a.C. - 248 AD) (Lloyd; Reding)

A concepção grego – hipocrática teve como referência principal a doutrina dos quatro elementos do filósofo Empédocles (483 / 82-430 aC): terra, água, ar e fogo. Esses quatro elementos, misturados em proporções diferentes, fariam a Natureza e tudo o que nela está presente, inclusive no corpo humano As diferentes partes do corpo resultariam da mistura - em diferentes proporções - de quatro humores: sangue, pituita ou catarro (phlègma), bile amarela e bile negra ou atrabilis. As discrasias humorais, por sua vez relacionavam-se com os “transtornos mentais”: “Se o cérebro está corrompido por catarro, o paciente permanece calmo e silencioso; Se for da bile 'amarela’, vociferante, mau e age de forma inadequada; Se o cérebro estiver quente (por causa do sangue), surgem terrores, medos e pesadelos; se estiver muito frio (por causa da bile negra), os pacientes ficarão tristes e preocupados " (Álvarez et al.)

A concepção chinesa, que também rompeu com as tradições mágico religiosas e desenvolveu, a concepção de Yin / Yang (陰陽) e a teoria dos Cinco elementos Wu Xing (五行) entre os séculos IV e III aC, (Ronan) incorporados a Livro do Imperador Amarelo no período da dinastiaHan (202 a.C. - 248 AD) quando houve frequentes contatos comprovados com grego-romanos, e se estabeleceu a Rota da Seda. (Carneiro; Haw) Neste período desenvolveu-se ainda mais o racionalismo que se opunha às crenças supersticiosas, sendo comparado por Joseph Needham ao período Hipocrático da medicina chinesa. É também desse período a primeira referência à teoria dos meridianos (Jingmai-xue) nos Manuscritos Médicos de Mawangdui escritos em seda desenterrados em Mawangdui em 1973. (Liu)

Observe-se a concepção de influência do flegma, fogo numa concepção moderna de acupuntura desenvolvida Ministério da Saúde da China no que ficou conhecido colo “Livro dos Quatro Institutos” editado durante o período revolucionário: ...o distúrbio mental depressivo geralmente é causado por retardo de qi e acúmulo de flegma resultante de depressão mental. O distúrbio mental maníaco pode ser causado por: (1) estase de qi causada pela exasperação, a qual traz o fogo à tona e provoca a formação do flegma; ou (2) calor excessivo no estômago impedindo a descida do qi prejudicial, o que resulta em acúmulo do calor perturbando a mente” .... [ver Nota 2]

Apesar de uma possível comparação através da metodologia etno-histórica do desenvolvimento paralelo e/ou inter-relacionado do que pode ser designado como sistemas etnomédico grego-romano que originou a atual forma da medicina ocidental e o sistema etnomédico chinês – asiático, diante das que a análise dos ideogramas (Jīng Shén Bìng) que descrevem a psicose/doença mental, literalmente, não podemos negar que, sobretudo, o conceito deShén em alguns contextos significa espírito, divindade; infinito; nume; onisciência/ consciência (mente), e é o conceito chave para entender a crença ou delírio psicótico. 

Voltando ao texto de Freud, temos que, o novo e imaginário mundo externo de numa psicose se tenta colocar-se no lugar da realidade é um fragmento diferente daquele contra o qual (o psicótico) tem de defender-se, e emprestar a esse fragmento uma importância especial e um significado secreto que nós (nem sempre de modo inteiramente apropriado) chamamos de simbólico. Vemos, assim, que tanto na neurose quanto na psicose interessa a questão não apenas relativa a uma perda da realidade, mas também a um substituto para a realidade. (Freud, 1924)

Entendendo essa realidade simbólica discursiva que se sobrepõem à realidade como uma interpretação verdadeira do que se percebe e descreve num sistema de crenças (schereberiano) constatamos real possibilidade de considerar a psicologia como a ciência que começou a fazer a união do oriente como o ocidente, pelo menos para o entendimento das doenças mentais e dinâmica psicossomática.   

Finalizando com uma perspectiva de uma “psicologia profunda” ou psicanálise eis como Sigmund Freud (1856 – 1939) descreve a nossa demanda (normais & neuróticos) e o valor peculiar das ideias religiosas:

...”Foi assim que se criou um cabedal de ideias. Nascido da necessidade que tem o homem de tomar tolerável seu desamparo e construído com o material das lembranças do desamparo de sua própria infância e da infância da raça humana. Pode-se perceber claramente que a posse dessas ideias o protege em dois sentidos: contra os perigos da natureza e do Destino e contra os danos que o ameaçam por parte da própria sociedade humana. Reside aqui a essência da questão. A vida neste mundo serve a um propósito mais elevado; indubitavelmente, não é fácil adivinhar qual ele seja mas decerto significa um aperfeiçoamento da natureza do homem”... (Freud, 1927)

Referências

Álvarez, José Maria; Esteban, Ramón; Sauvagnat, François. Fundamentos de psicopatologia psicoanalítica. Madrid: Editorial Síntesis, 2009

Cairus, HF. Da doença sagrada. In: CAIRUS, HF., and RIBEIRO JR., WA. Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005. História e Saúde collection, pp. 61-90. ISBN 978-85-7541-375-3. Available from SciELO Books < http://books.scielo.org >.

Carneiro, Norton Moritz. Acupuntura baseada em evidências. Florianópolis, SC, Ed. do autor, 2000

Costa, Paulo Pedro P. R. (2011). Dian Kuang - 癫狂
http://etnomedicina.blogspot.com/2011/09/dian-kuang.html

Costa, Paulo Pedro P. R. (2018). Acupuntura e a prática da Psicologia.
http://etnomedicina.blogspot.com/2018/10/acupuntura-e-pratica-da-psicologia.html

Costa, Paulo Pedro P. R. (2020). Acupuntura e Psicologia II
http://etnomedicina.blogspot.com/2020/01/acupuntura-e-psicologia-ii.html

Freud, Sigmund (1924) A perda da realidade na neurose e na psicose. Freud Sigmund Edição Standard das Obras Completas. V. XIX RJ, Imago, 1996

Freud, Sigmund (1927). O futuro de uma ilusão. Freud Sigmund Edição Standard das Obras Completas. V. XXI RJ, Imago, 1996

Haw, Stephen G. História da China. Lisboa: Tinta da China, 2016 p.113

Jung, Carl Gustav.; Wilhelm, Richard. (1929) O segredo da Flor do ouro, um livro de vida chinês. Petrópolis, RJ: Vozes, 1992

Lacan, Jacques. (1955-56) De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose. Lacan J. Escritos. RJ: Zahar, 1998

Liu Chunyu (2016) Review on the Studies of Unearthed Mawangdui Medical Books. Estudos Chineses , 05 , 6-14. doi: 10.4236 / chnstd.2016.51002
https://www.scirp.org/html/2-2550210_63146.htm

Lloyd G. After Joseph Needham: The legacy reviewed, the agenda revised – some personal reflections. Cultures of Science. 2020;3(1):11-20. doi:10.1177/2096608320917579

Oda, Ana Maria Galdini Raimundo. Ordenando a babel psiquiátrica: Juliano Moreira, Afrânio Peixoto e a paranoia na nosografia de Kraepelin (Brasil, 1905). História, Ciências, Saúde-Manguinhos [online]. 2010, v. 17, suppl 2 [Acessado 11 Setembro 2021] , pp. 495-514. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0104-59702010000600013>. Epub 01 Fev 2011. ISSN 1678-4758. https://www.redalyc.org/pdf/3861/386138053013.pdf

Reding, Jean-Paul. (2017). Comparative Essays in Early Greek and Chinese Rational Thinking. 10.4324/9781315259772.

Ronan, Colin A. História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge. (4vol.) vol 2 - Oriente, Roma Idade Média. RJ, Zahar Ed, 1987

República Popular da China - Ministério da Saúde/ Quatro Institutos (Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa). Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

Watts Alan W. (1961) Psicoterapia, Oriental & Ocidental. RJ: Record, 1972

Zaffarani Neto, Vicente, Martins, Ednéa Iara Souza. A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura. SP: Roca, 2010


NOTAS
.......................................1


精神病
Psicose / Doença mental

JīngShénBìng

Essência do  Espírito Doente (em falta)

精 Jīng

arroz polido
essência ; energia
espírito ; energia ;  vigor
fluido seminal ; sêmen
espírito ; alma
essência ; concentrado
demônio ; goblin
( dialetal , de carne ) magra
alt. formulários:
bem ; refinado
puro ; não misturado
concentrado ; sincero
claro ; brilhante
requintado ; profundo

Shén

espírito ; alma ; mente
expressão ; semblante ; aparência
sobrenatural ; magia ; psíquico

病 Bìng

doença ; illness; sickness; disease
mal ; males (evil; ills)
culpa ; falha (fault; flaw)

Wikcionário chinês
https://zh.m.wiktionary.org/wiki/Wiktionary

.......................................2

TRATAMENTO DOS DISTÚRBIOS MENTAIS DEPRESSIVO E MANÍACO

Método: os pontos do Meridiano Du e do Meridiano Jueyin da Mão (Pericárdio) são selecionados como pontos principais para acalmar o coração e a mente e restaurar a clareza mental. Para o distúrbio mental depressivo, empregue a incisão de agulhas com o método de movimento regular. A moxabustão pode ser empregada de acordo com a condição. Para a mania, utilize o método de redução com a incisão com agulhas.

Prescrição: Renzhong (Du 26), Shaoshang (Pu. 11), Yinbai (Ba. 1), Daling (Pe. 7), Shenmai (Be. 62), Fengfu (Du 16), Jiache (E. 6), Chengjiang (Ren 24), Laogong (Pe. 8), Shangxing (Du 23), Quchi (I.G. 11).

Os pontos para os casos maníacos com calor extremo: insira os 12 Pontos Jing-Well da Mão (Pu. 11, C. 9, Pe. 9, I.G. 1, S.J. 1, I.D. 1) até sangrarem para reduzir o calor.

Explicação: os pontos Renzhong (Du 26), Shaoshang (Pu. 11) e Yinbai (Ba. 1) são eficazes para readquirir a clareza mental, dissipar o calor e eliminar a loucura. O Daling (Pe. 7), o Ponto Yuan (Fonte) do Meridiano do Pericárdio e o Laogong (Pe. 8), o Ponto Ying Spring do Meridiano do Pericárdio, são utilizados para reduzir o calor no Meridiano do Pericárdio. Os pontos Shenmai (Be'<,62),Fengfu (Du 16) e Shangxing (Du 23) dissipam o calor nos Meridianos Yangqiao e Du para tranqüilizar a mente. Os pontos Jiache (E. 6) e Quchi (I.G. 11) dissipam o calor dos Meridianos Yangming da Mão e do Pé.

Observações:

(1) Os distúrbios mentais (depressivo e maníaco) correspondem aos tipos depressivo e maníaco de esquizofrenia e psicose na medicina moderna.

(2) Acupuntura na orelha:

Pontos principais: Nervo Simpático, Shenmen da Orelha, Coração, Fígado, Subcórtex, Endócrino, Estômago, Occipúcio.

Método: selecione 1-2 pontos para cada tratamento .

Referência:

República Popular da China - Ministério da Saúde/ “Livro dos Quatro Institutos” (Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa). Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995 p.358

........................................


VER TAMBÉM
 

-------------------------xxxxxxxxxxxxxxxxo

           

Costa, Paulo Pedro P. R. (2017). Cérebro , o mar de dentro 髓海http://etnomedicina.blogspot.com/2014/03/cerebro-o-mar-de-dentro.html

Costa, Paulo Pedro P. R. (2017). A Resenha: A Histeria de Katharina de Freud Tratada com Acupuntura http://etnomedicina.blogspot.com/2017/02/resenha-histeria-de-katharina-de-freud.html

Costa, Paulo Pedro P. R. (2017). Acupuntura, mente-espírito e estados fásicos da consciência http://etnomedicina.blogspot.com/2017/12/acupuntura-mente-espirito-e-estados.html

Costa, Paulo Pedro P. R. (2021). Alucinação, anotações essenciais http://medicinacomportamental.blogspot.com/2021/08/alucinacao-anotacoes-essenciais.html


oxxxxxxxxxxxxxxxx-------------------------



quarta-feira, 25 de agosto de 2021

O quente e o frio de alguns bálsamos e linimentos utilizados na medicina tradicional chinesa

 


Nem é necessário explicar que acupuntura (Zhen Jiú - 针灸) e fitoterapia integram o complexo sistema etnomédico que conhecemos como Medicina Tradicional Chinesa - MTC. Os especialistas dessa pratica além da inserção de agulhas (针 - Zhen) capazes de expulsar o frio ou calor perverso descrito nas categorias de classificação de patologias na medicina chinesa, também utilizam aplicação de calor com cones ou bastões próprios da moxabustão ( Jiŭ), comumente feitos de erva seca (Artemísia vulgaris) em combustão ou podem aplicar sobre a pele compostos de ervas combinadas em balsamos e linimentos capazes produzir efeitos metabólicos atuando sobre as sensações de frio e calor no organismo humano, como veremos.

Ainda há muito a saber sobre o significado do calor ( rè) e frio ( lěng); na MTC bem como o efeito de diversas substancia aplicadas sobre a pele na circulação sanguínea tanto por seu efeito de interação com receptores nervosos de frio (Corpúsculos de Krause) e calor (Corpúsculos de Ruffini) como ação metabólica.

Analisando o período histórico de surgimento/consolidação de algumas das ideias básicas da “ciência” chinesa Colin A. Ronan em sua "História ilustrada da ciência da Universidade de Cambridge"  estudando os fundamentos conceituais que resultaram no desenvolvimento técnico da acupuntura, destaca a concepção de Yin / Yang (陰陽) no princípio do século IV a.C. e quanto a teoria dos Cinco elementos Wu Xing (五行), entre 370 e 250 a.C. por Tsou Yen (Zou Yan) o membro mais destacado da Academia Chi-Hsia (Zhi-Xia) do príncipe Hsuan (Xuan). Até hoje tais categorias de interpretação são aplicadas a fisiologia e patologia em uma lógica própria, distinta da ocidental.

Na perspectiva de interpretação da MTC podemos compreender os efeitos da temperatura fria e quente segundo uma concepção semiológica de uma dualidade complementar onde o frio se inclui na categoria Yin () juntamente com a hipotermia, litíase, algumas formas do anabolismo e o calor é incluído na categoria simbólica Yang () assim como a inflamação, a febre e algumas formas do catabolismo.

Segundo a teoria dos Cinco elementos Wu Xing (五行), e como Lê-se no Nei Ching: “Na natureza há o lapso das quatro estações e as alterações dos cinco elementos que por sua vez produzem as cinco energias, isto é, frio, calor, secura, umidade e vento, e assim por diante a fim de promover o nascimento, o crescimento, a colheita e o armazenamento de todas as coisas.

Assim como a acupuntura e moxabustão, a fitoterapia segue esses mesmos princípios. Segundo editores do Health Library do Beth Israel Lahey Health o sistema conceitual classificatório da fitoterapia desenvolvido na China difere de várias maneiras significativas da fitoterapia europeia. A diferença mais óbvia é que a tradição de ervas ocidental concentra-se em “símplices” (e extratos), ou ervas tomadas por si mesmas. Em contraste, a medicina tradicional chinesa à base de ervas (MTCE) faz uso quase exclusivo de combinações de ervas (复方 – Fùfāng).

O mais importante, como destaca os citados autores acima citados e Xuefeng Su et al. é que essas fórmulas não foram projetadas para tratar os sintomas de uma doença específica; em vez disso, eles são ajustados especificamente para o indivíduo de acordo com os princípios complexos da MTC. As fórmulas geralmente feitas exclusivamente de produtos vegetais usadas na fitoterapia tradicional chinesa, dividem-se  em quatro categorias de ervas: Soberana ( jūn), o principal ingrediente, equivalente ao que nos textos modernos é a substância que fornece o principal efeito terapêutico na prescrição; ( chén) Ministros ou associados, que potencializam ou auxiliam as ações terapêuticas; Os assistentes (também chamados de ajudantes, em chinês zuǒ) que desempenham uma ou mais das seguintes funções: tratar os sintomas que os acompanham, moderar a aspereza ou toxicidade das substâncias primárias, ajudar a erva “soberano” e os “ministros” a cumprirem seus objetivos principais ou modular o efeito terapêutico, tipo a adição de substância refrescante a uma receita de aquecimento ou vice-versa;  Finalmente as ervas ou substancias Mensageiros, em chinês 使 shǐ) que conduz  as outras ervas na fórmula para um canal (meridiano) ou órgão específico, ou ainda exerce uma influência harmonizadora. Observe-se que a seleção e aplicação de pontos de acupuntura obedece princípios semelhantes para sua escolha e combinação.

Eis alguns exemplos extraídos de artigos e bula de apresentação de alguns bálsamos e linimentos da Medicina Tradicional Chinesa que ilustram tais princípios e efeitos esperados:

O linimento Zheng Gu Shui que pode ser traduzido vagamente como Água Corretora de Ossos tem indicação na MTC medicina tradicional chinesa como capaz de atuar como um analgésico leve, promovendo a circulação, reduzindo hematomas e inchaço e fortalecendo o tecido conjuntivo.

Seus Ingredientes:

Notoginseng Radix (tián qī)
Curcumae Rhizoma (é zhú)
Polygoni Cuspidati Rhizoma (hǔ zhàng)
Cinnamomi Ramulus (guì zhī)
Crotonis Crassifolii Radix (jī gǔ xiāng)
Angelicae Dahuricae Radix (bái zhǐ)
Moghaniae Radix (qiān jīn bá)
Inulae Cappae Herba (bái niú dǎn)
Mentolum (bò hé nǎo)
Cânfora (zhāng nǎo)

Os efeitos farmacológicos específicos de tais plantas naturalmente são relevantes mas no momento nos interessa a análise das principais ervas capazes de produzir as sensações de frio e calor.  Fórmulas à base de ervas, como mentol, cânfora e óleo de menta, segundo seus usuários, podem manter a pele fresca em dias quentes. O bálsamo é comumente aplicado nas têmporas para manter o corpo fresco e revigorado. Alguns também o usam como repelente de mosquitos devido ao seu cheiro forte e também para aliviar o enjoo.

Outros itens refrescantes e repelentes de insetos são a Água de flores de Liushen (Liushen florida water); água mentolada Fengyoujinge e água Huoxiangzhengqi. Entre os mais conhecidos linimentos de efeito frio estão o Polar Bear brand e White Flower:

O Óleo Essencial Chinês de Urso Polar (Polar Bear Chinese Essential Embrocation Oil) aplicado inicialmente sobre a pele produz uma sensação de calor (quente) e após penetrar na pele, depois de alguns minutos, produz uma sensação muito fria.

Composto de Cristais de menta (23%); Hortelã-pimenta (20%); Cânfora natural (15%) e Óleo de eucalipto (42%) é tradicionalmente indicado para resfriados obstrução nasal, enjôo, congestão nasal e no peito tem efeito anestésico e refrescante.

O Oléo essencial Flor branca (white flower balm) também conhecido como Pak Fah Yeow, é uma mistura de vários óleos essenciais, incluindo óleo de eucalipto, Óleo de lavanda, Seus ingredientes ativos são Canfora (6%) Mentol (15%) e Salicilato de metila (40%), antes talvez extratos do óleo de gautéria (wintergreen oil). A Gaultheria longibracteolata (Ericaceae) tem sido tradicionalmente usada por diferentes grupos linguísticos na província de Yunnan, China.

Entre os bálsamos que promovem aquecimento está o conhecido Bálsamo do tigre (Tiger balm), que possui diversas composições “fracas” e extra fortes Composto basicamente por cânfora, mentol e óleos essenciais (pimenta, M. cajuputi, cravo e cássia) em formulações e formas de apresentação variadas. Algumas incluem o óleo de gaultéria, óleo de eucalipto e o salicilato de metila.

A história do Tiger Balm data o século 19. O "médico" tradicional Aw Chu Kin partiu da casa de sua família e da prática de MTC de seu pai em Fujian, uma província do sudeste da China, para buscar fortuna na colonial Rangoon, a maior cidade de Mianmar (ou Birmânia), e lá compôs essa formula que segundo a MTC atua através dos vapores quentes e picantes, efervescentes e dispersantes das ervas - que ajudam a mover o qi e fazer o sangue fluir melhor.

Segundo o ditado na medicina chinesa: “onde não há movimento de qi, há dor. Onde não há dor, há movimento do qi”.

Nos linimentos e balsamos ocidentais também são muitas as fórmulas com Salicilato de Metila, um éster metílico do ácido salicílico, extraído de muitas espécies de plantas a exemplo das bétulas  (Betulaceae),  gaultérias (Ericaceae) e salgueiros (Salicaceae). Extratos da casca dos salgueiros já eram conhecidos e recomendados por Hipócrates (cerca de 460 –370 aC.), para aliviar as dores do parto e diminuir a febre, além de recomendar o uso tópico de suas folhas como antisséptico. Consta entretanto que o salicilato de mentila composto (derivado do derivado de um ácido salicílico) foi extraído e isolado da espécie vegetal Gaultheria procumbens em 1843.

Segundo Câmara Filho o princípio ativo da casca do salgueiro foi identificado pelos químicos italianos Fontana e Brignatelli em 1826, isolado pelo um farmacêutico francês, Henri Leroux (1829), e  somente em 1838, o químico italiano Rafaelle Piria realizou a extração do ácido salicílico. O ácido acetilsalicílico, obtido pelo acréscimo do acetato foi obtido em 1853, pelo químico alsaciano Charles Fréderic Von Gerhard, mas somente em 1897, se descobriu sua eficácia analgésica, patenteada pelo químico Felix Hoffmann, que trabalhava para a Friedrich Bayer & Co.

Além do salicilato, uma das mais conhecida plantas e substancias citadas está o mentol obtido a partir de hortelã - pimenta e outras variedades botânicas. O hortelã tem sido usado desde a antiga Babilônia, e há relatos de que é conhecida no Japão há pelo menos 2.000 anos, mas foi na Antiguidade Clássica que seu uso médico se consagrou com as contribuições de Dioscorides (40-90) e do historiador e naturalista romano Plínio, o Velho (23-79). O uso do seu óleo essencial se desenvolveu a partir do século XVI a nova medicina enraizado na alquimia e no  Ocidente , o mentol foi isolado pela primeira vez em 1771, pelo alemão Hieronymus David Gaubius. Entre seus múltiplos usos medicinais incluiu-se o uso tópico e sistêmico para controlar as manifestações inflamatórias de diversas doenças, incluindo dor, eritema e febre, desde a Antiguidade clássica.

Entre os terpenos de baixo peso molecular como o mentol (um monoterpeno) encontram-se muitos dos componentes de óleos essenciais, a exemplo da cânfora extraída da árvore Cinnamomum camphora (a canforeira) igualmente presente em diversos dos citados linimentos por sua ação acção rubefaciente, antipruriginosa, antisséptica e analgésica.

Como visto ainda há muito a conhecer sobre as propriedades combinadas e diversas ervas, o que é uma tendência comum nas medicinas antigas e chinesa, contrária à lógica farmacêutica de identificação dos princípios ativos.  

Entre os bálsamos origem ocidental estão os produtos da indústria farmacêutica Iodex uma marca registrada em 1942 para Menley & James Limited Single Firm, a base de iodo (iodopovidona?) e salicilato de metila, mas hoje com várias composições incluindo o diclofenaco dietilamina e extratos da hortelã-pimenta (Mentha × Piperita) tal como os comercializados na Índia e o Vicks Vaporub (mentol, cânfora e óleo de eucalipto).  

No Brasil atual a diversos bálsamos que utilizam o veículo ou potencial do mentol, cânfora, salicilato de metila a exemplo do Doutrorzinho (acrescentando essência de arnica (Arnica montana) e óleo de copaíba - Copaifera L. genus);  e diversas composições somadas à Canela De velho (Miconia albicans), cânfora, mentol, salicilato de metila, algumas ainda com acréscimos de plantas como Unha de Gato (Uncaria tomentosa), Copaíba (alguma espécie do gênero), Mil-folhas (Achillea millefolium), Mastruz (Chenopodium ambrosioides), entre outros. Ou seja muito ainda a saber sobre os linimentos e bálsamos chineses e brasileiros

Estudos comparativos e de eficácia terapêutica podem e deveriam ser realizados e apresentados por seus comerciantes e não tratados como patentes e segredos industriais.

Se as anotações desse breve texto conseguiu despertar atenção para a complexidade da interação entre a acupuntura e a fitoterapia chinesa bem como para pesquisa do efeito terapêutico dos citados balsamos e linimentos, estamos bem..

Referências

Beth Israel Lahey Health, Winchester Hospital (Editors) Traditional Chinese Herbal Medicine https://www.winchesterhospital.org/health-library/article?id=37410

Caitlin Armit. Zheng Gu Shui liniment for Injury Healing 18 April 2017
https://www.fusion-acupuncture.com.au/zheng-gu-shui/ [consult. 2021-08-25]

Câmara Filho, Lauro Arruda. A história da aspirina
https://hospitaldocoracao.com.br/novo/midias-e-artigos/artigos-nomes-da-medicina/aspirina-uma-biografia/ [consult. 2021-08-25]

Kohnhorst, Adan. Tiger Balm: Herbal Secrets Behind the World’s Most Popular Chinese Medicine. February 22, 2018 https://radiichina.com/tiger-balm-herbal-secrets-behind-the-worlds-most-popular-chinese-medicine/ [consult. 2021-08-25]

Liu Wei (2016). Four 'magical' TCM solutions to beat the heat. https://www.chinadaily.com.cn/china/2016-07/26/content_26231352.htm [consult. 2021-08-25]

Luo, B., Kastrat, E., Morcol, T., Cheng, H., Kennelly, E., & Long, C. (2020). Gaultheria longibracteolata, an alternative source of wintergreen oil. Food Chemistry, 128244. doi:10.1016/j.foodchem.2020.12824

National Center for Biotechnology Information (2021). PubChem Compound Summary for CID 4133, Methyl salicylate. Retrieved August 26, 2021 from https://pubchem.ncbi.nlm.nih.gov/compound/Methyl-salicylate. [consult. 2021-08-25]

About DailyMed| Customer Support| Copyright| Privacy| Web Accessibility

National Institutes of Health - NIH. White Flower Analgesic Balm
https://dailymed.nlm.nih.gov/dailymed/lookup.cfm?setid=f3e3b8b5-b12b-49ac-9318-b0c358b136e9 [consult. 2021-08-25]

NEI CHING, (Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo). Compilação de Bing Wang (dinastia Tang). SP, Ícone, 2001

Polar Bear Brand Essential Embrocation Oil
http://bigbrand.pk/Polar-Bear-Brand-Essential-Embrocation-Oil [consult. 2021-08-25]

Polar Bear Brand Essential Embrocation Oil
https://www.reviewstream.com/reviews/?p=86003 [consult. 2021-08-25]

Porto Editora – terpeno na Infopédia [em linha]. Porto: Porto Editora. [consult. 2021-08-25 04:24:35]. Disponível em https://www.infopedia.pt/$terpeno [consult. 2021-08-25]

Rodrigues, Antônio GrecoBuscando raízes. Horizontes Antropológicos [online]. 2001, v. 7, n. 16 [Acessado 25 Agosto 2021] , pp. 131-144. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0104-71832001000200007>. Epub 20 Set 2005. ISSN 1806-9983 https://www.scielo.br/j/ha/a/kJwprSBPmXd3w4xpCxqWQpN/?lang=pt

Ronan, Colin A. História Ilustrada da Ciência da Universidade de Cambridge. (4vol.) vol 2 - Oriente, Roma Idade Média. RJ, Zahar Ed, 1987

Silva H. A Descriptive Overview of the Medical Uses Given to Mentha Aromatic Herbs throughout History. Biology (Basel). 2020;9(12):484. Published 2020 Dec 21. doi:10.3390/biology9120484 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7767097/ [consult. 2021-08-25]

Su X, Yao Z, Li S, Sun H. Synergism of Chinese Herbal Medicine: Illustrated by Danshen Compound. Evid Based Complement Alternat Med. 2016;2016:7279361. doi:10.1155/2016/7279361 https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4846759/ [consult. 2021-08-25]

Wilson, Debra; Rose, Huizen, Jennifer 6 uses of Tiger Balm. Medical News Today, November 22, 2018 https://www.medicalnewstoday.com/articles/323771 [consult. 2021-08-25]