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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Enfermagem & Acupuntura

 

✜  Enfermagem é a arte ou técnica de realizar tratamentos (cure / 治愈 - zhìyù) prescritos por médicos a doenças específicas ou prestar cuidados contínuos (care / 關心 - guānxīn) aos seres humanos enfermos, feridos, deficientes e moribundos. Seus cuidados tanto podem destinar-se a indivíduos como famílias e comunidades. Há quem atribua sua origem, enquanto conhecimento científico, à Florence Nightingale (1820-1910) militante da caridade e causa social inglesa, estaticista e autora de um dos primeiros livros da enfermagem moderna ("Notes on nursing", 1869). [1] Contudo não se pode descartar a hipótese de origem dessa profissão, nos curandeiros(as), religiosos (as), nas parteiras, doulas e pré-históricos práticos encarregados da redução de fraturas. [2] [3] Profissões que ainda persistem na medicina folk (popular / tradicional e/ou são especialidades  da  medicina  e enfermagem.

Em chinês enfermagem (護理 - hùlǐ) pode ser escrita com a combinação dos ideogramas de (lǐ) razão ou ciência e (hù) proteger (também grafado ) ou ainda  护理学 (hùlǐ xué) enfermagem, "o constante aprendizado da ciência do proteger ou cuidar", numa tradução literal.. O ideograma correspondente à cura - zhìyù  (治愈) é compostos pelos signos de regra - zhì  () e  saúde -  yù () e o correspondente a cuidar - guānxīn ( 關心), que também significa preocupar é composto pelos ideogramas () guān - desligar   e () – xīn  que corresponde a  sentir ou a o coração.


Uma pesquisa realizada com enfermeiras (capacitadas em medicina ocidental) numa clínica de acupuntura em Chengdu, China [4] revelou que sua função permanecia igual como no ocidente, sendo auxiliares do médico durante o agulhamento. Os resultados, das entrevistas combinadas com observações "in loco", mostrou também  que as enfermeiras eram responsáveis por muitos dos procedimentos técnicos não invasivos, a exemplo, do uso de  ventosa. Todas as enfermeiras do estudo foram treinadas em medicina ocidental com dito e o treinamento possuíam da  Medicina Tradicional Chinesa (MTC) , incluindo acupuntura, foi adquirido através do médico especializado em acupuntura que trabalhava nessa clínica.  Naturalmente que esta não é a condição de todas as enfermeiras em hospitais e clínicas chinesas.

 Acupuntura uma prática e modelo que se difunde

Dorothy C. Sherwin, do Northeast Wisconsin Technical College [5]  considera promissor  o treinamento de profissionais de enfermagem em MTC. Nesse treinamento tais profissionais  têm a oportunidade de aprender as nuances do ambiente oriental e integrá-las em suas habilidades para cuidar do espírito, da mente e do corpo dos pacientes de maneira holística.

Segundo Souza,...no Reino Unido os acupunturistas tradicionais atuam sem possuir uma graduação, utilizam a acupuntura como terapia principal e se submetem, geralmente, às normas das associações voluntariamente constituídas. Aqueles que exercem a acupuntura com base em um treinamento específico, feito após a graduação em outras áreas das ciências biomédicas, como fisioterapia, enfermagem, medicina, utilizam essa arte como parte de sua profissão, como mais uma técnica entre as diversas possíveis e, por isso, ficam submetidos à regulação estatal de suas profissões principais... [6]

Nos Estados Unidos da América do Norte a Comissão Nacional de Credenciamento para Escolas e Faculdades de Acupuntura e Medicina Oriental (NACSCAOM - National Accreditation Commission for Schools and Colleges of Acupuncture and Oriental Medicine) já aprovou mais de 50 escolas e faculdades de acupuntura e medicina oriental. Para formação de um profissional é exigido um mínimo de 1.725 horas de treinamento, com 360 horas dedicadas a cursos biomédicos ocidentais (que podem ser dispensadas para profissionais de saúde com evidências de aprovação nesses cursos durante o estudo anterior) e 1.365 horas dedicadas à teoria, técnica e prática clínica da acupuntura. [7]

Como nem todos os estados americanos têm os mesmos requisitos para autorização da pratica da acupuntura, o grau de educação e treinamento dos profissionais médicos que realizam a acupuntura varia. Trinta e cinco estados permitem que os médicos pratiquem a acupuntura sem regulamentação, por ser considerada dentro do escopo de suas licenças de médicas ou osteopatas. No Alasca e em Iowa, podólogos e dentistas podem praticar a acupuntura em seus âmbitos de prática. Connecticut permite que enfermeiras realizem acupuntura sob as ordens de um médico sem nenhum treinamento específico. Alguns estados também permitem que os quiropráticos pratiquem a acupuntura após 100 horas de instrução. Kansas permite que assistentes médicos agulhem pacientes, se autorizados por um médico. [7]

Na França, curiosamente, onde o diplomata (não médico) George Soulié de Morant (1878 -1955) foi um dos precursores da introdução da acupuntura no ocidente, ao contrário de outros países europeus, a prática da acupuntura e, mais especificamente, da medicina chinesa é reservada apenas aos médicos. Recentemente uma enfermeira de 62 anos, foi processada por exercício ilegal da medicina, condenada a pagar uma multa de 2.000 euros e teve suspensa direitos  profissionais suspensos. Sua formação em medicina tradicional chinesa de três anos, ocorreu na própria França e Vietnã. [8]

No Brasil O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) reconhece a acupuntura como especialidade dentro da enfermagem.[9] . Considerando que a prática da acupuntura tem validade e eficácia, e não contraria a Lei do Exercício Profissional de Enfermagem (LEPE n.º 7.488/1986). O COFEN quando estabeleceu a acupuntura como especialidade, cabendo ao enfermeiro, privativamente ampliar sua capacitação profissional nos horizontes conceituais dos benefícios da técnica da acupuntura tanto para o diagnóstico de enfermagem como nas intervenções específicas (ou seja, a acupuntura não está incluída na grade de disciplinas do curso regular de enfermagem no Brasil e requer especialização).

Alguns pesquisadores ressaltam que apesar de autorizada pelo COFEN, e por relativa presença de sua utilização como prática holística e/ou complementar integrativa, no Brasil há restrições a prática da acupuntura na enfermagem em algumas instituições [10] [11] [12]

Contudo pode-se afirmar que há consenso de expertises em diagnósticos de enfermagem e intervenções em acupuntura quanto a aplicação da técnica nos cuidados e diagnósticos de enfermagem. [13] [14] [5] Observando-se porém a demanda de desenvolvimento de mais estudos teóricos e práticos para sua fundamentação e aplicação a problemas específicos, tipo dor crônica, artrose, infertilidade, transtornos da gravidez, obesidade etc.  (o que não é uma recomendação à pratica da acupuntura na enfermagem e sim a alguns supostos efeitos de eficácia da acupuntura em si independente de quem o pratique) [13] [16] [17] [18] [19]

Observe-se que o esforço de pesquisas para comprovação científica e eficácia terapêutica da acupuntura e outros aspectos da medicina chinesa ocorre em paralelo à disputa pelo estabelecimento do monopólio de sua prática. Segundo Nascimento [20] a controvérsia entre médicos e não-médicos parece ser expressão tanto da disputa no campo do saber e mais precisamente da autoridade cultural, que na cultura ocidental tende a ser identificada à ciência, como no campo do mercado, ambos concorrendo para a consolidação do processo de profissionalização da acupuntura no Brasil.

 Referências

1 - Encyclopædia Britannica. Nursing, medical profession, BUHLER-WILKERSON, Karen (https://www.britannica.com/science/nursing) ;  SELANDERS, Louise. Florence Nightingale, British nurse, statistician, and social reformer (https://www.britannica.com/biography/Florence-Nightingale) Acesso em agosto de 2020 / Bbarcelona: La Sal, 1981

2 – EHRENREICH, Barbara; ENGLISH,Deidre. Brujas, parteras e enfermeras, una historia de sanadoras. NY: Glass Mountain Pamphlet, Feminist Press, 1973

 3 - Shady Grove Orthopaedics. Hystory of orthopaedics. Washington, DC: https://shadygroveortho.com/history-of-orthopaedics/ Aces. Agosto de 2020


4 - RISLUND, S. (2016).Nurses’ Conception of their Role in Acupuncture Therapy in a Clinic in Chengdu, China : An empirical study investigating the nurses’ role in a Chinese setting (Dissertation). Retrieved from http://urn.kb.se/resolve?urn=urn:nbn:se:kau:diva-42644 PFF Aces. Agosto de 2020

5 - SHERWIN, D. C. (1992). Traditional Chinese Medicine in Rehabilitation Nursing Practice. Rehabilitation Nursing, 17(5), 253–255. doi:10.1002/j.2048-7940.1992.tb01560.x url to share this paper: sci-hub.tw/10.1002/j.2048-7940.1992.tb01560.x Aces. Agosto de 2020

6 - SOUZA, Rodolfo Costa A regulamentação da acupuntura no direito comparado. Câmara dos Deputados / Consultoria Legislativa, Julho de 2009 https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/estudos-e-notas-tecnicas/publicacoes-da-consultoria-legislativa/areas-da-conle/tema19/2009_4931.pdf Aces. Agosto de 2020

7 - ELITE. Acupuncture Essential for Nurse Practitioners https://www.elitecme.com/resource-center/nursing/acupuncture-essential-for-nurse-practitioners/ Aces. Agosto de 2020

8 - ActuSoins, 6 mai 2015. Acupuncture : une infirmière condamnée pour exercice illégal de la médecine https://www.actusoins.com/262991/acupuncture-une-infirmiere-condamnee-pour-exercice-illegal-de-la-medecine.html

7 - COFEN – Conselho Federal de Enfermagem RESOLUÇÃO COFEN N°585 de 08/08/2018 https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-585-2018_64784.html Acesso 23/08/2020

9 - KUREBAYASHI, Leonice Fumiko Sato; OGUISSO, Taka; FREITAS, Genival Fernandes de. Acupuntura na enfermagem brasileira: dimensão ético-legal. Acta paul. enferm. , São Paulo, v. 22, n. 2, pág. 210-212, 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-21002009000200015&lng=en&nrm=iso>. acesso em 21 de agosto de 2020. https://doi.org/10.1590/S0103-21002009000200015

10 - KUREBAYASHI, Leonice Fumiko Sato; FREITAS, Genival Fernandes de; OGUISSO, Taka. “Acupuntura na saúde pública: uma realidade histórica e atual para enfermeiros”. Cultura de los cuidados. Año XIII, n. 26 (2. semestre 2009). https://rua.ua.es/dspace/bitstream/10045/13510/1/CC_26_05.pdf  ISSN 1138-1728, pp. 27-33

11 - DA SILVEIRA, Rodrigo Euripedes et al. La acupuntura como herramienta de trabajo para las enfermeras: revisión de la literatura. Cultura de los cuidados, [S.l.], n. 35, p. 96-105, mayo 2013. ISSN 1699-6003. Disponible en: <https://culturacuidados.ua.es/article/view/2013-n35-acupuntura-como-instrumento-de-trabalho-do-enfermeiro-revisao-integrativa-da-literatura>. Fecha de acceso: 23 ago. 2020 doi:https://doi.org/10.7184/cuid.2013.35.09.

12 -PEREIRA, Raphael Dias de Mello; ALVIM, Neide Aparecida Titonelli. Acupuntura para intervenção de diagnósticos de enfermagem: avaliação de experts e especialistas de enfermagem. Esc. Anna Nery, Rio de Janeiro , v. 20, n. 4, e20160084, 2016 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452016000400203&lng=en&nrm=iso>. access on 21 Aug. 2020. Epub Aug 25, 2016. http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160084

13 - GRIFFITHS V, TAYLOR B. Informing nurses of the lived experience of acupuncture treatment: a phenomenological account. Complement Ther Clin Pract. 2005;11(2):111-120. doi:10.1016/j.ctnm.2004.09.003

14 - PEREIRA, Raphael Dias de Mello; TITONELLI ALVIM, Neide Aparecida. Acupuncture in care: an integrative review of scientific production of brazilian nurses. Journal of Nursing UFPE on line, [S.l.], v. 7, n. 7, p. 4849-4858, may 2013. ISSN 1981-8963. Available at: <https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem/article/view/11743>. Date accessed: 23 aug. 2020. doi:https://doi.org/10.5205/1981-8963-v7i7a11743p4849-4858-2013.

15 - Hao Y, Jiang J, Gu X. Traditional Chinese medicine and nursing care. Int J Nurs Sci. 2017;4(3):328-329. Published 2017 Jun 17. doi:10.1016/j.ijnss.2017.06.005

16 - FRANCO SÁNCHEZ, Jesús; CAMACHO ALCÁNTARA, José Antonio; BEGINES ALONSO, Rocío. Manejo del dolor crónico con acupuntura por la enfermera en atenció n primaria en pacientes diagnosticados de gonartrosis. Biblioteca Lascasas, 2017; V13. Disponible en <http://www.index-f.com/lascasas/documentos/e11307.php>

17 - OLIVEIRA, Cristiane Araújo de Acupuntura e enfermagem: inovar o atendimento humanizado e integral ao paciente. Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. Publicações on -line Nov. 2017 https://enfermagem.sbrh.org.br/wp-content/uploads/2017/11/Acupuntura.pdf Acesso em Agosto de 2020

18 - SEBOLD, Luciara Fabiane; RADUNZ, Vera; ROCHA, Patrícia Kuerten. Acupuntura e enfermagem no cuidado à pessoa obesa. Cogitare Enfermagem, [S.l.], v. 11, n. 3, dec. 2006. ISSN 2176-9133. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/7329>. Acesso em: 23 aug. 2020. doi:http://dx.doi.org/10.5380/ce.v11i3.7329.

19 - MARTINS, Eveliny Silva et al . Nursing and advanced acupuncture for relief of low back pain during pregnancy. Acta paul. enferm., São Paulo , v. 32, n. 5, p. 477-484, Oct. 2019 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-21002019000500003&lng=en&nrm=iso>. access on 23 Aug. 2020. Epub Oct 10, 2019. https://doi.org/10.1590/1982-0194201900067.

20 - NASCIMENTO, Marilene Cabral do. De panacéia mística a especialidade médica: a acupuntura na visão da imprensa escrita. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  Rio de Janeiro ,  v. 5, n. 1, p. 99-113,  June  1998 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59701998000100005&lng=en&nrm=iso>. access on  24  Aug.  2020.  https://doi.org/10.1590/S0104-59701998000100005.


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VER TAMBÉM

National Accreditation Commission for Schools and Colleges of Acupuncture and Oriental Medicine NACSCAOM https://www.nccaom.org/

 WHO- World Health Organization. Health topics/Traditional medicine https://www.who.int/westernpacific/health-topics/traditional-complementary-and-integrative-medicine

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NOTA

apesar da Wikipédia em anos recentes vir conduzindo um beligerante debate contra o que considera pseudociência no âmbito das ciências saúde, o que praticamente abrange as PICS - Práticas Integrativas e Complementares, como são denominadas no Brasil, ainda se constitui como uma possibilidade de diálogo, conhecimento e discussão sobre tais práticas, antes conhecidas como Medicina Alternativa. 

Participe desta série de verbetes dos quais sou também editor de sua construção e discussão:

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

Psicologia, acupuntura e yoga


Texto equivalente à apresentação sobre a possibilidade de integração de práticas complementares à psicoterapia intitulada  "Psicologia, acupuntura e yoga, uma abordagem dos sistemas etnomédicos orientais e sua perspectiva de integração com a prática da psicoterapia" na Faculdade Metropolitana de Camaçari - FAMEC em 2018



A especificidade da medicina tradicional chinesa - MTC não torna essa prática essencialmente distinta de outros sistemas etnomédicos. Caracteriza-se na, tipologia de Arthur Kleinman (1941) para comparação de sistemas médicos como sistemas culturais, como um setor profissional que envolve uma formação sistemática dos seus representantes ou atores, distinguindo-se do setor folk (os curandeiros não profissionais) e do setor popular (de senso comum e conhecimento difundido na comunidade). [1]

A MTC distingue-se também, como foi tese do conhecido sinólogo de Cambrigde - Joseph Needham (1900-1995), por sua notável semelhança com a medicina hipocrática - a quem se atribui a origem da moderna medicina ocidental cosmopolita. O estudo etno-histórico destes distintos caminhos de desenvolvimento racional e tecnológico aos poucos vem sendo compreendido especialmente com a perspectiva de integração destes. [2]

A acupuntura médica e MTC

Enquanto campo de prática de saúde em diversas regiões do mundo inclusive na China e Brasil tanto sobrevivem os especialistas em medicina chinesa formados no processo convencional, que é a relação mestre discípulo associada ao estudo dos textos clássicos, como impõe-se uma tendência de associação da acupuntura às diversas especializações médicas e paramédicas com desempenho multiprofissional. Sendo que, no Brasil, há restrições quanto a prática de alguns segmentos profissionais, o que vem sendo feito de diversas formas pela classe médica (proibição jurídica, exclusão em cursos e congressos, difamação, etc.). A classe médica reivindica para si os direitos ao seu exercício enquanto especialidade profissional. Por sinal este reconhecimento no Brasil ocorreu décadas depois do reconhecimento por conselhos de fisioterapia e outras profissões. 

Acupuntura científica: biomedicina ou antropologia

Por outro lado, como já disse em outra publicação, tende-se a interpretar a acupuntura científica como acupuntura biomédica, como se as explicações desenvolvidas pelas ciências sociais não fossem uma explicação científica, ou que o entendimento dessa arte – técnica não requer a compreensão de seu contexto cultural, sua dimensão psicossocial e/ou espiritual. Ignorando-se também que o conhecimento oriental, “científico” ou não, por si só, foi suficiente, durante muito tempo, para permitir seu pleno domínio e utilização. [3]

Tornou-se um desafio para o praticante ocidental conciliar o amplo espectro de disciplinas requerido para entendimento (antropologia médica ou da saúde, etnologia, linguística, neurociência, etc.) desse novo campo do saber que se inaugurou com o nome de “acupuntura” (acupuntura multiprofissional) e mais especificamente a “acupuntura baseada em evidências” no ocidente. [4]

Apesar das dezenas de estudos clínicos comparados a outras formas de intervenção terapêutica e comparações de tais resultados em estudos de revisões sistemáticas e meta – análise, ainda não se descartou a rotulação de pseudociência por alguns segmentos retrógrados da comunidade científica que não compreendem as limitações dos estudos de caso-controle, duplo cego e comparação com placebo e/ou desconhecem a metodologia clínico - qualitativa.

Estudos da evidência do efeito da acupuntura visando identificar o volume de pesquisa sobre sua eficácia em revisões publicadas, identificou 183 revisões sistemáticas publicadas entre 2005 e 2014. A maioria da literatura secundária e pesquisa primária disponível referiam-se a clinica da dor, incluindo também artigos sobre a acupuntura e promoção do bem-estar, distúrbios mentais e efeitos adversos. Constatou-se que a literatura publicada disponível sobre acupuntura é extensa. Pesquisas no PubMed em 2013 identificaram quase 20.000 citações com o termo "acupuntura" e quase 1.500 ensaios clínicos randomizados (ECR) com "acupuntura" no título e, até mesmo uma série de “revisões de revisões” estão disponíveis na literatura publicada sobre acupuntura em geral ou para uma condição clínica específica. Contudo os resultados de revisões existentes sobre a eficácia da acupuntura não são conclusivos quanto a sua eficácia ou não eficácia, por exemplo: uma revisão sistemática de revisões sistemáticas da acupuntura publicada entre 1996 e 2005 incluiu 35 revisões, observando-se que apenas 18 avaliações reafirmam a eficácia da acupuntura (sendo que somente 6 com excelente qualidade de pesquisa). De um modo geral a base de evidências é heterogênea e os estudos de maior qualidade estão apenas começando a emergir, desde 2002. [8]

Um outro elemento ou critério de entendimento da dificuldade de interpretação dos efeitos ou eficácia terapêutica da acupuntura pela comunidade científica ocidental é o fato de que as interpretações dos achados (evidências) clínicos do efeito da acupuntura fundamentam-se num conjunto de teorias e princípios que ainda não possuem uma unidade ou coerência, acontecendo o mesmo com os parâmetros de uso de medicamentos da fitoterapia chinesa.

Entre os fundamentos teóricos advogados como referência incluem-se a teoria das comportas (Melzack, Wall, 1965), a teoria reflexos condicionados para inibição da dor, irritação (contra irritação) e diversas versões da reflexologia em regiões pontos específicos do corpo humano e animal. Incluem-se também teorias articulando psicologia do efeito placebo e das relações estímulo – resposta; as noções de terapêutica e clínica médica fundamentadas na neurofisiologia e bioquímica celular dos efeitos da inserção de agulhas, o efeito “farpa” associado à produção de endorfinas. [5] [6] [7]

Observe-se que para um ocidental necessariamente, a antropologia médica ou da saúde (a ciência, por excelência, da interpretação de outras culturas) não pode ser ignorada. Há de se vencer, portanto, a barreira das culturas (etno-histórica) e a multiplicidade de idiomas. O idioma (língua) segundo Matoso Camara Jr. apresenta-se como um microcosmo da cultura. Tudo que a cultura possui se expressa através da língua; e esta é em si mesma um produto cultural. Sem resolver tal paradoxo não há de se ter uma perfeita compreensão da cultura chinesa e de suas tradições.

O estudo da história da acupuntura na China revela seu rompimento com algumas tradições "mágicas", havia referências sobre sua proibição no final do período imperial Dinastia Qing (1822) quando foi excluída do Instituto Médico Imperial por decreto do Imperador. Apesar da proibição foi mantida como interesse acadêmico, costume e tradição, sobretudo nas áreas rurais ao ponto de ser novamente proibida (1929) durante a república, juntamente com outras formas de medicina tradicional por uma crescente ocidentalização ou adoção da medicina cosmopolita, sendo apenas restaurada e incentivada como prática na primeira metade do século XX durante a revolução cultural chinesa. [9]

De qualquer forma é incontestável, no âmbito da antropologia, a evidente incorporação do conhecimento empírico proveniente de cuidadosas observações ao logo de milênios de prática, que se consolidaram no que vem sendo chamado de paradigma do Yin - Yang e dos Cinco Elementos, descrito em livros clássicos, para os orientais, a exemplo do livro do Imperador Amarelo (consolidado durante a dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), "documentos etnológicos brutos" para o ocidental que utiliza as ferramentas conceituais da antropologia estrutural na proposição de Levi Strauss (1908 - 2009) [10]

A história da antropologia da medicina se confunde com a própria história da antropologia. Tal como ocorreu nesta disciplina já houve uma predominância de perspectivas etnocêntricas e evolucionistas que devem ser evitadas. W. H. Rivers (1864-1922), um dos mais antigos pesquisadores da área e também médico, assinala por exemplo que algumas medicinas ditas primitivas são no plano teórico mais coerentemente organizadas que a medicina científica ocidental sobretudo no plano humano e espiritual ou natural e sobrenatural. [11]

Acupuntura & Psicoterapia

Com a utilização da antropologia é possível identificar na prática da acupuntura um modelo contextualizado no conjunto multi-étnico da Ásia ou das Medicinas Antigas, como inclusive já vem sendo feito. Por exemplo a partir da constatação da utilização do conceito de racionalidades médicas empregado por Madel Luz  analisando inicialmente a homeopatia e posteriormente a própria medicina chinesa  identificando nestes similaridades conceituais na resposta  destes grupo sociais às patologia que lhes afligem, alterações da energia vital e ambiente (miasmas) que denominou como paradigma vitalista.

Segundo esta autora uma racionalidade médica ou sistema lógico e  teoricamente estruturado, tem como condição necessária e  suficiente para ser considerado como tal, a presença dos  seguintes elementos: 1. Uma morfologia (concepção anatômica); 2.  Uma dinâmica vital  ( "fisiologia" );  3. Um sistema de  diagnósticos; 4. Um sistema de intervenções terapêuticas; 5. Uma  doutrina médica (cosmologia).

Não há dúvidas que a medicina tradicional chinesa preenche esses requisitos. Uma doutrina médica (cosmologia) descrita e re-escrita no Livro do Imperador Amarelo, uma concepção da mente na China, o Shen (神 , shén) indica a atividade de pensamento, consciência, auto - percepção, vida emocional, memória e vontade, todos os quais, na concepção chinesa, dependem do coração, assim como na medicina grega pré-hipocrática. Nas medicinas antigas são surpreendentemente notáveis a concepção de mente espírito, a exemplo dos escritos de  Patanjali (publicados aproximadamente entre 200 a.C. a 400 d.C.) na Índia e/ou as descrições da lógica por Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) a quem se atribui 
a criação da lógica como disciplina, no século IV a.C. [12] [14]

Para Laplatine, o autor de “Antropologia da doença” (1991) a ciência estuda a percepção e elabora e analisa modelos etiológicos e terapêuticos, a acupuntura possui um modelo etiológico do tipo  Exógeno/Endógeno  comparável à Endocrinologia, Neuropsiquiatria e um modelo  terapêutico distinto da alopatia e homeopatia classificado num grupo tipo Sedativo/ Excitativo comparável à medicina experimental e à moderna fisiologia médica a exemplo das proposições terapêuticas da imunologia, "Treinamento Autógeno" de J. H. Schultz (1884 -1970) e Bioenergética de W. Reich (1897 - 1957) [13]


Uma outra contribuição relevante para a psicologia que ainda necessita ser melhor compreendida é a concepção de emoção. Os sentimentos ou emoções: Raiva (agressividade / 怒 nù) ; Alegria (喜 xǐ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si / xiǎng); Tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Medo (恐 kǒng) / Apreensão/ ansiedade (忧 yōu), são considerados correspondentes ao fluxo da energia vital – Chi nos meridianos e órgãos tanto durante o ciclo sazonal correspondente às estações do ano, como aos ciclos circadianos (24 horas) e pequenos ciclos infradianos (12/24) denominados, por eles, a pequena e a grande circulação de energia.

Em psicologia o estudo das emoções vêm sendo realizado desde sua origem como ciência e ainda não chegou a um consenso. Entre as primeiras proposições destacam-se as contribuições de William James (1842-1910) e Walter Bradford Cannon (1871-1945); a teoria dos dois fatores de Stanley Schachter (1997) e Jerome E. Singer (1934–2010)  decerto contribuindo para as matrizes dos estudos que contribuíram para atual concepção de sistema límbico, e cérebro emocional. Somando-se também a teoria psicanalítica, onde se utiliza o termo afeto (teoria dos afetos) com grandes contribuições a uma possível aproximação ao entendimento das doenças psicossomáticas na ótica oriental com suas contribuições a dinâmica da energia sexual, ansiedade e tristeza (melancolia).

Além de diversas teorias e técnicas de meditação (influenciada ou unificadas entre a China Índia e Tibet pelo Budismo) encontramos na MTC estudos correspondentes à moderna Sexologia (Medicina/ Terapia Sexual) O conhecimento sobre a reprodução e sexualidade humana também se insere numa esfera que envolve a mitologia e/ou ciência oriental conhecidas no ocidente como tantra yoga ou taoísmo do sexo abrangendo desde norma de conduta a técnicas equivalentes as utilizada na psicoterapia das disfunções orgásmicas. [15]

A unidade da Ásia

Creio não haver dúvidas quanto as vantagens da abordagem da medicina tradicional chinesa (MTC) no conjunto asiático (grego asiático) – Medicinas Antigas bem como os sistemas médicos tradicionais do Japão, da Coréia, da Índia e Tibete que formam a nossa concepção ocidental de "Medicina Oriental". Observe-se também, como assinala Corral, a Medicina Tradicional Oriental não é somente uma medicina e sim uma tradição minuciosamente transmitida através de conceitos universais do lugar existencial do homem. Suas remotas origens de mais de 5.000 anos, antecedem a concepção de “China” (中国) e podem ser consideradas pertencentes a todo oriente. [16]

Algumas diferenças básicas, entretanto podem ser assinaladas quanto ao seu desenvolvimento e características atuais. Da medicina grega (hipocrática), comparável a MTC por Needham, como visto, pouco restou de suas noções de água, fogo, terra e ar, além de sua aplicação a biotipologia humana e algumas concepções do processo saúde doença mental tais como as concepções de “melancolia” “histeria” e “paranóia” e outras noções sobre febre e energia vital conservadas pela então denominada naturopatia.  Por outro lado entre a medicina chinesa e indiana ainda conservam notáveis característica que evidenciam a dispersão e sua origem comum ou frequente contatos inter-étnicos como assinalam os antropólogos.

Uma característica importante quanto a sua incorporação/integração à cultura ocidental pode ser deduzida da forma com tais práticas chegaram ao ocidente no século XX. A acupuntura via saúde publica, com recomendações da Organização Mundial de Saúde  após a revolução cultural chinesa que a integrou à atenção primária no modelo de agentes comunitários de saúde – os conhecidos “médicos de pés descalços” atualmente conhecidos médicos rurais (village doctors) e o Yoga chegou até nós via escolas de hatha-yoga e centros de meditação inseridos na cultura espiritualista e da educação física. Ainda hoje ainda não há uma integração plena dos diversos aspectos dessas contribuições indianas. A shantala, as diversas modalidades de  yoga (tantra, raja, kria, ashtanga, hatha, etc.) são pouco conhecidas quanto a integração ao sistema que pode ser denominado com a medicina Iajurveda de origem.  [17]

A prática do yoga ou yôga no ocidente, principalmente, depende de instrutores formados em cursos de formação de Instrutores com certificado e regulamentação profissional em órgãos específicos a exemplo Federação Portuguesa de Yoga, (F.P.Y.) que constituiu-se como pessoa colectiva de direito privado sob a forma de associação destinada a promover, desenvolver, regulamentar, formar, dirigir e divulgar a prática do Yoga, em suas diversas modalidades e filosofias bem como promover e regulamentar a formação de professores de Yoga

Apesar das diversas publicações e proposições de yoga como terapia o  instrutor de yoga regulamentado no Brasil segundo De Rose 1992 desde  a década de 60 como professor de educação física especializado secretaria de Educação do Estado da Guanabara.

O yoga é uma filosofia prática de vida que objetiva transformações ou modificações da consciência, ou samádhi. Implica no estudo e treinamento de aproximadamente 108 grupos de ásana, cujo aprendizado implica em 225 horas-aula, com acompanhamento de instrutores formados e revalidados, 300 horas mínimas de práticas completas de Yôga, (sádhana) e 2000 horas mínimas de estágio monitorado em escolas reconhecidas.

Atualmente é consensual a noção de que o yoga não é nenhum tipo de ginástica nem modalidade alguma de Educação Física, compreende técnicas corporais, bioenergéticas, emocionais, mentais, com algumas que não podem sequer ser ensinados por livros, e são considerados secretos apreendidos em ritos de iniciação associados ao domínio da meditação, e prática corporal, enfim é uma forma de terapia que faz parte da medicina Ayurveda. [18] [19] [20]

No Brasil a acupuntura está regulamentada pela portaria nº 971 que aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde em 3 de maio de 2006, admitida no SUS como prática multiprofissional.  A medicina ayurvédica, a  shantala e yoga foram somente foram anexados às práticas do SUS, através portaria  849/2017 que anexou 14 novos procedimentos à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) do SUS .

A integração das práticas da acupuntura associadas ao sistema indiano de chakras e meditação, como vem sendo proposto no ocidente, apesar de diversos livros e artigos publicados, ainda pode ser considerado experimental. Existem proposições tanto de integrar a pratica da acupuntura a meditação (inclusive há diversas escolas de meditação taoista, budista e exercícios chineses) como de realizar agulhamento, estimulação física na região dos chakras interpretando estes como plexos nervosos e sistemas integrados de regulação hormonal e comportamento. [22] [23]

Contudo, como dito, ainda não existe uma aprovação consensual ou reconhecimento de grande parte da comunidade científica. Aguarda-se talvez um acúmulo maior de explicações imperfeitas e teorias falhas, o que na ótica de Thomas Kuhn, (1962) é o limite de mudança de paradigmas. As anomalias - quer dizer, a incapacidade de dar conta dos fenômenos observados, induzirão ao surgimento de novas teorias que podem vir a lograr êxito, unificar-se e solidificar-se como pratica dos integrantes da comunidade cientifica de que fazem parte, o que findará por substituir o anterior. Sendo assim uma mudança de paradigma no processo de constitui as revoluções científicas. [24]

Algumas referências

1. KLEINMAN, Arthur Concepts and a Model for the comparison of Medical Systems as Cultural Systems. IN: CURRER,C e STACEY,M / Concepts of Health, Illness and Disease. A Comparative Perspective, Leomaington 1986

2. NEEDHAM, Joseph; Gwei-Djen, Lu. Celestial lancets a history and rationale of acupuncture and moxa. USA, Cambridge University Press, 1980

3. COSTA, Paulo Pedro P. R. Acupuntura científica uma reflexão. Acupuntura Ciência & Profissão. abril de 2012
http://etnomedicina.blogspot.com.br/2012/04/tende-se-interpretar-acupuntura.html

4. ROSSETTO, Suzete Coló. Acupuntura Multidisciplinar. SP, Editora Phorte, 2012

5. MELZAC, Ronald. A percepção da dor. Scientific American, Fev.,1961 in MAcGaug. J.L.; Weinberger, N.M.; Whalen (org) Psicobiologia, as bases biológicas do comportamento, Textos do Scientific American. trad Aratangy, L. SP Polígno, 1970

6. DUMITRESCU, Ioan Florin. Acupuntura científica moderna. SP, Andrei, 1996

7. PETTI, F; BANGRAZI, A; LIGUORI, A; REALE, G; IPPOLITI, F. Effects of acupuncture on immune response related to opioid-like peptides. Journal of traditional Chinese medicine V18. N 1, March, 1998, (Abstract, http://europepmc.org/abstract/MED/10437265 Acesso maio de 2018)

8. HEMPEL S, TAYLOR SL, SOLLOWAY MR, et al. Evidence Map of Acupuncture [Internet]. Washington (DC): Department of Veterans Affairs (US); 2014 Jan. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK185072/

9. WHITE, A.; Ernst, E. A brief history of acupuncture. Rheumatology 2004;43:662–663 doi:10.1093/rheumatology/keg005

10. LÉVI-STRAUSSLevi-Strauss, Claude. Pensamento Selvagem SP, Cia Ed Nacional, 1976

11. QUEIROZ, Marcos de Souza; CANESQUI, Ana Maria. Antropologia da medicina: uma revisão teórica. Rev. Saúde Pública,  São Paulo ,  v. 20, n. 2, p. 152-164,  Apr.  1986 .   Available from . access on  14  May  2018. 

12. MACIOCIA, G. Shen and hun: psyche, in, chinese medicine. http://maciociaonline.blogspot.com.br/2012/11/shen-and-hun-psyche-in-chinese-medicine.html Aces. Maio de 2018

13. LAPLATINE, François. Antropologia da Doença. SP, Martins Fontes, 1991

14. ELIADE, Mircéia. Patanjali e o yoga. Lisboa: Relógio d’água, 2000

15. COSTA, Paulo Pedro P. R. Kama Sutra & Tantra Yoga uma análise a partir da sexologia, psicanálise. https://pt.scribd.com/doc/24375517/KAMA-SUTRA

16. CORRAL, José Luis Padilla. Fundamentos da medicina tradicional oriental: Curso de acupuntura. SP, Roca, 2006

17. Hu D, Zhu W, Fu Y, et al. Development of village doctors in China: financial compensation and health system support. International Journal for Equity in Health. 2017;16:9. doi:10.1186/s12939-016-0505-7.

18. DE ROSE Yoga - Mitos E Verdades. SP, Nobel, 1992 Disponível no Google Livros Maio, 2011

 19. HERMÓGENES, José. Yoga para nervosos. RJ: Record, 1969.

 20. ELIADE, Mircea. Yoga, imortalidade e liberdade. SP: Palas Athena, 1996

21. FRAWLEY, D. Ayurveda and the mind. Twin Lakes, Wis.,Lotus Press, 1996 apud: FEUERSTEIN, Georg. A tradição do yoga, história, literatura, filosofia e prática. SP, Pensamento - Cultrix, 2006

22. STUX, Gabriel M.D. Acupuntura de chakra (Tradução: COSTA Paulo Pedro P. R.) Acupuntura Ciência & Profissão. 20 de junho de 2013 http://etnomedicina.blogspot.com.br/2013/06/acupuntura-de-chakra.html

23. CROSS John R. Acupuntura e o sistema de energia dos chakras SP: Manole, 2017

24. KUHN, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Acupuntura & Pediatria





ideogramas: criança, adolescente, médico e pediatra

Este estudo constitui uma rápida revisão de dois manuais ou livros textos e alguns poucos artigos disponíveis sobre a, relativamente rara, descrição da relação da acupuntura com a pediatria. Os livros de Pham Quang Chou médico acupunturista do Hospital Saint Roch em Nice, França (“Acupuntura e pediatria”, 1988/89) e Julian Scott, acupunturista inglês da cidade de Bath (“Acupuntura no tratamento da criança”, 1986/97) o primeiro com maior descrição da semiologia e técnicas e o segundo voltado para patologias e observações práticas de seu tratamento.

A intenção é a continuidade da pesquisa da descrição da natureza deste conhecimento médico tradicional, etnomédico ou mítico, numa concepção antropológica. Avaliar o espectro de técnicas e patologias típicas da infância descritas na medicina tradicional chinesa e tratadas sobretudo com a acupuntura.

origem oriental

As referências ao uso da medicina tradicional chinesa e acupuntura para doenças e tratamento de crianças e adolescentes se antecipam na forma de publicação, mas em sua maioria, coincidem com as primeiras referências do desenvolvimento da pediatria no ocidente como veremos.

Ao se pesquisar  a origem deste conhecimento na antiguidade oriental são comuns as referências ao Papiro de Ebers, escrito aproximadamente 1552 aC.,  descoberto 1872, que discutiu, entre outros tópicos, amamentação, e tratamento para verminoses e doenças de olho.

Na medicina árabe resultante tanto do contato como os gregos como as demais tradições asiáticas, identifica-se que Avicenna, (980-1037), discorreu sobre o tétano, verminoses, convulsões, meningites, e abscesso umbilical.


Pouco é citado entretanto das contribuições da medicina tradicional chinesa. O termo  pediatria, segundo Chou,  possui uma equivalência ao chinês que utiliza os ideogramas Chao  ( shǎo) e Siao ( xiao,  pequeno) modernamente  小儿科 xiao er ke (xiǎo ér kē - pequena criança; estudo (ramo do conhecimento).

Ainda segundo Chou, o mais antigo tratado de pediatria é o Lou-sin Kink  (La Fontanelle) no final da dinastia Tang  唐朝 (618-907), enquanto que podemos tomar com referência do primeiro tratado de pediatria o livro do médico italiano  Paolo Bagellardo publicado em 1472. Contudo como veremos houve um progressivo acumulo de descobertas e técnicas tanto na Ásia como na Europa e há algumas evidências de um mutua influência entre tais sistemas e cosmologias sobretudo nos sistemas etnomédicos sino-indiano e grego como propõe Joseph Needham (1900-1995) comparando antigos documentos.

Entre as publicações chinesas sobre pediatria podem ainda ser citados o Tsien-Che Siao-Eul redigido por Tsien Yi (1023-1104) revisto e publicado novamente em 1119. Este livro introduziu técnicas de diagnóstico pelo exame do rosto, olhos, tomada de temperatura frontal, e exame dos tegumentos do dedo indicador após compressão, além da tomada de pulso (esfigmologia) relativamente desprezada por ele.

Segundo Chou por volta de 1241 os “pediatras” já distinguiam a varíola a varicela e a escarlatina e a higiene e dietética eram normas de tratamento. Scott refere-se a um antigo aforismo sobre o baço-pâncreas, principal órgão meridiano da digestão, que diz: “o baço da criança é frequentemente insuficiente” ou “o tratamento das crianças é simples – todas sofrem de indigestão”.

Em 1758 Wang Che Long publica Houai-chao-tsi incluindo cuidados com o cordão umbilical e parasitologia com perfeita identificação da ascaridíase.

Para Scott a pediatria constitui a matéria especializada da MTC desde a dinastia Song  宋朝 (960-1279)

Uma das referências clássicas mais conhecidas e divulgadas do conhecimento tradicional chinês sobre o desenvolvimento é a conhecida passagem do livro do imperador amarelo, que descreve as fases da vida tomando como parâmetro a proporção e distribuição de pelos e a maturação sexual, em períodos bem próximos aos estabelecidos por nossos endocrinologistas. (Wang Bing)

Entre os gregos antigos a preocupação de distinção entre o adulto e a criança também estava presente e seguiu a mesma lógica dos chineses, como se pode deduzir destes aforismos hipocráticos sobre a febre, notavelmente semelhantes à antigos aforismos chineses que descrevem a facilidade com que as crianças contraem doenças de calor e estão sujeitas a convulsões, por serem acentuadamente Yang em  relação aos adultos, a saber:

“O yin das crianças frequentemente é insuficiente” ou “os órgãos são frágeis e suaves, o Chi facilmente sai do seu caminho” ou que torna as crianças mais vulneráveis, tornando-se superaquecidas em climas quentes ou hipotérmicas no frio (MTC apud Scott p.4)


“O corpo em crescimento tem um calor inato; requer portanto mais alimento para não enfraquecer. No velho calor é menos intenso, portanto requer menos combustível tal qual uma chama que seria extinta com muito. Do mesmo modo a febre em pessoas velhas não é tão grave quanto nas jovens exatamente porque seus corpos são mais frios”. (Hipócrates 1/14)

ciência grega

Na medicina grega antiga destacam-se as contribuições dos escritos de Hipócrates (c. 400 aC.), a quem se atribui a descrição identificação da escarlatina, sarampo, caxumba, escrofulose (tuberculosa em gânglios linfáticos?), varíola, diarreias, asma, escorbuto, raquitismo patologias neurológicas como a epilepsia e coréias (doença ou dança de St. Vitus ?) e algumas malformações congênitas como cefalohematomas encobertos hidrocefalia e pé torto congênito.

É lugar comum afirmar que o maior mérito da medicina hipocrática foi a busca de causas naturais no lugar das “místicas”, e não necessariamente a resolução de tais patologias, muitas das quais ainda sem resolução eficaz e afligem as populações de nossos dias. A medicina hipocrática continuada por seus sucessores, como é sabido, deu origem a moderna medicina ocidental incluindo portanto a pediatria. A palavra pediatria vem do grego da criança (paidos, παιδός) curador (iatros, ἰατρός), "doutor", "aquele que cura".

Há contribuições dos médicos romanos como Soranus de Efesus (100 DC) com grandes contribuições à obstetrícia e Galeno (200 DC) que identificou o risco e a elevada prevalência das desordens intestinais e pneumonia na infância e o raquitismo.

Contudo considera-se, como referido, que o primeiro livro médico sobre pediatria foi “Libellus [Opusculum] de aegritudinibus et remediis infantium” ("Pequeno livro do tratamento das doenças da criança")  publicado na Itália em  1472 pelo médico Paolo Bagellardo. (Desai, 1989) e/ou alguns outros tratados médicos publicados na Alemanha neste mesmo período.

Apesar da existência de livros e tratados médicos europeus com referências às doenças típicas da infância, para Rivorêdo, fundamentado no conhecido historiador de costumes Philippe Ariès (1914 – 1984), a pediatria moderna se funde ao movimento higiênico, mais especificamente à puericultura, e constituiu-se a partir de um movimento social no ocidente europeu que se difundiu por outras sociedades, como parte da construção da medicina moderna. O que por sua vez  acompanhou o processo de expansão do capitalismo e modificações culturais que tipificaram a nossa concepção moderna de infância.

Não há dúvidas que as grandes epidemias de doenças infecto-contagiosas e as grandes crises de mortalidade de populações dessa época foram a demanda da higiene, da emergente medicina preventiva e atenção à mortalidade infantil. Rosen nos mostra que esta relação entre o controle das doenças transmissíveis e o salvamento da vida infantil, já estavam presentes nas recomendações de William Petty (1623 -1687) na sua “Aritimética Política”.

Ainda segundo Rivorêdo o cuidado médico se articula às demais práticas sociais fornecendo legitimação científica para o cuidado com a saúde das crianças, privilegiando o controle das populações para o desenvolvimento da sociedade, particularmente as camadas mais pobres.

Não pretendemos discutir as questões relativas à ordem médica e norma familiar, apesar da relevância dessa questão para o entendimento e controle de algumas patologias “construídas”. “Patologias que se caracterizam pela dificuldade das crianças se adaptarem a tais padrões de comportamento idealizados, a exemplo da hiperatividade por déficit de atenção, distúrbios de aprendizagem e algumas formas do retardo mental e deficiência intelectual.

Nos dois manuais de Acupuntura e Pediatria consultados para confecção deste artigo Medicina Tradicional Chinesa (MTC) há diversas observações para o tratamento de convulsões (hien), epilepsias (tien) síndromes paralíticas (compreendidas como uma patogenia tradicional) e neuropsiquiátricas na moderna concepção (astenia, autismo, tonturas, irritabilidade terror, noturno, tiques),  em Chou.

Scott dedica capítulos inteiros ao grupo abordado hoje pela neuropediatria: convulsões, epilepsia (dian xian, dian kuang), enurese noturna, insônia e terror noturno, abordadas e descritas na concepção da MTC e dá uma atenção especial ao retardo mental, ressaltando a importância no tratamento precoce (antes dos 3 anos), distinguindo os casos graves dos “distúrbios de aprendizagem”. Aborda a questão da hiperatividade na ótica tradicional da MTC a aproximando dos quadros de mania (kuang) e ás síndromes epileptiformes (uma forma yang da síndrome dian kuang). 
   
Sobre as doenças infecciosas, como são livros modernos, sua maior atenção é dirigida ao alivio de sintomas, Chou dando maior atenção às febres e síndromes febris e Scott à tosse, broncoespasmo (asma), dor, vômito diarreia abordando inclusive as formas atuais e tradicionais de diagnóstico e tratamento de algumas das grandes patologias epidêmicas da infância o sarampo a coqueluche e a parotidite.

Sabe-se que entre as normas e rotinas  da puericultura atual está a atenção às doenças transmissíveis através da imunização, desde finais do século XIX após a descoberta da vacina contra varíola. Sabe-se também que primeira discussão escrita sobre a inoculação anti-varíola que se tem noticia, vem da China, segundo Joseph Needham, entre 1567 e 1572. Ele investigou as origens desta prática que era realizada, talvez por um efeito de indução da menstruação, mas como muitos "inoculadores" não revelavam seus segredos, ficou sendo difícil estabelecer exatamente quando iniciou e quais os efeitos atribuídos ou esperados. Essa prática difundiu-se pelo oriente e Europa. No ocidente Edward Jenner (1749–1823) inoculou um menino de 8 anos com matéria extraída da lesão da lesão da ordenhadora afetada pela vaccinia e a criança não desenvolveu a doença. (Boylston)

Alguns acupunturistas modernos (inclusive os aqui pesquisados por sua contribuição à acupuntura pediátrica) homeopatas, naturistas fazem restrição ao excesso de vacinas atualmente praticado.

Apesar da relevância deste tema, não nos estenderemos sobre os efeitos da acupuntura e outras técnicas da medicina chinesa sobre o sistema imunológico. Observe-se que a aplicação de alguma vacinas foram incorporadas à rotina dos médicos de pés descalços na China do século XX. (Zhang, Unschuld).

segurança e eficácia da acupuntura

Em recente artigo (Yang et al, 2015) utilizando 24 revisões sistemáticas, reunindo142 ensaios clínicos com 12.787 participates, sendo 25% das revisões consideradas de alta qualidade, seu autores concluiram pela eficácia e uso promissor da acupuntura para 5 doenças pediátricas. A saber: Paralisia Cerebral, enurese noturna, tiques nervosos, ambliopia e sindromes dolorosas. Apenas seis revisões relataram efeitos adversos enenhum efeito colateral grave foi relatado.

Interessante, do ponto de vista de entendimento da natureza do conhecimento mítico, pois assim os antropólogos denominam as formas de conhecimento não ocidentais,  tradicional, folk (popular) ou secular, são as observações e noções sobre a interação entre a “carga genética” ou características herdadas dos pais e fatores ambientais,  afetando tanto o potencial de crescimento e desenvolvimento, como a imunidade (resistência à doenças) de cada indivíduo.

Para os chineses o Chi possui três principais características: O Jing Chi ou “energia / vitalidade” herdada dos pais, a energia dos alimentos e energia do ar. Essa é a energia que movimenta e mantém os seres vivos.

Tanto Chou com Scott comentam referências dos textos antigos a questão do uso de agulhas em crianças, perguntando se este uso poderia afetar este potencial de crescimento que é o Jing ou energia ancestral.

Chou discorre diretamente sobre questão, é categórico na afirmação de que “a acupuntura não promove dano ou desperdício do Jing ou energia ancestral do recém nascido e infante mas recomenda o uso da menor quantidade de agulhas e apresenta diversa técnicas alternativas (auriculopuntura, tui na...) incluindo o tratamento da mãe ou na linguagem da pediatria moderna do binômio mãe-filho.  (p. 62-76)

Scott apresenta considerações semelhantes, também apresenta técnicas alternativas e recomenda a punção e retirada das agulhas, em vez de sua retenção. (p. 38-46) Ambos atentos para os efeitos psicológicos do medo de agulhas e mobilidade acentuada das crianças.

A acupuntura pediátrica no ocidente tem sido mais divulgada por sua associação ao Tui Na para crianças, que corresponde forma de massagem chinesa similar ao Do In também bastante conhecida com forma de automassagem ou autocuidado.  

Ainda está para ser realizado uma aproximação entre o Tui Na e alguns problemas neuropediátricos que começam a ser compreendidos como passíveis de melhora com técnicas de estimulação precoce, com diversas técnicas (Bobath; Pontos Motores; Castillo Morales; Doman-Delacato etc.). Uma rápida revisão de artigos publicados em língua portuguesa tem mostrado o interesse de pesquisadores para síndromes dolorosas a exemplo da fibromialgia e e anemia falciforme (Dias; Marques).

O que não deixa dúvidas é que a acupuntura é uma atividade multiprofissional que merece uma atenção especial enquanto técnica de neuro-psico-imuno-estimulação, e que, sob o risco de não ser compreendido, este conhecimento não pode ser reduzido a neurofisiologia ou neuropsicologia médica ocidental sem o crivo e orientação da antropologia, mais especificamente, da etnomedicina - a ciência que estuda e compara distintas formas de conhecimento e técnicas que deram origem a medicina cosmopolita. Práticas essas que apesar da ampla divulgação mundial que vem assumindo, ainda são a única alternativa  de serviços "médicos" de distintos povos e segmentos da população para recuperação e manutenção da saúde. 

Referências

CHAU, Pham Quang.Acupuntura e pediatria. SP: Andrei, 1989
Pham Quang Châu Acupuncture chez l'enfant

SCOTT,  Julian Acupuntura no tratamento da criança. SP: Roca, 1997
Julian Scott. Acupuncture and Chinese Medicine in Bath
http://www.eyebright.me.uk/

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MARQUES, Carla Verônica Paixão. Acupuntura a laser no tratamento da dor em criança com anemia falciforme.  Relato de caso. Rev. dor,  São Paulo ,  v. 15, n. 1, p. 70-73,  Mar.  2014 .   Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-00132014000100070 access on  17  Nov.  2017. 

RIVORÊDO, Carlos Roberto Soares Freire de. Pediatria: medicina para crianças? . Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 33-46 , dec. 1998. ISSN 1984-0470. Disponível em: . Acesso em: 04 jan. 2018. http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v7n2/04.pdf

ROSEN, George. A evolução da medicina social. in: NUNES, Everaldo D. Medicina Social, aspectos históricos e teóricos.  SP: Global Ed., 1983

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WANG, BING Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Dinastia Tang – Edição bilíngue). SP, Ed Ícone, 2001