segunda-feira, 16 de abril de 2012

Acupuntura científica uma reflexão

Tende-se a interpretar a acupuntura científica como acupuntura biomédica, como se as explicações desenvolvidas pelas ciências sociais orientando a interpretação do conhecimento mítico – religioso, não fossem uma explicação científica, ou que o entendimento dessa arte – técnica não requeresse a compreensão de seu contexto cultural, sua dimensão psicossocial e/ou espiritual. Ignorando-se também que o conhecimento oriental que, por si só, foi suficiente, durante milhares de anos, para permitir seu pleno domínio e utilização.

Por outro lado os orientais não desprezam os avanços e pesquisas biomédicas associando suas explicações tradicionais ao conhecimento científico “ocidental”. E, ainda paira no ar a pergunta: é possível à ciência ocidental, em seu atual modelo materialista de descrição e pesquisa, compreender as tradições orientais? ou, se vai ser necessário criar uma nova organização do conhecimento e das práticas profissionais, inaugurando um novo paradigma?

A concepção de “paradigma” é essencial para compreender o movimento das comunidades humanas em torno dessas explicações ditas científicas, sua hegemonia ou descrédito, o reconhecimento enquanto ciência ou não. Paradigma é uma realização científica com métodos e valores que são concebidos como modelo ideal; uma referência inicial como base de modelo para estudos e pesquisas que se sucedem.

Thomas Kuhn (1922- 1996), físico americano célebre por suas contribuições à história e filosofia da ciência em especial do processo que leva à evolução do desenvolvimento científico. Em seu livro a “Estrutura das Revoluções Científicas” apresenta a concepção de que "um paradigma, é aquilo que os membros de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade científica consiste em homens que partilham um paradigma", e define "o estudo dos paradigmas como “o que prepara basicamente o estudante para ser membro da comunidade científica na qual atuará mais tarde".

É um desafio para o praticante ocidental conciliar o amplo espectro de disciplinas requerido para entendimento desse novo campo do saber que se inaugurou com o nome de “acupuntura” no ocidente. Inaugurou-se, mesmo para os que não têm essa consciência, articulando a neuropsicologia do efeito placebo e das relações estímulo - resposta à antropologia médica ou antropologia da saúde (o ramo dessa ciência que tem como objeto, por excelência, a interpretação de outras culturas) com a clínica médica fundamentada na neurofisiologia e bioquímica celular dos efeitos da inserção de agulhas em pontos específicos do corpo humano e animal.

Por não possuir um modelo definido de explicação teórica e prática profissional, um novo paradigma há de ser construído e não é uma legislação ou decreto que vai definir sua forma. Esse texto é um rápido passeio por duas das principais explicações biomédicas, deixando de lado (por enquanto) outras teorias e um grande número de textos referentes à experiência milenar chinesa além dos resultados das décadas dessa prática no ocidente. O objetivo é mostrar que esse conhecimento ainda não “dá conta”, não tem poder explicativo, para as amplas possibilidades de efeitos da acupuntura, reconhecendo, porém o seu valor e complexidade.

A teoria das comportas e neuromodulação da dor

A teoria das comportas (gate control) proposta por Ronald Melzack and Patrick Wall (Science, 1965), aplicada à acupuntura, talvez seja a teoria que mais contribuiu para aceitação sua aceitação no ocidente, embora limitada à explicação de seu efeito analgésico / “anestésico”.

Observou-se que ao nível do segmento medular, uma rede de neurônios intercalares, conectados por fibras "C" amielínicas, formam um sistema relé. Articulam-se com os neurônios motores das respostas reflexas locais de evitação e do aferimento de posição proveniente dos termo e mecano - receptores estáticos das articulações ou tendões e de localização cutânea gerando, em paralelo a sensação dolorosa, a informação que também situa a dor no esquema corporal.

Segundo a teoria que descreve tais conexões a distinção e articulação dos estímulos que são conduzidos por diferentes fibras nervosas, (tipo A delta - mielinizadas de diâmetro fino ("A δ" ) e tipo C - amielínicas), se dá numa região do corno sensitivo (dorsal) de cada segmento da medula (a região que também é conhecida por substancia gelatinosa de Rolando - SG) com a liberação de metencefalina pelas células pedunculadas (interneurônios inibitórios)

A interrupção das vias sensitivas que foi então nomeada porta de controle (gate control) se dá pelo bloqueio da via mielinizada pelos neurônios de axônio curto e a ativação do sistema de neurônios internunciais, da medula sensitivo dorsal pelas fibras grossas do tato (mecanoreceptores), que exercem uma ação bloqueadora na transmissão dos estímulos de dor.



Teoria das comportas

 

Nesse caso por outra via ascendente, o trato espinotalâmico, o estímulo da fibra "A δ" é conduzido ao Córtex cerebral, onde são interpretadas, ou "percebidas" como sensações de peso, distensão, calor ou parestesia que ocorrem durante o estímulo por acupuntura.

A analgesia profunda obtida por acupuntura mantém a consciência e motricidade, ocorre aproximadamente entre 20 e 30 minutos após a interseção das agulhas, mantém-se sensação de tato e pressão, alteram-se a discriminação vinda dos termoreceptores. É comum sua prática associada à sedativos em função de conservação de reflexos vegetativos e sensibilidade dolorosa do osso e periósteo. O resultado segundo diversos autores varia num limite amplo entre 45-75 % para os que a consideram perfeita e entre 25-45 %, parcial. (Dumitrescu, 1996)


Micro lesões em nível celular

Entender, em nível molecular a ação da acupuntura descrita nas teorias consensuais do “gate control” (comportas) e produção de endorfinas (bloqueadas por ação de fármacos antagônicos durante a aplicação da agulha) requer implicitamente a compreensão dos mecanismos celulares e histológicos do local da aplicação.

A caracterização do ponto de acupuntura já foi relativamente estudada com poucos resultados consensuais prestigiados, entretanto descrições e estudos da dimensão da perfuração e “dano” celular de uma agulha de 0,1 a 0,5 mm em estruturas celulares da ordem de 1 a 10 µ (micras) podem ser compreendidos a partir de certo domínio de conceitos básicos da biologia celular, especialmente os mecanismos de inflamação e reparo após lesão celular.


Quando um bisturi fere a pele ativa diretamente as fibras da dor rápida (azul) e indiretamente a da dor lenta (vermelho). Nesse último caso, as células lesadas os mastócitos do sangue e os próprios terminais nervosos secretam substâncias que geram uma relação inflamatória local. Lent. (p.231)



A compreensão dos referidos mecanismos, inclusive é essencial para o entendimento do ponto de vista ocidental do efeito da acupuntura sobre o sistema imunológico, tanto nas doenças alérgicas como infecciosas.

As células são estruturas microscópicas só perceptíveis com auxílio de instrumentos ópticos entre 7,5 µ micra (hemácia) e 200 µ (óvulo) no organismo humano. Um hepatócito, por exemplo, é uma célula cúbica 30 µ (1 µ mícron equivale a 1 milésimo de milímetro, 0,001 mm - 1 x 103 cm).

Ao nível dos pontos de estimulação a introdução de uma agulha de aproximadamente 0,3 mm espessura atinge profundidades que variam entre 1,0 a 2,5 mm (0,5 a 1 polegada) em pontos específicos. A pele humana humana apresenta duas camadas: a epiderme e a derme, sua espessura varia de 1,5 a 4 mm.

Selecionamos essa imagem e conceitos essenciais à essa forma de interpretação:


Derme e epiderme formam uma estrutura média próxima de 20 camadas de células. (1 célula - 600 µ / 0,1 mm).


A pele

A epiderme com suas 5 subcamadas (estrato córneo; estrato lúcido; granuloso; espinhoso e estrato germinativo ou de células basais) situa-se sobre a derme região vascularizada, com vasos linfáticos composta de fibroblastos que produzem colágeno e fibras elásticas (elastinas).


A derme é a camada profunda onde se localizam as raízes dos pêlos (folículos pilosos), o canal das glândulas sudoríparas e estas na camada subcutânea, que fica abaixo da derme, as glândulas sebáceas e as terminações nervosas ou receptores táteis (Corpúsculos de Vater Paccini; de Meissner; Discos de Merkel) os Corpúsculo de Krause e de Ruffini receptores de frio e calor e os nociceptores ou terminações nervosas livres (fibras de meio (1/2) milésimo de milímetro (0,0005 mm)) com diferentes concentrações ao longo dos 25.000 cm2 de superfície desse tegumento.

Ainda no âmbito do estudo da ação da acupuntura em nível celular temos que incluir a resposta dos elementos do tecido sanguíneo e conjuntivo acionados por estimulação específica, ou seja: neutrófilos, eosinófilos, linfócitos, basófilos e plaquetas no sangue e fibroblastos no tecido conjuntivo e mastócitos em ambos os tecidos. Diversas pesquisas evidenciam que os resultados da ação da acupuntura são visíveis no hemograma, como veremos.

Acupuntura molecular

Uma vez compreendida a intervenção do estímulo da acupuntura em nível celular, o que é a rigor é uma tarefa que se estenderia à micro-anatomia ou histologia de cada ponto de acupuntura, como dito, pode-se deter no estudo dos mecanismos bioquímicos de inflamação e reparo, os únicos consensualmente aceitos como efeitos da intervenção com agulhas. Embora indissociáveis ao estudo do aspecto celular o efeito da inserção de agulhas, aplicação eletricidade e calor (aquecimento da pele a 54º por 5 seg. – Robins) dá início a uma pseudo - inflamação aguda ou síndrome de adaptação local cujo efeito no sistema nervoso e imunológico ainda é pouco compreendido.

A inflamação é a reação do tecido vivo e vascularizado à uma agressão ambiental (Robins) distingue-se usualmente a fase crônica da aguda que dura cerca de minutos, horas, no máximo um ou dois dias e é a principal mecanismo que aciona a resposta humoral iniciada pelo estímulo da acupuntura considerado como uma agressão mecânica à integridade celular.

Alguns autores distinguem 3 fases mais ou menos intrincadas: a primária, dita precoce inespecífica ou vascular; uma segunda fase de infiltração celular com afluxo de macrófagos e leucócitos, e a fase tardia ou de reparação, altamente específica. (Rodrigues, 1988)

Após uma lesão celular um conjunto de mediadores químicos da inflamação é acionado, iniciando-se o processo pró - inflamatório e antiinflamatório que caracterizam o mecanismo do stress fisiológico nas reações locais (SAL – Síndrome de Adaptação Local) e gerais (SAG – Síndrome de Adaptação Global) do organismo na concepção de Stress de Hans Selye (1907-1982).

Na resposta imediata transitória distingue-se a liberação as substâncias pré formadas: as aminas vasoativas Histamina e Serotonina, as primeiras a serem liberadas; a Bradicinina, composto vasoativo, responsável pela contração da musculatura lisa e sensação dolorosa e as substâncias (recém) sintetizadas a partir do ácido araquidônico (prostaglandina, tomboxanas e leucotrienos) que mantém a resposta inflamatória, juntamente com a ação das enzimas lisossomiais resultantes de destruição celular e de produtos de neutrófilos, que são os primeiros leucócitos a serem acionados para dar início ao conhecido padrão de reação (Calor, Rubor, Tumor / Edema e Dor.) que caracteriza a inflamação.

A resposta imediata transitória inicia-se após a agressão celular/tecidual e tem seu apogeu entre 5 a 10 minutos, diminuindo entre 15-30 minutos, é despertada pela histamina e pela maioria dos mediadores químicos. A histamina é o mediador mais importante do início da resposta inflamatória aguda, em parte por já estar formada e estocada nos grânulos de mastócitos e basófilos (cerca de 5 µg por 1 milhão de células). A serotonina é encontrada além do Sistema Nervoso nas plaquetas e assim como a bradicinina é uma resposta plasmática relacionada à agressão vascular. Na cascata de coagulação a bradicinina é uma resposta plasmática acionada pelo fator XII de coagulação (fator de Hageman) rapidamente inativada por cinidases, em cerca de 10 minutos. (Siqueira Jr. ; Dantas)

Alguns autores referem-se à tempos distintos nessa seqüência de reações estudas a partir da ruptura de integridade celular conhecida como efeito “lasca” ou “farpa” extensível à introdução de agulhas esterilizados. Segundo Birch e Felt (2002) o primeiro estágio ou de vasoconstrição / formação de coágulo dura aproximadamente uns 20 minutos; o segundo, caracterizado por vasodilatação, migração de leucócitos, eliminação de produtos residuais chega a durar várias horas (entre 2 a 3 h) seguido de 3 estágio (com motilidade dos vasos) que pode dura 1 hora ou mais. Observaram também que a introdução da agulha em uma determinada região produz alterações longe do local de inserção possivelmente em tecidos ou áreas específicas possivelmente previsíveis, mas que ainda necessitam maiores investigações.

As aminas biogênicas – histamina e serotonina também possuem ação sobre neuropeptídios e respostas locais dos terminais nervosos somático sensorial, em especial as taquicininas, (substância P, neurocinina A, neuropeptídio K) provavelmente das fibras amielínicas do tipo C. Mediadores de respostas específicas do sistema nervoso autônomo também tem sido pesquisados sendo recente a identificação do neuropeptídeo Y – NPY. Entre as respostas específicas situam-se também a inflamação neurogênica. (Siqueira Jr. ; Dantas)

Ainda sobre neurotransmissores cabe referir aqui a presenças das encefalinas, que segundo White (in: Ernest, White, 2001) estão presente nas lâminas I e IV do corno posterior e na substancia cinzenta periaquedutal; a betaendorfina da substancia cinzenta periaquedutal e núcleo arqueado do hipotálamo, e a dinorfina que é encontrada em toda medula espinhal. (Ernest, White o.c. p.95)

Os leucócitos são atraídos para área da lesão, inicialmente os neutrófilos pela calicreina e ativador plasminogênico no processo de formação da bradicinina, seguidos dos monócitos e dos linfócitos para dar continuidade ao processo inflamatório a partir de suas concentrações (definidas por quimioatraentes) e demandas específicas dos tecidos. Os agentes quimiotáticos incluem produtos bacterianos, fragmentos do complemento, metabólitos do ácido araquidônico e quimiocínas.

No processo inflamatório as ações das citocinas (quimiocínas, monocinas, linfocinas, interleucinas) produzidas por linfócitos, o óxido nítrico derivado do endotélio e a ativação do sistema complemento (antígeno-anticorpo) dependem dos resultados da inflamação aguda. Podendo evoluir para resolução completa com regeneração, cura por reposição de tecido conjuntivo ou fibrose, formação de abscesso ou evolução para inflamação crônica (semanas ou meses) caracterizado a resposta altamente específica do organismo à suas agressões.

Dumitrescu (1996) em seu livro “Acupuntura científica moderna” apresenta um série de pesquisas sobre alterações bioquímicas e sistemas da acupuntura relacionadas à ação antiinflamatória / humoral a saber: ativação anti-histamínica; aumento da heparina /heparinase no sangue (anticoagulante); aumento dos 17-cetosteróides, 17-hidroxicorticosteróides e da aldosterona urinária; aumento das catecolaminas, 17-hidroxicorticosteróides, 17 cetosteróides e da corticosterona plasmática livre com uma manutenção das taxas mais elevadas após a interrupção das sessões de acupuntura. (o.c. p. 236) Dentre as alterações em nível celular refere-se à leucocitose aumento das proteínas totais, gamaglobulinas e experimentos específicos sobre proliferação de mastócitos. (o.c. p. 238)

Segundo pesquisas reunidas por Lundemberg (2001) a acupuntura tanto pode ser usada para estimular mecanismos imunológicos como para suprimir respostas específicas como, por exemplo, leucocitose e atividade fagocitária ou redução do número de eosinófilos e níveis de IgE, embora ainda não se tenha nenhuma prova rigorosa do mecanismo como o sistema imunológico reponde à estimulação de agulhas de diferentes formas ou sob diferentes condições além dos efeitos que podem ser atribuídos à liberação geral de ACTH / cortisol e mecanismos reflexos segmentares. (Lundeberg, o.c. p.131)

Explicações necessárias e suficientes

As explicações baseadas na modulação da dor, resposta humoral da inflamação e dano aos tecidos, têm mecanismos biológicos são consensualmente aceitos e por isso mesmo apontados como responsáveis pelo reconhecimento científico da acupuntura, contudo as teorias das comportas (gate control) e modulação da dor, como também designadas, possuem fraco poder preditivo na prática clínica. Ou seja fora o controle da dor não explicam a atuação em diversos quadros clínicos, mesmo os incluídos na relação da OMS aonde predominam doenças psicossomáticas.

Os mecanismos biológicos que podem ser sinteticamente definidos como neuromodulação, na concepção de Moritz ainda não são capazes de explicar a recuperação motora (regeneração do tecido nervoso?), a normalização das funções orgânicas, a modulação da imunidade, das funções endócrinas, autonômicas mentais e ativação de processos regenerativos, apesar de se somarem evidências que tais resultados ocorrem.

Como foi dito anteriormente um conjunto de explicações necessárias e suficientes, ainda está para ser construído.

Observe-se que serão as experiências empíricas dos diversos profissionais que atualmente já trabalham com acupuntura (fisioterapia, psicologia, odontologia, enfermagem, pediatria, neurologia, psiquiatria, obstetrícia etc.) associando suas respectivas práticas à sua avaliação de resultados terapêuticos um dos fundamentos de sua compreensão do ponto de vista ocidental

Naturalmente aliando tais explicações ao domínio das explicações da medicina tradicional chinesa enquanto prática empírica milenar e teórica intermediada pela antropologia num esforço de interpretação biomédica ocidental já esboçada.

Estes, a meu ver, são os elementos da construção de uma teoria científica da acupuntura e em função dessa complexidade melhor uma graduação universitária específica com especializações nas diversas áreas que já se formaram e são inevitáveis na atual conjuntura das práticas de saúde atuais.


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Bibliografia

BIRCH, Stephen J.; FELT, Robert. Entendendo a acupuntura. SP, Roca, 2002

COTRAN, R. S.; KUMAR, V.; ROBBINS, S. T. Robbins: Patologia estrutural e funcional. 5. ed. Rio de Janeiro : Guanabara Koogan, 1996

CARNEIRO, Norton Moritz Acupuntura baseada em evidências edição do autor, 2000
http://www.acupunturatual.com.br/livroabe.htm (2001)

DUMITRESCU, Ioan Florin. Acupuntura científica moderna. SP, Andrei, 1996

KUHN, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978

HARRIS, Maria Inês N. C. Pele, estrutura, propriedades e envelhecimento. SP, Ed. SENAC SP, 2005

LENT, Roberto. Cem bilhões de neurônios: conceitos fundamentais de neurociência. SP, Atheneu,2004

LICO, Maria Carmela Modulação da Dor, Mecanismos Analgésicos Endógenos Rev Ciência Hoje vol 4 nº 21 Nov-Dez. (66-75) 1985

LUNDEBERG, Thomas. Efeitos da estimulação sensorial (acupuntura) nos sistemas circulatório e imunológico. in: ERNEST, Edzard; WHITE, Adrian. (org.) Acupuntura, uma avaliação científica. SP, Manole, 2001

PESCHANSKI, Marc. A biologia da dor, RGS, L&PM, 1987

RODRIGUES, Luiz Erlon A. Antiinflamatórios não esteróides. Ba, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1988

SELYE Hans, Stress a tensão da vida. SP, IBRASA, 1965

SIQUEIRA JR, José F.. ; DANTAS, Carlos José S.. Mecanismos celulares e moleculares da inflamação. RJ, Medsi, 2000

Wikipédia, verbetes ptt / em: Acupuntura, Paradigma, Inflamação, Pele, Leucócito
 


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sábado, 14 de abril de 2012

Medicina Tradicional Oriental



Agora, em um momento tão conturbado quanto à questão da Acupuntura no Brasil, em que se desperdiça uma enorme quantidade de tempo e energia com projetos, emendas, denúncias ... a Medicina Tradicional Oriental (MTO) acaba perdendo o elo de ligação do homem com o Universo e passa a ser utilizada como um elemento classista, é o que nos alerta Victor P. R. Lima no prefácio do livro do Dr. José Luis Padilla Corral, “Fundamentos da Medicina Tradicional Oriental”. Para Lima um pequeno presente, dedicado a todos aqueles amantes da vida, que de nenhuma maneira tem a pretensão de querer explicar tudo, mas tem a intenção de resgatar a Medicina Tradicional Oriental como algo mais humano, do povo, popular e ao serviço de todos.

Traduzido para português pelo mesmo autor do prefácio e colaboradores da Escola Neijing Brasil esse livro é resultante de cursos ministrados na sede da OPAS / OMS (Organização Panamericana da Saúde / Organização Mundial de Saúde) em Lima / Peru.

Segundo o Dr. José Luis Padilla Corral os postulados de saúde, enfermidade, prevenção e tratamento da Medicina Tradicional Oriental não constituem, em nenhum momento, um enfrentamento à medicina moderna. Se isso ocorre no cotidiano é devido à escassa formação dos médicos ocidentais e ao forte contingente de prejuízos nascidos da ignorância. Na atualidade, na República Popular da China, a permanente colaboração de ambos os pontos de vista tem possibilitado a realização de inúmeros trabalhos de investigação e uma aposta comum em fazer do sanador um servidor da saúde com todos os elementos que hoje a humanidade dispõe de forma fidedigna.

Segundo Corral a MTO não é uma medicina e sim uma tradição minuciosamente transmitida através de conceitos universais do lugar existencial do homem. Suas remotas origens de mais de 5.000 anos, antecedem a concepção de “China” e podem ser consideradas pertencentes a todo oriente. A MTO reafirma as evidências clínicas da medicina atual, que vem comprovando a sua eficácia. Alertando-nos que a OMS faz a oportuna recomendação de seu emprego e constata que recentemente, a influente Organização Norte-americana de Saúde tem apoiado a sua aplicação em diferentes doenças, mantendo, assim, a porta aberta às futuras investigações que comprovem outras aplicações. Vale ver.

Esse livro foi editado pela editora Roca (SP) 2006 e a ilustração do meridiano do coração aqui apresentada é uma das 20 ilustrações apresentadas sobre os meridianos.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Acupuntura na Science Photo Library

Ilustração artística sobre uma teoria neurológica que explica os efeitos da acupuntura. Acupuntura é a terapia tradicional chinesa que coloca agulhas na pele (ver extremo do quadrante inferior esquerdo). A explicação tradicional é que agulhas inseridas em pontos de acupuntura podem restaurar o equilíbrio e fluxo de uma energia ou força vital chamada Qi. Em neurociência explicam-se tais efeitos em termos de sinais nervosos. Aqui, o sinal da dor (vermelho) e da agulha de acupuntura, cujo sinal é transmitido (azul) do joelho até a medula espinhal, e desta até o cérebro. Em certos pontos de transmissão (Box da medula espinhal, em baixo à direita, e Box do tálamo no canto superior direito) o sinal de acupuntura suprime o sinal de dor. Além disso, no tronco cerebral ao nível do núcleo magno da rafe (box no centro à direita), o sinal de acupuntura provoca a liberação de endorfinas, analgésicos naturais do corpo. Ver texto original (en) e site da imagem acima: http://www.sciencephoto.com/media/286142 Ver outras imagens selecionadas da acupuntura tradicional e de ilustrações bases bioquímicas e fisiológicas do seu efeito na Lightbox List Science Photo Library http://www.sciencephoto.com/

quinta-feira, 1 de março de 2012

Plantas calmantes, história e composição química.


Esse breve ensaio reúne anotações da história de utilização e composição fitoquímica das principais plantas tidas como calmantes e sedativas da medicina tradicional chinesa e ocidental, comparado simultaneamente a conceituação de efeito calmante no sistema etnomédico chinês, que abrange a fitoterapia, acupuntura e técnicas de meditação, com as perspectivas farmacológicas e ocidentais de interpretação.

Calmante, tranqüilizante e sedativo são os principais nomes que se dão aos medicamentos capazes de reduzir a ansiedade e exercer um efeito calmante ou sonífero, contudo, do ponto de vista farmacológico algumas distinções podem ser feitas quanto à natureza desse efeito.

Inicialmente podem-se distinguir os efeitos de controle da ansiedade e suas formas de expressão autonômicas, os efeitos dito ansiolíticos, com pouca ou nenhuma ação sobre as funções motoras ou mentais, dos efeitos hipnóticos. A propriedade de induzir o sono (gr. hypnos) é característica dos medicamentos classificados como hipnóticos cuja qualidade é produzir sonolência e estimular o início e a manutenção de um estado de sono que se assemelhe o mais possível ao estado do sono natural.

Os efeitos hipnóticos envolvem uma depressão mais profunda do sistema nervoso central (SNC) do que a sedação, o que pode ser obtido com a maioria dos medicamentos sedativos, aumentando-se simplesmente a dose.

Segundo Goth esses efeitos progressivos relativos à dose podem ser indicados como uma sequência linear:

sedação ↔ hipnose ↔ anestesia ↔ coma → morte

Origens

A história desses fármacos tem duas vertentes, se considerarmos os compostos naturais, uma das primeira das substâncias conhecidas por essas propriedades foi o álcool (etanol) obtido, mesmo nas culturas mais “primitivas”, a partir da fermentação dos açucares dos frutos ou de outras partes de plantas como videira, macieira, centeio, e cana de açúcar, cujos efeitos ansiolíticos são basicamente similares ao dos compostos modernos (Graeff, 84) embora seus efeitos colaterais e capacidade de provocar dependência não o sejam. Outra planta com propriedades similares é a Papaver somniferum, mais popularmente conhecida como Papoula do Oriente, antiga conhecida da humanidade por suas propriedades, originária da Ásia Menor e cultivada na China, Irã, Índia, divulgada no ocidente através dos gregos que a chamavam de opion, diminutivo de opós (suco vegetal). Outras plantas tradicionalmente utilizadas por esses povos ainda podem ser identificadas por possuírem propriedades depressoras do SNC, como veremos aqui.

Na perspectiva do desenvolvimento de compostos sintéticos a história dos sedativos se inicia com o uso dos barbitúricos por Fisher e Von Mering em 1903 (Goth), substâncias ainda de ampla utilização como sedativos, combinado com analgésicos, reconhecidas como úteis no controle da dor e por possuírem propriedades anticonvulsivantes.

O "ácido barbitúrico" foi descoberto por Adolf Von Baeyer em 1864, atua de modo semelhante ao clordiazepoxido (Librium), descoberto por Leo Sternbach em 1955 e introduzido no mercado nos anos 60 através da Hoffmann–La Roche. Os vinte ou mais compostos benzodiazepínicos, atualmente existentes no mercado e os derivados do ácido barbitúrico atuam no Sistema Nervoso Central aumentando a ação do neurotransmissor inibitório GABA (ácido gama-aminobutírico), mas ao contrário de muitos barbitúricos as benzodiazepinas não possuem capacidade de induzir anestesia.

Uma relevante descoberta, ocorrida nesse intere, um pouco antes da síntese das benzodiazepinas ainda na década de 50, foi a descoberta das drogas denominadas tranqüilizantes (clorpromazina, reserpina e asaciclonol), capazes de acalmar sem induzir o sono ou evoluir para estados de coma feito o grupo dos sedativos hipnóticos, por isso mesmo iniciou-se uma ampla utilização na psiquiatria, para tratamento das psicoses. Experimentos indicavam sua ação sobre regiões hipotalâmicas e sobre a serotonina.

Observe-se, porém que a reserpina é um derivado (alcalóide) também obtido por extração da planta Rauwolfia serpentina utilizada na Índia como tratamento da epilepsia mordida de serpente e outras doenças introduzida ma Europa por um médico alemão no séc. XVI (Himwich, 1955).

As drogas psiquiátricas modernas já estão na terceira ou quarta geração de síntese e experimentação, a partir dessas descobertas iniciais, as categorias de classificação são mais ou menos as mesmas, sedativos, hipnóticos (sedativos- hipnóticos), tranqüilizantes ou calmantes, novas categorias, porém se desenvolveram por seus efeitos cada vez mais específicos, tipo os anti-psicóticos, estabilizadores do humor e antidepressivos

Etnociência X abordagem tradicional

O problema de identificar e aprender a lidar com as plantas tidas como calmantes, que se somam na ordem das dezenas de espécies nos livros de plantas medicinais, seria então descobrir as características específicas tal como a indústria farmacêutica o fez. Classificar plantas do tipo: Alface, Camomila; Capim santo, Casca preciosa, Erva cidreira; Kawa-kawa, Maracujá, Mulungu, Lavandula, Valeriana, etc. Verificar as que se aproximam dos sedativos hipnóticos e as que se enquadram na categoria dos tranqüilizantes. O que numa retrospectiva do que foi falado seria as que se aproximam da Papaver somniferum (morfina, heroína, codeína etc), etanol ou da Rauwolfia serpentina (reserpina).

Não há dúvidas de que o mito e as tradições quase sempre acertam. Não foi assim que se soube que a erva cidreira européia Melissa officinalis tem propriedades análogas á Lippia geminata (falsa-erva-cidreira ou melissa)? Estendendo-se mais, se observou sua semelhança ao capim-limão (Cymbopogom citratus) também chamado de erva-cidreira ou capim-cidreira. As apuradas observações organolépticas de nossos raizeiros e médicos tradicionais quase sempre não falham e apesar dos avanços da antropologia ainda engatinhamos na compreensão das analogias contidas nos mitos.

Nesse caso o caminho da farmagnosia e fitoquímica reforça essa idéia da identificação de características moleculares semelhantes. No grupo de plantas calmantes, por exemplo, encontram-se alcalóides: na Valeriana officinalis (o monoterpeno valerianina); na Passiflora edulis (β-carbolinas: harmano, harmino, harmalina e harmanol); na Rauwolfia serpentina (o indol monoterpênico reserpinina) e na Papaver somniferum (os morfinanos tipo morfina), mas isso não os coloca no mesmo grupo de ação farmacológica sobre o SNC, além de não explicar o grupo excluído. O que reforça a necessidade de articulação de pesquisas etnobotânicas e etnomédicas selecionando plantas e formas de uso ou indicações clínicas além da identificação mais precisa dos compostos moleculares como a indústria farmacêutica tem feito.

Tradição Chinesa

No processo de “importação” da acupuntura, atualmente uma técnica cosmopolita de ampla difusão, vieram novos conceitos de “sedação”, de diagnóstico da “insônia”, “ansiedade” bem como de seu tratamento com o auxílio da fitoterapia, recurso de comum utilização entre os terapeutas tradicionais chineses.

Como se sabe os pontos de acupuntura são puncionados com objetivo de estimulação, o estímulo entretanto não é indiferente ao modo como é feita essa punção e a expectativa dos efeitos nessa teoria são dois padrões de resposta diametralmente opostos resultantes do modo de estimulação: a tonificação e a sedação. (Sussmann). No momento nos interessa a comparação da “sedação” seja obtida por estimulação com agulhas em postos específicos ou por ação de psicofármacos, mais especificamente as substâncias que, segundo essa tradição, são descritas por Noleto e Ling, como sedativas, que nutrem o coração e acalmam a mente (Yang Xin An Shen Yao).

Segundo Botsaris, autor de extensa pesquisa sobre a fitoterapia chinesa e plantas brasileiras a sedação é um método que provoca a redução da atividade do Chi (Qi) e a dispersão dos acúmulos, citando-nos o Su Wen: ...”sedar é rachar o duro, dispersar o que está acumulado”. Está indicada nas síndromes de excesso e de estagnação de Chi e sangue cujos sintomas, ainda segundo esse autor, são variados, mas incluem: grande agitação ou insônia, vertigens rotatórias, convulsões, cefaléias intensas, dores, plenitude no tórax e abdômen, nódulos, massas e visceromegalias e formalmente contra indicada em síndromes de deficiências.

Observe-se a complexidade dessa distinção, pois há de se distinguir os aparentes excessos energia, agitação e ansiedade (falso yang) em síndromes de deficiência tipo xu a exemplo da insônia causada por insuficiência de yin dos rins ou xu do baço ou a palpitação e ansiedade por deficiência de Chi e sangue além do distúrbio mental devido ao medo (rim) (livro dos quatro elementos).


No citado livro Botsaris e de Noleto e Ling há referências às seguintes ervas capazes de “nutrir o coração e acalmar o espírito”:

- Ziziphus jujuba Mill var spinosa Hu (Semen Ziziphi Spinosae) Jujuba selvagem, Suan Zao Ren (contém alcalóides sanjoinine A e nuciferine)

- Thuya orientalis L. (Biota orientalis Endl. Platycladus orieantalis) – Sêmen Biotae, Bai Zi Ren, Cipreste de cemitério, Tuia, Arvore da vida. (contém alcalóides, glicosidios, flavonoides taninos e saponinas)

- Albizzia julibrissin Durazz., Albizzia kalkora (Roxb.) Prain. Córtex Albizziae. "huan hua" (contém flavonol glicosides, com demonstrada atividade sedativa e possílvemente variantes do DMT)

- Ganoderma lucidum. Ganoderma japonicum. Lingzhi ou Reishi. (contém triterpenos e polisacarídeos)

- Polygonum multiflorum Thumb. (Fallopia multiflora) Caulis Polygoni multiflorii, 何首乌; he shou wu (contém lecitinas e antraquinonas livres e conjugadas, sua raiz tuberosa também contém mais de 1,2% de uma substância conhecida como tetrahidroxiestilbeno glucosidio, (2,3,5,4′-tetrahydroxy stilbene-2-O-D-glucoside) que tem sido considerado ser seu princípio ativo)

- Polygonum tenuiflolia Willd. Radix Polygalae tenniflolia, Yuan Zhi (contém triterpenóides, saponinas, tenuifoilina, tenuigenina, prosenegenina, xantonas)

- Valeriana officinalis Rhizoma Valerianae (entre seu componentes encontram-se: ácido valérico, ácido valerênico, valerenona, valerenal, bomil isovalerianato, canfeno, pineno, aIcalóides (chantinina, valerianina), valepotriatos (valtrato, acevaltrato, valechlorina), didrovaltratos (didrovaltrato, homodidrovaltrato, deóxidodidrovaltrato), isovaltratos, valerosidatum, valerianol, beta bisaboleno, ledol, terpinolene, â-sitosterol, taninos e resinas) Botsaris assinala também que os valepotriatos possuem atividade farmacológica semelhante aos benzodiazepínicos, inibindo impulsos eferentes para o hippocampus e que o ácido valerênico possui ação sedativa semelhante à dos barbitúricos, produzindo depressão generalizada do S.N.C., reduzindo a transmissão de estímulos de forma global, assim como diminuindo a atividade e lentificando as ondas no EEG.

- Cannabis sativa entre os chineses a Huo-ma (dà má - 大麻) é referida no “manual dos médicos de pés descalços” como laxante, ante-espasmodica (desconforto abdominal que melhora com a pressão). É descrita como uma planta neutra e tônica para funções Yin sua ação (especialmente das sementes) sob forma de chá é indicada para pacientes idosos com irritabilidade insônia, boca seca e constipação. Segundo a concepção etnomédica chinesa é capaz de “apagar o fogo”, “umedecer os intestinos”, “tornando descendente o Chi túrbido” provocando defecação e podendo simultaneamente tonificar a insuficiência. (Botsaris; Manual del medico descalzo; Noleto e Ling)

Minerais

Além das plantas medicinais são referidos como substâncias tranqüilizantes (que acalmam o espírito ou a mente – An Shen Yao) alguns minerais, a saber Draconis (osso fossilizado); Conchas de ostras (Ostrea gigas O. rivularis) e Madreperola (Pteria margaritifera, P. martensii); Magnetita; Cinnabaris (Sulfito de mercúrio); Hematita. (Botsaris; Noleto e Ling) Para Noleto e Ling o pó das ostras Haliotis diversificolor Revee e Ostrea gigas Thumb tem a função de “pacificar o fígado e dominar o Vento”.

No ocidente por volta de 1949 o psiquiatra australiano John Frederick Joseph Cade (1912-1980) identificou efeitos do carbonato de lítio como estabilizador de humor no tratamento do transtorno bipolar (então conhecida como psicose maníaco-depressiva).



Paralelo ocidental

Ainda está para ser realizado um quadro comparativo das diversas possibilidades de atuação da acupuntura sobre o sistema nervoso (efeito analgésico, anti-hipertensivo, anticonvulsivante, sedativo, hipnótico, antitérmico etc.) somado ou não à ação de fitoterápicos, tomando-se como base (padrão ouro) os conhecidos medicamentos de ação sobre o sistema nervoso (morfina, ácido acetilsalicílico, reserpina, fenobarbital, benzodiazepina, dipirona sódica, etc.) ou as plantas medicinais com tais efeitos.

Entre as plantas mais utilizadas e comercializadas no mundo ocidental como calmantes inclui-se:

Alface, Lactuca sativa, conhecida desde antiguidade, especialmente Egito e medicina tradicional persa (Iran). Possui 4 principais variedades cultivadas: Lactuca sativa var. capitata (alfaces-repolhudas, Batávia); Lactuca sativa var. longifolia (aface-romana); Lactuca sativa var. (afaces- crespas frisadas); Lactuca sativa var. latina (alfaces-galegas). Utilizada em medicina como extrato feito a partir de seu suco lactescente (Lactucarium) com propriedades semelhantes aos opiáceos (Lima - ITF). Contém cumarinas, flavonóides, lactonas sesquiterpênicas (lactupicrina (VIII), lactucina (IX), 8-deoxilactucina e ixerinas (ITF; Santos)

Lavanda (alfazema), Lavandula officinalis é originária da costa mediterrânea da Ásia Menor onde é utilizada na medicina tradicional, conhecida como 'osto khuddous'. Principais componentes: Princípio amargo, fitoesteróis, óleos essenciais, cumarina, acredita que seu efeito anticonvulsivo e hipnótico é causado por bloqueio dos canais de cálcio. (Arzi)

Camomila, Matricaria chamomilla - camomila verdadeira - (Matricaria recutita) distinta da Camomila-romana (Anthemis nobilis). Faz parte da flora européia, utilizada na medicicina tradicional desde a antiguidade seu nome popular vem do grego χαμαίμηλον (chamaimēlon). Contém matricina, alfa-bisabolol, apigenina, azuleno (o sesquiterpeno camazuleno), flavonóides (chrysin) – também encontrado em espécies de Passiflora (P.caerulea)

Capim limão, Cymbopogon citratus (capim cidreira, erva cidreira). Planta originária da Índia utilizada na medicina tradicional como febrífugo. (Teske Trentini) Constituintes químicos: óleo essencial contendo principalmente citral (XXXV) e geraniol (XIII) e neral; sesquiterpenos e triterpenos, como cimbopoqonol (XXXVI) e cimbopogona. Nas raízes foram encontrados alcalóides indólicos .

Casca preciosa, Aniba canelilla (H.B.K.) Mez. também conhecida como casca-do-maranhão, canela-cheirosa, folha-preciosa, amapaina, pereforá, pau-cheiroso, pau-rosa. Comum na Amazônia, utilizada na medicina tradicional da região como para diarréia tosse tida como analgésica, atiespasmódica e tônica do SN. Contém álcool sesquil terpênico, anabasina, euginol, linalol, metil-eugenol, nitrofeniletano, anibina e taninos. Sua atividade analgésica é atribuída ao 1-nitro-2-feniletano (Lima)

Erva cidreira, Melissa officinalis , erva cidreira verdadeira, toronjil (Español); balm (English) Espécie de origem européia cultivada no mediterrâneo mencionada por Dioscórides e Paracelso. Contém monoterpenos (citral); ácidos carboxílicos fenólicos (ácido rosamarínico); aldeídos monoterpênicos (geranial, citronelal, neral); flavonóides (luteolina); compostos terpenóides (ácido carnósico, ursólico, oleanólico e outros). Compõe um tradicional medicamento conhecido por Água de Melissa, utilizado como sedativo, estudos mais modernos tem revelado afinidade com receptores muscarínicos e nicotínicos e utilizada experimentalmente para doenças que alteram a função colinérgica entre as quais a D. Alzheimer. (Sena)

Erva cidreira, Lippia alba, melissa, cidreira brava, utilizada na medicina popular brasileira, como já referido, possivelmente por analogia à espécie européia. Segundo Lima (ITF) sua composição fitoquímica inclui alcalóides; flavonóides; saponinas; taninos iridóides; óleos essenciais: geraniol, butirato de geraniol, geranial, eugenol, neral, nerol, citronelol, citronelal, acetato de citronelol, B-cariofileno, óxido de cariofileno, alloaromadendreno, cis-a-bisaboleno, metil-heptenona, germacreno D, linalol, limoneno, cubenol, trans-ocimeno, t-octen-S-ol, borneol, copaeno, lipiona, dihidrocarvona, 1,8-cineol, citral, p-cimeno, metildecilcetona, mirceno, piperitona, sabineno, aterpineol, cimol, a-cubebeno, ácidos fenólicos.

Kawa-kawa, Piper methysticum Forst. arbusto natural da Malásia e nas ilhas da Polinésia, utilizado nas ilhas de Fiji, Samoa e Tonga, no tratamento de doenças e em cerimônias religiosas. Contém alfa-pironas, kavolactonas ou kavopironas: kavaína, diidrokavaína, iangonina, metisticina, diidrometisticina, 11-metoxi-iangonina, 11-metoxi-nor-iangonina, desmetoxi-iangonina, 5-hidroxi-diidroxi-kavaína. Flavonóides: flavokavanina A e B. Outros: amido (43%), glicídios (3,2%), glicosídeos, minerais (3,2%), óleos essenciais (bornil-cinamato), proteínas (3,6%), resinas.

O mecanismo de ação da Kava Kava deve-se principalmente à sua ação no sistema nervoso central, onde atua como ansiolítico, antidepressivo, regulador do sono e anticonvulsivante. Seus mecanismos de ação incluem , a modulação da atividade do sistema límbico, hipocampo e da amígdala, com a modulação dos receptores GABA-A, a inibição dos canais de sódio, a inibição da liberação de glutamato e da recaptação de dopamina e o aumento do estímulo dos receptores serotoninérgicos

Maracujá, Passiflora edulis, (P incarnata; P. alata; P, quadrangularis) granadilla (Español); passion flower (English). A família Passifloraceae inclui entre 16 – 27 gêneros, com cerca de 530 - 600 espécies espalhadas por todo o mundo. Utilizada em diversos sistemas etnomédicos da América referida por Guilherme Piso (1648) em sua expedição ao Brasil e nos codex astecas (quanenepilli). Sua composição inclui alcalóides (β-carbolinas: harmano, harmino, harmalina e harmanol), flavonóides (saponina, vitexina saponarretina, apigenina, orientina) glicosídeos cianogênicos (passiflorina, ginocardina), fenóis e frações de esteródes (sitosterol, estigmasterol) (Botsaris, Machado; Sena)

Mulungu, Erythrina crista-galli, tupi Mulungu, corticeira; flor-de-coral ; murungu; sananduva, árvore da mata atlântica que faz parte farmacopéia de uso tradicional sul americana . Contém alcalóides (eritrina, erisopina, erisodina, eritramina, eritratina, eritrocoraloidina, erisovina, erisonina); glicosídeos (migurina); esteróides, compostos antociânicos (pelargonidol, cianidol). (Teske, Trentini; Lima – ITF) Seus Alcalóides atuam sobre o SNC, causando bloqueio neuromuscular, relaxamento da musculatura lisa e ação anticonvulsivante (Lima – ITF)

Calma e tranquilidade

Voltando à concepção oriental sobre a sedação, calma e tranquilidade, temos que considerar que tal estado pode ser simplesmente obtido e/ou mantido por um processo estritamente de origem psicológica ou comportamental. Adquirido através das práticas psicoterapêuticas ou como pondera Watts, (1961) através dos estilos de vida do budismo, taoísmo, vedanta e da ioga.

Comparando a “ação” das referidas práticas orientais, esse mesmo autor observa que a principal semelhança entre esses estilos orientais de vida e a psicoterapia ocidental de uns e de outra é provocar mudanças de consciência, mudanças em nossa própria maneira de sentir a nossa própria existência, nosso relacionamento com a sociedade humana e com o mundo natural. Observa ainda que o psicoterapeuta tem-se interessado mais por mudar a consciência de pessoas perturbadas enquanto que as disciplinas do budismo e taoísmo a de pessoas normais, socialmente ajustadas. Contudo, observa também, que os psicoterapeutas tem se dado conta que a nossa cultura é um contexto gerador de doença mental, enquanto uma sociedade voltada para produção de riqueza material individualizada e destruição mútua de sociedades vizinhas, longe de ser a condição ideal de saúde social. (Watts, (1961) p. 22)

Sem ignorar os problemas das populações asiáticas é ainda Watts que nos cita como exemplo uma combinação entre os termos taoístas e budistas sobre o “te” (virtude, graça de viver) enquanto solução individual dos problemas existenciais da angustia humana. Para finalizar lhes deixo a citação de Chuang-tzu selecionada pelo referido autor (Watts, 1995) sobre a essência da libertação e resistência às adversidades e infortúnios da existência humana:

Aquele que compreende o Caminho [o Tao] sem
dúvida dominará os princípios básicos. Aquele que domina
os princípios básicos, sem dúvida saberá como lidar
com as circunstâncias. E aquele que sabe como lidar
com as circunstâncias, não permitirá que as coisas lhe
façam mal. Quando um homem possui a virtude perfeita
[te], o fogo não o queima, a água não o afoga, o frio e o
calor não o afligem, os pássaros e animais selvagens não
o ferem.


Mas prossegue afirmando:

Não estou dizendo que ele dá pouca importância a
estas coisas. Quero dizer apenas que ele distingue entre
segurança e perigo, contentando-se com a fortuna ou o
infortúnio, e é cauteloso em suas idas e vindas. Por conseguinte,
nada pode causar-lhe dano.


Chuang-tzu trad. Watson apud Watts (1995)

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XIANZHILOU Ganoderma lucidum -http://www.superganoderma.com/ (Fev. 2012)

Ver também

- Cinnabaris 朱砂 (Zhusha)

- Dian Kuang - 癫狂

Costa, Paulo Pedro P. R.
Algumas considerações sobre prescrição de psicofármacos por psicólogos.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Specimen Medicinae Sinicae




Andreas Cleyer nasceu na Alemanha, 1634 e faleceu em Jakarta (Indonésia)1698, foi um botânico, médico e orientalista.

Integrante da Companhia Holandesa das índias Ocidentais (Vereenigden Oostindischen Compagnie - VOC) como soldado ganhou fortuna com o comércio internacional no sudeste asiático.

Sua licença para praticar medicina o auxiliou nessa progressão, ocupou o cargo de gerente da farmácia do hospital militar da VOC em Batávia e depois em farmácia da cidade. Publicou estudos sobre diversas plantas asiáticas na “Miscellanea curiosa medico-physica Academiae naturae curiosorum sive Ephemerides Germanicae” entre as quais Ginseng, Chá, Ópio, Acacia catechu entre outras espécies medicinais descrevendo detalhadamente com ilustrações a flora japonesa em um trabalho que permaneceu inédito com publicações parciais.

Publicou como editor dois livros sobre a medicina chinesa:

- Specimen Medicinae Sinicae, sive Opuscula Medica ad Mentem Sinensium . Zubrodt, Frankfurt 1682. uma coleção de traduções feitas pelos Jesuítas do qual foram extraídas as ilustrações acima e:

- Clavis medica ad Chinarum doctrinam de pulsibus / autore Michaele Boymo ... em lucem Europaeam produxit Cl. Dn. Andreas Cleyerus ... . Norimbergae, 1686

Referências

Andreas Cleyer, Wikipedia

Cleyer, Andreas (Livros originais)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

医生 (Médico)

As práticas médicas, tal como as conhecemos, nos registros etnográficos ou descrições de antropólogos e historiadores, confundem-se com a descrição de técnicas corporais, segundo Mauss, interpretadas ou indicadas para os mais diversos fins (higiene, nutrição, prazer, êxtase, defesa pessoal, etc.). Confundem-se também, do ponto de vista da interpretação de práticas culturais, com os rituais referentes aos fenômenos mágicos – religiosos. Podem ser definidas como uma racionalidade (médica) ou um sistema lógico e teoricamente estruturado, além de um comportamento orientado para obtenção e preservação da saúde através de práticas culturais específicas.

Esse breve escrito se destina a contribuir para o entendimento da especificidade da profissão da acupuntura, 针灸医生, o acupuntor [zhēn jiǔ agulha/moxabustão (acupuntura) yī shēng - médico 医生 ] desde suas origens e/ou em seu contexto original partindo do princípio de que não se pode entender a acupuntura senão no contexto da medicina chinesa. A abordagem etnográfica se caracteriza pela observação e registro dos fatos sociais (Mauss) sejam eles acontecimentos históricos, regras e normas ou técnicas de manufatura de objetos, relativas ao uso do corpo e mesmo o conhecimento e a arte que compreendemos como "medicina", tudo registrado como anotações que compõem o diário de campo dos etnógrafos, com ou sem fotografias, e os relatos (ou textos) de informantes legítimos.

Complexidade chinesa

Uma abordagem etno-historiográfica de qualquer aspecto da vida chinesa se depara diante da complexidade de lidar com a mais antiga das grandes nações. As dimensões de sua tradição são mais de 5.000 anos de historia no terceiro maior país da terra em extensão territorial (9,56 milhões de Km2) e a mais povoada nação do mundo (1.074.060.000 habitantes - em 1984 - excluindo Formosa).

O universo lingüístico da Ásia Oriental, segundo Gernet, incluiu 5 grandes grupos: (1) As línguas Altaicas onde se inclui o grupo mongol; (2) As línguas do Nordeste asiático (Japonês e Coreano); (3) As línguas Sino – Tibetanas onde se destacam os grupos Tibetanos – Birmaneses, Chineses e os grupos da Thai e Miao-Yao; (4) As línguas Austro – asiáticas e (5) línguas Malaio-polinésias.

Identifica-se hoje na China 56 Etnias, 55 destas (com 60 milhões de pessoas) reconhecidas oficialmente com seus costumes e estilo de vida cercadas pela população majoritária que se considera chinesa e se auto denomina Han (originária de um grupo do norte que dominou a China por 400 anos), embora mesclados com inúmeros sub-grupos e falando centenas de dialetos como: cantonês, wu e mandarin ou puton-ghua (a língua da burocracia estatal) utilizam a mesma escrita, o que é considerado um poderoso fator da unidade cultural e política, introduzido oficialmente durante o breve governo da dinastia Qin por volta de 200 aC..

Etnomedicina

É muito conhecido e divulgado que um dos primeiros livros de medicina corresponde ao registro das conversas entre Huang Di e seus ministros, descrito também como, médico e mestre Taoísta, Qibo de onde surgiu a obra conhecida atualmente como Nei Jing (内經) (pinyin: Nèijīng) - " O Livro do Imperador Amarelo.

Dados arqueológicos e relatos míticos lendas associam o Imperador Amarelo, Huangdi e seu legado civilizador à etnia (e dinastia) Han, (206 a.C. —220) mas há muitas versões sobre a origem desses textos ideográficos. Alguns estudiosos da história da China acreditam que o Nei Jing tenha sido realmente escrito por um grupo de médicos do Período dos Reinos Combatentes, (dinastia Chou orientais, 721-256 Ac. - Horn; Sussman), época associada à conquista do ferro e dos grandes clássicos da cultura chinesa que originaram o Taoismo (a partir do Tao Te King de Lao Tse por volta de 500 a.C.) e Confucionismo (Confúcio, 551 - 479 a.C.). Os sábios da corte teriam feito uma síntese da tradição oral médica chinesa daquela época, naturalmente face aos recursos da escrita artesanal e instabilidade política da época, sofreu diferentes adaptações e versões.

Para Beau, o controle do ensino médico na corte e criação dos primeiros hospitais datam 160 a C. que corresponde à período dos Estados Combatentes (475-221 a.C.) e somente a partir do ano 624, os estudos médicos foram sancionados por exames, sob autoridade do T’ai-yi-chou (瘳 chōu ? (cura ? 原 fùyuán) - grande serviço médico) que contava na época com 349 funcionários, segundo ele o mais antigo exemplo conhecido de controle do Estado do ensino da medicina. (Beau oc. p....)


[ Frontispício de cópia do manuscrito de Andreas Cleyer's Specimen Medicinae Sinicae, publicado na Alemanha em 1682 - Reproduzido por Needham e Gwwi Djen que observa que o Médico chinês está tomando o pulso do paciente, enquanto o auxiliar está pronto com a caixa de agulhas de acupuntura, moxa e drogas. No primeiro plano vê-se fogão. A imagem ilustra bem a estreita ligação entre pulsologia e acupuntura ]

O médico

O médico cujo ideograma 医生 yī shēng que envolve os significados de ouvir, (conter) instrumento (seta, flecha) em yī 医 e vida, planta crescendo no chão em shēng 生, como vimos, foi uma categoria profissional institucionalmente definida desde a formalização do ensino e prática médica da corte. Contudo, utilizando a conhecida subdivisão das práticas médicas de Kleinman (1980), pode-se distinguir, com o desenvolvimento a própria civilização chinesa, diversas categorias de "médicos" e escolas de medicina, admitindo-se desde o detentor de um saber popular e/ou doméstico, com as variações locais correspondentes à influência das diversas etnias, até o profissional.

Historiadores como Thorwald descrevem os xamãs dotados de poderes secretos que por meio do contato como os deuses afugentavam as doenças enviadas por demônios na era da dinastia Chou (1045–256 a.C.) e comenta que essas práticas se mantiveram por muito mais tempo, pois para a grande massa dos chineses exorcismos e magias constituíam o único recurso que possuíam. Cita com exemplo dessa sobrevivência as anotações de Lun Yü sobre os ensinos de Confúcio destacando um aforismo que diz que: “aquele que não tem persistência jamais se tornará um “médico mago”

Beau, registra que na dinastia dos T’ang (618 - 907) a medicina se dividia em 4 especialidades: os médicos pulsólogos que tratavam da medicina interna e externa, da pediatria e doenças da boca e da garganta; seguidos dos acupuntores; depois dos massagistas que se consagravam também às técnicas respiratórias e da redução de fraturas e os "mestres em sortilégios e tabus" que eram igualmente geomancistas (especialistas em feng shui).


[ Um Médico Itinerante em Tien-Sing.
CHINA ILLUSTRATED
Thomas Allom (1804-1872) ]

A categoria, reconhecida pela existência de uma escola, cânone definido e uma prática profissional, por sua vez inseria-se em diversos contextos sociais, seja de um médico itinerante (ver China Illustrated in 1845), de um profissional estabelecido em uma região ou de um médico do imperador, onde é possível estabelecer distinções ou sub-categorias. São também conhecidos os relatos de textos chineses que distinguem o “médico superior” dos demais, definindo este como o médico sem doentes, ou seja aquele que identifica as doenças por suas causas e atua antes que aconteçam.

A medicina chinesa inicialmente possuía um caráter humanitário e governamental, pois se desenvolveu entre os sábios e nobres e sacerdotes da corte que por sua posição social possuem deveres para com a população, inclusive do controle de epidemias. Paralelamente se desenvolveu a prática de pagamento com honorários diretos ou salários dos contratados por grandes proprietários e o cuidado com os enfermos e pobres em hospitais sobretudo com o avanço do Budismo nas dinastias Han e T’ang.

Um interessante proverbio que retrata esta condição pode ser traduzido como: "se você não pode ser um bom funcionário do governo, seja um bom médico". Segundo Zhen Xueyan  já se acreditou que  Rén ( 仁 benevolência), valor central do confucionismo, é o princípio mais alto da moralidade. A habilidade médica, conhecida como a habilidade de "salvar vidas", foi então reconhecida como uma habilidade ren, pois atendia ao requisito de ren, eliminando a dor das pessoas.


Os historiadores Lyons / Petrucelli identificaram que em registros da dinastia Chou já estava descrita a organização hierárquica dos médicos, eram 9 as especialidades que se ampliaram para 13 no período Mongol. Entre as especialidades não citadas acima por Beau, inclui-se os “médicos” da febres e da imunização contra varíola; os ginecologistas e as parteiras, (uma médica mulher é citada em documentos da dinastia Han) e, a classe inferior dos cirurgiões.

Os referidos autores identificaram ainda cinco categorias: o médico-chefe (que coletava medicamentos, examinava outros médicos e os nomeava); médicos dietólogos (que receitavam as seis classes de alimentos e bebidas); médicos para enfermidades simples (como as dores de cabeça, resfriados, feridas menores, etc.) e médicos de animais. Nas dinastias Chou (1046 — 771 a.C.) e Tang (618 — 907 d.C.) há relatos de registros formais de seus erros e acertos e no séc. VII d.C. era preciso passar por um exame para ser nomeado médico.

O conhecimento médico era considerado um poder secreto que pertencia a cada prático, passados de pai para filho numa relação mestre – discípulo e controlados por associações de profissionais. A primeira instituição destinada à educação médica que se tem registro aconteceu no séc. XI (Dinastia Song, 960 — 1279). Na dinastia Ming (1368 — 1644) cristalizou-se um sistema educativo que permaneceu com poucas mudanças até o ano de 1800, época da fundação da única escola em Pequim. As instituições de ensino da medicina eram destinado às classes elevadas, mas também eram nomeados professores para instruir estudantes de origem humilde.

Naturalmente que ainda há muito a falar das diversas, possibilidades de definição, especialização e contribuições destes profissionais de saúde chineses ao longo de sua história. Serão relevantes estudos sobre o desenvolvimento da alquimia chinesa, da pulsologia e de outras técnicas de diagnóstico que se somaram paulatinamente.

Serão também esclarecedores da forma que possui essa saber tradicional o estudo de momentos específicos da história da China como o combate aos “feiticeiros” (médico – magos) pelo poder imperial e os diversos períodos com aproximações e afastamentos da alquimia chinesa e mesmo da acupuntura à prática hegemônica, bem como a história dos contatos com as contribuições dos gregos, árabes e da medicina européia ou mais recentemente com as conquistas da saúde pública, onde se inclui a incorporação do saber tradicional à moderna medicina, cosmopolita, estatal, com acesso universal, voltada tanto para atenção primária como para reabilitação e intervenções em nível hospitalar.


[ Imagens de cartaz de propaganda governamental 
e da prática da acupuntura por médicos de pés descalços ]


Conheça: Famous Chinese Physicians
http://www.itmonline.org/docs/famous.htm (acesso out. 2016


Bibliografia

Beau, Georges. A Medicina Chinesa. RJ, Ed. Interciencia 1982

Haesbaert, Rogério. China, entre o oriente e o occidente. SP, Ática, 1994

Horn, J.S. Medicina para Milhões. RJ, Ed Civilização Brasileira, 1979

Luz, Madel T. Natural, Racional, Social ; Razão Médica e Racionalidade
Científica Moderna, Rio de Janeiro, Ed. Campus, 1988

Lyons, Albert S.; Pertucelli, Joseph. História da medicina. SP, Manole, 1997

Kleinman, Arthur Concepts and a Model for the comparison of Medical Systems as
Cultural Systems. IN: Currer,C e Stacey,M / Concepts of Health, Illness and Disease. A Comparative Perspective, Leomaington 1986

Mauss, Marcel. As Técnicas do corpo. in: Mauss, M. Sociologia e antropologia. SP, Cosac Naify, 2003

Needham Joseph; GwwiDjen, Lu. Celestial lancets, a history & rationale of acupuncture & moxa. GB, Cabridge Press, 1980

Gernet, Jean. O mundo chinês. (2V). RJ, Lisboa, Cosmos, 1974

Sussman, David J. O que é a acupuntura. SP Record, 1972

Thorwald, Jürgen. Os segredos dos médicos antigos. SP, Melhoramentos, 1990


Zhen Xueyan. Traditional Chinese Medicine and Confucianism, Taoism and Buddhism. Published in Confucius Institute Magazine Number 50. Volume III. May 2017. https://confuciusmag.com/chinese-medicine-confucianism-taoism-buddhism
Aces. Sep. 2019


Wikipédia verbete Huangdi, o Imperador Amarelo c/ contribuições do presente autor.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Dian Kuang - 癫狂

As noções de desvio de comportamento e contato com a realidade, que definem a loucura (psicose), estão presentes em todos os povos. Entre os chineses os conceitos de sábio e "tonto" (愚人, yu ren, fool) podem ser identificados nos provérbios de Confúcio (Analectos) ou textos de Chuang Tse e Lao Tse, a exemplo de "O velho tonto que removeu montanhas" e o "Confúcio e o louco".

Na primeira fábula valoriza-se a persistência e vontade abnegada de um homem que parecia tolo por não desejar recompensas e, sobretudo por entregar-se a uma tarefa que parecia impossível (remover montanhas para encurtar uma estrada), por sinal acaba conseguindo com ajuda divina e de uma geração de seguidores. A segunda história, também recontada por Chuang Tsé cita um episódio vivido por Confúcio. Relativiza o comentário de um louco, que afirma que a sabedoria só faz sentido num mundo onde seja valorizada, de certo modo reafirmado a máxima de Lao Tsé que diz: os homens rudes riem do Tao como se fosse tolice e os homens sábios o reconhecem.

A MTC – Medicina Tradicional Chinesa, também aborda os Distúrbios Mentais como sofrimento e dano emocional. Atribuem, sobretudo uma agressão a função do Shen (coração) geralmente causada pelo fogo, flegma ou vento. Os textos modernos, como o livro dos Quatro Institutos produzido pelo governo revolucionário para divulgar a acupuntura, já utilizam, porém aproximações aos conceitos ocidentais de psicose, depressão, mania e histeria. Conceitos, diga-se de passagem, ainda sem consenso no âmbito da própria psiquiatria / psicologia deste nosso lado poente do hemisfério.

A "Histeria", no referido Livro dos quatro institutos, é descrita como um ataque repentino, sensação de sufocamento, afonia, convulsão, síncope, um típico distúrbio mental provocado pelo fogo, repressão de emoções, distingue-se da mania Kuang que é uma doença do vento com fígado e rins deficientes, ou seja que requer sedação - tonificação de seus respectivos meridianos.

Observe-se que a MTC assinala a relação da Mania, como da depressão (retraimento - desorientação/loucura) num quadro denominado Dian Kuang (癫狂), agitar-se de modo selvagem e permanecer calmo, Dian (癲). Esse termo corresponde à ideogramas associados a confusão, colisão, erro, embotamento e "divinação", ao que vem da divindade oráculo. Observe-se essa mesma expressão de relação com o sagrado estava também presente entre os gregos, igualmente identificada à Epilepsia – Dian Xian (癲癇) ou Yang Dian Feng (羊癫风) que poderia ser traduzida literalmente por "vento - cabra - louco". (Scott)

Na análise dos referidos caracteres feita por Maciocia o ideograma “dian” é composto por “zhen” corresponde ao ideal taoísta de homem gentil; “ye” ou alto da cabeça, através do qual a alma do homem amável sai e “bing” o caractere para doença representando em síntese a doença, onde “perde-se” a alma através da cabeça (perder a cabeça) e Kuang, incoerências de cachorro louco. (Maciocia).


Assim como na psiquiatria moderna (para alguns), supõe-se controlar as depressões, (melancolia) e manias ou mesmo a psicose maníaco depressiva apenas com psicofármacos, há quem acredite que somente o tratamento através com as agulhas da acupuntura, pode-se controlar o(s) processo(s) patológico(s) denominados por eles como “Dian Kuang” que também correspondente à concepção moderna de transtorno bipolar.

O antigo "Ling Shu", apresenta uma série de pontos à ser utilizados por acupuntura e moxabustão, recomenda também a sangria (dispersão) em casos de agitação. Nos comentários de Ming Wong à esse livro há também a recomendação ao entendimento do Dian Kuang no universo mental de outrora. Segundo ele a “loucura” é um termo vago que evoca o “vento” e a concepção chinesa não escapa a essa regra. O termo “feng” (vento - 风) significa loucura (envolvido pelo caractere “bing”. O doente está dominado pelo vento que suscita as perturbações mentais é preciso então extirpar essa energia perversa. (Ming Wong).

Naturalmente considero que são preciosos os critérios de diferenciação das diversas causas e promissores o tratamento através da acupuntura, fitoterapia e moxabustão da medicina chinesa, contudo como ocidental e profissional de saúde mental não é possível ignorar as descrições das alterações de comportamento da psicopatologia e pensar em formas de psicoterapia (cognitivas, comportamentais ou psicanalíticas) ou mesmo nas formas de aconselhamento (prescrição comportamental incluindo os familiares), quando se lê por exemplo no Nan Ching, o clássico das dificuldades:

...na “loucura” a pessoa raramente descansa ou não sente fome. Ela falará de si mesma como ocupando uma posição elevada e exemplar. Ela mostrará sua sabedoria especial e terá um comportamento arrogante e insolente. Ela rirá – e terá prazer em cantar e fazer música – sem razão, andará sem rumo sem descansar...

ou: na “epilepsia” (Dian) os pensamentos da pessoa são tristes. Ela se deita e olha diretamente para frente...

Um bom acupunturista deve não só dominar o processo de diagnóstico para distinguir as diferentes formas de intervenção com agulhas nos pontos apropriados ou demais técnicas na MTC, mas também, com já havíamos dito antes aqui nesse blog, buscar na meditação, estudo de sí e conhecimento filosofia oriental, a atitude reflexiva correta para um aconselhamento para o desenvolvimento progressivo de uma modificação de estilo de vida ou o aprendizado de hábitos saudáveis.

Lhes deixo essa reflexão do Tao Te Ching:











Um verdadeiro homem de bem (o Te / A virtude) não é “consciente” da sua bondade; por isso mesmo é bom (É isso que o Te é)

A virtude que se afasta da humildade (Ao Te humilde não falta o Te) não é a virtude (É o que o Te não é).

Um verdadeiro homem bom não faz nada para ser;
não obstante não deixa nada sem fazer.

Um homem tolo (os mais desprovidos de Te) está sempre fazendo, (sonhando/ planejando); não obstante muito fica sem fazer

Quando um verdadeiro homem amável faz algo,
não deixa nada sem fazer

Quando um homem das duras penas da lei faz algo, deixa muito sem fazer.

Quando um homem das aparências faz algo, exige que lhe respondam.

Portanto quando se perde do Tao, vem a virtude
Depois da perda da virtude, vem a bondade
Depois da perda da bondade, vem a justiça.
Depois da perda da justiça, vem o rito.

O rito é a aparência da fidelidade e da confiança (a casca da fé e lealdade) mas é também a fonte da desordem. (o começo da confusão).

A inteligência previdente (o poder preditivo da ciência) é a flor do Tao, mas é também o começo da estupidez (o princípio do desatino).

Assim o grande homem interessa-se pelo fundo e não pela superfície.

Pelo fruto, mais que pela flor.

Certamente prefere o interior, ao exterior.


XXXXXXXXX Bibliografia XXXXXXXXX

REPÚBLICA POPULAR DA CHINA - MINISTÉRIO DA SAÚDE/ QUATRO INSTITUTOS (Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjig; Academia de Medicina Tradicional Chinesa). Fundamentos essenciais da acupuntura chinesa. SP, Ed. Ícone, 1995

MACIOCIA, GIOVANNI The Psyche in Chinese Medicine,Treatment of Emotional and Mental Disharmonies with Acupuncture and Chinese Herbs. UK, Hardbound, Elsevier, 2009

MERTON, THOMAS. Via de Chuang Tzu.RJ, Petrópolis: Vozes. 1978

SCOTT, JULIAN. Acupuntura no tratamento da criança. SP, Roca, 1997

XXXXXXX Clássicos XXXXXXXX

CONFÚCIO. Diálogos. Tradução Anne Cheng / Alcione Soares Ferreira. SP, Ibrasa, 1983.

LING-SHU, Base da acupuntura tradicional chinesa. Tradução e comentários de MING WONG. SP, Andrei, 1995

NAN CHING. O clássico das dificuldades. Tradução do chinês e notas de Paul U. Unschuld. SP Roca, 2003

LAO TSE (LAO TZU) Tao Te Ching. Tradução de António Melo. Lisboa, Estampa, 1977 / Tradução (pt) de Waldéa Barcellos a partir da tradução americana. SP, Martins Fontes, 2002 / Edição bilíngue, tradução de Maria Lucia Acaccio. SP, Isis, 2003

Desenhos de:

Vincent Van Gogh (1853-1890) - Sorrow, 1882

Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828), Frick Collection

Ver também:

Acupuntura e psicologia

Dian Kuang - Giovanni Maciocia

Acupuncture for schizophrenia (Cochrane Library)

...neste blog

- Plantas calmantes história e composição

- Cinnabaris 朱砂 (Zhusha)