Paulo Pedro P.R Costa,
um texto ainda preliminar destinado a um estudo monográfico
Resumo
Considerando a relação entre a
cultura e a linguagem explora-se a concepção de cérebro na medicina tradicional
chinesa a partir de uma revisão de alguns artigos principalmente do livro da Professora
Elisabeth Rochat de la Vallée. Discute-se a dificuldade de integração com a
neurociência e vantagens da utilização das ferramentas da etnomedicina e
antropologia estrutural que toma como referência os caracteres chineses enquanto
conceitos dos textos clássicos da medicina chinesa. Advoga-se a utilização das
ferramentas da antropologia/ etnologia como estratégia orientadora da pesquisa
e articulação com a neurociência.
Palavras chave: acupuntura, cérebro, mar de medula,
etnomedicina
Introdução
É comum entre nós baianos a
atribuição ao "vento" a causa de enfermidades em especial o "acidente
vascular encefálico" e a paralisia facial periférica (ou de Bell).
Na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), assim denominada por distinção das
práticas hegemônicas cosmopolitas, também praticadas na China atual, o Acidente Vascular Cerebral (AVC) ou Acidente
Vascular Encefálico (AVE) é, também frequentemente interpretado como um dos
distúrbios causados pelo "Vento" (风 Fēng). Distingue-se
ainda, entre outras síndromes, a paralisia facial após um AVC como causada por
Vento Interior, e a paralisia de Bell é atribuída a Vento Externo. (Dashtdar et
al, 2016; Gomes Neto)
Numa investigação superficial,
anedótica, poderia passar como mais uma coincidência de uso de metáforas entre a
medicina de matriz afro-indígena ou a medicina de origem grego/europeia-jesuítica
e a medicina tradicional chinesa. Contudo uma perspectiva de estudo etnológico revela
a especificidade do uso deste
símbolo em cada contexto cultural, apesar da notável “coincidência”.
O estudo da MTC por ideogramas,
caracteres chineses ou sinogramas, para utilizar uma terminologia mais adequada
(Alleton, 2010), provenientes de antigos textos, numa investigação sistemática comparativa
destes, com o que vem diversamente sendo indicado na prática clínica da
acupuntura, pode constituir-se ainda numa possibilidade de evidenciar um melhor
uso, e/ou facilitar encontrar a comprovação empírica (experimental), do que já
vem sendo dito e praticado a milhares de anos.
Dezenas de estudos clínicos e
anatômicos ocidentais tem evidenciado efeitos específicos estudando ponto por
ponto. Por exemplo uma busca rápida pelo ponto (E36) “St36 ZuSanLi, Zusanli” no
PubMed encontrou 1.260 resultados.
Para Yousef (2024) poucos
trabalhos, ou nenhum, tentaram compilar ou avaliar representações históricas do
cérebro fora do mundo ocidental, portanto, mais investigações históricas são
necessárias para equilibrar essas perspectivas e obter uma visão histórica
completa da neuroanatomia e/ou uma compreensão mais profunda do surgimento
histórico da neurociência. Ao que podemos acrescentar obter maior
resolutividade ou eficiência clínica nos tratamentos.
Nesse ensaio nos limitaremos a
descrição da concepção do cérebro e suas funções a partir do livro de Elisabeth
Rochat de la Vallée, “Fu Extraordinários” publicado em 2024 com o subtítulo “o cérebro
e outras funções essenciais na medicina chinesa” e alguns outros textos
auxiliares.
Compreendendo o sistema nervoso (patologias)
Observe-se entretendo que o
estudo transcultural do encéfalo, cérebro ou sistema nervoso acrescenta uma dificuldade
a mais, face a diversidade de teorias e práticas da medicina hegemônica
ocidental para interpretação intervenção nas patologias deste órgão, basta
citar para verificação desta afirmação, a multiplicidade de especialidades médicas
e paramédicas destinadas aos seu tratamento (anestesiologia, neuropsicologia,
neurologia, psiquiatria, fisioterapia fonoaudiologia etc.) além da já citada
diversidade teórica, a exemplo da neuropsicanálise, psicofarmacologia,
reflexologia soviética, etc. muitas em vias de integração à neurociência.
O capítulo de citado livro de
Vallée intitulado “patologias do cérebro” (p.107-111) reúne estudos e citações
de textos antigos descrevendo os mesmos sinais e sintomas tratados por nossos
especialistas em neurociência, como dito, neurologistas, psiquiatras fisioterapeutas
entre outros. Há de se refletir se estamos diante de outra notável
“coincidência” (?) ou melhor diante da invariância biológica ou, de uma
caraterística cultural universal (Royaumont, 1978) de compreensão deste órgão.
Um elemento natural-cultural responsável talvez pelos símbolos descritivos dele,
o cérebro, presentes em todas as culturas,
São estes os sinais e sintomas
ou patologias, aqui descritas por ordem de citação no referido texto: (1) febres
(processo em que o cérebro e as medulas são cozidos - referido no Suwen (cap.35),
além das febres intermitentes (encefalites, febre de origem central?) essa
patologia está associada segundo esta referência, a problemas nos orifícios
(incontinências, distúrbios da visão audição ou deglutição?); (2) os diversos
problemas causados por “vento” já referidos; (3) dor de cabeça, dor nos dentes
nas bochechas (trigeminalgia?); (4) vertigens com e sem liquido nasal transparente e com coriza ou com líquidos amarelos
cheirando mal (rino-sinusites?); (5) fraqueza,
adinamia, exaustão por ”vazio de essências ao nível do cérebro” (típico sintoma
de diversas patologias inclusive neuropsiquiátrica); (6) ataque fulminante
associado à dor no coração atingindo pés e mãos; (7) dor de cabeça constante
(enxaquecas?). Os termos entre parêntesis com interrogação são interpretações
do presenta autor.
No capítulo que analisa
“textos médicos da dinastia Qing”, Vallée refere que as essências dentro da
cabeça permitem o bom funcionamento do mental e da consciência ...”penetradas
de Luz (Jing Ming) permitem a verdadeira inteligência e aos “Espíritos”
iluminar os órgãos dos sentidos e o pensamento. Adiante explica: “o cérebro
desenvolve as atividades psíquicas e mentais em função do bom estado do
Coração, Fígado e Rins. (p.120-121) Neste mesmo capítulo menciona ainda a
célebre “amnésia da infância” (descrita detalhadamente por S. Freud ao longo de
sua obra) e os casos de agenesia cerebral (malformações do tubo neural?), e
retardos do desenvolvimento mental. (p.121).
Nessa última categoria é bem divulgado, o
texto do “livro do imperador amarelo” que relaciona a idade dos pais à
vitalidade dos filhos. O que na medicina hegemônica cosmopolita é um fator reconhecido
tanto por obstetras como por geneticistas. (Martins, 2022)
Este capítulo sobre patologias
do cérebro poderá ser expandido reconsiderando a proposição do estudo do efeito
de pontos específicos por associações clínicas e anatômicas a partir de artigos
específicos e/ou recomendações de apostilas didáticas e manuais para formação
de acupunturistas. Contudo, numa perspectiva etnológica pode ser bem mais
compreendido e com resultados clínicos mais eficazes se identificarmos as
patologias aqui descritas, na ótica chinesa, ou seja, de quem as descreveu,
naturalmente superando a barreira dos idiomas e culturas.
Questões metodológicas
Em outro texto analisando as
dificuldades do ensino – aprendizagem da acupuntura no ocidente transcrevi: o
idioma (língua) segundo Matoso Camara Jr. apresenta-se como um microcosmo da
cultura ...”tudo que a cultura possui se expressa através da língua; e esta é
em si mesma um produto cultural”. Sem resolver tal paradoxo não há de se ter
uma perfeita compreensão da cultura chinesa e de suas tradições. Há que se
buscar uma cooperação entre essas ciências. Como disse o mestre Lévi-Strauss,
se houvesse uma correspondência absoluta entre a língua e a cultura, os
antropólogos e linguistas já teriam se dado conta disso. (apud: Costa, 2010)
Diante de tais dificuldades e
inquietações, o aforismo hipocrático nos traz certa conformação: “a arte é
longa e a vida breve”...Porque etnologia e linguística? Por que se trata da
tradição ou de uma outra cultura e outro idioma. Porque, antropologia e
história?, por que, diga-se de passagem, um ditado chinês “o passado é um país
que não mais existe”. Estudamos a China Imperial e distintas dinastias, além de
ser uma arte médica feita e refeita nos quatro cantos do mundo. Esta, a meu
ver, é a razão para privilegiarmos a antropologia médica (estrutural,
etno-linguística, antropologia da saúde etc.), Etnologia para melhor
compreender a MTC e a acupuntura, sobretudo as razões desta arte - técnica pouco se transformar ao longo de
milênios.
Assim sendo recomendo-me,
contemplo, e admiro o trabalho da Professora Elisabeth Rochat de la Vallée, que
nos proporcionou a principal fonte deste estudo, embora saiba que somente a
prática clínica (o que se aprende com cada paciente) traz o sentido. Mas
reafirmo a suposição de que uma teoria etnomédica (sino-antropológica)
associada, pode nos auxiliar a melhor compreender e organizar os 101 caracteres
da Medicina Tradicional Chinesa (MTC) que ela propõe como conceitos-chave.
(Vallée, 2019)
Certa feita calculei que um
especialista em MTC, que reconheça o nome original dos pontos e meridianos da
acupuntura, o nome das principais síndromes de acordo com os princípios do
Yin/Yang e Cinco Elementos (ou movimentos - 五行wǔxíng) e
pelo menos o nome de uma centena de plantas, ervas e formulações chinesas deve
reconhecer uma média de 500 "ideogramas". Por outro lado, segundo o
Instituto Confúcio da UNESP, considera-se que alguém que domine a língua
chinesa escrita, conheça em torno de 2.000 "ideogramas" (Costa, 2010)
A Consciência e o Coração
Apesar da importância de abordarmos
o tema da consciência e percepção, num estudo sobre o cérebro e sistema nervoso,
por hora deixo apenas anotado a importância que ela evidenciou da percepção
interpretando o “valor” do olho (orifício yang), o olhar como porta de entrada
do cérebro e do coração. O olho enquanto lugar de acumulação dos "Mai”
(caminhos) ancestrais – convergentes, juntamente como a luz do ouvido - palavra
sem som, mencionada por C. G. Jung (1875 – 1961) no livro “O Segredo da Flor de
Ouro", a porta de entrada ou, o acesso à essência da psique. Uma análise
desta concepção do modo ocidental implicaria em toda uma revisão da concepção
de consciência, percepção e emoção na ótica ocidental-psicanalítica, o que, por
sua complexidade, merece um estudo específico.
Transcrevendo literalmente o
parágrafo do citado livro comentado por Jung, apenas para destacar a
importância da relação percepção / e órgãos dos sentidos:
Há uma luz do olho e uma luz
do ouvido. A luz do olho é a luz unificada do sol e da lua, fora. A luz do
ouvido é a semente unificada do sol e da lua, dentro.... Ambas têm a mesma
origem e apenas se diferenciam pelo nome. Por isso a compreensão (ouvido) e a
clareza (olho) são, ambas, uma e a mesma luz atuante. Do
Tai I Gin Hua Dsung Dschi, Jung, 1992 p.112
Para entender a relação mente-
coração ou transtornos mentais e emoções, atente-se para o aviso de Vallée para
acupunturistas, de que o pensamento claro e a cólera ou violência da
ira/irritabilidade não correspondem exatamente ao Fígado (肝 gan) e ao Baço-Pâncreas (脾 pí). Se assim entendermos
(apressadamente) estaremos seguindo o caminho da medicina ocidental, analítica
especializada em órgãos e segmentos metabólicos. Na Medicina Tradicional
Chinesa quando se se fala do Coração, se fala da pessoa ou tudo que compõe o
Ser. (Vallée oc. p. 127)
A MTC trabalha com
"sopros" (氣 Qi),
não é o Fígado que está com raiva, é a pessoa. O equilíbrio deve ser
reconquistado pela análise da relação entre os elementos. No caso o sopro da
madeira em relação ao fogo...etc. E especialmente quanto, a categoria nossa
conhecida na Bahia, (Br), o "vento” no cérebro, ou outros fatores
perversos (patogênicos), temos que: segundo Valllée, os fatores patogênicos
residem (invadem) "lugares" pelo fato de lá haver uma insuficiência:
...”quando os "sopros" que sobem estão em insuficiência, o cérebro
não está impregnado daquilo que faz sua plenitude”.
Para compreender "insuficiências"
ou fluxos de ascendentes ou descendentes temos que recorrer a textos básicos de
acupuntura tipo o "livro dos 4 institutos" elaborado pelo Ministério
da Saúde da China, ou dezenas de outros bons manuais que pelo menos trazem os
nomes originais dos 經 jīng
Canais (Meridianos), pois comoveremos a lógica de seus nomes, corresponde a
lógica da relação entre eles.
Somente para ilustrar e
dimensionar a complexidade dessa tarefa (aprendida normalmente em cursos de um
a dois anos) e deixar claro que na MTC, não há como separar a mente do corpo
com todos os seus órgãos e vísceras. Elaboramos as gravuras (aqui mostradas)
com cerca de meia centena dos ideogramas essenciais a compreensão das relações
mente – corpo ou mente-cérebro-espírito.
O nome dos canais e a direção
(ascendente ou descendente) são indicados pelas setas e os seus
nomes-ideogramas compõe-se do nome dos órgãos e a circulação do Qi “energia” ou
sopros que circula sequencialmente. 太 Tài -
Maior ;少 Shǎo
- Menor ; 厥 Jué –
Atenuado ou Terminal; e 明 míng – brilhante ou pleno.
(ver ilustração)
Lembrado ainda da observação de Vallée, de que os sopros
Yang que sobem a partir do tronco e vem até a cabeça, e os sopros Yin ao subir
vem a ser, de certo modo um Sopro Yang, por assumir características Yang de “energizar”
ao conduzir os necessários líquidos nutritivos (Yin).
O que no ocidente denominamos
como emoção, para cujo estudo inclusive há vários modelos teóricos conflitantes,
na MTC corresponde a atividade de órgãos específicos em relação a totalidade do
organismo, ou melhor da pessoa, como dito antes por Vallée, reagindo simultaneamente
a fatores externos, tipo estações do ano ou momentos do dia-noite, como forma
de adaptação.
Da mesma forma a psique,
espírito ou shén; 意 (abrigado pelo Coração /
"Espírito Supremo") é traduzível
por atividade de pensamento, consciência, auto - percepção, sentimentos, tudo o
que depende do coração (no sentido poético e popular deste), sem estar,
entretanto, dissociado dos demais órgãos. Por esta relação também são denominados
como Cinco Espíritos (五神 wu shen),
organizados conforme o referido ciclo yin/yang e/ou dos 5 movimentos (五行 wǔ xíng) do
pentagrama. Sendo 魂 hún –
alma etérea pertencente ao fígado; Yi 意 intelecto, foco, processamento
de informações associado ao Baço 脾 Pí; 魄 Pó, a "Alma
Corpórea" associado ao pulmão (肺
Fèi)
ligada aos instintos de sobrevivência, sensações físicas, ansiedade, calma; 志
Zhì força de vontade, determinação de metas planejamento associado ao rim肾 Shèn. (Maciocia, 2015)
Portando o "Shén" (意) indica também, como diz
Maciocia, o complexo de todos os cinco aspectos mentais e espirituais de um ser
humano, ou seja: o próprio Shén, o Hun, o Po, o Yi e o Zhi. Sua relação é o que
se traduz como "Espírito". (Maciocia, 2015)
Interessante registrar, sendo
válida ou não a hipótese da existência de um contato entre médicos ou da
medicina da Grécia com China (Needham; Gwei-Djen). Que também na Grécia antiga
a compreensão que se tinha do cérebro, não explicava o fenômeno dos sentimentos
e emoções. Hipócrates (460 - 370 a.C) e Aristóteles
(384 - 322 a.C.) divergiam quanto ao papel central do Cérebro vs. Coração. Para
Hipócrates o cérebro era a sede da inteligência, da consciência e das emoções.
Para ele, o coração era um órgão importante, mas secundário no processamento
mental. Aristóteles, por sua vez, defendia que o coração era o órgão mestre.
Como o coração é central, move-se e é quente, Aristóteles concluiu que ele
deveria ser a sede da alma (psique), dos sentidos e do intelecto. O cérebro,
para ele, servia apenas para resfriar o sangue.
A concepção aristotélica foi
tão forte que só começou a ser derrubada de fato no Renascimento, especialmente
quando William Harvey provou a circulação sanguínea em 1628.
Naturalmente há muito ainda há
muito ainda a se dissertar sobre a dinâmica dos sentimentos e os meridianos,
inclusive equacionando a forma de intervenções do que consideramos transtornos
mentais, e o potencial terapêutico da acupuntura e MTC. Apesar da ampla produção
de artigos relacionado tratamento sintomas como ansiedade, insônia, depressão,
dependência química à drogas, alguns manuais de acupuntura a exemplo do livro
dos quatros institutos adotam a terminologia psiquiátrica tradicional, com
termos como histeria, mania, psicose entre outros. Possivelmente a inclusão do
sistema da classificação de patologias na concepção da MTC a ser incluída no
CID-11 (Classificação Internacional de Doenças - 11ª Revisão) nos auxilie a
elucidar tal questão. (Reddy; Fan, 2022)
Aguardando: “Elisabeth Rochat de la Vallée. Duplo
Aspecto do Coração e as Emoções na Medicina Chinesa. SP: Editora Inserir,2020”
p rever
脑 (nao) encéfalo,
cérebro (o sistema nervoso central)
Segundo
Vallée, neste livro que estamos estudando para este ensaio, o ideograma de cérebro (脑 Nao) na sua constituição está relacionado a cabeça (crânio) e corpo.
Numa perspectiva da filologia, ou de evolução da linguagem, corresponde mais a
descrição de partes do corpo que das idéias médicas, de modo que associações à forma
e função do órgão foram desenvolvidas posteriormente. Inclusive é possível
assim se constatar historicamente, de forma análoga o que ocorreu com o vocábulo
grego encéfalo ou enkephalos (ἐγκέφαλος), que significa literalmente "o
que está dentro da cabeça". Assim como com a palavra cérebro, que vem do
latim cerebrum, com o mesmo significado de conteúdo ou parte da cabeça, teria
surgido a partir da partícula Indo-Europeia “ker”, que pode ser traduzida por
“o alto da cabeça” somada ao sufixo – brum ou -bhero significa “levar”.
O Cérebro compreendido como "mar
de medula" 髓海 - suǐ hǎi na Medicina Tradicional
Chinesa, por sua vez já expressa, características fisiológicas ou funcionais do
órgão e relação como os outros órgãos e sistemas do corpo, pois é compreendido
como um dos quatro mares, como veremos.
No “Livro do Imperador Amarelo”,- o “Huang Di” (黃帝) “Nei Jing” (内經) – Ling Shu - Capítulo 33 Hai Lun.
Lê-se sobre os Quatro Mares:
O Imperador Amarelo
perguntou a Qibo: "Ouvi teu discurso a respeito da terapia de puntura, e o
que disseste não discordava das energias dos canais Ying e Wei. Já que os doze
canais se conectam internamente com os cinco órgãos sólidos e com os seis
órgãos ocos, no exterior com a ligação das quatro extremidades e das juntas,
podes coordenai-as com os quatro mares?"
Qibo respondeu:
"No corpo humano, existem quatro mares e doze canais. Os doze canais fluem
em todas as direções, mas finalmente convergem aos quatro mares; existe o mar
do leste, o do oeste, o do sul e o do norte, por isso se chamam quatro
mares". Bing Wang. p.654-655
Em outros capítulos do Huang Di Nei Jing Ling Shu, o Cânone Espiritual da Medicina Interna do Imperador Amarelo, os quatro mares são listados da seguinte forma: Mar de Qi; Mar de Grãos e Fluidos; Mar de Sangue e Mar de Medula. Segundo McAlister, esses “mares” ainda permanecem um tanto enigmáticos no campo da medicina oriental, pela simples razão de que são descritos no texto original nos termos mais minimalistas possíveis e quase exclusivamente em termos de sua patologia. (McAlister, 2014)
Um conhecido site de difusão e
cursos de acupuntura, o “Yin Yang House” assinala que esta classificação se
integra a outras teorias que agrupam pontos de acupuntura com base em suas funções
e/ou outras relações com ênfase prática clínica e informações diagnósticas,
portanto são usadas, juntamente com outras teorias e não mencionadas (Yin Yang
House, 2026)
No caso do mar de medula, como
vimos em Vallée os sintomas que se manifestam em caso de depleção, correspondem
de certa forma à descrição geral dos sinais e sintomas de problemas
neurológicos e como observa McAlister, típicos também do envelhecimento tais
como: tontura, zumbido nos ouvidos, perda de visão, sensação de vertigem, dor
nas pernas, letargia e sonolência.
Segundo a Yin Yang House e o Livro
dos Quatros Institutos os pontos do Mar da Medula são (VG 20 百會 Bai
Hui, e VG 16 風府 Feng Fu).
Sendo o VG20 indicado para
distúrbios mentais, apoplexia, dores de cabeça, tontura, vertigem visual, obscurecimento
da visão, zumbido no ouvido, obstrução nasal, dor no vértice, insolação,
convulsões entre outras indicações. Sendo o VG16 風府
cujo
ideograma-nome significa porta ou palácio do vento, é o ponto principal para o
vento, seja externo ou interno, afetando particularmente a cabeça e o pescoço.
Indicado para cefaleia por vento-frio, rigidez na nuca, aversão ao vento; bem
como tontura, vertigem, dormência, espasmos e tremores segundo a Yin Yang
House. O livro dos 4 institutos apresenta para este as mesmas indicações que o
VG 20.
Maciocia, ao descrever o “mar
de medula” no capítulo “Função dos órgãos yang extraordinários (os quatro mares)
”, explica que cada um deles é ativado por pontos específicos superiores e
inferiores. (Maciocia 2015 p.185). Poderíamos ainda incluir, de outros manuais,
informações mais ou menos coerentes com estas, contudo não podemos esquecer da
particularidade de cada diagnóstico, a especificidade de cada pessoa. A MTC
assim como outros sistemas das medicinas orientais (a exemplo da Ayurveda) e
antigas, feito a Homeopatia e Naturismo trata doentes e não doenças.
Outra questão relevante, a ser melhor compreendida por
estudo dos caracteres chineses é o sentido e uso do “ideograma” mar (合 - Hé) nos pontos Shu Antigos (输穴 - shū xué). Apesar de
usualmente ser traduzido por mar seguindo a metáfora (井 Jǐng / Poço); 荥 Yíng
(Manancial/Nascente): 俞 - Shū
Riacho/ Transporte). Alguns dicionários (a exemplo do Yabla Dictionary) o traduzem por reunir, ser
igual a, unir, o todo (whole) distinto portanto de Mar 海 Hǎi (oceano)
Como pode se constatar é
esclarecedor a distinção por fontes originais os 5 pontos mar dos 12 meridianos
principais; os pontos dos 4 mares e as próprias patologias associadas ao mar de
medula, que como já explicado não corresponde exatamente ao que consideramos na
medicina ocidental doenças neurológicas e psiquiátricas.
Observe-se também que a meta
deste ensaio é a proposição de conhecer os clássicos da MTC destacando a
importância dos caracteres chineses ou sinogramas, (embora aqui utilizamos
indistintamente também o termo ideograma face a sua ampla divulgação). Tal
conhecimento, supomos, aliado a uma investigação sistemática de resultados clínicos
da acupuntura, pode constituir-se como uma forma de aperfeiçoamento e
compreensão do que se classifica como patologia nos sistemas de classificação
ocidental (CID).
Um mérito inquestionável do
livro texto de Vallée é deixar bem claro que não podemos analisar o cérebro
isolado dos demais órgãos fu extraordinários. A teoria da medicina
tradicional chinesa utiliza esta categoria para classificação dos órgãos e
vísceras do corpo humano, ou melhor utiliza dois caracteres zang e fu (fou), em
chinês simplificado,
脏 e 腑; e em
chinês tradicional: 臟 腑; em pinyin : zang fǔ.
Órgãos Fu extraordinários por
que apesar de possuir características comum aos Yin são destinados ao
transporte a transformação, são extraordinários porque guardam, tesaurizam
(cang 藏) as essências
e as "reenviam sem jamais deixarem escorrer para o lado de fora (xie 泄), na concepção chinesa (entesouram).
Sendo os seis órgãos yang extraordinários (ou 4 mares) o cérebro, a medula,
ossos, "mai" (vasos da circulação vital), vesícula biliar e útero. Caracterizam-se
como uma matriz (mares?), sua função constitutiva, reapresentações, manutenção
da organização intrínseca da vida, a água e líquidos vitais (sangue, esperma)
segundo Suwen 11 Vallée o.c. p. 47)
Maciocia descreve os seis
órgãos yang extraordinários, (Útero; Cérebro; Medula; Ossos; Vasos Sanguíneos;
Vesícula Biliar) como assim chamados porque funcionam como órgão Yin, ou seja,
armazenam a essência Yin e não a excretam, armazenam algum tipo refinado de
essência, tais como medula, bile ou sangue e, estão todos direta ou
indiretamente relacionados com o rim,
Outro mérito notável é o
destaque que apresenta sobre a natureza das essências Jing e a própria natureza
da medula que se “acumula” no cérebro. A relação excesso (numa correta
interpretação) e depleção.
Analisando o caractere medula
ela demonstra a relação deste com a algo que flui, o que explica a relação com
o “mar” e também com osso. A medula os ossos que também representam a
capacidade de locomoção e postura Vallée assinala que o caractere osso inclui o
ideograma carne (oc.p165). O que nos permite associar com sistema musculo
esquelético, e alterações de postura e movimento cujas alterações são também
típicas do envelhecimento e neuropatologias ou mesmo em em situações de vida e
morte como observa McAlister. (oc.2014)
Para concluir
O estudo do Cérebro 脑
nǎo, este misterioso órgão que é o encéfalo, um quase desconhecido também para nós
ocidentais, compreendido como "mar de medula" 髓海 - suǐ
hǎi na Medicina Tradicional Chinesa revela-se com essencial para o entendimento
das evidentes relações na acupuntura com a neurociência. Não somente por
contrapor-se a tendência de superespecializações tanto na medicina ocidental,
decerto influenciando a formação de fisio-acupunturistas acupunturistas-psicólogos,
dermato-esteticistas etc. evidenciando a demanda de compreender o ponto de
vista, holístico, humanizado, (que vê doentes e não doenças) e próprio da
medicina chinesa. Por isso mesmo requer um estudo indissociável de uma leitura
linguística antropológica. A leitura do livro que tomamos como referência e
motivo deste ensaio, sem trocadilhos, é um livro extraordinário, um texto guia
para aventura transcultural de compreender antigos textos da medicina tradicional chinesa e atual pois não há retorno para difusão
da acupuntura, resta a nós ocidentais e orientais desenvolver sua melhor
utilização.
Elisabeth Rochat de la Vallée. Fu Extraórdinários, o
cérebro e outras funções essenciais na medicina chinesa - Qi Heng Zhi Fu 奇恆之腑 SP: Inserir, 2024
OUTRAS REFERÊNCIAS
Elisabeth Rochat de la Vallée. Os Fu Extraórdinários - Qi
Heng Zhi Fu 奇恆之腑
http://www.elisabeth-rochat.com/docs/37_fu_extraordinarios_port.pdf
Elisabeth Rochat de la Vallée
Artigos, textos, imagens, divulgação de eventos, publicações, informações e
links. Estudos dos textos clássicos chineses
https://elisabethrochat.blogspot.com/
Elisabeth Rochat De La Vallée
101 Conceitos-Chave da Medicina Chinesa
SP: Inserir, 2019
Alleton, Viviane. Escrita chinesa.RS: L&PM, 2010
China, Ministério da Saúde (Livro dos 4 Institutos, 1964)
Fundamentos Essenciais da Acupuntura Chinesa SP: Icone, 1995
Costa, Paulo Pedro P. R. Aprendendo acupuntura no ocidente. Blog: Acupuntura,
ciência & profissão, 2010 https://etnomedicina.blogspot.com/2010/08/aprendendo-acupuntura-no-ocidente.html
Dashtdar M, Dashtdar MR, Dashtdar B, Kardi K, Shirazi MK. The Concept of Wind
in Traditional Chinese Medicine. J Pharmacopuncture. 2016 Dec;19(4):293-302.
doi: 10.3831/KPI.2016.19.030. PMID: 28097039; PMCID: PMC5234349. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5234349/
Gomes Neto, Miguel; Silva Filho, Reginaldo de Carvalho. Estudo de Caso de
Acidente Vascular Encefálico:o uso integrado da Técnica Xing Nao Kai Qiao.
Revista Brasileira de Medicina Chinesa Ano X, n 31 https://www.ebramec.edu.br/wp-content/uploads/2020/09/RBMC-31.pdf
Jung, C. G. ; Wilhelm, R. (1929). Segredo da flor de ouro: Um livro de vida chinês
RJ: Vozes, 2013
Maciocia, Giovanni. Os fundamentos da medicina chinesa. SP:
Roca, 2015
Martins, P. L., & Menezes,
R. A.. (2022). Gestação em idade avançada e aconselhamento genético: um estudo
em torno das concepções de risco. Physis: Revista De Saúde Coletiva, 32(2),
e320218. https://doi.org/10.1590/S0103-73312022320218
McAlister, Chris The Four Seas – Part 1 and 2. NAJON North
American Journal of Oriental Medicine Vol. 21, Vol 22; No.61 July, 2014 http://www.najom.org/
Needham, Joseph; Gwei-Djen; Lu.
Celestial Lancets. A history and rationale of acupuncture and moxa. UK: Cambridge
University Press 1980
Reddy B, Fan AY. Incorporation of complementary and
traditional medicine in ICD-11. BMC Med Inform Decis Mak. 2022 Jun 30;21(Suppl
6):381. doi: 10.1186/s12911-022-01913-7. PMID: 35773641; PMCID: PMC9248085.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35773641/
Royaumont, Centro Para uma ciência do Homem. A Unidade do
homem 3 V.v2 O cérebro Humano e seus universais. SP: Cultrix; EDUSP, 1978
Bing Wang. Livro Princípios de Medicina Interna do
Imperador Amarelo (Dinastia Tang) SP: Ícone, 2001
Yousef, Tareq.. Historical Depictions of the Brain: The
Origins from the Non-Western World. J Undergrad Neurosci Educ. 2024 Dec
24;23(1):E1-E4. doi: 10.59390/ZTVE5756. PMID: 39810963; PMCID: PMC11728991. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11728991/
Yn Yang House. Four Seas Theory and Applications
https://theory.yinyanghouse.com/acupuncturepoints/theory_fourseas
Acesso em Janeiro de 2026
...............................
Ilustrações
髓海 Mar
de Medula
ou das essências (精神 Jing Shén)
- Nome dos 經 jīng Canais (Meridianos) com
setas indicando a direção do fluxo em relação a cabeça.
- Cinco aspectos (Cinco Espíritos) da Psique ligados aos órgãos Zang, psique
(Shén, Po, Hun, Yi, Zhi)
- Ciclo das emoções associadas aos cinco elementos ou movimentos. (五神 - Wǔ
Shén)


Nenhum comentário:
Postar um comentário