Mostrando postagens com marcador Etnomedicina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Etnomedicina. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Enfermagem & Acupuntura

 

✜  Enfermagem é a arte ou técnica de realizar tratamentos (cure / 治愈 - zhìyù) prescritos por médicos a doenças específicas ou prestar cuidados contínuos (care / 關心 - guānxīn) aos seres humanos enfermos, feridos, deficientes e moribundos. Seus cuidados tanto podem destinar-se a indivíduos como famílias e comunidades. Há quem atribua sua origem, enquanto conhecimento científico, à Florence Nightingale (1820-1910) militante da caridade e causa social inglesa, estaticista e autora de um dos primeiros livros da enfermagem moderna ("Notes on nursing", 1869). [1] Contudo não se pode descartar a hipótese de origem dessa profissão, nos curandeiros(as), religiosos (as), nas parteiras, doulas e pré-históricos práticos encarregados da redução de fraturas. [2] [3] Profissões que ainda persistem na medicina folk (popular / tradicional e/ou são especialidades  da  medicina  e enfermagem.

Em chinês enfermagem (護理 - hùlǐ) pode ser escrita com a combinação dos ideogramas de (lǐ) razão ou ciência e (hù) proteger (também grafado ) ou ainda  护理学 (hùlǐ xué) enfermagem, "o constante aprendizado da ciência do proteger ou cuidar", numa tradução literal.. O ideograma correspondente à cura - zhìyù  (治愈) é compostos pelos signos de regra - zhì  () e  saúde -  yù () e o correspondente a cuidar - guānxīn ( 關心), que também significa preocupar é composto pelos ideogramas () guān - desligar   e () – xīn  que corresponde a  sentir ou a o coração.


Uma pesquisa realizada com enfermeiras (capacitadas em medicina ocidental) numa clínica de acupuntura em Chengdu, China [4] revelou que sua função permanecia igual como no ocidente, sendo auxiliares do médico durante o agulhamento. Os resultados, das entrevistas combinadas com observações "in loco", mostrou também  que as enfermeiras eram responsáveis por muitos dos procedimentos técnicos não invasivos, a exemplo, do uso de  ventosa. Todas as enfermeiras do estudo foram treinadas em medicina ocidental com dito e o treinamento possuíam da  Medicina Tradicional Chinesa (MTC) , incluindo acupuntura, foi adquirido através do médico especializado em acupuntura que trabalhava nessa clínica.  Naturalmente que esta não é a condição de todas as enfermeiras em hospitais e clínicas chinesas.

 Acupuntura uma prática e modelo que se difunde

Dorothy C. Sherwin, do Northeast Wisconsin Technical College [5]  considera promissor  o treinamento de profissionais de enfermagem em MTC. Nesse treinamento tais profissionais  têm a oportunidade de aprender as nuances do ambiente oriental e integrá-las em suas habilidades para cuidar do espírito, da mente e do corpo dos pacientes de maneira holística.

Segundo Souza,...no Reino Unido os acupunturistas tradicionais atuam sem possuir uma graduação, utilizam a acupuntura como terapia principal e se submetem, geralmente, às normas das associações voluntariamente constituídas. Aqueles que exercem a acupuntura com base em um treinamento específico, feito após a graduação em outras áreas das ciências biomédicas, como fisioterapia, enfermagem, medicina, utilizam essa arte como parte de sua profissão, como mais uma técnica entre as diversas possíveis e, por isso, ficam submetidos à regulação estatal de suas profissões principais... [6]

Nos Estados Unidos da América do Norte a Comissão Nacional de Credenciamento para Escolas e Faculdades de Acupuntura e Medicina Oriental (NACSCAOM - National Accreditation Commission for Schools and Colleges of Acupuncture and Oriental Medicine) já aprovou mais de 50 escolas e faculdades de acupuntura e medicina oriental. Para formação de um profissional é exigido um mínimo de 1.725 horas de treinamento, com 360 horas dedicadas a cursos biomédicos ocidentais (que podem ser dispensadas para profissionais de saúde com evidências de aprovação nesses cursos durante o estudo anterior) e 1.365 horas dedicadas à teoria, técnica e prática clínica da acupuntura. [7]

Como nem todos os estados americanos têm os mesmos requisitos para autorização da pratica da acupuntura, o grau de educação e treinamento dos profissionais médicos que realizam a acupuntura varia. Trinta e cinco estados permitem que os médicos pratiquem a acupuntura sem regulamentação, por ser considerada dentro do escopo de suas licenças de médicas ou osteopatas. No Alasca e em Iowa, podólogos e dentistas podem praticar a acupuntura em seus âmbitos de prática. Connecticut permite que enfermeiras realizem acupuntura sob as ordens de um médico sem nenhum treinamento específico. Alguns estados também permitem que os quiropráticos pratiquem a acupuntura após 100 horas de instrução. Kansas permite que assistentes médicos agulhem pacientes, se autorizados por um médico. [7]

Na França, curiosamente, onde o diplomata (não médico) George Soulié de Morant (1878 -1955) foi um dos precursores da introdução da acupuntura no ocidente, ao contrário de outros países europeus, a prática da acupuntura e, mais especificamente, da medicina chinesa é reservada apenas aos médicos. Recentemente uma enfermeira de 62 anos, foi processada por exercício ilegal da medicina, condenada a pagar uma multa de 2.000 euros e teve suspensa direitos  profissionais suspensos. Sua formação em medicina tradicional chinesa de três anos, ocorreu na própria França e Vietnã. [8]

No Brasil O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) reconhece a acupuntura como especialidade dentro da enfermagem.[9] . Considerando que a prática da acupuntura tem validade e eficácia, e não contraria a Lei do Exercício Profissional de Enfermagem (LEPE n.º 7.488/1986). O COFEN quando estabeleceu a acupuntura como especialidade, cabendo ao enfermeiro, privativamente ampliar sua capacitação profissional nos horizontes conceituais dos benefícios da técnica da acupuntura tanto para o diagnóstico de enfermagem como nas intervenções específicas (ou seja, a acupuntura não está incluída na grade de disciplinas do curso regular de enfermagem no Brasil e requer especialização).

Alguns pesquisadores ressaltam que apesar de autorizada pelo COFEN, e por relativa presença de sua utilização como prática holística e/ou complementar integrativa, no Brasil há restrições a prática da acupuntura na enfermagem em algumas instituições [10] [11] [12]

Contudo pode-se afirmar que há consenso de expertises em diagnósticos de enfermagem e intervenções em acupuntura quanto a aplicação da técnica nos cuidados e diagnósticos de enfermagem. [13] [14] [5] Observando-se porém a demanda de desenvolvimento de mais estudos teóricos e práticos para sua fundamentação e aplicação a problemas específicos, tipo dor crônica, artrose, infertilidade, transtornos da gravidez, obesidade etc.  (o que não é uma recomendação à pratica da acupuntura na enfermagem e sim a alguns supostos efeitos de eficácia da acupuntura em si independente de quem o pratique) [13] [16] [17] [18] [19]

Observe-se que o esforço de pesquisas para comprovação científica e eficácia terapêutica da acupuntura e outros aspectos da medicina chinesa ocorre em paralelo à disputa pelo estabelecimento do monopólio de sua prática. Segundo Nascimento [20] a controvérsia entre médicos e não-médicos parece ser expressão tanto da disputa no campo do saber e mais precisamente da autoridade cultural, que na cultura ocidental tende a ser identificada à ciência, como no campo do mercado, ambos concorrendo para a consolidação do processo de profissionalização da acupuntura no Brasil.

 Referências

1 - Encyclopædia Britannica. Nursing, medical profession, BUHLER-WILKERSON, Karen (https://www.britannica.com/science/nursing) ;  SELANDERS, Louise. Florence Nightingale, British nurse, statistician, and social reformer (https://www.britannica.com/biography/Florence-Nightingale) Acesso em agosto de 2020 / Bbarcelona: La Sal, 1981

2 – EHRENREICH, Barbara; ENGLISH,Deidre. Brujas, parteras e enfermeras, una historia de sanadoras. NY: Glass Mountain Pamphlet, Feminist Press, 1973

 3 - Shady Grove Orthopaedics. Hystory of orthopaedics. Washington, DC: https://shadygroveortho.com/history-of-orthopaedics/ Aces. Agosto de 2020


4 - RISLUND, S. (2016).Nurses’ Conception of their Role in Acupuncture Therapy in a Clinic in Chengdu, China : An empirical study investigating the nurses’ role in a Chinese setting (Dissertation). Retrieved from http://urn.kb.se/resolve?urn=urn:nbn:se:kau:diva-42644 PFF Aces. Agosto de 2020

5 - SHERWIN, D. C. (1992). Traditional Chinese Medicine in Rehabilitation Nursing Practice. Rehabilitation Nursing, 17(5), 253–255. doi:10.1002/j.2048-7940.1992.tb01560.x url to share this paper: sci-hub.tw/10.1002/j.2048-7940.1992.tb01560.x Aces. Agosto de 2020

6 - SOUZA, Rodolfo Costa A regulamentação da acupuntura no direito comparado. Câmara dos Deputados / Consultoria Legislativa, Julho de 2009 https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/estudos-e-notas-tecnicas/publicacoes-da-consultoria-legislativa/areas-da-conle/tema19/2009_4931.pdf Aces. Agosto de 2020

7 - ELITE. Acupuncture Essential for Nurse Practitioners https://www.elitecme.com/resource-center/nursing/acupuncture-essential-for-nurse-practitioners/ Aces. Agosto de 2020

8 - ActuSoins, 6 mai 2015. Acupuncture : une infirmière condamnée pour exercice illégal de la médecine https://www.actusoins.com/262991/acupuncture-une-infirmiere-condamnee-pour-exercice-illegal-de-la-medecine.html

7 - COFEN – Conselho Federal de Enfermagem RESOLUÇÃO COFEN N°585 de 08/08/2018 https://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-585-2018_64784.html Acesso 23/08/2020

9 - KUREBAYASHI, Leonice Fumiko Sato; OGUISSO, Taka; FREITAS, Genival Fernandes de. Acupuntura na enfermagem brasileira: dimensão ético-legal. Acta paul. enferm. , São Paulo, v. 22, n. 2, pág. 210-212, 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-21002009000200015&lng=en&nrm=iso>. acesso em 21 de agosto de 2020. https://doi.org/10.1590/S0103-21002009000200015

10 - KUREBAYASHI, Leonice Fumiko Sato; FREITAS, Genival Fernandes de; OGUISSO, Taka. “Acupuntura na saúde pública: uma realidade histórica e atual para enfermeiros”. Cultura de los cuidados. Año XIII, n. 26 (2. semestre 2009). https://rua.ua.es/dspace/bitstream/10045/13510/1/CC_26_05.pdf  ISSN 1138-1728, pp. 27-33

11 - DA SILVEIRA, Rodrigo Euripedes et al. La acupuntura como herramienta de trabajo para las enfermeras: revisión de la literatura. Cultura de los cuidados, [S.l.], n. 35, p. 96-105, mayo 2013. ISSN 1699-6003. Disponible en: <https://culturacuidados.ua.es/article/view/2013-n35-acupuntura-como-instrumento-de-trabalho-do-enfermeiro-revisao-integrativa-da-literatura>. Fecha de acceso: 23 ago. 2020 doi:https://doi.org/10.7184/cuid.2013.35.09.

12 -PEREIRA, Raphael Dias de Mello; ALVIM, Neide Aparecida Titonelli. Acupuntura para intervenção de diagnósticos de enfermagem: avaliação de experts e especialistas de enfermagem. Esc. Anna Nery, Rio de Janeiro , v. 20, n. 4, e20160084, 2016 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-81452016000400203&lng=en&nrm=iso>. access on 21 Aug. 2020. Epub Aug 25, 2016. http://dx.doi.org/10.5935/1414-8145.20160084

13 - GRIFFITHS V, TAYLOR B. Informing nurses of the lived experience of acupuncture treatment: a phenomenological account. Complement Ther Clin Pract. 2005;11(2):111-120. doi:10.1016/j.ctnm.2004.09.003

14 - PEREIRA, Raphael Dias de Mello; TITONELLI ALVIM, Neide Aparecida. Acupuncture in care: an integrative review of scientific production of brazilian nurses. Journal of Nursing UFPE on line, [S.l.], v. 7, n. 7, p. 4849-4858, may 2013. ISSN 1981-8963. Available at: <https://periodicos.ufpe.br/revistas/revistaenfermagem/article/view/11743>. Date accessed: 23 aug. 2020. doi:https://doi.org/10.5205/1981-8963-v7i7a11743p4849-4858-2013.

15 - Hao Y, Jiang J, Gu X. Traditional Chinese medicine and nursing care. Int J Nurs Sci. 2017;4(3):328-329. Published 2017 Jun 17. doi:10.1016/j.ijnss.2017.06.005

16 - FRANCO SÁNCHEZ, Jesús; CAMACHO ALCÁNTARA, José Antonio; BEGINES ALONSO, Rocío. Manejo del dolor crónico con acupuntura por la enfermera en atenció n primaria en pacientes diagnosticados de gonartrosis. Biblioteca Lascasas, 2017; V13. Disponible en <http://www.index-f.com/lascasas/documentos/e11307.php>

17 - OLIVEIRA, Cristiane Araújo de Acupuntura e enfermagem: inovar o atendimento humanizado e integral ao paciente. Sociedade Brasileira de Reprodução Humana. Publicações on -line Nov. 2017 https://enfermagem.sbrh.org.br/wp-content/uploads/2017/11/Acupuntura.pdf Acesso em Agosto de 2020

18 - SEBOLD, Luciara Fabiane; RADUNZ, Vera; ROCHA, Patrícia Kuerten. Acupuntura e enfermagem no cuidado à pessoa obesa. Cogitare Enfermagem, [S.l.], v. 11, n. 3, dec. 2006. ISSN 2176-9133. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/7329>. Acesso em: 23 aug. 2020. doi:http://dx.doi.org/10.5380/ce.v11i3.7329.

19 - MARTINS, Eveliny Silva et al . Nursing and advanced acupuncture for relief of low back pain during pregnancy. Acta paul. enferm., São Paulo , v. 32, n. 5, p. 477-484, Oct. 2019 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-21002019000500003&lng=en&nrm=iso>. access on 23 Aug. 2020. Epub Oct 10, 2019. https://doi.org/10.1590/1982-0194201900067.

20 - NASCIMENTO, Marilene Cabral do. De panacéia mística a especialidade médica: a acupuntura na visão da imprensa escrita. Hist. cienc. saude-Manguinhos,  Rio de Janeiro ,  v. 5, n. 1, p. 99-113,  June  1998 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-59701998000100005&lng=en&nrm=iso>. access on  24  Aug.  2020.  https://doi.org/10.1590/S0104-59701998000100005.


         oxxxxxxxxxxxxxx----------------------

VER TAMBÉM

National Accreditation Commission for Schools and Colleges of Acupuncture and Oriental Medicine NACSCAOM https://www.nccaom.org/

 WHO- World Health Organization. Health topics/Traditional medicine https://www.who.int/westernpacific/health-topics/traditional-complementary-and-integrative-medicine

----------------------xxxxxxxxxxxxxxo

NOTA

apesar da Wikipédia em anos recentes vir conduzindo um beligerante debate contra o que considera pseudociência no âmbito das ciências saúde, o que praticamente abrange as PICS - Práticas Integrativas e Complementares, como são denominadas no Brasil, ainda se constitui como uma possibilidade de diálogo, conhecimento e discussão sobre tais práticas, antes conhecidas como Medicina Alternativa. 

Participe desta série de verbetes dos quais sou também editor de sua construção e discussão:

 ----------------------xxxxxxxxxxxxxxo



domingo, 22 de agosto de 2010

Aprendendo acupuntura no ocidente

Um dos dilemas do médico ou profissional de saúde ocidental, interessado na Medicina Tradicional Chinesa (MTC), é saber o quanto da cultura oriental precisa ser assimilado para que se possa entender e praticar acupuntura, por exemplo, com a mesma perícia de um oriental. 

Por outro lado a própria escolha do estudo e prática da acupuntura ou medicina tradicional chinesa parece ser um processo contínuo de (aculturação inversa) de encantamento pelo saber oriental. O desafio entretanto permanece: para aprender acupuntura há de se vencer a barreira das culturas (étnicas), a multiplicidade de idiomas e estudar de si mesmo, para que se possa entender outra forma de ver e sentir o que em chinês significa Chi (Qi - 氣) ou Shén (神 - e/ou mente, espírito ??). Decerto que a formação do acupunturista, não é extatamente análoga a formação de um psicanalista, do qual se exige a análise pessoal (auto-conhecimento) com o mesmo peso dos estudos teóricos e supervisão clínica, ou estágios, contudo a ênfase dada a importância e valor das práticas de meditação (taoístas ou mesmo budistas) nos bons centros de formação em medicina chinesa, evidencia esta exigência. No mínimo as fontes tradicionais do taoismo (o Tao Te King) e da própria medicina tradicional (O livro do Imperador Amarelo) são constantemente mencionados.

O idioma (língua) segundo Matoso Camara Jr. apresenta-se como um microcosmo da cultura. Tudo que a cultura possui se expressa através da língua; e esta é em si mesma um produto cultural. Sem resolver tal paradoxo não há de se ter uma perfeita compreensão da cultura chinesa e de suas tradições. Há que se buscar uma cooperação entre essas ciências. Como disse o mestre Lévi-Strauss, se houvesse uma correspondência absoluta entre a língua e a cultura, os antropólogos e linguistas já teriam se dado conta disso.

O idioma chinês se destaca por sua particular utilização de "ideogramas", que por sinal não correspondem necessariamente a ideias, como interpretou Bertrand Russel no seu livro "O problema da China" (1922). Segundo Fischer (2009) os caracteres da escrita logográfica chinesa representam palavras - morfemas (o fragmento mínimo capaz de expressar significado) monosilábicos únicos ou combinados. Alleton (2010) calcula que um dicionário usual comporta de 3.000 a 9.000 caracteres (sinogramas) para essa escrita morfo silábica ou logo-gráfica escrita, com cerca de 1.250 sílabas diferentes - o fonema equivalente a cada sílaba e o contexto da fala é o que orienta a escolha dos "ideogramas". Ressalta que o grandes dicionários (enciclopédicos) podem chegar a 45.000 formas gráficas diferentes. 

Contudo, de qualquer sorte, um dos méritos notáveis da escrita chinesa é a manutenção de sua relativa uniformidade ao longo da história, além da possibilidade de comunicação que criou entre as dezenas de etnias que convivem em um mesmo território, com distintos idiomas e dialetos, transcritos da mesma forma. Decerto pode se perguntar se o domínio destes mesmos signos podem contribuir para compreensão integração da acupuntura nas distintas vertentes da ciência e cultura ocidental? Hipótese esta que poderá ser respondida por pesquisa empírica da ampla difusão da prática da acupuntura no ocidente. Segundo o Instituto Confúcio da UNESP, considera-se que alguém que domine a língua chinesa escrita, conheça em tono de 2.000 "ideogramas" Um especialista em Medicina Tradicional Chinesa, que reconheça o nome original dos pontos e meridianos da acupuntura, o nome das principais sídromes de acordo com os pricípios do Yin/Yang e Cinco Elementos (ou movimentos) e pelo menos o nome de uma centena de plantas, ervas e formulações chinesas deve reconhecer uma média de 500 "ideogramas"

Yu-Kuang Chu observou que, por não ter como predominante na estrutura da sentença a relação sujeito - predicado o chinês não desenvolveu a noção de lei da identidade na lógica nem o conceito de substância em filosofia, essenciais para refletir sobre as noções de causalidade e ciência (no paradigma ocidental). O chinês desenvolve, em lugar disso, segundo esse autor, uma lógica correlacional, um pensamento analógico e um raciocínio relacional extremamente úteis em teoria sociopolítica, ética e filosofia da vida.

Outra relação entre linguagem chinesa e pensamento pode ser estabelecida por correlações entre os hemisférios cerebrais, como assinala Carneiro: o lado esquerdo do cérebro reconhece letras e palavras, enquanto o lado direito reconhece faces e padrões geométricos. O nosso alfabeto, por ser silábico, estimula o lobo esquerdo; os ideogramas dos orientais, utilizando símbolos, desenvolvem o lobo direito. Uma ciência baseada do sentimento e intuição pode advir das características linguísticas referidas.

A antropologia, por sua vez, permite-nos uma abordagem êmica (do sistema em si) e étnica (do sistema em relação a outros) de sua prática, ou seja, é preciso compreender o que são tais fatos sociais: o "ritual" clínico, processo diagnóstico - terapêutico, para aqueles que os vivenciam, bem como quem são esses pacientes e principalmente quem são esses aprendizes, mestres e naturalmente o que eles aprendem e praticam. Poderá responder algumas perguntas mas, diz-se em acupuntura, que somente com a prática e a observação do paciente e de suas reações se aprende a sentir o Chi, o que é uma conquista individual.

Pode se dizer que autoconhecimento resultante da meditação ou introversão, capaz mesmo de alterar a personalidade (Jung, 2022) e produzir calma é tão relevante para MTC como o bem estar resultante nas alterações da sensibilidade resultantes da ação da acupuntura nesse princípio imaterial do chi em seu fluxo nos meridianos enquanto trajetos, ciclos e pontos, aqui mostrados nos vídeos do Dr. Wolfgang J. Schneider (expostos abaixo). Requer a auto-análise, como referido, e a reflexão que os orientais e os xamans buscam por meio da meditação (deslocamento da consciencia do mundo externo para o mundo interno (Menezes e Dell'Aglio, 2009). De certo modo a formação de profissionais desta prática deveria se aproximar da proposição de aprendizado da psicanálise no ocidente, priorizando a observação da relação médico - paciente, onde, como dito, a saúde mental e a análise do analista são pré-requisitos do futuro analista.

A relação mestre discípulo onde um mestre auxilia e acompanha seu discípulo em dificuldades, que não são apenas a memorização de regras e regiões anatômicas, aproxima-se da análise didática da psicanálise porque é nessa relação supervisionada de curador - cliente, médico - paciente ou analista - analisado que sente a própria energia (traduzível como calma, vitalidade, odor, etc.) e a energia do outro no qual pretende intervir descobrindo o local exato do ponto de acupuntura, cuja apresentação em diferentes corpos ele aprende a identificar pela medida "cun" ou "medida do polegar" do paciente, e a profundidade de inserção da agulha, que varia com o giro feito por seus dedos em movimentos de sedação ou tonificação enquanto observa a "chegada do Chi", algo que os manuais não podem ensinar.






Fontes:

Alleton, Viviane. Escrita chinesa. RGS: L&PM, 2010

Carneiro, Celeste. Lateralidade, Percepção e Cognição. Revista Cérebro & Mente(Nucleo de Informática Biomédica da Universidade Estadual de Campinas) Junho de 2002
Disponívem em: http://www.cerebromente.org.br/n15/mente/lateralidade.html - Consultado em Outubro de 2010.

Chu, Yu-Kuang. Interação entre linguagem e pensamento chinês. in: Campos, Haroldo. Ideograma, lógica, poesia, linguagem. SP: Cultrix - Ed USP, 1977

Fischer, Steven Roger. História da escrita. SP: Ed. UNESP, 2009

Frietzen, Priscila História da Acupuntura Clássica Chinesa http://www.priscilafrietzen.com.br/2009/07/01/acupuntura-classica-chinesa/, 2010

Jung, Carl G. A psicologia da Yoga kundalini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2022

Levi-Strauss, Claude. Língüística e antropologia. in: Levi-Strauss, C. Antropologia estrutural. SP: Cosac Naify, 2008

Matoso Camara Jr., J. Introdução à línguas indígenas brasileiras. RJ: Museu Nacional, 1965

Menezes C.B.; Dell'Aglio, D.D. Os efeitos da meditação à luz da investigação científica da psicologia: revisão de literatura. Psicologia, Ciência e Profissão, v.29, n2, p. 276-289, 2009

Nan-Ching, o clássico das dificuldades, Tradução do chinês e notas de Paul U. Unschuld. SP: Roca, 2003

Qi Meridiane -- Einführung von Dr. Wolfgang J. Schneider 1/2

Qi Meridiane -- Einführung von Dr. Wolfgang J. Schneider 2/2

Acupuncture Products http://www.acupunctureproducts.com/acupuncture_meridians.html