segunda-feira, 14 de maio de 2018

Psicologia, acupuntura e yoga


Texto equivalente à apresentação sobre a possibilidade de integração de práticas complementares à psicoterapia intitulada  "Psicologia, acupuntura e yoga, uma abordagem dos sistemas etnomédicos orientais e sua perspectiva de integração com a prática da psicoterapia" na Faculdade Metropolitana de Camaçari - FAMEC em 2018



A especificidade da medicina tradicional chinesa - MTC não torna essa prática essencialmente distinta de outros sistemas etnomédicos. Caracteriza-se na, tipologia de Arthur Kleinman (1941) para comparação de sistemas médicos como sistemas culturais, como um setor profissional, que envolve uma formação sistemática dos seus representantes ou atores distinguindo-se do setor folk (os curadores não profissionais) e popular (de senso comum). [1]

A MTC distingue-se também, como foi tese do conhecido sinólogo de Cambrigde Joseph Needham (1900-1995) por sua notável semelhança com a medicina hipocrática - a quem se atribui a origem da moderna medicina ocidental cosmopolita. O estudo etno-histórico destes distintos caminhos de desenvolvimento racional e tecnológico aos poucos vem sendo compreendido especialmente com a perspectiva de integração destes. [2]

A acupuntura médica e MTC

Enquanto campo de prática de saúde em diversas regiões do mundo inclusive na China e Brasil tanto sobrevivem os especialistas em medicina chinesa formado no processo convencional, que é a relação mestre discípulo associada ao estudo dos textos clássicos, como impõe-se uma tendência de associação da acupuntura às diversas especializações médicas e paramédicas com desempenho multiprofissional. Sendo que, no Brasil, há restrições quanto a prática de alguns segmentos profissionais, o que vem sendo feito de diversas formas pela classe médica (proibição jurídica, exclusão em cursos e congressos, etc.). A classe médica reivindica para si os direitos ao seu exercício enquanto especialidade profissional. Por sinal este reconhecimento no Brasil ocorreu décadas depois do reconhecimento por conselhos de fisioterapia e outras profissões. 

Acupuntura científica: biomedicina ou antropologia

Por outro lado como já disse em outra publicação tende-se a interpretar a acupuntura científica como acupuntura biomédica, como se as explicações desenvolvidas pelas ciências sociais não fossem uma explicação científica, ou que o entendimento dessa arte – técnica não requer a compreensão de seu contexto cultural, sua dimensão psicossocial e/ou espiritual. Ignorando-se também que o conhecimento oriental, “científico” ou não, por si só, foi suficiente, durante muito tempo, para permitir seu pleno domínio e utilização. [3]

Tornou-se um desafio para o praticante ocidental conciliar o amplo espectro de disciplinas requerido para entendimento (antropologia médica ou da saúde, etnologia, lingüística, neurociência, etc.) desse novo campo do saber que se inaugurou com o nome de “acupuntura” (acupuntura multiprofissional) e mais especificamente a “acupuntura baseada em evidências” no ocidente. [4]

Apesar das dezenas de estudos clínicos comparados a outras formas de intervenção terapêutica e comparações de tais resultados em estudos de revisões sistemáticas e meta – análise, ainda não se descartou a rotulação de pseudociência por alguns segmentos retrógados da comunidade científica.

Estudos da evidência do efeito da acupuntura visando identificar o volume de pesquisa sobre sua eficácia em revisões publicadas, identificou 183 revisões sistemáticas publicadas entre 2005 e 2014. A maioria da literatura secundária e pesquisa primária disponível referiam-se a clinica da dor, incluindo também artigos sobre a acupuntura e promoção do bem-estar, distúrbios mentais e efeitos adversos. Constatou-se que a literatura publicada disponível sobre acupuntura é extensa. Pesquisas no PubMed em 2013 identificaram quase 20.000 citações com o termo "acupuntura" e quase 1.500 ensaios clínicos randomizados (ECR) com "acupuntura" no título e, até mesmo uma série de “revisões de revisões” estão disponíveis na literatura publicada sobre acupuntura em geral ou para uma condição clínica específica. Contudo os resultados de revisões existentes sobre a eficácia da acupuntura não são conclusivos, por exemplo: uma revisão sistemática de revisões sistemáticas da acupuntura publicada entre 1996 e 2005 incluiu 35 revisões, observando-se que apenas 18 avaliações reafirmam a eficácia da acupuntura (sendo que somente 6 com excelente qualidade de pesquisa). De um modo geral a base de evidências é heterogênea e os estudos de maior qualidade estão apenas começando a emergir, desde 2002. [8]

Um outro elemento ou critério de entendimento da dificuldade de interpretação dos efeitos ou eficácia terapêutica da acupuntura pela comunidade científica ocidental é o fato de que as interpretações dos achados (evidências) clínicos do efeito da acupuntura fundamentam-se num conjunto de teorias e princípios que ainda não possuem uma unidade ou coerência, acontecendo o mesmo com os parâmetros de uso de medicamentos da fitoterapia chinesa.

Entre os fundamentos teóricos advogados como referência incluem-se a teoria das comportas (Melzack, Wall, 1965), a teoria reflexos condicionados para inibição da dor, irritação (contra irritação) e diversas versões da reflexologia em regiões pontos específicos do corpo humano e animal. Incluem-se também teorias articulando psicologia do efeito placebo e das relações estímulo – resposta; as noções de terapêutica e clínica médica fundamentadas na neurofisiologia e bioquímica celular dos efeitos da inserção de agulhas, o efeito “farpa” associado à produção de endorfinas. [5] [6] [7]

Observe-se que para um ocidental necessariamente, a antropologia médica ou da saúde (a ciência por excelência da interpretação de outras culturas) não pode ser ignorada. Há de se vencer, portanto, a barreira das culturas (etno-histórica) e a multiplicidade de idiomas. O idioma (língua) segundo Matoso Camara Jr. apresenta-se como um microcosmo da cultura. Tudo que a cultura possui se expressa através da língua; e esta é em si mesma um produto cultural. Sem resolver tal paradoxo não há de se ter uma perfeita compreensão da cultura chinesa e de suas tradições.

O estudo da história da acupuntura na China revela seu rompimento com algumas tradições "mágicas", havia referências sobre sua proibição no final do período imperial Dinastia Qing (1822) quando foi excluída do Instituto Médico Imperial por decreto do Imperador. Apesar da proibição foi mantida como interesse acadêmico, costume e tradição, sobretudo nas áreas rurais ao ponto de ser novamente proibida (1929) durante a república, juntamente com outras formas de medicina tradicional por uma crescente ocidentalização ou adoção da medicina cosmopolita, sendo apenas restaurada e incentivada como prática na primeira metade do século XX durante a revolução cultural chinesa. [9]

De qualquer forma é incontestável, no âmbito da antropologia, a evidente incorporação do conhecimento empírico proveniente de cuidadosas observações ao logo de milênios de prática, que se consolidaram no que vem sendo chamado de paradigma do Yin - Yang e dos Cinco Elementos, descrito em livros clássicos, para os orientais, a exemplo do livro do Imperador Amarelo (consolidado durante a dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), documentos etnológicos brutos para o ocidental que utiliza as ferramentas conceituais da antropologia estrutural na proposição de Levi Strauss (1908 - 2009) [10]

A história da antropologia da medicina se confunde com a própria história da antropologia. Tal como ocorreu nesta disciplina já houve uma predominância de perspectivas etnocêntricas e evolucionistas que devem ser evitadas. W. H. Rivers (1864-1922), um dos mais antigos pesquisadores da área e também médico, assinala por exemplo que algumas medicinas ditas primitivas são no plano teórico mais coerentemente organizadas que a medicina científica ocidental sobretudo no plano humano e espiritual ou natural e sobrenatural. [11]

Acupuntura & Psicoterapia

Com a utilização da antropologia é possível identificar na prática da acupuntura um modelo contextualizado no conjunto multi-étnico da Ásia ou das Medicinas Antigas, como inclusive já vem sendo feito. Por exemplo a partir da constatação da utilização do conceito de racionalidades médicas empregado por Madel Luz  analisando inicialmente a homeopatia e posteriormente a própria medicina chinesa  identificando nestes similaridades conceituais na resposta  destes grupo sociais às patologia que lhes afligem, alterações da energia vital e ambiente (miasmas) que denominou como paradigma vitalista.

Segundo esta autora uma racionalidade médica ou sistema lógico e  teoricamente estruturado, tem como condição necessária e  suficiente para ser considerado como tal, a presença dos  seguintes elementos: 1. Uma morfologia (concepção anatômica); 2.  Uma dinâmica vital  ( "fisiologia" );  3. Um sistema de  diagnósticos; 4. Um sistema de intervenções terapêuticas; 5. Uma  doutrina médica (cosmologia).

Não há dúvidas que a medicina tradicional chinesa preenche esses requisitos. Uma doutrina médica (cosmologia) descrita e re-escrita no Livro do Imperador Amarelo, uma concepção da mente na China, o Shen (神 , shén) indica a atividade de pensamento, consciência, auto - percepção, vida emocional, memória e vontade, todos os quais, na concepção chinesa, dependem do coração, assim como na medicina grega pré-hipocrática. Nas medicinas antigas são surpreendentemente notáveis a concepção de mente espírito, a exemplo dos escritos de  Patanjali (publicados aproximadamente entre 200 a.C. a 400 d.C.) na Índia e/ou as descrições da lógica por Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) a quem se atribui 
a criação da lógica como disciplina, no século IV a.C. [12] [14]

Para Laplatine, o autor de “Antropologia da doença” (1991) a ciência estuda a percepção e elabora e analisa modelos etiológicos e terapêuticos, a acupuntura possui um modelo etiológico do tipo  Exógeno/Endógeno  comparável à Endocrinologia, Neuropsiquiatria e um modelo  terapêutico distinto da alopatia e homeopatia classificado num grupo tipo Sedativo/ Excitativo comparável à medicina experimental e à moderna fisiologia médica a exemplo das proposições terapêuticas da imunologia, "Treinamento Autógeno" de J. H. Schultz (1884 -1970) e Bioenergética de W. Reich (1897 - 1957) [13]


Uma outra contribuição relevante para a psicologia que ainda necessita ser melhor compreendida é a concepção de emoção. Os sentimentos ou emoções: Raiva (agressividade / 怒 nù) ; Alegria (喜 xǐ); Preocupação (ficar pensativo 想 - si / xiǎng); Tristeza (melancolia / mágoa 悲 bēi); Medo (恐 kǒng) / Apreensão/ ansiedade (忧 yōu), são considerados correspondentes ao fluxo da energia vital – Chi nos meridianos e órgãos tanto durante o ciclo sazonal correspondente às estações do ano, como aos ciclos circadianos (24 horas) e pequenos ciclos infradianos (12/24) denominados, por eles, a pequena e a grande circulação de energia.

Em psicologia o estudo das emoções vêm sendo realizado desde sua origem como ciência e ainda não chegou a um consenso. Entre as primeiras proposições destacam-se as contribuições de William James (1842-1910) e Walter Bradford Cannon (1871-1945); a teoria dos dois fatores de Stanley Schachter (1997) e Jerome E. Singer (1934–2010)  decerto contribuindo para as matrizes dos estudos que contribuíram para atual concepção de sistema límbico, e cérebro emocional. Somando-se também a teoria psicanalítica, onde se utiliza o termo afeto (teoria dos afetos) com grandes contribuições a uma possível aproximação ao entendimento das doenças psicossomáticas na ótica oriental com suas contribuições a dinâmica da energia sexual, ansiedade e tristeza (melancolia).

Além de diversas teorias e técnicas de meditação (influenciada ou unificadas entre a China Índia e Tibet pelo Budismo) encontramos na MTC estudos correspondentes à moderna Sexologia (Medicina/ Terapia Sexual) O conhecimento sobre a reprodução e sexualidade humana também se insere numa esfera que envolve a mitologia e/ou ciência oriental conhecidas no ocidente como tantra yoga ou taoísmo do sexo abrangendo desde norma de conduta a técnicas equivalentes as utilizada na psicoterapia das disfunções orgásmicas. [15]

A unidade da Ásia

Creio não haver dúvidas quanto as vantagens da abordagem da medicina tradicional chinesa (MTC) no conjunto asiático (grego asiático) – Medicinas Antigas bem como os sistemas médicos tradicionais do Japão, da Coréia, da Índia e Tibete que formam a nossa concepção ocidental de "Medicina Oriental". Observe-se também, como assinala Corral, a Medicina Tradicional Oriental não é somente uma medicina e sim uma tradição minuciosamente transmitida através de conceitos universais do lugar existencial do homem. Suas remotas origens de mais de 5.000 anos, antecedem a concepção de “China” (中国) e podem ser consideradas pertencentes a todo oriente. [16]

Algumas diferenças básicas, entretanto podem ser assinaladas quanto ao seu desenvolvimento e características atuais. Da medicina grega (hipocrática), comparável a MTC por Needham, como visto, pouco restou de suas noções de água, fogo, terra e ar, além de sua aplicação a biotipologia humana e algumas concepções do processo saúde doença mental tais como as concepções de “melancolia” “histeria” e “paranóia” e outras noções sobre febre e energia vital conservadas pela então denominada naturopatia.  Por outro lado entre a medicina chinesa e indiana ainda conservam notáveis característica que evidenciam a dispersão e sua origem comum ou frequente contatos inter-étnicos como assinalam os antropólogos.

Uma característica importante quanto a sua incorporação/integração à cultura ocidental pode ser deduzida da forma com tais práticas chegaram ao ocidente no século XX. A acupuntura via saúde publica, com recomendações da Organização Mundial de Saúde  após a revolução cultural chinesa que a integrou à atenção primária no modelo de agentes comunitários de saúde – os conhecidos “médicos de pés descalços” atualmente conhecidos médicos rurais (village doctors) e o Yoga chegou até nós via escolas de hatha-yoga e centros de meditação inseridos na cultura espiritualista e da educação física. Ainda hoje ainda não há uma integração plena dos diversos aspectos dessas contribuições indianas. A shantala, as diversas modalidades de  yoga (tantra, raja, kria, ashtanga, hatha, etc.) são pouco conhecidas quanto a integração ao sistema que pode ser denominado com a medicina Iajurveda de origem.  [17]

A prática do yoga ou yôga no ocidente, principalmente, depende de instrutores formados em cursos de formação de Instrutores com certificado e regulamentação profissional em órgãos específicos a exemplo Federação Portuguesa de Yoga, (F.P.Y.) que constituiu-se como pessoa colectiva de direito privado sob a forma de associação destinada a promover, desenvolver, regulamentar, formar, dirigir e divulgar a prática do Yoga, em suas diversas modalidades e filosofias bem como promover e regulamentar a formação de professores de Yoga

Apesar das diversas publicações e proposições de yoga como terapia o  instrutor de yoga regulamentado no Brasil segundo De Rose 1992 desde  a década de 60 como professor de educação física especializado secretaria de Educação do Estado da Guanabara.

O yoga é uma filosofia prática de vida que objetiva transformações ou modificações da consciência, ou samádhi. Implica no estudo e treinamento de aproximadamente 108 grupos de ásana, cujo aprendizado implica em 225 horas-aula, com acompanhamento de instrutores formados e revalidados, 300 horas mínimas de práticas completas de Yôga, (sádhana) e 2000 horas mínimas de estágio monitorado em escolas reconhecidas.

Atualmente é consensual a noção de que o yoga não é nenhum tipo de ginástica nem modalidade alguma de Educação Física, compreende técnicas corporais, bioenergéticas, emocionais, mentais, com algumas que não podem sequer ser ensinados por livros, e são considerados secretos apreendidos em ritos de iniciação associados ao domínio da meditação, e prática corporal, enfim é uma forma de terapia que faz parte da medicina Ayurveda. [18] [19] [20]

No Brasil a acupuntura está regulamentada pela portaria nº 971 que aprovou a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) no Sistema Único de Saúde em 3 de maio de 2006, admitida no SUS como prática multiprofissional.  A medicina ayurvédica, a  shantala e yoga foram somente foram anexados às práticas do SUS, através portaria  849/2017 que anexou 14 novos procedimentos à Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) do SUS .

A integração das práticas da acupuntura associadas ao sistema indiano de chakras e meditação, como vem sendo proposto no ocidente, apesar de diversos livros e artigos publicados, ainda pode ser considerado experimental. Existem proposições tanto de integrar a pratica da acupuntura a meditação (inclusive há diversas escolas de meditação taoista, budista e exercícios chineses) como de realizar agulhamento, estimulação física na região dos chakras interpretando estes como plexos nervosos e sistemas integrados de regulação hormonal e comportamento. [22] [23]

Contudo, como dito, ainda não existe uma aprovação consensual ou reconhecimento de grande parte da comunidade científica. Aguarda-se talvez um acúmulo maior de explicações imperfeitas e teorias falhas, o que na ótica de Thomas Kuhn, (1962) é o limite de mudança de paradigmas. As anomalias - quer dizer, a incapacidade de dar conta dos fenômenos observados, induzirão ao surgimento de novas teorias que podem vir a lograr êxito, unificar-se e solidificar-se como pratica dos integrantes da comunidade cientifica de que fazem parte, o que findará por substituir o anterior. Sendo assim uma mudança de paradigma no processo de constitui as revoluções científicas. [24]

Algumas referências

1. KLEINMAN, Arthur Concepts and a Model for the comparison of Medical Systems as Cultural Systems. IN: CURRER,C e STACEY,M / Concepts of Health, Illness and Disease. A Comparative Perspective, Leomaington 1986

2. NEEDHAM, Joseph; Gwei-Djen, Lu. Celestial lancets a history and rationale of acupuncture and moxa. USA, Cambridge University Press, 1980

3. COSTA, Paulo Pedro P. R. Acupuntura científica uma reflexão. Acupuntura Ciência & Profissão. abril de 2012
http://etnomedicina.blogspot.com.br/2012/04/tende-se-interpretar-acupuntura.html

4. ROSSETTO, Suzete Coló. Acupuntura Multidisciplinar. SP, Editora Phorte, 2012

5. MELZAC, Ronald. A percepção da dor. Scientific American, Fev.,1961 in MAcGaug. J.L.; Weinberger, N.M.; Whalen (org) Psicobiologia, as bases biológicas do comportamento, Textos do Scientific American. trad Aratangy, L. SP Polígno, 1970

6. DUMITRESCU, Ioan Florin. Acupuntura científica moderna. SP, Andrei, 1996

7. PETTI, F; BANGRAZI, A; LIGUORI, A; REALE, G; IPPOLITI, F. Effects of acupuncture on immune response related to opioid-like peptides. Journal of traditional Chinese medicine V18. N 1, March, 1998, (Abstract, http://europepmc.org/abstract/MED/10437265 Acesso maio de 2018)

8. HEMPEL S, TAYLOR SL, SOLLOWAY MR, et al. Evidence Map of Acupuncture [Internet]. Washington (DC): Department of Veterans Affairs (US); 2014 Jan. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK185072/

9. WHITE, A.; Ernst, E. A brief history of acupuncture. Rheumatology 2004;43:662–663 doi:10.1093/rheumatology/keg005

10. LÉVI-STRAUSSLevi-Strauss, Claude. Pensamento Selvagem SP, Cia Ed Nacional, 1976

11. QUEIROZ, Marcos de Souza; CANESQUI, Ana Maria. Antropologia da medicina: uma revisão teórica. Rev. Saúde Pública,  São Paulo ,  v. 20, n. 2, p. 152-164,  Apr.  1986 .   Available from . access on  14  May  2018. 

12. MACIOCIA, G. Shen and hun: psyche, in, chinese medicine. http://maciociaonline.blogspot.com.br/2012/11/shen-and-hun-psyche-in-chinese-medicine.html Aces. Maio de 2018

13. LAPLATINE, François. Antropologia da Doença. SP, Martins Fontes, 1991

14. ELIADE, Mircéia. Patanjali e o yoga. Lisboa: Relógio d’água, 2000

15. COSTA, Paulo Pedro P. R. Kama Sutra & Tantra Yoga uma análise a partir da sexologia, psicanálise. https://pt.scribd.com/doc/24375517/KAMA-SUTRA

16. CORRAL, José Luis Padilla. Fundamentos da medicina tradicional oriental: Curso de acupuntura. SP, Roca, 2006

17. Hu D, Zhu W, Fu Y, et al. Development of village doctors in China: financial compensation and health system support. International Journal for Equity in Health. 2017;16:9. doi:10.1186/s12939-016-0505-7.

18. DE ROSE Yoga - Mitos E Verdades. SP, Nobel, 1992 Disponível no Google Livros Maio, 2011

 19. HERMÓGENES, José. Yoga para nervosos. RJ: Record, 1969.

 20. ELIADE, Mircea. Yoga, imortalidade e liberdade. SP: Palas Athena, 1996

21. FRAWLEY, D. Ayurveda and the mind. Twin Lakes, Wis.,Lotus Press, 1996 apud: FEUERSTEIN, Georg. A tradição do yoga, história, literatura, filosofia e prática. SP, Pensamento - Cultrix, 2006

22. STUX, Gabriel M.D. Acupuntura de chakra (Tradução: COSTA Paulo Pedro P. R.) Acupuntura Ciência & Profissão. 20 de junho de 2013 http://etnomedicina.blogspot.com.br/2013/06/acupuntura-de-chakra.html

23. CROSS John R. Acupuntura e o sistema de energia dos chakras SP: Manole, 2017

24. KUHN, Thomas. Estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 1978

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Acupuntura & Pediatria





ideogramas: criança, adolescente, médico e pediatra

Este estudo constitui uma rápida revisão de dois manuais ou livros textos e alguns poucos artigos disponíveis sobre a, relativamente rara, descrição da relação da acupuntura com a pediatria. Os livros de Pham Quang Chou médico acupunturista do Hospital Saint Roch em Nice, França (“Acupuntura e pediatria”, 1988/89) e Julian Scott, acupunturista inglês da cidade de Bath (“Acupuntura no tratamento da criança”, 1986/97) o primeiro com maior descrição da semiologia e técnicas e o segundo voltado para patologias e observações práticas de seu tratamento.

A intenção é a continuidade da pesquisa da descrição da natureza deste conhecimento médico tradicional, etnomédico ou mítico, numa concepção antropológica. Avaliar o espectro de técnicas e patologias típicas da infância descritas na medicina tradicional chinesa e tratadas sobretudo com a acupuntura.

origem oriental

As referências ao uso da medicina tradicional chinesa e acupuntura para doenças e tratamento de crianças e adolescentes se antecipam na forma de publicação, mas em sua maioria, coincidem com as primeiras referências do desenvolvimento da pediatria no ocidente como veremos.

Ao se pesquisar  a origem deste conhecimento na antiguidade oriental são comuns as referências ao Papiro de Ebers, escrito aproximadamente 1552 aC.,  descoberto 1872, que discutiu, entre outros tópicos, amamentação, e tratamento para verminoses e doenças de olho.

Na medicina árabe resultante tanto do contato como os gregos como as demais tradições asiáticas, identifica-se que Avicenna, (980-1037), discorreu sobre o tétano, verminoses, convulsões, meningites, e abscesso umbilical.


Pouco é citado entretanto das contribuições da medicina tradicional chinesa. O termo  pediatria, segundo Chou,  possui uma equivalência ao chinês que utiliza os ideogramas Chao  ( shǎo) e Siao ( xiao,  pequeno) modernamente  小儿科 xiao er ke (xiǎo ér kē - pequena criança; estudo (ramo do conhecimento).

Ainda segundo Chou, o mais antigo tratado de pediatria é o Lou-sin Kink  (La Fontanelle) no final da dinastia Tang  唐朝 (618-907), enquanto que podemos tomar com referência do primeiro tratado de pediatria o livro do médico italiano  Paolo Bagellardo publicado em 1472. Contudo como veremos houve um progressivo acumulo de descobertas e técnicas tanto na Ásia como na Europa e há algumas evidências de um mutua influência entre tais sistemas e cosmologias sobretudo nos sistemas etnomédicos sino-indiano e grego como propõe Joseph Needham (1900-1995) comparando antigos documentos.

Entre as publicações chinesas sobre pediatria podem ainda ser citados o Tsien-Che Siao-Eul redigido por Tsien Yi (1023-1104) revisto e publicado novamente em 1119. Este livro introduziu técnicas de diagnóstico pelo exame do rosto, olhos, tomada de temperatura frontal, e exame dos tegumentos do dedo indicador após compressão, além da tomada de pulso (esfigmologia) relativamente desprezada por ele.

Segundo Chou por volta de 1241 os “pediatras” já distinguiam a varíola a varicela e a escarlatina e a higiene e dietética eram normas de tratamento. Scott refere-se a um antigo aforismo sobre o baço-pâncreas, principal órgão meridiano da digestão, que diz: “o baço da criança é frequentemente insuficiente” ou “o tratamento das crianças é simples – todas sofrem de indigestão”.

Em 1758 Wang Che Long publica Houai-chao-tsi incluindo cuidados com o cordão umbilical e parasitologia com perfeita identificação da ascaridíase.

Para Scott a pediatria constitui a matéria especializada da MTC desde a dinastia Song  宋朝 (960-1279)

Uma das referências clássicas mais conhecidas e divulgadas do conhecimento tradicional chinês sobre o desenvolvimento é a conhecida passagem do livro do imperador amarelo, que descreve as fases da vida tomando como parâmetro a proporção e distribuição de pelos e a maturação sexual, em períodos bem próximos aos estabelecidos por nossos endocrinologistas. (Wang Bing)

Entre os gregos antigos a preocupação de distinção entre o adulto e a criança também estava presente e seguiu a mesma lógica dos chineses, como se pode deduzir destes aforismos hipocráticos sobre a febre, notavelmente semelhantes à antigos aforismos chineses que descrevem a facilidade com que as crianças contraem doenças de calor e estão sujeitas a convulsões, por serem acentuadamente Yang em  relação aos adultos, a saber:

“O yin das crianças frequentemente é insuficiente” ou “os órgãos são frágeis e suaves, o Chi facilmente sai do seu caminho” ou que torna as crianças mais vulneráveis, tornando-se superaquecidas em climas quentes ou hipotérmicas no frio (MTC apud Scott p.4)


“O corpo em crescimento tem um calor inato; requer portanto mais alimento para não enfraquecer. No velho calor é menos intenso, portanto requer menos combustível tal qual uma chama que seria extinta com muito. Do mesmo modo a febre em pessoas velhas não é tão grave quanto nas jovens exatamente porque seus corpos são mais frios”. (Hipócrates 1/14)

ciência grega

Na medicina grega antiga destacam-se as contribuições dos escritos de Hipócrates (c. 400 aC.), a quem se atribui a descrição identificação da escarlatina, sarampo, caxumba, escrofulose (tuberculosa em gânglios linfáticos?), varíola, diarreias, asma, escorbuto, raquitismo patologias neurológicas como a epilepsia e coréias (doença ou dança de St. Vitus ?) e algumas malformações congênitas como cefalohematomas encobertos hidrocefalia e pé torto congênito.

É lugar comum afirmar que o maior mérito da medicina hipocrática foi a busca de causas naturais no lugar das “místicas”, e não necessariamente a resolução de tais patologias, muitas das quais ainda sem resolução eficaz e afligem as populações de nossos dias. A medicina hipocrática continuada por seus sucessores, como é sabido, deu origem a moderna medicina ocidental incluindo portanto a pediatria. A palavra pediatria vem do grego da criança (paidos, παιδός) curador (iatros, ἰατρός), "doutor", "aquele que cura".

Há contribuições dos médicos romanos como Soranus de Efesus (100 DC) com grandes contribuições à obstetrícia e Galeno (200 DC) que identificou o risco e a elevada prevalência das desordens intestinais e pneumonia na infância e o raquitismo.

Contudo considera-se, como referido, que o primeiro livro médico sobre pediatria foi “Libellus [Opusculum] de aegritudinibus et remediis infantium” ("Pequeno livro do tratamento das doenças da criança")  publicado na Itália em  1472 pelo médico Paolo Bagellardo. (Desai, 1989) e/ou alguns outros tratados médicos publicados na Alemanha neste mesmo período.

Apesar da existência de livros e tratados médicos europeus com referências às doenças típicas da infância, para Rivorêdo, fundamentado no conhecido historiador de costumes Philippe Ariès (1914 – 1984), a pediatria moderna se funde ao movimento higiênico, mais especificamente à puericultura, e constituiu-se a partir de um movimento social no ocidente europeu que se difundiu por outras sociedades, como parte da construção da medicina moderna. O que por sua vez  acompanhou o processo de expansão do capitalismo e modificações culturais que tipificaram a nossa concepção moderna de infância.

Não há dúvidas que as grandes epidemias de doenças infecto-contagiosas e as grandes crises de mortalidade de populações dessa época foram a demanda da higiene, da emergente medicina preventiva e atenção à mortalidade infantil. Rosen nos mostra que esta relação entre o controle das doenças transmissíveis e o salvamento da vida infantil, já estavam presentes nas recomendações de William Petty (1623 -1687) na sua “Aritimética Política”.

Ainda segundo Rivorêdo o cuidado médico se articula às demais práticas sociais fornecendo legitimação científica para o cuidado com a saúde das crianças, privilegiando o controle das populações para o desenvolvimento da sociedade, particularmente as camadas mais pobres.

Não pretendemos discutir as questões relativas à ordem médica e norma familiar, apesar da relevância dessa questão para o entendimento e controle de algumas patologias “construídas”. “Patologias que se caracterizam pela dificuldade das crianças se adaptarem a tais padrões de comportamento idealizados, a exemplo da hiperatividade por déficit de atenção, distúrbios de aprendizagem e algumas formas do retardo mental e deficiência intelectual.

Nos dois manuais de Acupuntura e Pediatria consultados para confecção deste artigo Medicina Tradicional Chinesa (MTC) há diversas observações para o tratamento de convulsões (hien), epilepsias (tien) síndromes paralíticas (compreendidas como uma patogenia tradicional) e neuropsiquiátricas na moderna concepção (astenia, autismo, tonturas, irritabilidade terror, noturno, tiques),  em Chou.

Scott dedica capítulos inteiros ao grupo abordado hoje pela neuropediatria: convulsões, epilepsia (dian xian, dian kuang), enurese noturna, insônia e terror noturno, abordadas e descritas na concepção da MTC e dá uma atenção especial ao retardo mental, ressaltando a importância no tratamento precoce (antes dos 3 anos), distinguindo os casos graves dos “distúrbios de aprendizagem”. Aborda a questão da hiperatividade na ótica tradicional da MTC a aproximando dos quadros de mania (kuang) e ás síndromes epileptiformes (uma forma yang da síndrome dian kuang). 
   
Sobre as doenças infecciosas, como são livros modernos, sua maior atenção é dirigida ao alivio de sintomas, Chou dando maior atenção às febres e síndromes febris e Scott à tosse, broncoespasmo (asma), dor, vômito diarreia abordando inclusive as formas atuais e tradicionais de diagnóstico e tratamento de algumas das grandes patologias epidêmicas da infância o sarampo a coqueluche e a parotidite.

Sabe-se que entre as normas e rotinas  da puericultura atual está a atenção às doenças transmissíveis através da imunização, desde finais do século XIX após a descoberta da vacina contra varíola. Sabe-se também que primeira discussão escrita sobre a inoculação anti-varíola que se tem noticia, vem da China, segundo Joseph Needham, entre 1567 e 1572. Ele investigou as origens desta prática que era realizada, talvez por um efeito de indução da menstruação, mas como muitos "inoculadores" não revelavam seus segredos, ficou sendo difícil estabelecer exatamente quando iniciou e quais os efeitos atribuídos ou esperados. Essa prática difundiu-se pelo oriente e Europa. No ocidente Edward Jenner (1749–1823) inoculou um menino de 8 anos com matéria extraída da lesão da lesão da ordenhadora afetada pela vaccinia e a criança não desenvolveu a doença. (Boylston)
Alguns acupunturistas modernos (inclusive os aqui pesquisados por sua contribuição à acupuntura pediátrica) homeopatas, naturistas fazem restrição ao excesso de vacinas atualmente praticado.

Apesar da relevância deste tema, não nos estenderemos sobre os efeitos da acupuntura e outras técnicas da medicina chinesa sobre o sistema imunológico. Observe-se que a aplicação de alguma vacinas foram incorporadas à rotina dos médicos de pés descalços na China do século XX. (Zhang, Unschuld).

segurança e eficácia da acupuntura

Interessante, do ponto de vista de entendimento da natureza do conhecimento mítico, pois assim os antropólogos denominam as formas de conhecimento não ocidentais,  tradicional, folk (popular) ou secular, são as observações e noções sobre a interação entre a “carga genética” ou características herdadas dos pais e fatores ambientais,  afetando tanto o potencial de crescimento e desenvolvimento, como a imunidade (resistência à doenças) de cada indivíduo.

Para os chineses o Chi possui três principais características: O Jing Chi ou “energia / vitalidade” herdada dos pais, a energia dos alimentos e energia do ar. Essa é a energia que movimenta e mantém os seres vivos.

Tanto Chou com Scott comentam referências dos textos antigos a questão do uso de agulhas em crianças, perguntando se este uso poderia afetar este potencial de crescimento que é o Jing ou energia ancestral.

Chou discorre diretamente sobre questão, é categórico na afirmação de que “a acupuntura não promove dano ou desperdício do Jing ou energia ancestral do recém nascido e infante mas recomenda o uso da menor quantidade de agulhas e apresenta diversa técnicas alternativas (auriculopuntura, tui na...) incluindo o tratamento da mãe ou na linguagem da pediatria moderna do binômio mãe-filho.  (p. 62-76)

Scott apresenta considerações semelhantes, também apresenta técnicas alternativas e recomenda a punção e retirada das agulhas, em vez de sua retenção. (p. 38-46) Ambos atentos para os efeitos psicológicos do medo de agulhas e mobilidade acentuada das crianças.

A acupuntura pediátrica no ocidente tem sido mais divulgada por sua associação ao Tui Na para crianças, que corresponde forma de massagem chinesa similar ao Do In também bastante conhecida com forma de automassagem ou autocuidado.  

Ainda está para ser realizado uma aproximação entre o Tui Na e alguns problemas neuropediátricos que começam a ser compreendidos como passíveis de melhora com técnicas de estimulação precoce, com diversas técnicas (Bobath; Pontos Motores; Castillo Morales; Doman-Delacato etc.). Uma rápida revisão de artigos publicados em língua portuguesa tem mostrado o interesse de pesquisadores para síndromes dolorosas a exemplo da fibromialgia e e anemia falciforme (Dias; Marques).

O que não deixa dúvidas é que a acupuntura é uma atividade multiprofissional que merece uma atenção especial enquanto técnica de neuro-psico-imuno-estimulação, e que, sob o risco de não ser compreendido, este conhecimento não pode ser reduzido a neurofisiologia ou neuropsicologia médica ocidental sem o crivo e orientação da antropologia, mais especificamente, da etnomedicina - a ciência que estuda e compara distintas formas de conhecimento e técnicas que deram origem a medicina cosmopolita. Práticas essas que apesar da ampla divulgação mundial que vem assumindo, ainda são a única alternativa  de serviços "médicos" de distintos povos e segmentos da população para recuperação e manutenção da saúde. 

Referências

CHAU, Pham Quang.Acupuntura e pediatria. SP: Andrei, 1989
Pham Quang Châu Acupuncture chez l'enfant

SCOTT,  Julian Acupuntura no tratamento da criança. SP: Roca, 1997
Julian Scott. Acupuncture and Chinese Medicine in Bath
http://www.eyebright.me.uk/

ARIÈS, P. História social da criança e da família. In: LEGOFF, J., org. História nova.São Paulo: Martins Fontes,1990.

BOYLSTON, Arthur. “The Origins of Inoculation.” Journal of the Royal Society of Medicine 105.7 (2012): 309–313. PMC. Web. 4 Jan. 2018. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3407399/

DESAI, A.B. (ed.). Textbook Of Paediatrics. Índia: Orient Blackswan, 1989

DIAS, Marialda Höfling P. et al . Acupuntura em adolescentes com fibromialgia juvenil. Rev. paul. pediatr.,  São Paulo ,  v. 30, n. 1, p. 6-12,    2012 .   Available from . http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-05822012000100002 access on  17  Nov.  2017.

MARQUES, Carla Verônica Paixão. Acupuntura a laser no tratamento da dor em criança com anemia falciforme.  Relato de caso. Rev. dor,  São Paulo ,  v. 15, n. 1, p. 70-73,  Mar.  2014 .   Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-00132014000100070 access on  17  Nov.  2017. 

RIVORÊDO, Carlos Roberto Soares Freire de. Pediatria: medicina para crianças? . Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 33-46 , dec. 1998. ISSN 1984-0470. Disponível em: . Acesso em: 04 jan. 2018. http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v7n2/04.pdf

ROSEN, George. A evolução da medicina social. in: NUNES, Everaldo D. Medicina Social, aspectos históricos e teóricos.  SP: Global Ed., 1983

ZHANG, Daqing; UNSCHULD, Paul U. (2008). "China's barefoot doctor: Past, present, and future". The Lancet. 372 (9653): 1865–1867. doi:10.1016/S0140-6736 (08)61355-0. PMID 18930539.

WANG, BING Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Dinastia Tang – Edição bilíngue). SP, Ed Ícone, 2001


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Acupuntura, mente-espírito e estados fásicos da consciência


Este texto foi adaptado de um capítulo da monografia de especialização em acupuntura intitulado “O mar de dentro, um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês”, orientado pelo biofísico e acupunturista Prof. Jurecê Machado no curso de formação que ministrava, vinculado a Associação Brasileira de Acupuntura - seção da Bahia, inaugurada por Dr Heackel Mayer. Elabora uma revisão das referências às antigas descrições do “mar de medula”, relacionando este órgão que corresponde a concepção chinesa de cérebro, às modernas aplicações da acupuntura nas doenças nervosas (neurológicas, psiquiátricas ou psicológicas e psicossomáticas).

O presente objetivo é a descrição da concepção tradicional chinesa de mente ou consciência, enquanto função que permite o pleno domínio das emoções e adaptação do indivíduo a seu ambiente - a longevidade numa perspectiva materialista e a imortalidade numa concepção espiritualista, dedutível pelo uso de um mesmo ideograma (shén) para mente e espírito como veremos.

O exercício de algumas das diversas técnicas de concentração e domínio da atenção ou meditação, que conhecemos aqui no ocidente, tem origem no Taoísmo, no Budismo, nas religiões tibetanas, e no Hatha Yoga indiano. Podem ser descritas como técnicas  psicofisiológicas análogas, e são delas derivadas. Dispensam apresentação, por exemplo, as conhecidas técnicas de relaxamento progressivo e treinamento autógeno de Edmund Jacobson (1888-1983) e Johannes Heinrich Schultz (1884-1970) onde está implícito reconhecimento da neurofisiologia ou função cerebral da "consciência", nestes exercícios e função que ocupa uma posição central na neuropsiquiatria ocidental.

O interesse especial do estudo neurofisiológico da acupuntura em estender-se às técnicas taoístas, também designadas como alquímicas (da alquimia chinesa), não é apenas pelo exercício e rigor de uma abordagem antropológica que explora a unidade e diferenciação étnica dos povos asiáticos. Segue a clássica recomendação maussiana [2] de análise do “fato social total”  ou seja a recomendação de que um estudo não deve limitar-se a comparação de um item isolado ou um só aspecto de uma cultura.

Pode-se afirmar que o maior interesse da acupuntura nesta seara da neurociência é decifrar o enigmático conceito e ideograma do Shen que tanto pode ser entendido como espírito como por mente – consciência, ligado ao coração. Um dos cinco aspectos mentais juntamente com o Hun (alma etérea), o Po (alma corpórea) pertencente ao pulmão; Yi (intenção, tendência) e o Zhi (memória) ligado ao rim e jing ancestral e à própria mente (Shen). [3] Nesse texto nos ocuparemos do Shen comparando-o com as possíveis interpretações da neurofisiologia ocidental e concepções indianas das descrições de Patanjali.

Observe-se que nesta descrição está o modelo de mente-consciência como função que regula o corpo (Po - alma corpórea), permite a imortalidade (Hun -alma etérea) constituindo os desejos conscientes e tendências (Yi – intelecto) e a memória e a aspiração (instinto de sobrevivência) ou o shen – substância mental. Exploramos a relação desta com as emoções, meridianos e cérebro (o mar de medula) em um outro artigo sobre tal concepção abstrata de aplicações clínicas que é o objeto de nossa tese. No momento interessa-nos apenas o entendimento do shen enquanto representação do que entendemos por espírito – mente – consciência.

Como dito algumas das "modernas" técnicas de intervenção no tônus muscular e controle da tensão nervosa tem origem oriental e foram efetivamente incorporadas à medicina ocidental (neuropsiquiatria), com os nomes de: auto-hipnose, hipnose, treinamento autógeno, técnicas de relaxamento progressivo. Entre as formas de interpretação de tais efeitos ainda se utiliza o referencial teórico da neurofisiologia russa (pavloviana) sobre atividade nervosa superior, estados de fase e a consciência, [4, 5]  Embora grandes avanços se registrem no que atualmente designamos por funções executivas; “atividade da rede neural de modo padrão” (DMN Default Mode Network); [6] ou mesmo na própria neurofisiologia russa que relaciona os mecanismos da atenção (a unidade do tono, vigília e estados mentais) aos sistemas de assimilação - processamento (unidade de receber, analisar e processar informações) e execução de ações (unidade de programar, regular e verificar atividades), as três unidades funcionai propostas por A. R. Luria (1903-1978) para descrição da organização cerebral das atividades mentais. [7]

Contudo neste texto interessa nos o registro de que são essencialmente semelhantes: as descrições orientais (chinesas e indianas) de consciência e suas variações, e as  descrições ocidentais da consciência (atividade nervosa superior) e seus estados fásicos, detectáveis no eletroencefalograma. A consciência compreendida como frequência de ondas presentes entre a vigília e o sono, a saber: o estado de alerta; o estado alfa; o sono com sonhos (REM - Rapid Eyes Movement), o sono sem sonhos NREM (Non-Rapid Eyes Movement) e o estupor - coma.



Uma diferença básica entre essas concepções é observada quanto a diferenciação dos graus de estupor e coma (escala Glasgow) no ocidente e o desenvolvimento de estados metabólicos semelhantes à hibernação e/ou a crença na vida sem batimentos cardíacos e respiração nos estados catalépticos dos yogues e faquires no oriente.

Esta constatação nos situa então diante de dois grandes problemas que apenas a metodologia etnohistórica não parece ser suficiente (1) a comparação de crenças ou sistemas etnomédicos orientais (asiáticos) e (2) a comparação destes com pesquisas e teorias da medicina cosmopolita ocidental.

Segundo Tierra especialista em medicina oriental e tradutor de "Tao e Dharma" de Robert Svoboda e Arnie Lade, [8] um livro que explora as semelhanças e diferenças entre a medicina chinesa e ayurvedica, a distinção entre esses sistemas foi acentuado pelo modo como foram incorporados ao ocidente nas décadas de 70 e 80. Para acupuntura, onde se caracteriza uma abordagem físico-materialista houve um esforço desde a China para adaptar esta ao materialismo comunista chinês enquanto que a medicina ayurvédica acompanhou a trajetória da Yoga indiana acolhida pela filosofia espiritualista.

Svoboda e Lade apontam o uso do conceito de energia vital como principal elemento unificador e destacam a difusão do Budismo como elemento facilitador do intercâmbio entre esses sistemas reconhecendo porém o caráter empírico e particular de cada sistema.

Por outro lado, numa perspectiva  da integração do conhecimento produzido na cultura chinesa à atual medicina cosmopolita, apenas se inicia o interesse ocidental de psiquiatras (psicanalistas) por essa corrente mítico – religiosa. Na década de 1930 houve a tradução e comentário do “Segredo da Flor de Ouro” por Richard Wilhelm (1873-1930) e Carl Gustav Jung (1875-1961) e mais recentemente Alan Watts (1915-1973) escreveu o livro ”Psicoterapia oriental e ocidental” numa retomada deste interesse na década de 70. Pode-se dizer que houve também uma incorporação e difusão da acupuntura distinta da abordagem médica, físico-materialista, contudo também não plenamente aceita como científica, a contragosto dos representantes da psicologia analítica e contracultura com suas medicinas alternativas.

Segundo Jung é nesse importante texto, “A Flor do Ouro” que encontramos uma clara reflexão sobre a consciência, no seu sentido mais amplo e profundo incluindo as paixões, exigências instintivas  e o caminho ou forma de libertação dos opostos, segundo ele, comparáveis à psicoterapia ocidental (individuação). Atribui a esse livro (O segredo da Flor de Ouro) e ao Livro Tibetano dos Mortos (Bardo Thödol) seu interesse e compreensão da alquimia (européia) como um caminho de auto – conhecimento.  [9]

A descrição oriental detalhada do espírito, (o que inclui as formas de pensamento e controle corporal) e do processo em que a alma se separa do corpo, são os objetos desse saber. Para Jung assim deve ser interpretado o texto tibetano utilizado em rito fúnebre da grande libertação no Tibet - o Bardo Thodol que significa literalmente a  libertação pelo entendimento da vida após a morte..

A avaliação das possibilidades de perceber e conhecer o Eu verdadeiro independente dos condicionamentos dos órgãos dos sentidos, hábitos de raciocínio e os conjuntos de arquétipos e complexos de idéias do universo da psique são claramente detalhados nos textos orientais e ainda segundo o autor de uma psicologia do oriente e ocidente, excepcionalmente úteis para compreender os fenômenos de alteração da consciência, o sofrimento da psicose e transtornos mentais. 

Contudo os textos orientais ainda nos parecerão enigmáticos se vistos apenas como mítico – religiosos, embora nos obriguem a pensar sobre a realidade de sua aplicação à prática clínica.  As técnicas do yoga e acupuntura, por exemplo são utilizadas a milhares de anos e naturalmente houve um acumulo de experiência empíricas, conhecimento, que talvez provenham unicamente dessas experiências (?) como querem os cientistas apegados ao paradigma do materialismo científico.

a sabedoria da racionalidade mítica

Observe-se que a distinção entre mito e ciência, analisados á luz da antropologia estrutural, se realiza a partir de sua fundamentação na percepção (ciência ocidental) e na introspecção (mito) segundo Levi Strauss em seu clássico  Pensamento Selvagem.

Em nossa revisão, vale registrar, encontramos este fragmento de texto abaixo citado, que traz uma outra interessante coincidência, trata-se da descrição do método da introspecção utilizado no pensamento “mítico” chinês. No caso utilizado para "observar-se" e conhecer a mente ou shen - o espírito que comanda o hsing (corpo).

Lê-se no “livro do imperador amarelo”, o mais antigo compêndio da medicina tradicional chinesa:

"O shen não pode ser escutado com o ouvido, o olho deve ser brilhante de percepção e o coração deve ser aberto e atento para que o espírito se revele subitamente através da própria consciência de cada um. Não se pode exprimir pela boca; só o coração sabe exprimir tudo quanto pode ser observado. Se presta muita atenção, pode-se ficar a saber subitamente, mas também pode-se perder de repente esse saber. Mas shen, o espírito, torna-se claro par o homem como se o vento tivesse varrido as nuvens. Por isso se fala dele como do espírito." 

Observe-se a semelhança com as técnicas de meditação e auto observação que, como comenta Eliade, conduziu ao desenvolvimento de uma psicologia na Índia, que reconhece pelo menos quatro estados de consciência: a diurna; a dos sonhos; a do sono sem sonhos; e a cataléptica; experimentadas racionalmente por exercícios respiratórios e de atenção que permitem o acesso lúcido a cada um desses estados correspondentes a uma freqüência respiratória.

Sem as medidas do eletroencefalograma os indianos (e talvez os chineses) identificaram e tem propostas de intervenção nos fenômenos bio-elétricos mapeados por esse aparelho, inclusive dos estados de anestesia (ondas teta e delta), não mencionados por Eliade mas conhecido por faquires com suas técnicas de meditação e acupunturistas com suas agulhas e ervas.  

Observe-se porém que a concepção chinesa envolve cinco aspectos distintos da concepção indiana e pavloviana de estados fásicos, mas também se adéqua à prática das técnicas de meditação, embora explore o controle das regulações orgânicas (e existência extra corpórea) distinguindo alma etérea e corpórea (Hun e o Po) e os diversos aspectos ou qualidades do Chi, a esfera dos desejos (Yi reflexão) e a memória e força de vontade (Zhi). Um modelo sem dúvida mais complexo, mas ainda por ser decifrado em comparações étnicas e neuroantropológicas que articulem as emoções e a regulação orgânica.

Os exercícios de meditação relativamente semelhantes ao que conhecemos como técnicas de treinamento autógeno que são conhecidos e amplamente divulgados com dezenas de variações em escolas indianas, chinesas e tibetanas precisam ser devidamente estudados na ótica de uma possível etnopsiquiatria ou neuroantropologia.

a essência, o corpo e a mente

Os chineses concebem o homem como um microcosmo, o homem  é um elemento de conjunção dos pares contrapostos, Céu - Homem – Terra, que constituem os 3 principais elementos do mundo, o eixo yin / yang dos San Tsai (Tan T'ien). Essa imagem segundo Jung é uma representação antiqüíssima  que de uma forma semelhante em diversas regiões, cita como exemplo o mito africano ocidental de Obatala e Odudua (Céu e Terra) pais primordiais, que jazem em uma cabaça até que um filho, o homem surge entre eles.

O homem tal como um microcosmos, encerra a conjugação em si próprio dos contrastes e da dualidade. A tarefa de libertação no pondo de vista oriental e da psicoterapia ou individuação na proposição Jungniana é compreender este processo ou sua origem.  Ambas concepções se constituem como caminhos de trazer calma e paz de espírito, (harmonia com o Tao) condição essencial para manutenção e recuperação da  saúde.

Acupuntura requer portanto o conhecimento e concepção de espírito? O Shen referido, denota um aspecto imaterial do ser - o espírito, equivalente à psique? A mente ou psique é um instrumento de transformação de símbolos - a energia psíquica. Na concepção jungniana das técnicas de meditação/libertação.

Numa concepção mais restrita a expressão Shen (às vezes traduzido por espírito e as vezes por sentimento) designa a manifestação exterior da vitalidade do corpo e em um sentido estrito representa a consciência que comanda o Coração e atividade mental. Esta compreensão está associada no referido sistema conceitual dos San Tsai (Tan T'ien) ao Jing (traduzido como essência ou Chi ancestral) que corresponde ao meridiano, e funções do rim na acupuntura e também o que os indianos conhecem como "karma" e nós (ocidentais) como determinação genética, na medida em que descreve nossa vitalidade como potencial herdado. O Qi, na acupuntura assume muitas formas ou significados condizentes com a função que exerce em cada momento.

O diagrama, abaixo referido,  mostra a relação entre o Shen, Jing e órgãos responsáveis pela assimilação e distribuição da energia Qi do ar e alimentos.  O Tien é o princípio cósmico imaterial; Qi, “ a raiz do homem”, (seu ideograma pode ser decomposto em grão de arroz e vapor) e Jing é a energia ancestral que se conserva no meridiano dos rins.


O Qi circula em um fluxo interno, transforma a essência do alento e a energia espiritual (shen). Atravessa os campos de transformação os 3 (san) jiao: shang Jiao (alto - suspender);  zhong Jiao (meio) e  Xia Jiao (baixo inferior) conforme a Doutrina Médica Chinesa, segundo o Huangdi Neijing obedecendo as leis as leis do  Yin/Yang e dos 5 elementos.



o espírito e o coração

Como é amplamente conhecido um grande numero de povos, inclusive nas nossas concepções populares e cristãs, atribui-se os sentimentos e algumas funções da mente ao coração. Segundo as antigas teorias expressas por exemplo no Ling Shu (parte integrante do livro do imperador amarelo) é o coração que “reúne o espírito”. O coração comanda vasos e encerra o pulso e o pulso é a morada do Shen. O ponto que localiza-se nessa região do braço correspondente ao meridiano do coração chama-se Porta do espírito (Shen Men)

Na pratica da acupuntura, talvez numa dimensão não apensas simbólica, mas exercida com o uso de agulhas em pontos específicos ... acalmar o coração é uma forma de acalmar o espírito.

Sabemos entretanto que textos mais recentes do sec. XVI e XVIII  já reconhecem como do cérebro as funções da memória e inteligência e percepções decorrentes dos órgãos dos sentidos. Na época Ming, Li Zhi Zhen (1518-1593) afirmava que o "cérebro" é a morada do Shen original (Yuan Shen) ou espírito.

 Essa "descoberta" porém não constituiu uma contradição às tradições que também afirmava que o espírito e o cérebro estão unidos pelo sangue ("O Qi empurra o sangue (Xue). O sangue nutre o Qi").  Além do que como pode ser constatado em qualquer manual de acupuntura moderno existem estratégias de diagnóstico e tratamento com agulhas, moxabustão e ervas medicinais para as diversas patologias neurológicas, psiquiátricas ou psicológicas e psicossomáticas diagnosticadas como doenças nervosas no ocidente desde a evolução da medicina hipocrática (a quem se atribui a descoberta da relação entre o cérebro e a mente) em direção a medicina ocidental cosmopolita.

Entre as primeiras iniciativas de integração da medicina tradicional chinesa com a medicina ocidental deve-se destacar as contribuições da Revolução Cultural e Ministério da Saúde Pública da República Popular da China, propondo estrategicamente a criação de profissionais de nível médio versados em medicina tradicional chinesa e saúde pública, denominados Médicos de Pés Descalços e principalmente um caminho para sua formação onde se destaca a revisão do ensino da acupuntura. Foi elaborado o “livro dos quatro institutos” uma reunião das diversas tendências e escolas de acupuntura (Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Beijing; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Shanghai; Escola de Medicina Tradicional Chinesa de Nanjing; Academia de Medicina Tradicional Chinesa).

Um livro que também re-apresentou a acupuntura ao ocidente e já incluía as concepções de patologias do ocidente, em nosso caso a histeria, distúrbios mentais depressivos e maníacos além de diversos sinais e sintomas de doenças neurológicas e psicossomáticas tipo insônia, ansiedade, impotência, ejaculação precoce, enurese noturna etc.

Não se deve esquecer também que os chineses antigos já reconheciam o órgão cérebro (mar de medula) e lhe atribuíam funções próximas das modernas concepções. Lê-se no Ling Shu: ..." o mar da medula em excesso significa um relaxamento muscular que ultrapassa a medida"... O que pode muito bem ser referências ao coma, estupor ou paralisia flácida numa escala de gradações do relaxamento e ..."o mar de medula em insuficiência provoca zumbidos de ouvidos com atordoamento do “cérebro” (vertigens). Observa-se dores intensas nas pernas, vertigens e perturbações na vista. O relaxamento incita ao sono"...

Enigmáticas entretanto continuam as relações entre este órgão e a mente, tanto para os gregos tal como evidenciam as divergências entre Hipocrates (460 – 370 a.C.) e Aristóteles  (384-322 a.C.) como para a moderna neurociência que ainda se vale de distintos modelos (a exemplo dos citados acima derivados da concepção pavloviana) utilizados nas distintas especialidades médicas (neurologia, endocrinologia, psiquiatria, anestesia, fisiatria, foniatria) e paramédicas (psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia etc.) entre as quais está se inserindo o profissional de acupuntura.

Para alguns patologias autores modernos tem pesquisado equivalências aos desequilíbrios e agravos descritos na medicina chinesa antiga (a exemplo da síndrome dian kuang considerando a forma de classificação das emoções, (ética de relações interpessoais), a mente - espírito e o comportamento adequado (inclusive dietético) nas diversas estações do ano, um equilíbrio entre fatores internos e externos como se aprende nos ensinos de Huang di, o “Imperador Amarelo em dialogo com seu médico e aprendiz Qi Po.



Referências

1 COSTA Paulo Pedro P. R. O "mar de dentro" um estudo da concepção de cérebro, mente e espírito no sistema etnomédico chinês. Monografia para conclusão do Curso de Acupuntura Sistêmica e Auriculoterapia na Escola Científica de Acupuntura - CLIMA
filiada à Associação Brasileira de Acupuntura seção Bahia  tendo como Orientador: Prof. Jurecê J. Machado. Salvador,  julho de 2000

2 MAUSS Marcel. Sociologia e antropologia. SP: Cosac Naiify, 2003

3 MACIOCIA, Giovanni. Os fundamentos da medicina chinesa. SP: Roca, 2015

4 PAVLOV, Ivan P. O problema do sono (1935) in: PAVLOV, Ivan P. Reflexos condicionados e inibições. RJ: Zahar, 1972

5 ASTRUP, Christian. Psiquiatria pavloviana, a reflexologia atual na prática psiquiátrica. RJ: Atheneu, 1979

6 RAICHLE, Marcus E. A energia escura do cérebro. Scientific American Brasil, Edição especial neurociência 1; (26-31), fevereiro – março de 2014. São Paulo

7 LURIA, Aleksandr R. Fundamentos de neuropsicologia. RJ: Livros Técnicos e Científicos. SP: EDUSP, 1981

8 SVOBODA, R; LADE, A. Tao e Dharma, medicina chinesa e ayurveda. SP: Pensamento, 1998

9 JUNG, Carl G. Psicologia e religião oriental. RJ: Zahar, 1986

10 ELIADE, Mircea. Yoga: imortalidade e liberdade. SP, Palas Athena, 1996

11 ELIADE, Mircea. Patañjali e o Yoga. Lisboa: Relógio d’água, 2000

12  WANG, Bing Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Dinastia Tang – Edição bilíngue). SP, Ed Ícone, 2001

ver também

NEI CHING, O livro de ouro da medicina chinesa, RJ, objetiva. reedição da primeira tradução para língua portuguesa publicado por Editora Minerva, Pt, 1940

LING – SHU, Base da acupuntura da medicina tradicional chinesa. Tradução e comentários de Ming Wong. SP, Andrei, 1995

JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. RJ: Zahar, 1974

JUNG, C.G. O segredo da flor do ouro, um livro de vida chinês. RJ, Vozes, 1992

LEVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem São Paulo, Companhia Ed Nacional, 1976

LEVI-STRAUSS, C. A Natureza do Pensamento Mítico, IN: A Oleira Ciumenta São Paulo, Ed Brasiliense, 1986

WATTS Alan W. Psicoterapia oriental e ocidental. RJ, Record, 1972


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