quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Acupuntura & Pediatria





ideogramas: criança, adolescente, médico e pediatra

Este estudo constitui uma rápida revisão de dois manuais ou livros textos e alguns poucos artigos disponíveis sobre a, relativamente rara, descrição da relação da acupuntura com a pediatria. Os livros de Pham Quang Chou médico acupunturista do Hospital Saint Roch em Nice, França (“Acupuntura e pediatria”, 1988/89) e Julian Scott, acupunturista inglês da cidade de Bath (“Acupuntura no tratamento da criança”, 1986/97) o primeiro com maior descrição da semiologia e técnicas e o segundo voltado para patologias e observações práticas de seu tratamento.

A intenção é a continuidade da pesquisa da descrição da natureza deste conhecimento médico tradicional, etnomédico ou mítico, numa concepção antropológica. Avaliar o espectro de técnicas e patologias típicas da infância descritas na medicina tradicional chinesa e tratadas sobretudo com a acupuntura.

origem oriental

As referências ao uso da medicina tradicional chinesa e acupuntura para doenças e tratamento de crianças e adolescentes se antecipam na forma de publicação, mas em sua maioria, coincidem com as primeiras referências do desenvolvimento da pediatria no ocidente como veremos.

Ao se pesquisar  a origem deste conhecimento na antiguidade oriental são comuns as referências ao Papiro de Ebers, escrito aproximadamente 1552 aC.,  descoberto 1872, que discutiu, entre outros tópicos, amamentação, e tratamento para verminoses e doenças de olho.

Na medicina árabe resultante tanto do contato como os gregos como as demais tradições asiáticas, identifica-se que Avicenna, (980-1037), discorreu sobre o tétano, verminoses, convulsões, meningites, e abscesso umbilical.


Pouco é citado entretanto das contribuições da medicina tradicional chinesa. O termo  pediatria, segundo Chou,  possui uma equivalência ao chinês que utiliza os ideogramas Chao  ( shǎo) e Siao ( xiao,  pequeno) modernamente  小儿科 xiao er ke (xiǎo ér kē - pequena criança; estudo (ramo do conhecimento).

Ainda segundo Chou, o mais antigo tratado de pediatria é o Lou-sin Kink  (La Fontanelle) no final da dinastia Tang  唐朝 (618-907), enquanto que podemos tomar com referência do primeiro tratado de pediatria o livro do médico italiano  Paolo Bagellardo publicado em 1472. Contudo como veremos houve um progressivo acumulo de descobertas e técnicas tanto na Ásia como na Europa e há algumas evidências de um mutua influência entre tais sistemas e cosmologias sobretudo nos sistemas etnomédicos sino-indiano e grego como propõe Joseph Needham (1900-1995) comparando antigos documentos.

Entre as publicações chinesas sobre pediatria podem ainda ser citados o Tsien-Che Siao-Eul redigido por Tsien Yi (1023-1104) revisto e publicado novamente em 1119. Este livro introduziu técnicas de diagnóstico pelo exame do rosto, olhos, tomada de temperatura frontal, e exame dos tegumentos do dedo indicador após compressão, além da tomada de pulso (esfigmologia) relativamente desprezada por ele.

Segundo Chou por volta de 1241 os “pediatras” já distinguiam a varíola a varicela e a escarlatina e a higiene e dietética eram normas de tratamento. Scott refere-se a um antigo aforismo sobre o baço-pâncreas, principal órgão meridiano da digestão, que diz: “o baço da criança é frequentemente insuficiente” ou “o tratamento das crianças é simples – todas sofrem de indigestão”.

Em 1758 Wang Che Long publica Houai-chao-tsi incluindo cuidados com o cordão umbilical e parasitologia com perfeita identificação da ascaridíase.

Para Scott a pediatria constitui a matéria especializada da MTC desde a dinastia Song  宋朝 (960-1279)

Uma das referências clássicas mais conhecidas e divulgadas do conhecimento tradicional chinês sobre o desenvolvimento é a conhecida passagem do livro do imperador amarelo, que descreve as fases da vida tomando como parâmetro a proporção e distribuição de pelos e a maturação sexual, em períodos bem próximos aos estabelecidos por nossos endocrinologistas. (Wang Bing)

Entre os gregos antigos a preocupação de distinção entre o adulto e a criança também estava presente e seguiu a mesma lógica dos chineses, como se pode deduzir destes aforismos hipocráticos sobre a febre, notavelmente semelhantes à antigos aforismos chineses que descrevem a facilidade com que as crianças contraem doenças de calor e estão sujeitas a convulsões, por serem acentuadamente Yang em  relação aos adultos, a saber:

“O yin das crianças frequentemente é insuficiente” ou “os órgãos são frágeis e suaves, o Chi facilmente sai do seu caminho” ou que torna as crianças mais vulneráveis, tornando-se superaquecidas em climas quentes ou hipotérmicas no frio (MTC apud Scott p.4)


“O corpo em crescimento tem um calor inato; requer portanto mais alimento para não enfraquecer. No velho calor é menos intenso, portanto requer menos combustível tal qual uma chama que seria extinta com muito. Do mesmo modo a febre em pessoas velhas não é tão grave quanto nas jovens exatamente porque seus corpos são mais frios”. (Hipócrates 1/14)

ciência grega

Na medicina grega antiga destacam-se as contribuições dos escritos de Hipócrates (c. 400 aC.), a quem se atribui a descrição identificação da escarlatina, sarampo, caxumba, escrofulose (tuberculosa em gânglios linfáticos?), varíola, diarreias, asma, escorbuto, raquitismo patologias neurológicas como a epilepsia e coréias (doença ou dança de St. Vitus ?) e algumas malformações congênitas como cefalohematomas encobertos hidrocefalia e pé torto congênito.

É lugar comum afirmar que o maior mérito da medicina hipocrática foi a busca de causas naturais no lugar das “místicas”, e não necessariamente a resolução de tais patologias, muitas das quais ainda sem resolução eficaz e afligem as populações de nossos dias. A medicina hipocrática continuada por seus sucessores, como é sabido, deu origem a moderna medicina ocidental incluindo portanto a pediatria. A palavra pediatria vem do grego da criança (paidos, παιδός) curador (iatros, ἰατρός), "doutor", "aquele que cura".

Há contribuições dos médicos romanos como Soranus de Efesus (100 DC) com grandes contribuições à obstetrícia e Galeno (200 DC) que identificou o risco e a elevada prevalência das desordens intestinais e pneumonia na infância e o raquitismo.

Contudo considera-se, como referido, que o primeiro livro médico sobre pediatria foi “Libellus [Opusculum] de aegritudinibus et remediis infantium” ("Pequeno livro do tratamento das doenças da criança")  publicado na Itália em  1472 pelo médico Paolo Bagellardo. (Desai, 1989) e/ou alguns outros tratados médicos publicados na Alemanha neste mesmo período.

Apesar da existência de livros e tratados médicos europeus com referências às doenças típicas da infância, para Rivorêdo, fundamentado no conhecido historiador de costumes Philippe Ariès (1914 – 1984), a pediatria moderna se funde ao movimento higiênico, mais especificamente à puericultura, e constituiu-se a partir de um movimento social no ocidente europeu que se difundiu por outras sociedades, como parte da construção da medicina moderna. O que por sua vez  acompanhou o processo de expansão do capitalismo e modificações culturais que tipificaram a nossa concepção moderna de infância.

Não há dúvidas que as grandes epidemias de doenças infecto-contagiosas e as grandes crises de mortalidade de populações dessa época foram a demanda da higiene, da emergente medicina preventiva e atenção à mortalidade infantil. Rosen nos mostra que esta relação entre o controle das doenças transmissíveis e o salvamento da vida infantil, já estavam presentes nas recomendações de William Petty (1623 -1687) na sua “Aritimética Política”.

Ainda segundo Rivorêdo o cuidado médico se articula às demais práticas sociais fornecendo legitimação científica para o cuidado com a saúde das crianças, privilegiando o controle das populações para o desenvolvimento da sociedade, particularmente as camadas mais pobres.

Não pretendemos discutir as questões relativas à ordem médica e norma familiar, apesar da relevância dessa questão para o entendimento e controle de algumas patologias “construídas”. “Patologias que se caracterizam pela dificuldade das crianças se adaptarem a tais padrões de comportamento idealizados, a exemplo da hiperatividade por déficit de atenção, distúrbios de aprendizagem e algumas formas do retardo mental e deficiência intelectual.

Nos dois manuais de Acupuntura e Pediatria consultados para confecção deste artigo Medicina Tradicional Chinesa (MTC) há diversas observações para o tratamento de convulsões (hien), epilepsias (tien) síndromes paralíticas (compreendidas como uma patogenia tradicional) e neuropsiquiátricas na moderna concepção (astenia, autismo, tonturas, irritabilidade terror, noturno, tiques),  em Chou.

Scott dedica capítulos inteiros ao grupo abordado hoje pela neuropediatria: convulsões, epilepsia (dian xian, dian kuang), enurese noturna, insônia e terror noturno, abordadas e descritas na concepção da MTC e dá uma atenção especial ao retardo mental, ressaltando a importância no tratamento precoce (antes dos 3 anos), distinguindo os casos graves dos “distúrbios de aprendizagem”. Aborda a questão da hiperatividade na ótica tradicional da MTC a aproximando dos quadros de mania (kuang) e ás síndromes epileptiformes (uma forma yang da síndrome dian kuang). 
   
Sobre as doenças infecciosas, como são livros modernos, sua maior atenção é dirigida ao alivio de sintomas, Chou dando maior atenção às febres e síndromes febris e Scott à tosse, broncoespasmo (asma), dor, vômito diarreia abordando inclusive as formas atuais e tradicionais de diagnóstico e tratamento de algumas das grandes patologias epidêmicas da infância o sarampo a coqueluche e a parotidite.

Sabe-se que entre as normas e rotinas  da puericultura atual está a atenção às doenças transmissíveis através da imunização, desde finais do século XIX após a descoberta da vacina contra varíola. Sabe-se também que primeira discussão escrita sobre a inoculação anti-varíola que se tem noticia, vem da China, segundo Joseph Needham, entre 1567 e 1572. Ele investigou as origens desta prática que era realizada, talvez por um efeito de indução da menstruação, mas como muitos "inoculadores" não revelavam seus segredos, ficou sendo difícil estabelecer exatamente quando iniciou e quais os efeitos atribuídos ou esperados. Essa prática difundiu-se pelo oriente e Europa. No ocidente Edward Jenner (1749–1823) inoculou um menino de 8 anos com matéria extraída da lesão da lesão da ordenhadora afetada pela vaccinia e a criança não desenvolveu a doença. (Boylston)
Alguns acupunturistas modernos (inclusive os aqui pesquisados por sua contribuição à acupuntura pediátrica) homeopatas, naturistas fazem restrição ao excesso de vacinas atualmente praticado.

Apesar da relevância deste tema, não nos estenderemos sobre os efeitos da acupuntura e outras técnicas da medicina chinesa sobre o sistema imunológico. Observe-se que a aplicação de alguma vacinas foram incorporadas à rotina dos médicos de pés descalços na China do século XX. (Zhang, Unschuld).

segurança e eficácia da acupuntura

Interessante, do ponto de vista de entendimento da natureza do conhecimento mítico, pois assim os antropólogos denominam as formas de conhecimento não ocidentais,  tradicional, folk (popular) ou secular, são as observações e noções sobre a interação entre a “carga genética” ou características herdadas dos pais e fatores ambientais,  afetando tanto o potencial de crescimento e desenvolvimento, como a imunidade (resistência à doenças) de cada indivíduo.

Para os chineses o Chi possui três principais características: O Jing Chi ou “energia / vitalidade” herdada dos pais, a energia dos alimentos e energia do ar. Essa é a energia que movimenta e mantém os seres vivos.

Tanto Chou com Scott comentam referências dos textos antigos a questão do uso de agulhas em crianças, perguntando se este uso poderia afetar este potencial de crescimento que é o Jing ou energia ancestral.

Chou discorre diretamente sobre questão, é categórico na afirmação de que “a acupuntura não promove dano ou desperdício do Jing ou energia ancestral do recém nascido e infante mas recomenda o uso da menor quantidade de agulhas e apresenta diversa técnicas alternativas (auriculopuntura, tui na...) incluindo o tratamento da mãe ou na linguagem da pediatria moderna do binômio mãe-filho.  (p. 62-76)

Scott apresenta considerações semelhantes, também apresenta técnicas alternativas e recomenda a punção e retirada das agulhas, em vez de sua retenção. (p. 38-46) Ambos atentos para os efeitos psicológicos do medo de agulhas e mobilidade acentuada das crianças.

A acupuntura pediátrica no ocidente tem sido mais divulgada por sua associação ao Tui Na para crianças, que corresponde forma de massagem chinesa similar ao Do In também bastante conhecida com forma de automassagem ou autocuidado.  

Ainda está para ser realizado uma aproximação entre o Tui Na e alguns problemas neuropediátricos que começam a ser compreendidos como passíveis de melhora com técnicas de estimulação precoce, com diversas técnicas (Bobath; Pontos Motores; Castillo Morales; Doman-Delacato etc.). Uma rápida revisão de artigos publicados em língua portuguesa tem mostrado o interesse de pesquisadores para síndromes dolorosas a exemplo da fibromialgia e e anemia falciforme (Dias; Marques).

O que não deixa dúvidas é que a acupuntura é uma atividade multiprofissional que merece uma atenção especial enquanto técnica de neuro-psico-imuno-estimulação, e que, sob o risco de não ser compreendido, este conhecimento não pode ser reduzido a neurofisiologia ou neuropsicologia médica ocidental sem o crivo e orientação da antropologia, mais especificamente, da etnomedicina - a ciência que estuda e compara distintas formas de conhecimento e técnicas que deram origem a medicina cosmopolita. Práticas essas que apesar da ampla divulgação mundial que vem assumindo, ainda são a única alternativa  de serviços "médicos" de distintos povos e segmentos da população para recuperação e manutenção da saúde. 

Referências

CHAU, Pham Quang.Acupuntura e pediatria. SP: Andrei, 1989
Pham Quang Châu Acupuncture chez l'enfant

SCOTT,  Julian Acupuntura no tratamento da criança. SP: Roca, 1997
Julian Scott. Acupuncture and Chinese Medicine in Bath
http://www.eyebright.me.uk/

ARIÈS, P. História social da criança e da família. In: LEGOFF, J., org. História nova.São Paulo: Martins Fontes,1990.

BOYLSTON, Arthur. “The Origins of Inoculation.” Journal of the Royal Society of Medicine 105.7 (2012): 309–313. PMC. Web. 4 Jan. 2018. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3407399/

DESAI, A.B. (ed.). Textbook Of Paediatrics. Índia: Orient Blackswan, 1989

DIAS, Marialda Höfling P. et al . Acupuntura em adolescentes com fibromialgia juvenil. Rev. paul. pediatr.,  São Paulo ,  v. 30, n. 1, p. 6-12,    2012 .   Available from . http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-05822012000100002 access on  17  Nov.  2017.

MARQUES, Carla Verônica Paixão. Acupuntura a laser no tratamento da dor em criança com anemia falciforme.  Relato de caso. Rev. dor,  São Paulo ,  v. 15, n. 1, p. 70-73,  Mar.  2014 .   Available from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-00132014000100070 access on  17  Nov.  2017. 

RIVORÊDO, Carlos Roberto Soares Freire de. Pediatria: medicina para crianças? . Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 33-46 , dec. 1998. ISSN 1984-0470. Disponível em: . Acesso em: 04 jan. 2018. http://www.scielo.br/pdf/sausoc/v7n2/04.pdf

ROSEN, George. A evolução da medicina social. in: NUNES, Everaldo D. Medicina Social, aspectos históricos e teóricos.  SP: Global Ed., 1983

ZHANG, Daqing; UNSCHULD, Paul U. (2008). "China's barefoot doctor: Past, present, and future". The Lancet. 372 (9653): 1865–1867. doi:10.1016/S0140-6736 (08)61355-0. PMID 18930539.

WANG, BING Princípios de Medicina Interna do Imperador Amarelo (Dinastia Tang – Edição bilíngue). SP, Ed Ícone, 2001


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